Finanças dos Correios têm de ser investigadas
Por O Globo
TCU viu indícios de irregularidade na
operação de salvamento da estatal armada pelo governo
Com sucessivos prejuízos que somaram R$ 8,5 bilhões em 2025, os Correios dependiam de um empréstimo para fechar as contas. Mesmo com a garantia do Tesouro Nacional, a primeira tentativa de captação fracassou. Ante os riscos, os juros cobrados pelos bancos eram altos demais. Somente na segunda rodada, já em dezembro, foi fechado empréstimo de R$ 12 bilhões junto a cinco bancos. Agora, uma análise da área técnica do Tribunal de Contas da União (TCU) mostra indícios fortes de irregularidade. As suspeitas de avaliação incorreta da situação financeira da estatal e de sua capacidade de pagamento devem ser investigadas.
O empréstimo de dezembro foi destravado
apenas depois de uma portaria permitir que técnicos do Ministério da Fazenda
considerassem promessas previstas no plano de reequilíbrio financeiro da
estatal. Não houve, segundo o TCU, exame robusto sobre a viabilidade. O
procedimento normal seria ter dado ênfase à situação da empresa, com dados
sobre solvência e fluxo de caixa. O lapso não parece ter sido casual. Qualquer
análise minimamente aprofundada mostraria que o plano tem metas otimistas
demais, que a sangria bilionária da estatal continuaria e que os riscos para o
Tesouro ao bancar a operação seriam altos demais.
Por oposição ideológica à privatização, os
Correios continuam em situação desesperadora, dependentes de dinheiro público.
Não é a primeira nem a única vez em que o governo Luiz Inácio Lula da
Silva é leniente e demasiado generoso com uma estatal em crise estrutural. Até
setembro de 2025, o Tesouro transferiu R$ 20,8 bilhões às estatais, 14,2% a
mais que em idêntico período de 2024. Tais transferências cresceram bem mais
que a inflação. Nesse mesmo período, o governo recebeu em dividendos R$ 33
bilhões, 17,8% a menos. Não bastasse isso, os números deixam claro que
Petrobras, Banco do Brasil e outras estatais que geram lucro não são capazes de
financiar o socorro a empresas públicas cronicamente deficitárias.
A atual gestão dos Correios reconhece que
2026 será um novo ano de rombo bilionário de dois dígitos, com prejuízo
estimado em R$ 10 bilhões. Isso exigirá novo empréstimo. Na visão edulcorada do
governo, em 2027 a empresa entrará no azul. Só é difícil acreditar. Cortes na
folha de pagamentos, melhorias operacionais, otimização logística e parcerias
são medidas bem-vindas, mas terão impacto apenas marginal nas contas. A empresa
continua refém de interferências políticas e obrigações legais que limitam a
autonomia da gestão. Sem a concessão para a iniciativa privada e um modelo de
negócios que gere caixa de forma sustentável, não haverá solução duradoura.
Repetidas falhas na execução orçamentária e
financeira não são exclusivas dos Correios. Outra auditoria do TCU sobre 2025
divulgada na semana passada constatou que aportes do Tesouro superaram as
necessidades de diversas estatais, como Infraero, Emgepron, Casa da Moeda e
companhias do setor portuário. A consequência é sobra de caixa, com aplicações
desvinculadas da execução imediata. Como alerta o TCU, os mecanismos de
controle são falhos e não permitem fazer a distinção da origem e destino dos
recursos. Tamanha falta de transparência é uma afronta ao contribuinte
brasileiro, cujo dinheiro é desperdiçado.
Sociedade brasileira não pode ser
condescendente com furto de energia
Por O Globo
Volume desviado por ‘gatos’ ao longo de um
ano seria suficiente para abastecer Região Sudeste por um mês
Por terem se tornado comuns na paisagem das
cidades brasileiras, especialmente em áreas onde a polícia não entra, os furtos
de energia,
conhecidos popularmente como “gatos”, costumam ser tolerados. Não deveriam.
Primeiro, por se tratar de crime, com pena prevista de um a oito anos de
prisão. Segundo, porque assumem proporções gigantescas. Terceiro, porque impõem
prejuízos não só às concessionárias, mas também aos consumidores, cuja conta de
luz fica mais cara.
De acordo com a Associação das Distribuidoras
de Energia, apenas em 2024 foram desviados mais de 22,5 bilhões de kWh, volume
suficiente para abastecer por um mês toda a Região Sudeste, como mostrou
reportagem do Jornal Nacional. O problema se mostra mais grave nos estados de
Amazonas, Amapá, Rio de Janeiro, Rondônia, Pará e Pernambuco. As ligações
irregulares não ocorrem apenas em favelas. Em Salvador, a polícia flagrou a
prática ilegal numa fábrica de bebidas. Em Niterói, foram encontrados 17
“gatos” em quiosques à beira-mar, como informou a coluna de Ancelmo Gois.
Esse tipo de crime acarreta perdas
significativas. No ano passado, os “gatos” causaram prejuízo de R$ 10 bilhões
às concessionárias. É inevitável o reflexo para os consumidores que pagam seus
boletos em dia. Estima-se que o impacto nas contas de luz seja de quase 3%. Os
furtos também sobrecarregam o sistema, trazem riscos de incêndios e deterioram
a qualidade do serviço. Em 2025, as ligações clandestinas provocaram 620 mil
apagões, afetando cerca de 2,1 milhões de residências e pontos comerciais em
todo o Brasil. Os recursos desviados poderiam ser investidos no próprio
sistema, beneficiando a todos.
Não se pode dizer que os crimes não sejam
combatidos, mas as ações têm se mostrado insuficientes. Em março, a Light
identificou 4.139 “gatos” no estado do Rio, tanto em residências quanto em
estabelecimentos comerciais como restaurantes ou mercados. Operações policiais
levaram à prisão de 20 suspeitos em flagrante e ao registro de 38 ocorrências.
A concessionária informou ter recuperado volume de energia suficiente para
abastecer quase 30 mil residências durante um mês.
Embora não ocorram apenas em áreas
conflagradas, é nesses locais que a polícia e as concessionárias encontram
maiores dificuldades para combater o problema. Em geral, são regiões
controladas por facções ou milícias, que impedem a entrada das operadoras para
realizar reparos ou desligar eventuais “gatos”. O serviço ilegal é cobrado dos
moradores por traficantes e milicianos.
Por causar danos ao sistema elétrico e
prejuízos a empresas e consumidores, os “gatos” precisam ser combatidos de
forma firme e permanente. É fundamental rechaçar a ideia equivocada de que essa
prática criminosa é um problema menor. A sociedade não pode ser condescendente
com o furto de energia. Crime é crime, e assim deve ser tratado.
Irã resiste a uma guerra que Trump não sabe
como acabar
Por Folha de S. Paulo
Relato da Folha no país mostra que teocracia
recebe apoio a despeito de repressão violenta e inflação
EUA ameaçam com volta de ataques; tentar
extrair à força uma renúncia do Irã o seu programa nuclear já resultou em custo
abominável
Em meio a riscos crescentes para a economia
global, Estados
Unidos e Israel ameaçam
retomar seus ataques ao Irã, como meio
de pressionar a teocracia xiita a acatar seus termos para a paz. O impacto
seria devastador para o restante do mundo, exposto desde 28 de fevereiro ao
choque de preços do petróleo gerado
por um conflito desnecessário e mal calculado.
Não há dúvidas sobre o alto grau de
improvisação do presidente dos EUA, Donald Trump,
e do líder israelense, Binyamin
Netanyahu, ao apontarem suas artilharias a um país preparado há
quase quatro décadas para absorver seus bombardeios. O prognóstico de rendição
de Teerã até o final de abril já evidenciara o despreparo da Casa Branca.
O bloqueio iraniano ao estreito de
Hormuz, por onde trafega um quinto da produção mundial de petróleo e
boa parte dos fertilizantes, certamente não figurou em seus cálculos. Tampouco
foi considerada a resistência e a capacidade de reação da teocracia contra
alvos sensíveis da vizinhança sunita aliada aos EUA.
Se o regime mostrava-se abalado pelos
protestos de dezembro e janeiro, agora recebe manifestações diárias de
apoio, como relatado
em reportagens da Folha, primeiro jornal estrangeiro a
ingressar no país em guerra para retratar seu cotidiano.
Ainda que expostos a uma inflação de 73,5% em
12 meses, à substituição da carne por ossos em sua dieta e à destruição de 125
mil construções civis, os iranianos hoje aclamam seu líder supremo, aiatolá
Mojtaba Khamenei, o responsável, em última instância, pelo aprofundamento do
caráter repressivo do regime.
A repressão aos dissidentes dos protestos
prossegue vigorosa. Segundo as Nações Unidas, houve 21 execuções e a detenção
de 4.000 pessoas desde o início da guerra.
O frágil cessar-fogo entre as partes, vigente
desde 8 de abril, certamente aliviou o mundo de consequências econômicas mais
graves, mas ainda está longe de prenunciar algum tipo de acordo.
A possível
retomada de ataques para "aniquilar o Irã", como ameaçou
Trump no domingo (17), traz consigo o risco iminente de o preço do barril de
petróleo escalar a patamares inauditos —e de o mar Vermelho acabar tão
bloqueado por forças aliadas a Teerã quanto o estreito de Hormuz.
A renúncia do Irã a seu programa nuclear e a
seus braços terroristas no Oriente Médio teria
efeito inestimável para a paz na região. Tentar extraí-la "manu
militari", em detrimento da diplomacia, já resultou em custo abominável e
vazio de benefícios.
Se aventava crescer em popularidade, Trump
obteve o contrário —e arrisca a maioria republicana nas duas Casas do
Congresso, nas eleições de novembro.
O fim das negociações sobre uma paz abrangente com o Irã e o reinício dos bombardeios não se embasam em nenhum filete de racionalidade. Se confirmados, agravarão as disputas geopolíticas e um choque de oferta já descrito como o maior da história.
Lula x Congresso
Por Folha de S. Paulo
Para 70%, relação entre gestão petista e
Parlamento é mais de confronto que de colaboração, diz Datafolha
A multiplicação de emendas parlamentares é
uma anomalia que distorce o equilíbrio entre os Poderes, também abalado por
abusos do Supremo
Regimes presidencialistas permitem que o
Executivo e o Legislativo sejam controlados por forças divergentes, ou mesmo
antagônicas —um fator em potencial de instabilidade que o parlamentarismo
procura evitar, sem tampouco garantir um sistema de governo imune a impasses
políticos.
Hoje, no Brasil, há um presidente de esquerda
e um Congresso
Nacional sob comando de partidos mais alinhados à
centro-direita e à direita, ainda que não prezem pela consistência programática
e ideológica. Para 70% dos
brasileiros aptos a votar, a relação entre o governo Luiz
Inácio Lula da
Silva (PT)
e o Parlamento é mais de confronto que de colaboração, segundo pesquisa
do Datafolha.
O levantamento foi feito em um momento de
tensão política mais elevada, a poucos meses das eleições,
com um escândalo financeiro e de corrupção em curso e pouco depois da rejeição
pelo Senado de
uma indicação de
Lula para o Supremo Tribunal Federal (STF) —pela
primeira vez desde 1894.
Se considerado todo o terceiro mandato do
líder petista, a relação com o Congresso é, sem dúvida, mais difícil do que em
outros tempos, porém não se observa um antagonismo agudo a ponto de impedir a
governabilidade.
Se Jair
Bolsonaro (PL) tentou governar sem
alianças partidárias e só recorreu ao centrão quando se viu sob risco de
deposição, Lula repetiu o modelo de coalizão petista —no qual o partido reserva
para si os postos mais importantes e atrai apoios de outros setores com a
oferta de cargos e verbas de ministérios secundários e empresas estatais.
Esse arranjo era mais eficiente no passado,
ainda que tenha degenerado em escândalos como o mensalão e o petrolão.
Atualmente, nem o petista desfruta da vasta popularidade de outrora nem os
parlamentares dependem mais de favores do Executivo para que suas emendas ao
Orçamento sejam executadas.
Ainda assim, aprovou-se uma reforma
histórica, a tributária, e o governo pôde tocar grande parte de sua agenda,
incluindo muitos dos aumentos de impostos propostos pela Fazenda. Houve
propostas rejeitadas ou negociadas e modificadas, o que é normal e desejável
numa democracia.
Isso não significa, claro, que tudo funcione à perfeição. A multiplicação de emendas parlamentares de execução obrigatória, em particular, é uma anomalia que ao mesmo tempo avilta o Orçamento e distorce o equilíbrio entre os Poderes, também abalado por abusos do Supremo. No campo político, a polarização dificulta acordos, mas não deixa de ser uma escolha do eleitorado.
A petulância de Lula
Por O Estado de S. Paulo
Como o currículo de Messias não melhorou
desde a rejeição pelo Senado, cogitar nova indicação dele ao STF revela
menosprezo pelos mecanismos de freios e contrapesos da República
Reportagens publicadas no fim de semana
afirmam que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) avalia reenviar ao
Senado a indicação de Jorge Messias para a vaga aberta no Supremo Tribunal
Federal (STF), após a histórica rejeição sofrida pelo advogado-geral da União
no mês passado. Se isso realmente acontecer, Lula estará cometendo não apenas
um erro político grave, mas demonstrando enorme dificuldade de aceitar os
limites impostos pelo sistema de freios e contrapesos da Constituição.
No dia 29 de abril, o Senado rejeitou a
indicação de Messias por 42 votos a 34, produzindo um fato sem precedentes
desde o governo Floriano Peixoto, em 1894. Pela primeira vez em mais de um
século, um presidente da República foi impedido de transformar automaticamente
sua vontade pessoal em um ministro do Supremo. A decisão serviu para recolocar
o Senado no papel que a Constituição lhe reserva: o de funcionar como filtro
democrático das escolhas presidenciais para a mais alta corte do País.
A prerrogativa de indicar ministros do STF
pertence ao presidente da República, mas não a de confirmar a indicação. O
modelo constitucional brasileiro foi desenhado justamente para submeter essa
escolha ao crivo do Senado, órgão eleito encarregado de verificar se o indicado
reúne condições de ocupar um dos postos mais relevantes da República.
Ao flertar com a ideia de insistir em
Messias, Lula transmite a impressão de enxergar a rejeição não como
manifestação legítima de outro Poder, mas como uma espécie de insubordinação
institucional a ser corrigida. O problema é que Lula parece tratar a derrota
como um contratempo político reversível, e não como uma decisão legítima do
Senado.
Como já dissemos outras vezes, Jorge Messias
não reunia, e continua sem reunir, os atributos exigidos para integrar o STF:
autoridade jurídica amplamente reconhecida, independência em relação ao
governo, discrição institucional, respeito aos limites constitucionais da Corte
e ausência de militância político-partidária. Messias jamais se destacou como
um jurista cuja autoridade transcendesse fronteiras partidárias. Sua principal
credencial sempre foi a proximidade política com Lula e o PT. Isso não mudou
desde sua rejeição pelo Senado.
A insistência presidencial apenas reforçaria
a percepção de que Lula enxerga vagas no Supremo como prêmios a quem lhe é
leal. Messias tornou-se figura simbólica do petismo não por representar uma
referência jurídica nacional, mas por sua fidelidade ao grupo político
governante em momentos particularmente delicados. O problema é que o Supremo
não existe para acomodar lealdades nem para saldar dívidas políticas de
presidentes da República.
Há ainda, nessa possibilidade extremamente
questionável, obstáculos regimentais relevantes à reapresentação imediata do
nome. Uma norma interna do Senado impede que uma autoridade rejeitada seja
novamente apreciada na mesma sessão legislativa para o mesmo cargo. Trata-se,
porém, de regra interna corporis, passível de revisão ou flexibilização caso
haja vontade política suficiente da Mesa Diretora e do presidente do Senado.
Isso apenas torna a hipótese ainda mais
problemática, porque uma eventual manobra regimental deixaria de ser uma
discussão meramente processual para se transformar numa operação política
destinada a contornar uma rejeição institucional claríssima do Senado. Depois
de barrar um nome considerado inadequado para o Supremo, o próprio Senado seria
chamado a reinterpretar suas regras para viabilizar justamente aquilo que
acabara de rejeitar. Sabe-se lá a troco de quê o presidente do Senado, Davi
Alcolumbre, permitiria isso – mas dá para imaginar.
A derrota de Messias deveria ter servido para
induzir o presidente a recalibrar critérios. O País precisa de alguém com
autoridade jurídica própria e independência real em relação ao Planalto.
Insistir em Messias significaria apenas que, para Lula, a arquitetura
institucional do País é meramente ornamental diante de seus desejos.
Admirável mundo novo
Por O Estado de S. Paulo
SPIW consagra a capital paulista como polo
global de inovação e reafirma a trajetória do ‘Estadão’ como o jornal
sesquicentenário que já nasceu sob o signo da modernidade
A primeira edição do festival São Paulo
Innovation Week (SPIW) na capital paulista consagrou a vocação histórica de São
Paulo como um centro irradiador de conhecimento e progresso. E não poderia
haver outro jornal senão o Estadão para
trazer a esta cidade, em parceria com a Base Eventos, um festival global de
inovação que até agora ocorria apenas no Rio de Janeiro.
Ao longo de cinco dias, entre 13 e 17 de
maio, o Mercado Livre Arena Pacaembu, a Fundação Armando Alvares Penteado
(Faap) e Centros Educacionais Unificados (CEUs) em bairros da periferia de São
Paulo receberam acadêmicos, empresários, estudantes, artistas, lideranças
sociais e representantes do poder público para discutir o futuro de um mundo
transformado pelas novas tecnologias, em particular pela inteligência
artificial.
Os números do SPIW comprovam que o evento foi
um tremendo sucesso: 47 mil passaportes emitidos, mais de 80 mil visitantes,
quase 2 mil palestrantes, centenas de startups e empresas expositoras, além de
delegações estrangeiras vindas de dezenas de países. A relevância do festival,
contudo, não se restringe a isso. O SPIW materializou a disposição de São Paulo
de reafirmar seu papel como polo global de inovação. Como afirmou o CEO do Estadão, Erick Bretas,
chegou a hora de esta cidade deixar de ser apenas o lugar “de onde se parte
para pensar a inovação” para se tornar também o destino “para onde se vem”.
O maior mérito do SPIW foi mostrar que
“inovação” é uma palavra vazia de sentido se não for entendida como experiência
humana. A expansão das atividades para os CEUs de Heliópolis, Sapopemba, Cidade
Ademar e Freguesia do Ó simboliza esse espírito. Ao envolver crianças e jovens
em oficinas, debates e atividades ligadas ao conhecimento, o festival
transmitiu a potente mensagem de que o desenvolvimento tecnológico tem de
servir ao progresso humano e, principalmente, tem de estar ao alcance de todos
os cidadãos.
Também por isso o SPIW encontrou neste jornal
o seu par perfeito. Desde sua origem, em 1875, ainda como A Província de São Paulo, O Estado de S. Paulo nasceu
sob o signo da modernidade, pregando a igualdade de todos perante a lei.
Republicano e abolicionista quando o Brasil ainda vivia sob uma monarquia
escravocrata, o Estadão compreendeu
desde o início que o progresso da Nação depende fundamentalmente da circulação
de ideias, do livre mercado, da valorização da educação e da ciência, do
espírito crítico e da independência intelectual.
Ao longo de mais de um século e meio, o Estadão passou por
sucessivas revoluções tecnológicas não raro como protagonista das inovações de
seu tempo, sem jamais se apegar nostalgicamente ao passado. Adaptou-se das
antigas oficinas gráficas às rotativas elétricas, incorporou a impressão
colorida, ingressou no ambiente digital e reorganizou suas rotinas em tempo
recorde quando entendeu que eram esses os movimentos necessários para seguir
cumprindo sua missão de bem informar seus leitores.
Essa disposição para inovar não se limitou às
técnicas de produção jornalística. O Estadão participou ativamente da construção da
identidade intelectual do País. Este jornal foi decisivo, por exemplo, para a
criação da Universidade de São Paulo (USP), a principal instituição acadêmica
brasileira e um dos mais importantes centros de pesquisa científica e inovação
do mundo. Portanto, trata-se de coerência. Só o jornal que ajudou a formar uma
universidade do porte e da importância da USP poderia, agora, consolidar um
festival internacional de inovação em sua própria cidade. A próxima edição do
SPIW já está confirmada para maio de 2027.
Por fim, o êxito do festival indica que há um
debate altamente qualificado sobre tecnologia no Brasil. Se puder ser resumido
em um resultado, o SPIW mostrou que inovação é a resultante natural de um
ambiente de livre circulação de ideias, liberdade de pensamento e expressão,
divisão de conhecimento e confiança na capacidade humana de criar soluções para
os desafios de nosso tempo.
São Paulo demonstrou estar pronta para
assumir um protagonismo que sempre marcou sua história. E o Estadão, fiel à sua própria
trajetória sesquicentenária, mostrou por que continua sendo parte indispensável
da construção de um futuro mais auspicioso para o Brasil.
O direito do paciente
Por O Estado de S. Paulo
Estatuto legaliza o ‘testamento vital’ e
valoriza a autonomia e a dignidade do doente terminal
O Estatuto do Paciente, em vigor no Brasil
desde o dia 7 de abril passado, traz uma série de direitos e garantias a quem
necessita de cuidados médicos. E entre as novidades da recente legislação está
um instrumento jurídico chamado “diretiva antecipada de vontade”, ou DAV.
Trata-se de um documento que assegura ao paciente a realização de seus desejos
previamente manifestados por escrito, numa bem-vinda valorização do princípio
da autonomia da vontade.
O paciente poderá decidir sobre que tipo de
tratamento aceita ser submetido, ou não, no caso do acometimento de uma doença
grave, irreversível ou em estágio terminal que venha a lhe deixar inconsciente
num leito hospitalar. Não à toa, o instrumento, que pode ser registrado em
cartório, também é chamado de “testamento vital”. Agora, o desejo prévio do
paciente ganhou status de direito garantido em lei, que, segundo o artigo 20 do
Estatuto do Paciente, deverá ser respeitado por todos – ou seja, pela família e
pelos profissionais de saúde.
A recente previsão legal da DAV garante, na
prática, mais segurança jurídica ao paciente, à família e ao médico. Esse
instrumento já existia no Brasil, mas de uma forma bastante precária. Desde
2012, uma resolução do Conselho Federal de Medicina (CFM) disciplina o
testamento vital no País, mas, como não tinha força de lei, parentes e médicos
não raro ignoravam os desejos previamente manifestados pelos pacientes. Assim,
o Estatuto do Paciente também deu fim a uma arbitrariedade.
Enquanto assegura a autonomia da vontade do
paciente e aumenta a segurança jurídica com o reconhecimento legal da diretiva
antecipada de vontade, o Estatuto do Paciente também dirime o drama da família
e atenua os conflitos éticos dos profissionais de saúde. Agora a família não
precisará mais carregar o peso de uma tomada de decisão, seja escolhendo, seja
descartando um tratamento inútil que apenas prolonga a vida do ente querido. E,
se for da vontade do paciente, o médico poderá deixar de fazer manobras de
ressuscitação, de mantê-lo ligado a um respirador ou de alimentá-lo por via
venosa.
A diretiva antecipada de vontade, cabe
ponderar, não é um instrumento obrigatório. Ou seja, o paciente que não
manifestar previamente suas vontades em relação aos cuidados médicos que
gostaria de receber estará sujeito às decisões de sua família e do profissional
de saúde responsável por seu tratamento médico. Mas, sem dúvida, o
reconhecimento legal da DAV é um importante marco jurídico para quem
previamente decide sobre seu próprio destino.
O Estatuto do Paciente tão somente reafirma o direito à liberdade de quem, porventura, venha a ficar acamado e incomunicável. O direito da família e do médico não é limitado. É o direito de escolha do paciente, desde que previamente manifestado, que não será mais violado. Não é pouca coisa: é a certeza de que a autonomia da vontade será respeitada, garantindo ao paciente conforto no sofrimento e dignidade diante da morte.
Economia retoma crescimento, mas serviços
desaceleram
Por Valor Econômico
Dados do IBC-Br, índice do Banco Central que
funciona como um termômetro das atividades, mostram um novo ponto de inflexão
na economia
A economia brasileira acelerou no primeiro
trimestre do ano em relação ao último trimestre de 2025, quando registrou
expansão marginal (0,1%). O IBC-Br, índice do Banco Central que funciona como
um termômetro das atividades, registrou queda na ponta, com recuo de 0,7% em
março. No trimestre, porém, avançou 1,3% e em doze meses, período em que a
série apresenta maior consistência, 1,8%. Março captou parte dos efeitos da
guerra iniciada por Estados Unidos e Israel contra o Irã, que fez os preços do
petróleo dispararem, o que se refletiu no Brasil, exportador líquido do óleo,
em impulso no desempenho da indústria de petróleo e gás e, em consequência, da
indústria.
Os dados mostram um novo ponto de inflexão na
economia, com os ganhos decorrentes do petróleo ampliando os saldos comerciais,
que redundarão em aumento da contribuição da área externa para o Produto
Interno Bruto, e, por outro lado, uma desaceleração dos serviços que, se
prosseguir, esfriará a economia nos dois próximos trimestres. Segundo projeções
da Secretaria de Política Econômica do Ministério da Fazenda, a economia se
reativará nos últimos três meses do ano e crescerá 2,3% — repetindo a
performance do ano passado —, uma previsão bem mais otimista que o 1,9%
vislumbrado pelas consultorias privadas no boletim Focus.
Pelo retrato do primeiro trimestre no IBC-Br,
a agropecuária puxará o PIB, com uma expansão acumulada em doze meses de 5,8%. O
setor de serviços no mês de março foi o que mais caiu (-0,8%), deixando uma
herança estatística para o trimestre seguinte também negativa, de -0,3%. É o de
maior peso no PIB medido pela oferta, com 69,5%. Até o fim de 2025, mesmo
reduzindo seu ritmo de crescimento, os serviços ainda estavam perto de seu
recorde histórico. É muito provável que se distanciem dele agora.
O bom ímpeto dos serviços nos dois primeiros
meses de 2026 são resultado do ainda forte nível de ocupação e de aumentos
salariais acima da inflação, que propiciaram recordes também na massa real de
rendimentos. Isso começou a refluir, segundo o Boletim Macrofiscal da SPE:
entre dezembro e março, o rendimento acima das inflação recuou de 2,3% para
1,3%, e o da massa de rendimentos, de 3% para 1,6%. Os serviços, muitos deles
dependentes diretamente da renda das famílias, têm estado na linha de frente da
pressão inflacionária. Segundo a SPE, a evolução anual de seus preços diminuiu
de 6% para 5,7% e a dos serviços subjacentes, mais ligados ao ciclo econômico,
de 5,5% para 5,3%. Ainda assim, são recuos pequenos diante de uma inflação que
voltou a subir e chegou a 4,4% em abril.
A aceleração das atividades no primeiro
trimestre foi disseminada por todos os setores, segundo a SPE. A agricultura
costuma exibir seu melhor desempenho nos dois primeiros trimestres do ano, mas
o resultado pode não ser tão surpreendente agora porque a base de comparação é
alta. A indústria extrativa vinha puxando o resultado da indústria como um
todo, mas mesmo a manufatura recuperou-se um pouco de sua letargia e ambas
contribuíram para a expansão de 1,3% no trimestre em relação ao mesmo período
de 2025. Apesar do recuo de serviços, alguns de seus subsetores continuam em
boa forma. No comércio, tanto setores mais sensíveis ao crédito quanto à renda
tiveram boa performance, avalia a SPE.
O Banco Central ainda mantém a avaliação de
que a economia apresenta trajetória de moderação, como sugere o IBC-Br de
serviços, mas, por outro lado, os estímulos fiscais, que abrangem uma gama
crescente de setores e não apenas os relacionados às altas de preços dos
combustíveis, já contribuam para jogar para mais longe da meta o IPCA (projeção
de 4,9% no boletim Focus de ontem). A SPE aumentou sua projeção de 3,7% para
4,5%. A política fiscal prejudica o trabalho do BC, mas, para a SPE, a
resistência da economia ao choque externo é obra da política correta do
governo. Ela permitiu, por exemplo, que a “política fiscal ... siga auxiliando
a política monetária na absorção da pressão inflacionária e garanta proteção às
famílias e à economia popular neste momento de choque” (Boletim Macrofiscal).
O choque do petróleo, se melhora a renda
advinda das exportações, piora o consumo e investimento. O governo pretende
usar o bônus do petróleo para impedir que as atividades se retraiam, como
ocorreria. Para a SPE, as subvenções e corte de impostos para diesel, gás e
querosene anunciados terão um impacto primário de R$ 6,2 bilhões mensais. A
conta não incluiu gasolina, que será subvencionada em até R$ 0,89 por litro. O
cálculo para a receita extra advinda do petróleo feita pela secretaria seria de
R$ 8,5 bilhões ao mês.
Como o BC não consegue levar a inflação à meta diante de uma política fiscal expansionista e agora de um choque do petróleo de grande magnitude, o resultado mais provável é que o Brasil apresente de novo baixo crescimento, menor que os 2,3% de 2025, que foi bem inferior aos 3,4% de 2024, com uma inflação substancialmente maior e taxas de juros ainda estratosféricas.
Estupros coletivos, uma barbárie generalizada
Por Correio Braziliense
Há no país uma disseminação desse tipo
perverso de violência entre os mais jovens, impulsionados, sobretudo, pelas
facilidades tecnológicas
Convidada para ir ao apartamento de um colega
da escola, em Copacabana, uma jovem de 17 anos ouviu, no elevador, que fariam
"algo diferente". Não imaginava que seria vítima de cerca de uma hora
de violência sexual e agressões físicas praticadas por cinco pessoas. Em
emboscada semelhante, uma menina de 12 anos chegou à casa de um namorado,
também no Rio de Janeiro, e foi surpreendida por mais sete indivíduos que a
esperavam para cometer o estupro coletivo. A armadilha criada para atrair dois
meninos de 7 e 10 anos, em São Paulo, foi soltar pipa. As crianças entraram em
um imóvel para pegar as linhas e foram violentadas por cinco conhecidos.
Os sucessivos roteiros de atrocidades têm
estarrecido o país ao longo dos últimos dois meses — o caso mais recente é o da
jovem agredida por oito algozes, investigado pela Polícia Civil desde a última
quarta-feira. À repulsa provocada ao se ouvir os relatos soma-se a percepção de
que semelhanças nos três crimes sinalizam a existência de um problema muito
maior: a disseminação desse tipo perverso de violência entre os mais jovens,
impulsionados, sobretudo, por facilidades tecnológicas.
O fator idade é o mais evidente: todas as
vítimas são menores de idade e, conforme as apurações, dos 18 acusados, 13
também não chegaram à maioridade. São muitos os brasileiros nessa faixa etária
que passam por essa experiência traumática. Dados do Ministério da Justiça
indicam que o número de crianças e adolescentes vítimas de violência sexual no
país pulou de 19.496 casos em 2015 para 59.366 em 2025 — um aumento de 200%.
Quanto ao estupro coletivo, registros do
Ministério da Saúde revelam a ocorrência de em média 15 casos por dia entre
2022 e 2025, sendo que, em 63% das ocorrências, as vítimas eram crianças e
adolescentes do sexo feminino. Não se pode perder de vista que os números não
revelam toda a perversidade a que a juventude é submetida, considerando se
tratar de crime com alto índice de subnotificação. Além da vergonha e da culpa
que silenciam as vítimas, há outras violências que dificultam a punição dos
culpados. No caso dos meninos violentados em São Paulo, há relatos de que
vizinhos pressionaram os familiares a não irem à delegacia temendo represálias
por parte de faccionados da região.
O perfil etário dos agressores é uma
informação que ainda precisa ser analisada metodologicamente, mas, acompanhando
o aumento de notícias de operações policiais que apreendem jovens por
envolvimento em ações de violência sexual, sobretudo na internet, pode-se
inferir que se trata de um fenômeno em curso no Brasil. No submundo da
internet, alicia-se as vítimas, se produz material de abusos e se comercializa
conteúdos repugnantes.
Não à toa, dois dos três casos citados no
começo deste texto foram gravados, e, no mais recente deles, um dos
adolescentes suspeitos vendeu a gravação por R$ 5, segundo a delegada que
investiga os crimes. Ainda de acordo com Fernanda Caterine, os agressores
aparecem na gravação se vangloriando pelo ato cometido. Comportamento também
flagrado no estupro na zona nobre do Rio. Onde se aprende que violentar uma
pessoa é motivo de comemoração? Ou que tamanha crueldade é apenas
"zoeira", como alegou o adulto que violentou os meninos na zona leste
paulista?
Pais, professores, amigos, autoridades, vizinhos, agora perplexos com o noticiário, precisam se dar conta de que uma onda de falta de empatia e excesso de violência ameaça as gerações mais jovens e, principalmente, têm que dar respostas efetivas a essa barbárie generalizada. Apenas endurecer as penas não vai frear esse movimento hediondo. A solução passa pela promoção de valores voltados à dignidade humana, sobretudo das meninas e das mulheres.
A ameaça do ebola e a memória da Covid
Por O Povo (CE)
As autoridades sanitárias brasileiras estão
obrigadas a agir com a responsabilidade que o caso exige a ameaça do ebola,
agora que a Organização Mundial de Saúde (OMS) reconheceu o quadro de
emergência de saúde pública de importância internacional, seu estágio de alerta
mais alto. É momento de mostrarmos, como sociedade e como governo, termos
aprendido com as dolorosas lições que nos deixaram o quadro pandêmico dos anos
2020 e 2021, em sua fase mais crítica, com a circulação do coronavírus que
espalhou a Covid-19 mundo afora.
Muita coisa mudou, desde então, a começar
pela presença no Ministério da Saúde do Brasil de técnicos e políticos que
acreditam na ciência e agem como sentido de garantir o respeito que ela merece.
A postura negativista que adotaram algumas autoridades do País na época,
incluindo o então presidente da República, Jair Bolsonaro, dificultou algumas
ações que se faziam necessárias, especialmente na fase inicial, de pouca
informação para o conjunto das pessoas.
Da mesma forma que a Covid, o vírus do ebola
também não dispõe hoje de uma vacina que ajude a população a combatê-lo de
forma preventiva. Portanto, é fundamental que os governantes, daqui e de outros
países, tenham disposição e capacidade de manter as sociedades orientadas de
forma conveniente para se conseguir barrar sua circulação. Os registros de até
o momento restringem-se ao continente africano e, em específico, ao Congo e a
Uganda, havendo confirmação de 246 casos de contaminação pela cepa do vírus
Bundibugyo e a suspeita de pelo menos 100 mortes a eles relacionados.
A memória que ficou desse período segue viva
e uma parcela boa de brasileiros continua questionando a ciência e sua
capacidade de dar respostas aos desafios colocados diante dela. O episódio da
Covid poderia ser uma demonstração positiva nesse sentido, diante da capacidade
de desenvolver vacinas em tempo recorde, como o quadro exigia, mas, ao
contrário, até hoje temos vozes importantes ainda atuando para minimizar o
feito e colocar em dúvida o que vivenciamos naquela dramática fase histórica,
infelizmente.
É um cenário desafiador, ainda mais quando se
tem um cenário de mobilização política da turma anti-ciência que segue ativa. O
Brasil já foi exemplo para o mundo de um país capaz de envolver sua população
em campanhas imunizadoras, alcançando taxas de vacinação suficientes para
erradicar doenças que um dia foram responsáveis por muitas mortes e perdas. O
exemplo mais simbolicamente ressaltado é o da paralisia infantil.
O alerta foi dado pela OMS e cabe agora às autoridades mundiais terem responsabilidade para lidar com a situação fazendo o que estiver ao alcance para evitar que vivamos algo semelhante àquilo que espalhou pânico e mortes mundo no Brasil. Apenas no Brasil foram cerca de 700 mil vidas perdidas, em boa parte dos casos uma situação evitável se as providências certas fossem adotadas no momento adequado. Não podemos repetir o mesmo erro.

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