Folha de S. Paulo
Deputado do PL terá papel relevante como
puxador de votos em Minas Gerais
Ele fez campanha com pastores da igreja
usando avião de Daniel Vorcaro
Na semana passada, soubemos que o deputado
Nikolas Ferreira fez campanha para Jair Bolsonaro em 2022 usando um jatinho
ligado a Vorcaro. Não há indícios de conduta irregular, mas o
episódio convida a refletir sobre dilemas que o ministro evangélico do
Supremo André
Mendonça enfrentará neste ano.
Aparentemente, Vorcaro negociava com direita
e esquerda. Mas, independentemente da ideologia, essas investigações esbarram
com frequência em nomes associados a uma igreja evangélica: a Lagoinha Church,
surgida em Belo Horizonte, cuja liderança é próxima a Nikolas.
A associação entre a Lagoinha e esses casos não é marginal. A família Vorcaro segue ligada à denominação. Daniel Vorcaro foi apresentador de um programa de música gospel em um canal a cabo viabilizado com o apoio de seu pai.
Nathalia Vorcaro, irmã de Daniel, e seu
marido, Fabiano Zettel —preso com Vorcaro na semana passada— são pastores da
Lagoinha Belvedere, um templo de 19 mil metros quadrados em um dos bairros mais
nobres da cidade.
O jornal O Globo noticiou que esse templo foi construído em tempo recorde
e segue registrado no nome de Zettel. O arquiteto Marcelo Mizrahy, responsável
pelo projeto, é amigo de Nikolas. O deputado viajou na aeronave associada a
Vorcaro junto com o pastor Guilherme Batista, da Lagoinha.
Vorcaro e Zettel teriam promovido farras com
garotas de programa. Soubemos do plano para "quebrar todos os
dentes" do jornalista Lauro Jardim.
Eles poderiam ter lavado dinheiro construindo templos a partir de ofertas
milionárias de dízimos?
Nikolas afirma que não faz parte da Lagoinha.
O próprio André Valadão, líder da denominação, hoje nega ser bolsonarista.
Ainda assim, ele convidou Bolsonaro ao
púlpito em 2022. Zettel doou um total de R$ 5 milhões para as
campanhas de Bolsonaro e Tarcísio.
Em entrevista ao SBT News, a senadora Damares Alves ecoou
parte do sentimento de evangélicos diante dos indícios de envolvimento de lideranças religiosas com o caso do INSS.
Disse que recebe pedidos para evitar a exposição de igrejas.
Ao assumir a relatoria das investigações
sobre o INSS e o caso Banco Master,
Mendonça possivelmente está ouvindo pedidos mais ou menos discretos para evitar
expor a Lagoinha, preservando outras denominações de serem afetadas pelo
escândalo.
O dilema de Mendonça se amplia por causa da
importância de Nikolas. Ele é hoje a principal liderança da direita e terá
papel relevante como puxador de votos em Minas Gerais e como cabo eleitoral de
Flávio Bolsonaro.
Mendonça pode ser visto como alguém que deu
munição à esquerda para atacar os evangélicos. Também pode ser considerado
ingrato —foi indicado por Bolsonaro ao STF— ao expor
Nikolas em ano eleitoral.
Como pastor, Mendonça vem pregando
sobre as tentações
do poder.
O caso Master envolve corrupção, roubo de
idosos, prostituição e violência. Independentemente da culpa, será difícil
preservar Nikolas diante da maneira como política e religião se enredaram no
Brasil.

Nenhum comentário:
Postar um comentário