Correio Braziliense
Se o convite ocorreu de uma
hora para outra, a agenda do encontro está sendo negociada pelo Itamaraty desde
a primeira conversa entre ambos
A visita do presidente João Goulart (Jango)
aos Estados Unidos, realizada em abril de 1962, é considerada um marco da
deterioração das relações Brasil-EUA. Foi decisiva para o cenário de
desestabilização que levou ao golpe de 1964. Embora tenha sido recebido com
toda pompa por John F. Kennedy, o resultado prático foi um estrondoso fracasso
econômico e político. Jango tinha a vã esperança de receber a ajuda da Casa
Branca. Kennedy condicionou qualquer ajuda à adesão rígida às normas do FMI, à
contenção de salários e a medidas fiscais rigorosas, algo que Jango queria
evitar para não penalizar a população mais pobre.
A política de não intervenção em Cuba e o diálogo com a União Soviética e a China, na linha da política externa independente de Jango, eram o grande contencioso entre os dois países no plano internacional. Mas havia também fatores internos, principalmente a nacionalização de subsidiárias de empresas americanas (como a ITT) no Brasil, realizada por Leonel Brizola, cunhado de Jango. Os EUA não somente suspenderam os empréstimos como exigiam indenização imediata.
Após a visita, a inteligência americana (CIA)
passou a monitorar e buscar brechas para derrubar Jango, considerando-o um
“radical pró-comunista”. A partir de 1962, os EUA aumentaram o financiamento a
grupos conservadores, partidos de oposição (como a UDN) e à imprensa de direita
para desestabilizar o governo. A “Operação Brother Sam” consolidou a visão de
que Jango era um inimigo na América do Sul e culminou no apoio direto dos EUA
ao golpe militar de 1964.
Quando o golpe ocorreu, os Estados Unidos já
não eram os mesmos. O livro “Tabloide Americano” (Record), de James Ellroy, um
romance policial noir, mostra o lado sujo da América nos anos que antecederam o
assassinato do presidente Kennedy. Retrata a rede de ligações dos principais
atores políticos da época: John e seu irmão Robert Kennedy, implacável
perseguidor da máfia, o milionário Howard Hughes, J. Edgard Hoover, o
todo-poderoso chefe do FBI, e até Frank Sinatra e Marilyn Monroe tornam-se
ilustres coadjuvantes.
A Revolução Cubana e a desastrada invasão da
Baía dos Porcos, a campanha presidencial de Kennedy, a luta por direitos civis
no sul do país e o jogo mais que sujo do tráfico de heroína une castristas,
anticastristas, a CIA e a máfia. Ellroy descreve a cadeia de acontecimentos que
culminaram na morte de Kennedy, mas não se dá ao luxo de se conformar com as
versões dos fatos. Denuncia a conspiração para matá-lo.
É nesse cenário que a visita de Kennedy ao
Brasil foi sucessivamente adiada. Após seu assassinato, em 1963, o vice Lyndon
B. Johnson assumiu o poder e, com isso, os candidatos oposicionistas no Brasil
receberam milhões de dólares nas eleições de 1962. A assistência econômica era
redirecionada aos governos estaduais oposicionistas, as “ilhas de sanidade
administrativa”, como a antiga Guanabara, governada por Carlos Lacerda. A
Embaixada dos EUA no Brasil, sob Lincoln Gordon, operou a aliança com os
políticos e os militares.
Pelo telefone
Na sexta-feira, o presidente Donald Trump
telefonou para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A conversa foi amistosa.
Trump teria dito que admira a trajetória política de Lula e comentou que
pesquisou sobre a vida do presidente brasileiro. Lula, por sua vez, afirmou que
queria tratar dos interesses do Brasil e dos Estados Unidos, incluindo temas
relacionados a conflitos internacionais e ao papel da Organização das Nações
Unidas (ONU).
Trump respondeu que tem interesse em ouvir as
opiniões de Lula sobre esses assuntos e convidou-o para uma conversa no Salão
Oval da Casa Branca, o que deve ocorrer hoje. Essa conversa “olho no olho” com
Trump foi adiada desde a guerra no Oriente Médio. A expectativa de Lula é que
reunião possa normalizar as relações comerciais entre os dois países, após um
período de incertezas e aumento de tarifas de importação.
Se o convite ocorreu de uma hora para outra,
a agenda do encontro está sendo negociada pelo Itamaraty desde a primeira
conversa entre ambos, por telefone, em 26 de janeiro de 2026, que durou 50
minutos. O contencioso com a Casa Branca envolve a existência do PIX, a
transnacionalização do crime organizado e do narcotráfico brasileiro, a
exploração de terras raras e outros minerais críticos, a geopolítica na América
Latina, Oriente Médio e ONU e as eleições no Brasil.
Nesse ínterim, as divergências entre Lula e
Trump escalaram com a tensão no cenário internacional e a aproximação das
eleições, tanto no Brasil como nos Estados Unidos. A guerra no Oriente Médio,
episódios diplomáticos como o cancelamento do visto do assessor Darren Beattie
e ruídos envolvendo a prisão e posterior soltura do deputado Alexandre Ramagem
contribuíram para acirrar as contradições. A extrema-direita na Casa Branca não
esconde o apoio ao senador Flávio Bolsonaro (PL-SP), que agora rivaliza com
Lula na liderança das pesquisas eleitorais.
A máxima de que esse tipo de encontro “só
acontece quando tudo está resolvido” não vale para Trump. Lula corre riscos,
mas não poderia recusar o convite. O resultado da conversa entre ambos depende
muito da “química” entre os dois e, obviamente, da natureza das exigências de
Trump e das concessões que Lula admite fazer à Casa Branca. Ou seja, o
resultado é imprevisível, ainda que o petista seja tratado com toda pompa, como
fora Jango

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