quinta-feira, 7 de maio de 2026

O Desenrola, perdão que se perpetua, por Celso Ming

O Estado de S. Paulo

A operação Desenrola-2, que pretende produzir alívio no endividamento das famílias, é tecnicamente limitada e, do ponto de vista estrutural, traz mais malefícios do que benefícios. Mas tem de ser vista sob o ponto de vista do objetivo a que se destina, que é eleitoreiro. Foi criada para amolecer a disposição do eleitor em relação à candidatura Lula e, nisso, pode ter lá sua eficácia.

Os números assustam. Levantamentos do Serasa mostram que há quase 83 milhões de pessoas com ficha suja no País. O Banco Central aponta uma inadimplência de 4,3% e o comprometimento de quase 30% da renda dos endividados. O Serasa inclui não apenas dívidas financeiras, mas também comerciais e com outros fornecedores, como os de energia elétrica e água ou obrigações contratuais, como as despesas de condomínio. Por esse critério, entre 72% e 80% da renda das famílias está comprometida com pagamento de dívidas.

O Desenrola-2 garante descontos de 30% a 90% do principal, estica o prazo de amortização e permite o uso do Fundo de Garantia para integrar a operação. Mas o benefício se limita a quem ganha até 5 salários mínimos (R$ 8.105,00).

A principal falha do programa é a de que não atua sobre as causas do superendividamento. Limita-se a atacar seus efeitos. Entre as causas, a mais apontada são os juros, que encarecem o crédito e engrossam a dívida. Só que os juros estão nos 14,5% ao ano porque foi preciso atacar a inflação que, por sua vez, é em grande parte obra da gastança do governo. Se fosse para reverter o superendividamento, o governo teria de combater o rombo.

O governo reconhece que as apostas nas bets corroem o orçamento das famílias. Por isso, proíbe que os beneficiários do Desenrola-2 derramem dinheiro nessas apostas por pelo menos um ano.

Entre as outras causas do forte endividamento estão os estímulos ao consumo, e não ao investimento. Quando subsidia os combustíveis, por exemplo, o governo está facilitando o consumo. Ao permitir que o comércio parcele uma compra em 5, 10 ou mais vezes “sem juros” e incorpore ao preço à vista o equivalente aos juros da operação, está também facilitando o consumo.

Tanto o Desenrola-1 de 2023, quanto este Desenrola-2 carregam dois vícios. Premiam, se não o calote, pelo menos a inadimplência. Quem honra suas obrigações financeiras não tem nenhuma vantagem. O segundo vício é o de que cria a cultura do deixa pra depois. O endividado fica esperando sempre o perdão, descontos ou benefícios despejados pelo governo, pelo menos em tempo de eleições.

 

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