segunda-feira, 18 de maio de 2026

A frágil virada à direita da América Latina, por Oliver Stuenkel

O Estado de S. Paulo

A onda conservadora que varreu a América Latina nas eleições de 2025 – simbolizada pela derrota da esquerda na Bolívia e pelos triunfos de líderes conservadores no Equador, no Chile, na Argentina e em Honduras – tem sido interpretada, por vários analistas, não como mais um capítulo de um pêndulo político movido por insatisfação econômica e rejeição aos governantes, mas como um reordenamento ideológico mais duradouro. Essa transição seria movida por uma preocupação crescente do eleitorado latino-americano com a segurança pública, o crescimento da população evangélica e a volta de Trump à Casa Branca, entre outros fatores. Vários apostavam, portanto, em uma consolidação da tendência em 2026, nas eleições no Peru, na Colômbia e no Brasil.

Porém, os eventos das últimas semanas sugerem que um domínio da direita por vários ciclos eleitorais é pouco provável. De fato, a maioria das novas lideranças conservadoras já enfrenta sinais de desgaste político, e o resultado dos três pleitos deste ano está longe de ser previsível.

DIFICULDADES. Na Argentina, o governo de Javier Milei enfrenta turbulências próprias: os custos sociais das reformas econômicas e escândalos envolvendo figuras-chave da administração.

No Chile, José Antonio Kast, que assumiu a presidência em março de 2026, viu sua aprovação desabar em questão de semanas, uma das quedas mais acentuadas de qualquer presidente chileno em período equivalente na história recente das pesquisas.

Na Bolívia, Rodrigo Paz, empossado há apenas seis meses, já enfrenta protestos e confrontos violentos no país após eliminar subsídios aos combustíveis.

No Equador, Daniel Noboa assistiu à violência do crime organizado se agravar – 2025 foi o ano mais violento da história do país – e acumula acusações de autoritarismo que corroem sua base de apoio.

Em todos esses casos, os novos governantes de direita chegaram ao poder prometendo soluções rápidas para problemas estruturais e agora enfrentam o duro teste da realidade. A história recente da região mostra que, sem crescimento econômico concreto e melhora

A força política mais poderosa não é a conservadora, mas o ceticismo em relação a quem governa

tangível nas condições de vida, o eleitorado latino-americano tende a punir quem está no poder, independentemente do espectro ideológico.

O cenário no Equador talvez revele, de forma mais nítida, por que a onda conservadora é mais frágil do que muitos analistas previam: problemas de segurança pública podem facilitar vitórias eleitorais para candidatos que prometem ações duras contra o crime, mas seria um erro acreditar que governos de direita necessariamente consigam lidar com a questão de forma satisfatória.

EFEITO TRUMP. O elemento externo também pesa. O retorno de Trump à Casa Branca, longe de ser apenas um vento favorável para a direita regional, produziu efeitos contraditórios: ao mesmo tempo em que legitimou figuras como Milei, Kast e Asfura em Honduras, gerou reações nacionalistas em países que se sentiram pressionados por Washington. No caso brasileiro, as interferências e tarifas de Trump parecem ter fortalecido o governo Lula.

No Peru, o primeiro turno em abril de 2026 ilustra como o voto peruano continua fragmentado e altamente volátil, mais movido pela rejeição a quem governa do que por qualquer adesão ideológica coerente – e o segundo turno, marcado para 7 de junho, ainda não tem resultado previsível.

Na Colômbia, cuja primeira rodada presidencial ocorrerá em 31 de maio, a fragmentação do campo conservador reduz as chances de que a direita mobilize um eleitorado unificado capaz de garantir vitória já no primeiro turno.

No Brasil, escândalos recentes envolvendo Flávio Bolsonaro podem fragilizar o campo conservador num momento em que a corrida ainda está empatada, o que sugere que uma vitória conservadora em outubro não tem nada de inevitável.

Nada disso significa que a onda conservadora esteja chegando ao fim. A Costa Rica elegeu Laura Fernández, candidata de direita, em fevereiro, e o bloco conservador ainda governa numerosos países do continente. Mas os desafios enfrentados por Kast, Milei, Paz e Noboa são um lembrete de que a força política mais poderosa na América Latina não é a guinada conservadora, mas o ceticismo e a impaciência em relação a quem governa.

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