sexta-feira, 22 de maio de 2026

Flávio Bolsonaro queima o filme, leva cavalo de pau, e Lula ganha, por Marcos Augusto Gonçalves

Folha de S. Paulo

Há quem aposte que, apesar das mentiras e armações, senador voltará a se revelar competitivo

Desgaste é grande e atinge direita Master e seu espectro conservador que se estende ao mercado

Depois do flagra no escurinho do cinema, quando o site Intercept Brasil publicou o áudio de sua tentativa de pegar dinheiro de Daniel Vorcaro para supostamente financiar a cinebiografia de seu pai, Flávio Bolsonaro vem sofrendo desgaste sobre desgaste. "Dark Horse", azarão em inglês, bem que poderia ser intitulado "O Pangaré Obscuro"

O filme do senador e pré-candidato pelo PL foi queimado por ele mesmo. Sua ascensão nas pesquisas, que causou frisson nos mercados, sofreu um cavalo de pau. Flávio mentiu e continua mentindo para tentar escapar dessa fase negativa. A questão é saber se ele ainda poderá se apresentar como candidato competitivo quando a campanha de fato começar.

Gente ligada ao mundo das pesquisas e do marketing político-eleitoral tem dito que os danos não serão tão profundos e poderão ser superados. Sim, a perspectiva, pelo menos, é a de que a eleição vá a segundo turno. E se Flávio estiver lá, vai saber.

Veremos. Por ora a situação é desastrosa para o bolsonarismo e a direita. Lula é um animal político e eleitoral, tem a máquina na mão, prepara novas medidas de impacto popular e ganhou um farto material para ajudá-lo na tarefa de detonar a imagem de seu concorrente, que já não tinha muito a mostrar além do nome do papai.

O senador é uma nulidade. Sua eleição seria, certamente, um retrocesso histórico para o Brasil. Até mesmo os setores mais irresponsáveis do mercado financeiro, sempre inclinados a topar tudo pela derrota de Lula e do petismo, claudicaram diante do espetáculo de submissão à máfia do Master.

Não quer dizer que trocarão de ideia caso não se veja escolha diferente. No nosso continente do neoliberalismo sob Pinochet, valores democráticos são com frequência apenas enfeites para a busca a qualquer preço de um capitalismo radicalmente elitista e antipopular. É o que o filósofo Vladimir Safatle chamou de "complexo de Vargas Llosa".

A hipótese de afastamento de Flávio Bolsonaro pode até ser desejável, mas um tanto complexa. Que nome poderia unir a direita com a bênção do capitão recluso?

No rooftop da Faria Lima alguém falou em Renan Santos? Que missão!

Seria, no final das contas, mais razoável tentar algum tipo de composição com o lulismo em sua última grande investida com a presença do maior líder da centro-esquerda e da política brasileira das últimas décadas.

Mas isso, vamos ser razoáveis, não existe —é impossível, basta ver as opiniões espumosas dos porta-vozes do mercadismo sem freios de plantão.

Como escrevi aqui, o terreno está minado e novas explosões podem ocorrer, inclusive com estilhaços à esquerda. Mas vale insistir: o Master é um escândalo fortemente ligado à direita. Nasceu durante o Banco Central de Jair e Campos Neto, e varreu a tigrada do centrão e do bolsonarismo, como se observa agora com as reinações de Flavinho.

A manter-se a candidatura do primogênito do clã Bolsonaro, estaremos embarcando numa disputa da mais baixa qualidade, um verdadeiro filme de terror moral e ético, que ainda acabará sendo tratado como "normal" por setores expressivos do establishment.

A degradação política a que assistimos encontra cada vez menos quem com ela se espante. Como se sabe, não é apenas um caso brasileiro, o que só piora o cenário.

 

 

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