Folha de S. Paulo
Uso abusivo da máquina pública é das práticas
mais corriqueiras e menos punidas da política brasileira
A culpa não é da reeleição, que quando foi
instituída já ia longe a tradição do uso patrimonialista do Estado
A ofensiva populista do governo em prol da
campanha do presidente Luiz Inácio da Silva (PT) prova que não se deve
subestimar a força do aparelho de Estado. Descortina também o alto grau de preocupação
com o risco de Lula não
se reeleger.
O governo não se afogou nas águas da recusa de uma indicação presidencial ao Supremo Tribunal Federal (STF). Com todas as dificuldades, está bem vivo e sem nenhum constrangimento em fazer uso da máquina pública para atender as necessidades eleitorais do chefe.
Antes que se volte a atribuir essa prática ao
instituto da reeleição, vale lembrar que Lula fez o diabo para eleger Dilma
Rousseff (PT) e, anos antes, quando não havia a possibilidade
de renovação de mandatos no Executivo, o emedebista Orestes
Quércia quebrou o Banespa para levar o correligionário Luiz Antônio
Fleury ao Palácio dos Bandeirantes.
A reeleição foi instituída em 1997, quando já
ia longe a aplicação dos métodos abusivos de poder na política brasileira.
O defeito, portanto, não está na regra, mas
nas pessoas que infringem a lei ao passar por cima dos freios impostos ao
cometimento de abusos. Sem contar a tolerância em alguns casos e, em outros, a
lentidão das punições.
Jair
Bolsonaro recorreu ao método e não deu certo. O desgoverno
golpista e negacionista pesou mais na decisão do eleitorado. Com Lula, é de se
ver o que falará mais alto: as benesses de última hora ou a avaliação do
desempenho do governo nos três anos anteriores em que o sentido de urgência
esteve voltado a outras áreas.
Na economia, concentraram-se as atenções na
arrecadação. Na política, o presidente se ateve à busca de destaque no plano
internacional e ao embate ideológico com a direita emergente. Não usou suas
habilidades políticas para, por exemplo, fazer andar projeto consistente na
segurança pública.
Enfrentou oposição feroz? Assim como outros
governos enfrentaram e contornaram a oposição do PT a reformas essenciais e ao
plano que pôs fim à inflação. Cada um dá o seu jeito.

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