terça-feira, 10 de março de 2026

Não jogavam vôlei, por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

Muito blablablá. Muitas notas truncadas, com negativas de alcance limitado, em que os não ditos se impõem – e para o que se usou até a Secretaria de Comunicação do STF. Para catimbar. Alexandre de Moraes não nega que falara com Daniel Vorcaro no dia em que o banqueiro foi preso. Por que Moraes falava com Vorcaro no dia em que o banqueiro seria preso?

Segundo o direito xandônico, qual critério sentenciador Xandão aplicaria a Moraes, tendo o ministro apagado as respostas a Vorcaro? “(...) O ato de apagar dados do celular também indica uma consciência sobre a ilegalidade dos atos praticados pelo agente, na medida em que, se o indivíduo tivesse plena convicção de sua inocência, não teria motivos para eliminar registros que poderiam confirmar sua versão dos fatos. A destruição de provas, nesse contexto, reforça a percepção de que havia algo a esconder.” Assim escreveu Xandão para condenar Débora “do batom”.

Pelo direito xandônico, Moraes destruiu provas e teria algo a esconder. Em vez de puxar a carta supertrunfo – a que interdita o debate – do 8 de janeiro permanente, a do, “se criticar, o golpe vem”, tudo tornado ataque ao STF salvador da pátria, seria agora o momento, sempre sob a lógica invertida do código xandônico, de Moraes apresentaro que respondeu a Vorcaro para lhe rechaçar o assédio.

Poderia até ser algo humano, que contemplasse a nossa fraqueza: “O senhor está me estranhando. Está confundindo as relações. Não é porque tem o escritório de minha esposa sob contrato de R$ 3,6 milhões mensais, nem porque fumamos charutos na sua casa, que pode me abordar dessa forma, como se lhe devesse algo. Não sou seu prestador de serviços”. (Xandão teria mandado prender o interlocutor no ato.)

Por que Vorcaro tratava com Moraes no dia em que seria preso, não sendo o ministro um de seus advogados? Por que Vorcaro tratava com Moraes no dia em que seria preso, sabedor o banqueiro – em função de sua milícia ter violado o sistema da PF – de que existia um inquérito na Justiça Federal do DF e talvez de que medidas cautelares contra si já haviam sido autorizadas? “Conseguiu ter notícia ou bloquear?” – cobrou Vorcaro a um ministro do Supremo. O dono do Master tinha milhões de razões para acreditar que aquele que bloqueara o X/Twitter no Brasil poderia ajudá-lo a bloquear qualquer coisa. Não jogavam vôlei.

Esqueça-se do conteúdo das mensagens de Vorcaro a Moraes conforme divulgado por Malu Gaspar, material “extraído e periciado” pela PF. Finjamos que não foi Moraes que Vorcaro pressionou sobre se conseguira “bloquear”. Por que Moraes, não lhe sendo advogado, falava com Vorcaro no dia em que o banqueiro seria preso? Esqueça-se de que conversaram naquele 17 de novembro – o que nem o ministro nega. Por que conversavam? Por que conversariam um ministro do STF e Vorcaro? Esqueça-se também da existência do contrato de R$ 130 milhões – valor que permanece inexplicável – do escritório da mulher do ministro com o banco do investigado. Do que tratavam? •

 

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