Correio Braziliense
Para as mulheres, a realidade da jornada 6X1
é ainda mais dura. A desigual distribuição do trabalho de cuidado não
remunerado faz com que o tempo simplesmente não seja suficiente
Durante muito tempo, o debate sobre o
trabalho no Brasil esteve centrado na geração de empregos. No entanto, torna-se
cada vez mais evidente que não basta ter um trabalho. É fundamental olhar para
as condições em que ele acontece e para o tempo de vida que sobra fora dele.
A jornada 6x1, com seis dias de trabalho para apenas um de descanso, ainda é uma realidade para milhões de brasileiras e brasileiros. Esse modelo, muitas vezes naturalizado, limita a qualidade de vida, reduz o convívio familiar e compromete o direito ao descanso.
Para as mulheres, essa realidade é ainda mais
dura. A desigual distribuição do trabalho de cuidado não remunerado faz com que
o tempo simplesmente não seja suficiente. Falta tempo para descansar, para
estudar, para cuidar da própria saúde e até para participar da vida pública.
Na prática, isso significa jornadas que não
terminam quando acaba o expediente. O trabalho continua em casa, no cuidado com
filhos, idosos e nas tarefas domésticas. Essa sobrecarga afeta diretamente a
autonomia das mulheres e suas possibilidades de escolha.
Quando quase todo o tempo está ocupado pelo
trabalho e pelo cuidado, o que sobra para as mulheres? Sobra cansaço. Sobra a
falta de tempo para estudar, descansar, cuidar da saúde e participar da vida
pública. Sobra a impossibilidade de escolher como viver o próprio tempo. É
assim que desigualdades se aprofundam e se naturalizam, condenando muitas
mulheres à pobreza.
No Brasil, essa realidade não é exceção, é
parte do cotidiano de milhões de pessoas. A forma como o trabalho está
organizado e como o tempo é distribuído acaba reforçando desigualdades que se
acumulam ao longo da vida.
Mas falar de tempo também é falar de
oportunidades. Ter mais tempo livre significa poder usufruir do que o nosso
país oferece: turismo, cultura, arte, gastronomia e espaços de convivência.
Significa movimentar a economia local, fortalecer pequenos negócios e ampliar o
acesso ao lazer e ao bem-estar. O tempo, portanto, também é um fator de
desenvolvimento econômico e social.
Por isso, esse é um debate que dialoga com
todas as classes sociais. Não se trata apenas de quem trabalha mais ou menos,
mas de como queremos viver como sociedade. Um país que garante tempo para sua
população é um país que investe em qualidade de vida, em saúde, em educação e
em desenvolvimento.
Enfrentar a jornada 6x1 também significa
enfrentar a falta de tempo na vida das mulheres. Significa reconhecer que o
desenvolvimento precisa considerar não apenas indicadores econômicos, mas a
possibilidade real de viver com dignidade.
Garantir mais tempo é garantir mais direitos.
É criar condições para reduzir desigualdades e ampliar a participação das
mulheres em todos os espaços da sociedade.
O futuro do trabalho precisa ser construído
com equilíbrio, dignidade e justiça.
*Márcia Lopes — ministra das Mulheres

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