terça-feira, 19 de maio de 2026

Disputa inglória, por Merval Pereira

O Globo

Há anos estamos no dilema de escolher o candidato menos ruim, em vez de projetos. Talvez essa luta autofágica permita aos que não estão nela encontrar um caminho alternativo.

O sucesso — no sentido de superação, não de vitória — da candidatura do senador Flávio Bolsonaro à Presidência da República não depende mais dele, nem mesmo do seu pai, mas dos outros segredos que porventura tenha e que quase certamente surgirão no decorrer das investigações da Polícia Federal (PF) e do que mais terá a contar o ex-banqueiro Daniel Vorcaro em sua delação premiada. Difícil acreditar que nada de novo surja, sobretudo porque Flávio perdeu a credibilidade junto aos seus por ter escondido a relação com Vorcaro. O que mais terá escondido?

Os diversos recados que Vorcaro já recebeu mostram-lhe que não tem chance de enganar os investigadores do Ministério Público e da PF. A reação dos bolsonaristas, revelada pelos trackings e que deverá ser confirmada nas próximas pesquisas de opinião, mostra que sua candidatura, já pesada pelas diversas acusações, tornou-se mais pesada ainda e pode perder apoio para outros candidatos do campo da direita. Se houver essa tendência, estará ferida. Não mortalmente, mas a direita chegará enfraquecida ao segundo turno, pois dificilmente a família Bolsonaro o deixará à margem para apoiar outro candidato.

De qualquer maneira, o candidato de direita que chegar ao segundo turno terá competitividade contra Lula, pois o antipetismo continua forte. Se não houver novidades negativas no caminho de Flávio, ele poderá recuperar o apoio dos antipetistas num segundo turno. Sempre é bom lembrar que, mesmo com todos os problemas do mensalão, Lula reelegeu-se em 2006. O eleitorado pregou-lhe um susto no primeiro turno, dando ao governador paulista Geraldo Alckmim 40% dos votos, meta que nenhum outro candidato do PSDB até então tinha atingido. Mas Alckmim, hoje vice de Lula, não teve fôlego para ampliar o eleitorado tucano e terminou o segundo turno com aproximadamente o mesmo índice do primeiro.

Hoje, com a política polarizada como nunca se viu, difícil achar que eleitores dispostos até agora a votar em Flávio mudariam sua escolha para Lula. Os centristas, que podem mudar de voto, terão mais uma vez à disposição a promessa de Lula de um governo de união nacional. Mas terão também candidaturas de direita, como a dos ex-governadores Romeu Zema e Ronaldo Caiado, não atingidos pelo desgaste da família Bolsonaro.

Assim como Flávio prometia ser um Bolsonaro civilizado, também não há garantia de que o quarto governo de Lula será mais ao centro. Mas não há dúvida de que o quadro mudou a partir dos diálogos de Flávio com Vorcaro revelados. O financiamento do tal filme não teria nada demais, não fosse o montante do dinheiro, valor fora da curva para produções nacionais, e a declaração de apoio incondicional que o senador deu ao então banqueiro, mesmo na véspera de ele ser preso tentando fugir do país.

As investigações, ou a delação de Vorcaro, poderão informar para onde foi tanto dinheiro, e qual a motivação dele para além do filme. Não há indicações de que o país se livrará tão cedo da disputa entre direita e esquerda, mas, a depender da argúcia dos candidatos de direita independentes, poderemos ter um campo aberto para a distensão política que os diferencie dos extremismos que vêm dominando o debate. Talvez o eleitorado esteja esperando um discurso mais focado no futuro que no passado. Talvez a oferta de propostas supere o mal-estar que a política atual provoca devido à polarização, não de ideias, mas de pessoas.

São dois líderes populares que, a seu jeito, se aproveitam da rejeição de cada um para vencer uma batalha personalista que não leva em conta o desenvolvimento do país, mas o benefício de seu grupo político. Há anos estamos no dilema de escolher o candidato menos ruim, em vez de projetos. Talvez essa luta autofágica permita aos que não estão nela encontrar um caminho alternativo.

 

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