terça-feira, 19 de maio de 2026

O caderninho do Daniel, por Tom Farias

Folha de S. Paulo

Por trás da narrativa de um patrocínio meramente comercial, escondem-se laços que podem vir de um passado ainda mais perturbador

Patrimonialismo brasileiro ganha contornos na promiscuidade entre financiamentos heterodoxos e políticos de gabinete

O nome de Daniel Vorcaro virou sinônimo de mesadinha, jatinhos de luxo e, na semana passada, de grande mecenas de filme supostamente superfaturado sobre a jornada heroica de um ex-presidente condenado e inelegível. Em linhas gerais, seria trágico se não fosse cômico.

As revelações das conversas entre o ex-dono do banco Master, preso na Polícia Federal, e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) pacificam controvérsias. Nas mensagens, eles se tratam de forma amistosa, em uma verdadeira comédia de elogios mútuos, mas que, no fundo, encobre a realidade nua e crua dos fatos.

Por trás da narrativa de um patrocínio meramente comercial, escondem-se laços que podem vir de um passado ainda mais perturbador: a campanha presidencial do chefe do clã, Jair, derrotado nas urnas. Se comprovados —e tudo leva a crer que sim—, trariam novas turbulências para a já turbulenta campanha do parlamentar-candidato a quatro meses e meio das eleições de outubro.

O caso ilustra como a suposta benemerência financeira funciona como blindagem e moeda de troca. Ao financiar a hagiografia de um político decadente, o empresário investigado por comprovadas fraudes bilionárias no sistema financeiro tenta comprar sua posteridade na filantropia artística. Contudo, como indica a cronologia dos acontecimentos, o gesto serve mesmo para abrir portas a novas investidas estratégicas.

Dividida, a opinião pública vê o interesse coletivo ser sequestrado por transações privadas mascaradas de compadrio. Assim, o patrimonialismo brasileiro ganha contornos na promiscuidade entre financiamentos heterodoxos e políticos de gabinete.

A grande expectativa recai sobre os registros nos celulares —esses caderninhos eletrônicos. Os favores distribuídos a parceiros de conveniência cumprem sempre a mesma função: pavimentar caminhos à margem das regras republicanas.

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