Folha de S. Paulo
Eleitor vota em presidente de esquerda, mas
no Legislativo escolhe a direita
Esquerdas sempre foram minoritárias nas duas
casas legislativas federais
Na semana passada, o Senado rejeitou a indicação do presidente Lula para uma vaga no Supremo Tribunal Federal; no dia seguinte, o Congresso derrubou os vetos do Planalto ao PL da Dosimetria. Esses dois fatos, somados à erosão do prestígio da corte e à crispação pré-eleitoral, avivaram o perene debate sobre as instituições da República e a necessidade de reformá-las.
Até agora as manifestações têm produzido mais
fogo do que luz. Respeitável analista afirmou que o presidencialismo foi
substituído pela ditadura do Congresso; outro, de igual calibre, considera que
vivemos sob um "presidencialismo congressual". Na terça-feira (5), o
ministro Gilmar Mendes, do STF, defendeu ampla
mudança do sistema político e um pacto pela reforma do Estado.
A rigor, convém separar o que resulta do
desenho institucional da República daquilo que é provocado pelas preferências e
estratégias dos agentes políticos. Relembro aqui a coluna da colega Lara
Mesquita, publicada nesta Folha na segunda-feira (4).
O presidencialismo brasileiro é
inevitavelmente multipartidário, em razão do sistema eleitoral proporcional e
da organização federativa do Estado; ambos multiplicam os partidos
representados no Congresso. Ainda que venha se reduzindo, seu número continua muito
elevado. Dado que nenhuma agremiação logra conquistar maioria no Legislativo,
governar requer coalizões, nas quais o partido do presidente é um dos
participantes —nem sempre o maior, porém. Esse é um dos efeitos do desenho
institucional.
Embora sendo vantajoso governar com coalizões
politicamente mais homogêneas; quando isso não ocorre, cobra-se maior
habilidade do governante para negociar e ceder. Os governos encabeçados pelo PT
sempre tiveram que se basear em coalizões com partidos de direita, pois as
esquerdas nunca deixaram de ser minoritárias em ambas as casas legislativas.
Isso não se deve ao desenho institucional, mas às escolhas dos eleitores: mesmo
ao sufragar um presidente de esquerda, reiteradamente preferem senadores e
deputados do variado campo da direita.
Assim, o "Congresso inimigo do
povo", como alardeia a propaganda que vem inundando as redes de esquerda,
resulta da escolha dos mesmos eleitores que levaram ao Planalto um presidente
amigo do povo —aliás, presidente e senadores eleitos segundo a mesma regra
majoritária.
É certo que mudanças institucionais recentes
diminuíram, mas não eliminaram, os meios ao alcance do Executivo para obter
apoio parlamentar às suas iniciativas. Administrar a coalizão ficou mais
difícil; o que não mudou foi nosso sistema presidencial. É oportuno lembrar que
o descasamento político entre o presidente Lula e aquela banda da direita de
sua coalizão não impediu que, em seu terceiro mandato, ele obtivesse
importantes triunfos legislativos: o arcabouço fiscal; a reforma tributária; a
mudança no Imposto de Renda; o Pé-de-Meia; e a lei antifacção.
O que se viu na semana passada foi menos
manifestação de crise do presidencialismo multipartidário do que resultado de
uma estratégia presidencial que mediu mal as forças de que dispõe e de um sinal
de que a direita pragmática está desembarcando do governo para entrar no navio
pirata do bolsonarismo.

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