Correio Braziliense
A legenda abriga hoje três
nomes com pretensões presidenciais: os governadores Ratinho Júnior (Paraná),
Eduardo Leite (Rio Grande do Sul) e Ronaldo Caiado (Goiás)
A decisão do PSD de antecipar a definição de
sua candidatura presidencial para 2026, anunciada por seu presidente, o
ex-prefeito Gilberto Kassab, revela mais do que uma simples mudança de tática
partidária. Na verdade, é o reconhecimento de um problema político cada vez
mais evidente: o espaço para uma terceira via na disputa presidencial está se
fechando rapidamente. A máxima política “quem tem três candidatos não tem
nenhum” sintetiza o “trilema” enfrentado por Kassab.
O PSD abriga, hoje, três nomes com pretensões presidenciais: os governadores Ratinho Júnior (Paraná), Eduardo Leite (Rio Grande do Sul) e Ronaldo Caiado (Goiás), este último recém-integrado à legenda. Nenhum outro partido de oposição tem um naipe de pré-candidatos com essa qualificação política e administrativa. Porém, sem uma definição, o partido perde votos e isso inviabiliza qualquer projeto de alternativa de poder. A necessidade de mudança do “pas de trois” para a marcha forçada ficou evidente com a divulgação da nova pesquisa Datafolha sobre a corrida presidencial.
O levantamento mostra que o presidente Luiz
Inácio Lula da Silva aparece com 46% das intenções de voto em um eventual
segundo turno contra o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que registra 43%,
configurando empate técnico dentro da margem de erro. Essa diferença numérica
confirma a tendência de que o país volte a se estruturar eleitoralmente em
torno de dois polos claros: de um lado o lulismo, que representa a continuidade
do atual governo; de outro o bolsonarismo, que se reorganiza para disputar o
poder.
Quando essa polarização se consolidar, o
espaço para candidaturas intermediárias tenderá a desaparecer. Os números do
primeiro turno reforçam essa tendência. No cenário de potencial de votos
testado pelo Datafolha, Lula aparece com 41%; Flávio com 18%; Ratinho, 12%;
Caiado, 7%; e Eduardo Leite, 3%. O esforço iniciado por Kassab visa evitar o
efeito de coordenação de voto, no qual eleitores migram para candidaturas que
aparecem como reais alternativas de poder, o que resulta no “voto útil” do dia
da eleição.
Ou seja, o candidato do PSD precisa ganhar
musculatura mais cedo para não virar marisco entre o mar e o rochedo. Com três
candidatos, será impossível um deles sobreviver. É preciso concentrar força
naquele que for o mais competitivo e com gana para disputar a eleição. Essa
avaliação de risco levou Kassab a antecipar a escolha do candidato do PSD. Como
o partido não realizará previas, o desempenho nas pesquisas e a capacidade de
articulação política, principalmente com a elite paulista e as lideranças de
centro que rejeitam Lula e Bolsonaro, determinarão o escolhido. Ao tentar
antecipar a escolha de seu candidato, Kassab busca resolver esse problema. Mas
não é escolha fácil.
“Aux trois amis”
Governador do Paraná desde 2019, Ratinho Jr.
construiu carreira política ancorada na popularidade do pai, o apresentador de
TV Ratinho, e numa imagem de gestor moderno. Foi deputado estadual, federal e
secretário de Desenvolvimento Urbano antes de chegar ao governo. Seu perfil
combina liberalismo econômico moderado com conservadorismo pragmático,
dialogando com o eleitorado de centro-direita. Tem forte base eleitoral no Sul
e boa avaliação administrativa no Paraná. Seu desafio nacional é ampliar
conhecimento fora da região e se diferenciar do bolsonarismo.
Caiado conclui seu segundo mandato como
governador de Goiás com alto índice de aprovação. É o mais experiente dos três
pré-candidatos e tem longa trajetória na política nacional. Médico de formação,
destacou-se como líder da União Democrática Ruralista e disputou as eleições
presidenciais de 1989. Foi deputado federal e senador antes de chegar ao
governo em 2018. Representa uma direita conservadora tradicional, com forte
vínculo com o agronegócio e discurso duro na área de segurança pública. Tem
base política sólida no Centro-Oeste e forte apoio no setor rural. O principal
desafio é ampliar seu alcance para além do eleitorado conservador e competir
com o capital político do bolsonarismo.
Eduardo Leite, governador do Rio Grande do
Sul, surgiu como uma das principais lideranças jovens do campo liberal. Iniciou
a carreira como vereador e prefeito de Pelotas antes de chegar ao governo
estadual em 2018. Filiado historicamente ao PSDB e hoje no PSD, representa a
vertente moderada da centro-direita, com discurso de responsabilidade fiscal e
modernização do Estado. Possui boa interlocução com setores empresariais e
urbanos. Seu desafio eleitoral é superar a baixa densidade nacional e competir
num cenário de forte polarização.
A dificuldade para viabilizar uma terceira via não é nova. Em 2022, diversas tentativas de construção de uma candidatura de centro robusta fracassaram pela incapacidade de unificar forças políticas e produzir uma liderança nacional competitiva. Candidata do MDB, Simone Tebet tentou ocupar esse espaço, mas logo após o segundo turno, no qual deu um apoio decisivo para a eleição de Lula, aceitou o cargo de ministra do Planejamento do governo e desistiu do projeto de construção de uma nova alternativa de poder.

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