quinta-feira, 7 de maio de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Supremo tornou-se comitê de acerto de contas políticas

Por Folha de S. Paulo

Ação contra Malafaia se soma a outras e mostra que qualquer crítico pode cair na teia repressiva da corte

Ao perseguir quem os questiona, alguns ministros flexibilizam garantias constitucionais como direito à expressão e ao juiz natural

Houve um tempo em que os brasileiros podiam contar com a ortodoxia do Supremo Tribunal Federal na defesa de direitos básicos, como o de livre expressão e crítica e o de não ser submetido a arbitrariedades por agentes do Estado.

As barbaridades de analfabetismo constitucional vinham de outros lugares, mas eram corrigidas na corte. Agora, extravagâncias partem do próprio tribunal.

O julgamento que converteu o pastor Silas Malafaia em réu, sob a acusação de injuriar os generais do Alto Comando do Exército, é apenas o exemplo mais recente de que as garantias civis podem ser flexibilizadas quando a motivação é acertar contas com adversários políticos de ministros.

Num comício na avenida Paulista em abril de 2025, o líder religioso ligado ao bolsonarismo chamou os oficiais militares da mais alta patente de "cambada de frouxos, cambada de covardes, cambada de omissos".

Atendendo a representação do comandante do Exército, Tomás Paiva, o procurador-geral da República, Paulo Gonet, denunciou o pastor evangélico por calúnia e injúria perante o Supremo. Mas Malafaia não tem foro no STF e poderia ser processado apenas no primeiro grau do Judiciário.

Em vez de corrigir o descaminho e rejeitar a ação por violar o princípio do juiz natural, o Supremo aprofundou o caráter kafkiano do caso. A ação foi parar, sem o sorteio de praxe, no gabinete do ministro Alexandre de Moraes.

Uma hermenêutica tortuosa fez conexão entre a denúncia por ofensa a militares e o famigerado inquérito dos superpoderes, aberto a mando de Dias Toffoli em 2019 para apurar desinformação contra membros da corte, de cuja relatoria foi incumbido Moraes também pelo "dedazo" do então presidente do tribunal.

Não por acaso, o mesmo inquérito interminável de mil e uma utilidades foi invocado por Gilmar Mendes para enquadrar o ex-governador de Minas Romeu Zema (Novo) por veicular sátiras com bonecos alusivos a ministros do STF. Zema, como Malafaia, não tem foro especial e não pode ser investigado na corte.

Também sem prerrogativas para ser alvo de ministros de Brasília, um jornalista do Maranhão que publicou reportagens críticas ao uso de carros oficiais por familiares de Flávio Dino sofreu devassa ordenada por Moraes.

Tais desvios recorrentes do devido processo legal escancaram a metamorfose do tribunal. Todos os seus críticos, mesmo os desprovidos de poder estatal e de mandato, estão sujeitos a cair na teia de repressão da corte.

Alguns ministros tentam escrever uma nova Constituição, diferente da que a democracia consagrou. No texto de 1988, os cidadãos são o foco das garantias de liberdade, e as autoridades atuam como coadjuvantes encarregadas de servi-los. A versão deturpada nos gabinetes inverte os papéis.

Eleva alguns agentes públicos à condição de demiurgos do povo, imunes à responsabilização. Questioná-los pode ser perigoso.

A disputa sem fim em torno da BR-319

Por Folha de S. Paulo

Dnit suspende licitação para asfaltar rodovia na amazônia, enquanto licenciamento está judicializado

Dados os impactos no bioma e as necessidades da população, autoridades precisam entrar em acordo para aliar desenvolvimento e ambiente

Um imbróglio burocrático e jurídico há anos impede a pavimentação de cerca de 400 km da BR-319.

A rodovia federal de 885 km de extensão, que liga Manaus (AM) a Porto Velho (RO) e à malha nacional, foi inaugurada durante o regime militar, em 1976. Mas, após décadas sem manutenção adequada, o seu chamado trecho do meio (do km 250,7 ao 590,1) virou uma estrada de terra intransitável no período de chuvas.

O caso é representativo da tensão histórica entre desenvolvimento e meio ambiente, e um país com a maior floresta tropical do planeta numa região com indicadores elevados de pobreza deveria perseverar numa conciliação.

No final de abril, o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) suspendeu a licitação para asfaltamento da BR-319, que foi contestada na Justiça pelo Observatório do Clima —uma rede com mais de 100 organizações ambientais— por meio de ação civil pública que pedia a suspensão dos editais. A solicitação foi acatada por liminar e, logo em seguida, derrubada.

O Dnit, baseando-se em parecer da Advocacia-Geral da União (AGU), afirma que a intervenção no trecho pode ser tratada como manutenção ou melhoramento de infraestrutura já preexistente, hipótese hoje dispensada de licenciamento pela Lei Geral do Licenciamento Ambiental, de 2025.

Já ambientalistas alegam que se trata de obra de reconstrução, classificada como de alto impacto ambiental pelo Ibama. Assim, o dispositivo legal usado pelo Dnit seria inválido, já que a Constituição exige estudo prévio de impacto para obra que possa causar significativa degradação ambiental.

Em 2021, o Dnit entregou o estudo e o relatório de impacto ambiental com as alterações pedidas pelo Ibama. Em 2022, o instituto emitiu a licença prévia, que autoriza a continuidade da análise, não a obra —ainda faltam as licenças de operação e instalação.

Em 2024, o Observatório do Clima ajuizou uma ação para suspender a licença prévia. O processo de licenciamento, assim, encontra-se judicializado.

Desde 2007, quando assinaram um termo de conduta, Dnit e Ibama estão em tratativas sobre o destino do trecho do meio.

É muito tempo para nenhum resultado prático. Dados os impactos ambientais e as necessidades dos usuários da rodovia, autoridades precisam entrar em acordo. Para isso, é imperativa a apresentação de um plano robusto de fiscalização e de conservação para conter efeitos nefastos, como aumento do desmatamento, da grilagem e de violações de direitos da população indígena.

Justiça militante não é justiça

Por O Estado de S. Paulo

Presidente do TST confessa sua parcialidade. Quem paga o custo do constitucionalismo seletivo e das decisões criativas da militância togada são as empresas e, sobretudo, os trabalhadores

“Nós, vermelhos, temos causa”, declarou, em confissão nada sutil, o presidente do Tribunal Superior do Trabalho (TST), Luiz Philippe Vieira de Mello Filho, em evento para seus colegas. Talvez embevecido pelos aplausos, Mello foi além e introduziu uma clivagem moral: assim como os “vermelhos” têm “causa”, os “azuis” teriam “interesses”. De um lado, quem luta pelos vulneráveis; de outro, os títeres do “capitalismo selvagem e desenfreado”. Mais do que denunciar uma mentalidade de diretório acadêmico, esse tipo de divisão tem consequências. Ela autoriza uma atitude que inclina o julgamento. A neutralidade, que deveria ser condição primária do ofício de julgar, é vista como obstáculo.

Não surpreende a leitura da Constituição de Sua Excelência: “Nós temos uma Constituição democrática social de direito. Nós não temos uma Constituição liberal”. Falso. Em nenhum momento o constituinte fez essa escolha. A Carta consagra tanto direitos sociais quanto a livre iniciativa, a propriedade e a liberdade contratual (ainda que regulada). Se esse equilíbrio é ignorado, é apenas para satisfazer a preferência – ou a vaidade – de quem julga. “Alguém tem direito de mudar a Constituição porque acha que não é esse o caminho?”, pergunta-se Mello em tom de denúncia a adversários imaginários (os “azuis”), mas que descreve com precisão o que se pretende legitimar: uma Justiça que atua não como instância de aplicação da lei, mas como agente de correção social.

Imbuídos dessa missão redentora, os juízes do trabalho criam categorias jurídicas inexistentes, evisceram a reforma trabalhista, impõem obrigações não previstas em lei, anulam acordos coletivos, ignoram precedentes do Supremo Tribunal Federal (STF) e tratam súmulas e teses internas como superiores à legislação.

Mello se pergunta como o Judiciário pode “contribuir para o desenvolvimento socioeconômico do nosso país”. Tribunais não têm esse papel. Não definem política econômica, não calibram incentivos, não respondem por resultados agregados. Seu impacto vem de outro lugar: previsibilidade, respeito a contratos, coerência nas decisões. Ao ignorar essas funções, a Justiça do Trabalho contribui para o subdesenvolvimento do País.

Num cenário em que a lei diz uma coisa e os juízes, outra, o volume de ações trabalhistas, que havia recuado após a reforma, voltou a crescer desenfreadamente. Para custear disputas judiciais (exorbitantes na comparação internacional), as empresas consomem dezenas de bilhões de reais drenados de investimentos, inovação, expansão e folha. O custo opera como um tributo, mas, ao contrário dos impostos formais, varia conforme o humor dos togados.

Outras economias enfrentam conflitos semelhantes sem recorrer a esse grau de judicialização. Negociação coletiva, mediação e arbitragem ocupam espaço relevante. O Judiciário entra quando há descumprimento de regras e pactos, não para redesenhar o conteúdo das relações. No Brasil, a porta de entrada é quase sempre o processo. E quando ele é orientado por “causas” que se sobrepõem à lei, amplia a incerteza.

Se a regra muda ao longo do tempo, contratar torna-se decisão de alto risco. A Justiça do Trabalho não só trata o trabalhador como hipossuficiente como, a pretexto de protegê-lo, produz o oposto: mais informalidade. Os trabalhadores pagam com menos empregos; os consumidores, com preços maiores; a economia, com menor crescimento; e os contribuintes, com mais impostos para bancar uma Justiça paquidérmica. A propósito, em 2025, os justiceiros sociais da Justiça do Trabalho receberam R$ 1 bilhão acima do teto constitucional. Só em março, entre salário e penduricalhos, o contribuinte pagou R$ 127 mil ao sr. Mello.

A Justiça do Trabalho, mesmo sendo uma excentricidade brasileira, pode, desde que seriamente reformada, ser peça relevante do sistema jurisdicional. Mas sua relevância não está em “lutar” por um resultado, e sim em oferecer um parâmetro estável para todos. A confiança não nasce de declarações de intenção, muito menos de “causas”, mas de decisões previsíveis, coerentes e ancoradas na lei. Sem isso, a credibilidade se desintegra, e o custo sobre quem trabalha e produz só aumenta.

O candidato laranja

Por O Estado de S. Paulo

Pré-candidatura de André do Prado ao Senado, tendo Eduardo Bolsonaro como principal beneficiário da suplência, expõe uma malandragem política que avilta os interesses federativos de SP

A confirmação da chapa do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) à reeleição expôs, sem qualquer disfarce, uma malandragem política que avilta os interesses federativos de São Paulo. A escolha do ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL) como primeiro suplente de André do Prado (PL), atual presidente da Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp) e pré-candidato ao Senado, é uma manobra nada sutil com o objetivo de fazer da suplência um atalho para que Eduardo volte a assumir um mandato eletivo – a despeito de sua cassação por faltas e sua condição de réu perante o Supremo Tribunal Federal por coação e obstrução da Justiça, no contexto da cruzada lesa-pátria que o indigitado encampou desde os EUA.

Ora, não é preciso grande esforço intelectual para compreender a artimanha. André do Prado é um político obscuro, sem grande experiência em eleições majoritárias, tendo sido apenas prefeito de sua cidade natal, Guararema (SP). Por conta própria, o sr. Do Prado jamais demonstrou densidade eleitoral compatível com uma disputa da envergadura da eleição para o Senado por São Paulo. Sua súbita ascensão à condição de pré-candidato a um assento na Casa não decorre de seu capital político autônomo, mas de sua utilidade circunstancial: o presidente da Alesp não é mais do que uma espécie de candidato laranja a serviço do clã Bolsonaro, com entusiasmado apoio do presidente de seu partido, Valdemar Costa Neto.

O próprio governador paulista tratou de eliminar qualquer dúvida sobre o arranjo ao admitir que André do Prado “acertou” sua pré-candidatura ao Senado com Eduardo nos EUA. Este, por sua vez, teria “aberto mão” de disputar a vaga, ainda segundo Tarcísio. Ou seja, a formação da chapa não é resultante de uma escolha partidária orgânica, tampouco de uma construção política baseada em mérito, histórico de realizações em prol de São Paulo ou representatividade eleitoral. É uma reles concessão de espaço para contornar impedimentos jurídicos e políticos evidentes que recaem sobre Eduardo Bolsonaro, o grande beneficiário do eventual sucesso desse estratagema.

Por ter sido cassado por faltas, ser réu em ação penal e residir no exterior para escapar do alcance da Justiça brasileira, Eduardo Bolsonaro não tem condições morais e objetivas para sequer pleitear uma vaga para disputar o Senado por São Paulo, seja como titular, seja como suplente. É espantoso que um desqualificado como ele esteja no centro de uma articulação política que envolve nada menos do que as duas maiores autoridades políticas do Estado, o governador e o presidente da Alesp.

Na hipótese de que André do Prado venha a ser eleito para o Senado com o aval do clã Bolsonaro, não é desarrazoado supor que ele seja docemente constrangido a aceitar um cargo no Executivo estadual, caso Tarcísio seja reeleito, ou federal, caso Flávio Bolsonaro (PL) vença a eleição para a Presidência da República. Assim, estaria aberto o caminho para a posse de Eduardo Bolsonaro – que por ora não está inelegível – como senador.

A suplência, nesse contexto, deixaria de ser um mecanismo de contingência republicana para se converter em instrumento de fraude à moralidade pública e à vontade do eleitorado paulista, que terá votado em um candidato que pode não exercer o mandato para o qual foi eleito. São Paulo não merece ser vítima desse expediente barato. Ademais, a banalização da suplência como meio de manipulação do exercício do mandato degradará ainda mais a já fragilizada representação paulista na Câmara Alta.

Chamar as coisas pelo nome é um imperativo para este jornal desde sempre. Tal como se desenha, a pré-candidatura de André do Prado não passa de uma tentativa de burla eleitoral cuja função primordial é viabilizar a ascensão de outro indivíduo, contornando obstáculos que, em qualquer democracia funcional, deveriam ser intransponíveis.

É lamentável que o governador de São Paulo tenha endossado esse arranjo, sabe-se lá por que razões. Caso prevaleça, a manobra não apenas comprometerá a qualidade da representação paulista no Senado, como estabelecerá um precedente perigoso.

Endurecer a lei não basta

Por O Estado de S. Paulo

Aumento de pena para crimes patrimoniais é bem-vindo, mas só isso não traz mais segurança

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez bem ao sancionar a Lei 15.397/2026, que altera o Código Penal para aumentar as penas cominadas aos chamados crimes contra o patrimônio. Ainda que insuficiente, trata-se de um passo necessário para a coerção de criminosos que, cada vez mais ousados, apavoram os brasileiros diariamente, sobretudo nas grandes cidades.

Ao endurecer as penas para crimes como furto, roubo, estelionato e receptação, o Congresso respondeu a um anseio legítimo da sociedade. É ainda digno de nota o acerto de Lula ao vetar o dispositivo que distorcia a proporcionalidade da lei penal ao prever uma pena mínima mais severa para o roubo qualificado por lesão grave do que para o homicídio qualificado.

A lei também atualiza o Código Penal diante de novas práticas criminosas que se aproveitam do avanço tecnológico. O endurecimento das punições para furtos qualificados, como os de veículos levados a outros Estados ou países, e a atenção especial dos parlamentares aos crimes cibernéticos se coadunam com a realidade de um país no qual os chamados golpes virtuais se tornaram corriqueiros. A tipificação da “cessão de conta laranja” e a criação do crime de receptação de animais igualmente ilustram uma bem-vinda ação do Legislativo para fechar algumas brechas exploradas pelo crime organizado.

Ademais, vale registrar o agravamento da sanção ao latrocínio, quando o ladrão mata a vítima do roubo, cuja pena mínima passa de 20 para 24 anos. Trata-se de um recado claro de que delitos que combinam violência e subtração patrimonial exigem resposta mais dura do Estado. Da mesma forma, a majoração das penas-base para roubo e furto de celulares vem em socorro de milhares de brasileiros vitimados por esses crimes todos os dias.

Dito isso, é um erro crasso supor que a majoração de penas produzirá, por si só, uma redução consistente da criminalidade urbana. A história recente do País é pródiga em exemplos de que o recrudescimento da legislação não levou, necessariamente, à redução dos indicadores de violência. Por óbvio, as penas previstas in abstracto têm relevância, mas seu poder dissuasório é limitado quando não correspondido pela certeza da aplicação da lei penal – vale dizer, em meio à impunidade.

Não se constrói segurança pública com letras sobre um pedaço de papel. Fosse assim, seria fácil tornar o Brasil o país mais seguro do mundo, haja vista a prodigalidade de nossos legisladores. Uma cidade segura é resultante da combinação entre arcabouço legal coerente, policiamento ostensivo de fato e um sistema de Justiça capaz de investigar, processar, punir e ressocializar. Se qualquer desses pilares falha, o aparato persecutório do Estado balança e se instala a percepção de impunidade, o que alimenta a reincidência, entre os bandidos, e o medo, entre a maioria da população.

A Lei 15.397/2026, portanto, deve ser vista como parte de uma estratégia de combate ao crime mais ampla, o que ainda não existe, e não como panaceia. Ao corrigir distorções e atualizar tipos penais, a lei cumpre um papel relevante. Mas a efetiva redução da criminalidade dependerá de políticas públicas mais consistentes, com maior presença de policiais nas ruas e reformas que assegurem mais eficiência ao sistema penal.

Encontro decisivo de Lula e Trump em Washington

Por Correio Braziliense

O mais efetivo no encontro de hoje de Lula e Trump tende a ser a construção de um arcabouço seguro para as relações bilaterais nos próximos anos

O encontro de hoje na Casa Branca, com Donald Trump, tende a ser o último grande ato de política externa do presidente Lula no terceiro mandato presidencial. E se desenrola em um cenário pleno de armadilhas, em mais de um caminho.

Antes de tudo, Casa Branca e Planalto divergem publica e expressamente em torno do conflito no Oriente Médio. Ainda que não seja tema de interesse vital e imediato para a diplomacia brasileira, a ofensiva militar iniciada por Estados Unidos e Israel contra o Irã no último dia de fevereiro tem impacto de médio e longo prazo para o Brasil: as cotações internacionais do petróleo, com repercussão sobre os preços internos dos combustíveis e, por tabela, dos transportes, dos alimentos e de outros itens do cotidiano.

Se contariam para o governo brasileiro em qualquer circunstância, os solavancos no mercado energético ganham peso extraordinário na antessala de uma campanha presidencial que se anuncia acirrada, renhida. Mais que tudo: salvem novidades por ora imprevisíveis, os vaivéns na conjuntura internacional, em particular no que diz respeito aos combustíveis, passam a ser, desde já, uma variável potencialmente decisiva para o veredicto das urnas.

Parece improvável que entrem efetivamente em debate os conflitos armados em andamento no mundo, sobretudo o que opõe os EUA e Israel ao Irã. Possivelmente, Lula poderá fazer menção ao Líbano sob ataque de Israel, em nome da numerosa população de origem sírio-libanesa radicada no Brasil. Dificilmente, porém, as conversações irão adiante de uma apresentação protocolar de preocupações.

O mais efetivo no encontro de hoje na Casa Branca tende a ser a construção de um arcabouço seguro para as relações bilaterais nos próximos anos. E, do ponto de vista de Lula, considerando a meta de conquistar, em outubro, a reeleição para um novo mandato presidencial, a primeira metade desse novo período será cumprida com Donald Trump à frente da Casa Branca.

As turbulências do novo mandato de Trump, com a ofensiva comercial expressa no tarifaço, lembram que a relação bilateral com os EUA é dado inescapável e central para a política externa brasileira. No atual campo governista, em particular dentro do PT, setores pressionam o Planalto por uma postura de mais confronto, sobretudo em relação à situação no Oriente Médio. Até aqui, Lula e o assessor especial Celso Amorim parecem apontar na direção de uma abordagem balizada pelo pragmatismo.

Em ano eleitoral, particularmente, e à parte das pretensões próprias do presidente e de seu campo político, a condução da política externa exige visão de Estado. Mais ainda no que diz respeito a um parceiro incontornável, como os EUA, o chefe de Estado é chamado a sobrepor os interesses nacionais de longo prazo a eventuais conveniências próprias e partidárias.

Desde a posse de Trump para o novo mandato, sucederam-se altos e baixos nas relações diretas com Lula. Primeiro, o tarifaço. Depois, a "química" pessoal. Agora, o calendário eleitoral, lá e cá, acena com a possibilidade de novos solavancos.

Daqui para a virada do ano, passando pelo encontro de hoje, tudo pode se passar nos contatos de governo a governo. Mas, venha o que venha, a geografia rasa e a geopolítica são implacáveis: em Brasília ou em Washington, a relação bilateral entre os dois polos políticos e econômicos das Américas segue como parâmetro inapelável.

BC faz uma intervenção fora de hora no câmbio

Por Valor Econômico

Por vários fatores, não é hora apropriada de colocar a política cambial na direção contrária da monetária

A valorização do real, que caiu a seu mais baixo valor diante do dólar desde fevereiro de 2024 na terça-feira (R$ 4,90), é um efeito de ventos favoráveis ao Brasil, mesmo em um contexto de alta instabilidade provocada pela guerra de Estados Unidos e Israel contra o Irã. Há pressão inflacionária global, contida no país com a ajuda da desvalorização do dólar em 10,5% no ano. Um dia depois de divulgar a ata de sua última reunião, na qual aponta inflação se afastando mais da meta, compromisso de evitar os efeitos secundários do choque do petróleo e sugestão de que os cortes de juros poderão ser interrompidos, o Banco Central resolveu intervir no câmbio, aparando a queda das cotações. Por vários fatores, não é hora apropriada de colocar a política cambial na direção contrária da monetária, como se não bastasse a política fiscal expansionista a jogar contra os objetivos de controle da inflação.

A guerra e o choque petrolífero apenas interromperam por um breve período a perda do valor do dólar diante do real que ocorre desde o início do ano. Os investidores internacionais resolveram reequilibrar seus portfólios globais, melhorando em alguma medida a participação dos mercados emergentes, sem deixar de manter posição predominante nos ativos norte-americanos. Essa reavaliação trouxe até o fim de abril cerca de R$ 65 bilhões para ações e aplicações de renda fixa para o Brasil, valorizando o real diante do dólar.

Como grande exportador de petróleo, diante do choque da guerra e da escalada dos preços, o Brasil recebeu mais recursos externos, fortalecendo adicionalmente a moeda. O real foi a divisa que mais tirou proveito das turbulências, mas outras também se beneficiaram, como os pesos colombiano e mexicano. Pela primeira vez em uma séria crise global, o dólar não se tornou o refúgio exclusivo de segurança diante da aversão ao risco, em parte porque os riscos criados pelas políticas de Donald Trump para os ativos norte-americanos tornaram-se significativos.

Pelo motivo errado para a sociedade brasileira, um dos principais fatores de atração dos investidores externos para o Brasil permaneceu firme: juros reais próximos a 10%, um dos maiores do mundo, e, no terreno doméstico, os mais elevados em duas décadas. O diferencial de taxas em relação ao dos países desenvolvidos e mesmo ao de emergentes do mesmo porte (exceto Rússia, com juros ainda maiores) é enorme, e a valorização do real amplia as margens de ganho de aplicações de curto prazo no país.

A valorização do real amortece a alta de preços de commodities, reduz preços das importações e dos bens comercializáveis e tem dado boa contribuição para atenuar a alta da inflação. O contraexemplo é a megadesvalorização do dólar em 2024, quando subiu a R$ 6,18, potencializando a elevação das cotações das commodities e alimentando um ciclo inflacionário que só foi contido na primeira metade de 2025.

O BC passou a reconhecer, com o conflito no Oriente Médio, dificuldades crescentes para reduzir os juros, tarefa na qual a valorização do real é um coadjuvante de peso. O elevado custo do dinheiro por um período prolongado aumentou o nível de inadimplência de pessoas físicas e empresas e tem contribuído para reduzir o ritmo dos investimentos. Reduzir juros é prioridade de curto prazo da agenda econômica, o que deve ser feito, claro, com toda a cautela necessária para que a inflação não ressurja, revigorada, em seguida.

Por motivos técnicos, o BC comprou US$ 500 milhões no mercado futuro, evitando provisoriamente novas quedas da moeda americana. Para analistas, o BC está “desmontando posições” nos swaps acumulados (US$ 95,8 bilhões) aproveitando o custo favorável para se desfazer deles. Desde janeiro de 2022 os swaps se mantêm perto dos US$ 100 bilhões, e um momento de crise como o atual não é o propício para tecnicidades. A última operação do tipo da de ontem foi feita em 8 de novembro de 2016, há quase 10 anos.

Além disso, se há supostos inconvenientes na valorização, não faria sentido, diante da abundância do influxo de capitais externos, o Tesouro obter US$ 4,5 bilhões e 5 bilhões de euros em captações recentes. Faz sentido, porém, se essas captações forem uma forma de cobrir posições de investidores que retirassem recursos do país porque os juros caíram e deixaram de ser atrativos. Isso infelizmente não ocorreu. Alguns bancos e economistas calculam que a taxa de equilíbrio do real em relação ao dólar seria algo entre R$ 4,70 e R$ 4,90, ou seja, à cotação atual a moeda não estaria valorizada em excesso.

Enquanto as projeções do Focus mostram uma inflação cada vez mais desancorada, como reconhece o BC, o questionário pré-Copom, que em vez de projeções inquire sobre qual deveria ser a ação da autoridade monetária, indicou que a maioria absoluta recomenda ao BC continuar diminuindo os juros nas duas próximas reuniões: 57% acham que os cortes devem ser de 0,25 ponto percentual e 34%, de 0,5 ponto percentual. Há espaço para pensar em reduzir os juros cautelosamente, mas dar sinal errado no câmbio em um momento inapropriado certamente não ajudará a tarefa.

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