O Estado de S. Paulo
Flávio justifica tudo como um negócio entre
particulares, mas ele é senador e o eleitor não é ingênuo
Quando a Lava Jato descobriu um mar de dinheiro irrigando contas de partidos políticos, a saída da maioria dos que foram apanhados nas planilhas das empreiteiras foi dizer que tudo não passava de doações não contabilizadas para suas campanhas, o chamado caixa 2. Muitos assumiam o que pensavam ser um pecado menor, sem se dar conta de que a explicação para os pagamentos ilícitos não respondia à pergunta que qualquer eleitor honesto faria: afinal, qual a origem daquele dinheiro e por que um empresário se disporia a entregar tanto em troca de nada?
Nunca se conheceu, no mundo, um financista
sério que rasgasse nota de 200 ou se desfizesse de seus recursos pelas janelas
da Avenida Faria Lima. Experimente o leitor aparecer no escritório de um
banqueiro com suas contas e boletos e dizer: “Bom dia, mermão! Já estamos no
terceiro dia de gravação. Estamos no limite”. Justificar que os milhões
prometidos eram apenas um “negócio entre particulares” é querer dar um
passa-moleque no eleitor brasileiro.
Primeiro, porque o senador Flávio Bolsonaro não é uma figura particular. É um político e pré-candidato à Presidência. Como tal, deve explicações sobre o que faz, fala e recebe – e de quem e por qual razão. Em Brasília, não há espaço para ingênuos. Logo, pegar uma fortuna com um banqueiro enrolado, ainda que fosse para financiar uma peça de propaganda eleitoral – o filme sobre o capitão Bolsonaro –, é muito mais do que um negócio entre duas pessoas quaisquer. Aqui também cabe a pergunta: qual a origem do dinheiro entregue por Vorcaro e em troca de que ele daria milhões ao pré-candidato? Mais. Por que o senador foi em sigilo à casa do banqueiro, mesmo após Vorcaro ser preso? Se era só um negócio, por que não buscou o distrato na Justiça?
Da mesma forma que o bolsonarismo cobrava
Vorcaro para responder por que resolveu pagar uma fortuna pela assessoria
jurídica do escritório da advogada Viviane Barci, a mulher do ministro
Alexandre de Moraes, o banqueiro agora deve explicar aos investigadores por que
entregou esse tesouro aos Bolsonaro, bem como por que pagava, segundo a PF,
mesada de R$ 300 mil ao senador Ciro Nogueira, o ex-chefe da Casa Civil do pai
de Flávio. Os milhares de brasileiros que tiveram suas economias evaporadas no
conto do Banco Master merecem uma resposta.
No sábado, Flávio pediu aos eleitores que não se precipitassem. Disse: “Não há absolutamente nada de errado” e “o que incomoda é o homenageado do filme” – seu pai. O objetivo é conter entre os correligionários aqueles que sonham com um outro capitão, o Nascimento, que seja capaz de dizer ao senador: “Zero Um, pede pra sair!”

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