sábado, 2 de novembro de 2019

Carlos Melo* - Reformar os partidos é a saída mais inteligente

- Folha de S. Paulo

Que estabeleçam compromissos e orientem ações

Resultado da revolução tecnológica, a difusão da opinião do homem comum se dá de modo vertiginoso, ao mesmo tempo que métodos antigos de participação política se tornam obsoletos.

Para o bem e para o mal, milhões de pessoas se manifestam e, enganosamente, dizem não necessitar de algo que as agregue para além do algoritmo que as define e as classifica numa “bolha” de visões idênticas e redundantes.

A política sofre e, assim, busca novos caminhos com a crença vã de que é possível abandonar tudo o que antes havia. Isso se dá especialmente em relação aos partidos políticos.

Com efeito, partidos estão em crise: são bem mais lentos e menos inclusivos que as redes. Demoram a deliberar e o fazem, normalmente, por meio de cúpulas pouco representativas. Muitos resultam em cartórios sem representatividade política.

Por isso, acredita-se que deveriam se acomodar como barrigas de aluguel de seus membros. De forma que qualquer controle sobre a opinião e a ação de seus filiados seria ilegítimo; seus parlamentares deveriam agir apenas de acordo com suas consciências, conveniências e conexões nas redes sociais, por exemplo.

Hélio Schwartsman - Quando o efêmero dura

- Folha de S. Paulo

Cada vez mais, pessoas usam a escrita para se comunicar no registro informal

Uma das mais fabulosas tecnologias humanas é a escrita. Ela nos permitiu ampliar a memória para horizontes antes inimagináveis. Não fosse por ela, jamais teríamos atingido os níveis de acúmulo, transmissão e integração de conhecimento que logramos obter. Nosso modo de vida provavelmente não diferiria muito do de nossos ancestrais do Neolítico.

Uma tecnologia assim poderosa não poderia ter passado sem deixar marcas. De início, poucos dominavam as letras, de modo que saber ler e escrever se tornou uma distinção de classe social. À medida que surgiram tecnologias mais eficientes de reprodução (prensa) e o ensino público se popularizou, o alfabetismo se tornou quase universal.

No nível comportamental, havia uma divisão muito clara entre a comunicação formal, calculada, destinada a durar (escrita), e aquela mais íntima, vaga (oral), que, justamente por não deixar traços, podia operar como uma sonda da sociabilidade, testando relacionamentos, fofocando, às vezes até zombando e insultando. O ex-presidente Michel Temer matou a charada ao proclamar: “verba volant, scripta manent”.

Julianna Sofia - Memória fraca

- Folha de S. Paulo

PGR arquivou às pressas menção a nome do presidente no caso Marielle?

Às 10h49 da última quarta-feira (30), o ministro Sergio Moro (Justiça) enviou ao procurador-geral da República, Augusto Aras, ofício pedindo à PGR abertura de uma investigação para apurar as circunstâncias do depoimento do porteiro que cita o presidente Jair Bolsonaro no inquérito do caso Marielle.

Àquela altura do dia, o ministro-advogado do presidente da República já tinha tomado conhecimento de informação ainda ignorada: uma notícia fato encaminhada dias antes ao STF pelo Ministério Público do Rio, comunicando a menção a Bolsonaro, fora analisada e engavetada pela Procuradoria-Geral. Horas depois, o próprio Aras viria a público confirmar a decisão, por considerar a oitiva do porteiro um “factoide”.

Questionado mais de uma vez, o procurador-(indicado por Bolsonaro)-geral não lembra nem sabe informar quando se deu o arquivamento. Foi amnésico ao dizer que provavelmente na própria quarta (30) ou, quem sabe, no dia anterior —na terça (29) à noite o Jornal Nacional revelara o conteúdo do depoimento com a citação.

Demétrio Magnoli* - Esses liberais que adoram o brexit

- Folha de S. Paulo

Liberais britânicos giraram 180 graus e se transformaram em seita anti-Europa

Um Reino Unido atordoado vai às urnas em dezembro. Boris Johnson, o primeiro-ministro conservador, definiu sua campanha como um levante do “povo”, pelo brexit, contra a “elite” que impede uma ruptura radical com a União Europeia (UE).

Os liberais britânicos —isto é, a maioria do Partido Conservador e o Partido do Brexit, de Nigel Farage— transformaram-se numa seita anti-Europa. É mais um sintoma da degradação do pensamento liberal.

Os liberais britânicos giraram 180 graus. Entre 1985 e 1994, quando o francês Jacques Delors conduziu as negociações que concluíram a arquitetura do Mercado Único Europeu, eles ocuparam a linha de frente na batalha contra as resistências protecionistas nacionais. Hoje, renegam o que fizeram, entrincheirando-se num nacionalismo de nítida coloração populista.

No Foro da Liberdade, meses atrás, escutei as razões de um fanático do brexit, o economista Andy Duncan. Ele acusava a então primeira-ministra, Theresa May, e o líder opositor Jeremy Corbyn de subserviência à “elite europeia”. E, desafiando o que sugere o registro histórico, assegurava que Margaret Thatcher teria completado sem demora o serviço do brexit.

Tive, então, que recordar à plateia brasileira o primeiro plebiscito sobre o brexit, realizado em 1975, quando a conservadora Thatcher defendeu a adesão à Comunidade Europeia e o trabalhista Corbyn adotou posição contrária.

Ricardo Noblat - Quem matou, mandou matar Marielle e tentou encobrir o crime

- Blog do Noblat | Veja

Há mais coisas entre o céu e a terra do que imagina nossa vã filosofia

Sabe quando oficialmente o Ministério Público do Rio concluiu que mentira o porteiro do condomínio onde moravam Jair Bolsonaro e o ex-policial Ronnie Lessa? No dia seguinte à edição do Jornal Nacional que fez Bolsonaro protagonizar o maior ataque de um presidente da República a uma rede de televisão.

No último dia 17, quando um grupo de procuradores, sem conhecimento do juiz que preside o inquérito sobre a morte de Marielle Franco, voou a Brasília ao encontro do ministro Dias Toffoli, presidente do Supremo Tribunal Federal, dava-se como possível que o porteiro pudesse ter contado verdades à polícia.

Em dois depoimentos, ele dissera que um homem pedira licença para ir à casa de Bolsonaro. O porteiro telefonou para o número que tinha da casa e “seu Jair”, segundo ele, autorizou a entrada. Em seguida, o porteiro voltou a ligar para dizer que o homem se dirigia a outra casa. E “seu Jair” respondeu que estava tudo bem.

Daí a preocupação dos procuradores de informarem Toffoli a respeito. Porque nesse caso as investigações teriam que ser suspensas. Envolveriam o presidente que tem direito a foro privilegiado. Só o Supremo pode investigá-lo. E diz a lei que ele só pode ser investigado por crime cometido no exercício do cargo.

Mas aí veio a reportagem do Jornal Nacional. Aí o Ministério Público providenciou uma perícia técnica feita e concluída em menos de três horas. Aí o resto é história conhecida. O que falta conhecer é a história completa e verdadeira de quem matou Marielle, quem mandou matar e quem tentou encobrir o crime.

Moro desce mais um degrau

De Ministro da Justiça do Brasil a advogado de Bolsonaro
No balanço de perdas e ganhos, o ministro Sérgio Moro é o que sai pior até este momento no episódio do porteiro que ligou o presidente Jair Bolsonaro ao assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL-RJ) e do seu motorista.

Augusto Aras, o novo Procurador Geral da República, não se saiu bem. De cara, disse que tudo não passou de um “factoide” que só merecia ser arquivado – e arquivou. Mas Aras, por ter assumido o cargo recentemente, tem capital para desperdiçar.

As primeiras pesquisas de opinião encomendadas pelo governo mostram que não houve deserção entre os devotos de Bolsonaro que o veem como uma vítima inocente da Globo e como o santo guerreiro disposto a vencer sua cruzada contra os infiéis.

Impasses do capitalismo contemporâneo

Luiz Gonzaga Belluzzo e Gabriel Galípolo discutem aventuras da alta finança

Por Diego Viana | Eu & Fim de Semana / Valor Econômico

Ao se deparar numa livraria com um volume com “escassez”, “abundância” e “capitalismo” no título, um leitor talvez imagine se tratar de uma obra sobre como o sistema econômico gera ao mesmo tempo volumes cavalares de riqueza e uma terrível miséria. Encontrando esse volume em 2019, talvez espere algo sobre a escassez absoluta que desponta no horizonte de um mundo cujos recursos se esgotam rapidamente, como resultado da atividade que produz, justamente, abundância.

Na verdade, o termo que parece axial no título desponta raramente ao longo de “A Escassez na Abundância Capitalista”, dos economistas Luiz Gonzaga Belluzzo e Gabriel Galípolo. O tema aparece em filigrana nas discussões sobre as aventuras da alta finança na última década, que entregam um mundo menos democrático, com trabalho mais precário, uma juventude desencantada e a expansão monetária em todo o mundo que não consegue reativar a economia.

É uma obra difícil de classificar. A que leitor se destina? Para o público amplo, a riqueza de referências concentradas em pouco espaço e a densidade do texto configuram uma leitura árdua. Só nas primeiras 50 páginas, são brevemente glosados nomes do peso de Thomas Hobbes, Adam Smith, Johann Gottlieb Fichte, Friedrich Hegel, Michel Foucault, Friedrich Hayek, Wilhelm Dilthey, Max Weber, Léon Walras, Jeremy Bentham, Theodor Adorno e Max Horkheimer, entre outros. Essa profusão de nomes também faz com que, a um público de especialistas, possa parecer um trabalho que sobrevoa temas importantes e atuais, sem penetrá-los.

Ainda assim, é possível identificar dois grandes movimentos. O primeiro situa os impasses do capitalismo contemporâneo no curso da modernidade, principalmente pelo ângulo da teoria. O pensamento econômico e o capitalismo são crias do Iluminismo, o que não significa que sejam paradigmas da ação esclarecida. Os autores apontam que, se a economia como disciplina surgiu para ser o braço teórico de uma classe emergente, é natural que se organize de modo a demonstrar as conclusões que já tinha desde o início.

Misha Glenny* - O triunfo e tragédia 1989

- Eu &Fim de Semana / Valor Econômico

Otimismo com a queda do Muro de Berlim, há 30 anos, dá lugar a era de intolerância

Nos anos 80, eu sempre me sentia aliviado ao chegar à Hungria vindo da austera Tchecoslováquia ou da prisão ao ar livre que era a Romênia. Na verdade, naquele período, até mesmo identificar a Hungria como “comunista” já seria forçar a barra. Com um pé no lado ocidental e outro no oriental, o país era descrito desde meados dos anos 60 como “a barraca mais animada do acampamento”.

Por baixo do verniz, no entanto, uma polícia secreta ativa assediava, intimidava e aprisionava a oposição democrática. Esse grupo abrangente de dissidentes teve papel vital em sustentar nos anos 80 os ideais da antiga Revolução Húngara de 1956. O grupo, no entanto, basicamente formado por intelectuais e veteranos daquela revolução, não conseguia arregimentar grande apoio entre as pessoas comuns.

Mas, em 1988, emergiu uma força enérgica e radical. Esse novo grupo fez questão de apenas aceitar membros com menos de 35 anos. Os jovens tomaram as ruas sob sua liderança em números que não se viam desde 1956. Lembro deles marchando ao Orszaghaz, o prédio do Parlamento em Budapeste. Eram destemidos. Marchavam sob o estandarte do Fidesz - a Aliança dos Jovens Democratas.

À frente estava um jovem carismático e bem articulado, proclamando que a era dos comunistas estava chegando ao fim. Ele tinha um inglês excelente e durante esse período o entrevistei em algumas ocasiões para ouvir seu ponto de vista sobre o futuro: democracia multipartidária, liberdade de expressão, imprensa livre e liberdade de reunião. Ele, sem dúvida, me convenceu.
Desde então, Viktor Orbán seguiu em frente e convenceu milhões de húngaros. Só que sua mensagem mudou. Agora, o outrora fervente democrata é o inventor de um híbrido peculiar, a “democracia iliberal”. Ele é a própria personificação dos últimos 30 anos: do autoritarismo à liberdade e da liberdade de volta a um certo tipo de autoritarismo.

Atolados como estamos agora em uma nova era de nacionalismo e intolerância, é difícil conjurar a euforia e o otimismo daqueles dias de novembro de 1989, da queda do Muro de Berlim. A partir de 1991, a violência extrema do desmembramento da Iugoslávia foi um alerta inicial para as sérias dificuldades que seriam enfrentadas pela transição do comunismo ao capitalismo.
Por toda a região, os governos de dissidentes e especialistas técnicos que tomavam posse estavam completamente quebrados. A União Europeia oferecia palavras cordiais e começava a contemplar um plano de integração. A Alemanha, em especial, mas a França também, fez investimentos pesados nas economias da Europa Central.

O Ocidente, entretanto, também encorajou uma passagem rápida, e muitas vezes traumática, das economias de planejamento central para o livre mercado, uma transformação para a qual as enferrujadas instituições dos Estados comunistas não estavam preparadas. O resultado rapidamente ganhou um apelido brutalmente honesto: capitalismo gângster.

Para compreender a emergência de uma cultura de corrupção e a devastação infligida pelo crime organizado, primeiro é preciso voltar ao próprio ápice da Guerra Fria, quando comecei a visitar os países comunistas - primeiro como turista, depois como jornalista e, por alguns poucos anos inebriantes na década de 80, como ativista contrabandeando mensagens de dissidentes sitiados.

Daniel Aarão Reis - Nós somos o povo

- O Globo

Muro caiu e foi derrubado. E se abriu o horizonte da desejada liberdade,sempre instável, perigosa e incerta

Há 30 anos, no dia 9 de novembro, caiu o Muro de Berlim. Ou foi derrubado?

Para a boa resposta, seria aconselhável considerar as condições de sua construção, em agosto de 1961. Não era só um paredão, mas um complexo repressivo, com casamatas, torres, cercas eletrificadas e fossos, e soldados, policiais e cachorros encarregados de reprimir fugas da República Democrática Alemã (RDA) para a República Federal Alemã (RFA).

Como aquilo pudera ter existido?

Houve a proteção da União Soviética. Sem Moscou, ele não teria sido construído. Além disso, consagrou-se um tipo de socialismo, imposto pela força: economia estatizada, ditadura política, partido único e sociedade policiada. Um terceiro ingrediente foi decisivo: a passividade dos EUA e aliados europeus, que se limitaram a denúncias protocolares.

Uma vez construído, o Muro bloqueava o trânsito. Em sentido metafórico, assinalava limites. A doutrina Brejnev da “soberania limitada”, formulada sete anos depois, conferiu-lhe um caráter estratégico. Os regimes socialistas na Europa poderiam fazer o que desejassem, menos se afastar do socialismo. Moscou diria o que era e o que não era socialismo. O esmagamento das insurreições e movimentos populares em Berlim (1953), na Hungria (1956), na Polônia (1956, 1968, 1970 e 1976) e na Tchecoslováquia (1968) atestavam a consequência com que tais princípios seriam assumidos.

Ascânio Seleme - Ódio e nojo

- O Globo

Eduardo Bolsonaro nasceu um mês antes de Tancredo Neves se desincompatibilizar do cargo de governador de Minas Gerais para disputar o Colégio Eleitoral e derrotar a ditadura militar. Saberia nada da repugnância do regime não fossem os livros de História. Ocorre que o garoto foi educado na escola dos professores Jair, Olavo e Eremildo. Os dois primeiros ensinaram a Eduardo que a História fora mal contada, que a verdade estava descrita no livro do torturador Brilhante Ustra. Com Eremildo ele aprendeu a discernir. Deu nisso.

Dizer que um novo AI-5 pode ser baixado se a esquerda radicalizar é parecido com afirmação feita anteriormente de que um soldado e um cabo seriam suficientes para fechar o Supremo. Mais grave, talvez, por supor um quadro que não existe nem na mais sombria das cabeças. A esquerda brasileira não consegue se mobilizar sequer para fazer oposição ao governo, imagine organizar-se para sequestrar aviões e embaixadores ou executar policiais nas ruas.

Foi um delírio extremo, de abundante tolice, que o pai bondoso chamou de sonho ao desautorizar o filho. Enganou-se mais uma vez o presidente. O que se viu foi um pesadelo emulado por uma boca torta. Eduardo Bolsonaro é filho de Jair e pensa como ele. Se pudesse escolher, fecharia o Congresso e o Supremo, empastelaria jornais e editaria medidas de exceção. Prenderia e arrebentaria. Tudo em nome do pai. Alguém duvida?

Míriam Leitão - Dilemas e conflitos da América do Sul

- O Globo

A América do Sul se debate novamente em protestos e conflitos, em clivagens entre direita e esquerda e, no Brasil, em afrontas à democracia. Na economia da região, o dilema é entre ajuste fiscal e investimentos para a redução da pobreza e da desigualdade, mas o único caminho certo é o que concilia os dois objetivos. Eles são complementares. No Brasil, nesses dias, visitou-se o nosso pior pesadelo pela voz do filho do presidente. A reação das instituições foi tão eloquente quando o silêncio dos militares.

Aqui temos dois problemas. O aperto fiscal erodindo políticas públicas e o pesadelo autoritário que o presidente Jair Bolsonaro e dois dos seus filhos gostam de trazer à tona. Eles não têm o poder de golpear as instituições, mas sim um insistente desejo já manifesto inúmeras vezes. É patológico.

Os militares brasileiros fizeram um longo percurso de recuperação de imagem. Agora suas lideranças envolveram-se numa relação simbiótica com o governo Bolsonaro. É o maior risco reputacional que correm em três décadas. O papel diligente com que têm exercido inúmeras tarefas requeridas pelo poder civil, ao longo dos últimos 34 anos, trouxe-lhes boa imagem. Podem perdê-la nas confusões feitas pelo atual governo, que defende uma ideologia esclerosada e torpe, e entra em confronto com vários grupos sociais ao mesmo tempo.

Os militares da ativa não podem se manifestar politicamente, mas sempre fazem saber seu ponto de vista quando lhes convêm. Os que cercam o presidente Bolsonaro falam claramente, mandam recados ao Supremo e a quem eles pensam ser adversários do atual governo. O silêncio dos militares, da reserva ou da ativa, ficou bem alto nos últimos dias. Uma palavra bastaria para que se soubesse que as saudades da ditadura são sentimentos apenas da família presidencial. Sem essa palavra, fica no ar a ambiguidade. E ela beneficia quem tem tentado intimidar o país.

Marcus Pestana - As lições que vêm do Chile

- O Tempo (MG)

Um espectro ronda a América Latina – o espectro da incerteza. O Chile, país que tem os melhores indicadores do continente, explodiu nas ruas. A Venezuela vive sua crônica e dilacerante crise. Na Bolívia, a oposição reclama da manipulação dos resultados eleitorais. O Peru experimenta forte impasse entre o Presidente e o Congresso da República. No Equador, manifestantes invadem o parlamento e o país vive em estado de exceção em função dos protestos contra o fim dos subsídios aos combustíveis.

Na Argentina, os peronistas voltam ao poder, após a fracassada tentativa de ajuste de Macri e escolhem insistir na já derrotada estratégia de congelamento de preços e aumento voluntarista de salários. No Brasil, estamos brincando com fogo numa combinação explosiva entre desigualdade extrema, baixo crescimento, desemprego e instabilidade política e institucional alimentada diariamente. Fora daqui, como aqui, no Líbano e em Hong Kong, a população demonstra que na era das redes sociais tem pouca paciência com as elites, partidos e suas lideranças políticas.

Henrique Geaquinto Herkenhoff* - Crime organizado e estratégia

- O Estado de S. Paulo

Há muito tempo as organizações criminosas brasileiras adotam claramente táticas de guerrilha

À primeira vista, quanto mais criminosos presos – ou, de preferência, mortos – pela polícia, melhor, mas é exatamente o oposto: tanto criminosos quanto insurgentes têm amigos e parentes; a cada adversário morto, surgem muitos outros (The Operators, de Michael Hastings, ou sua versão cinematográfica, War Machine).

Insurgentes se encontram imersos em uma população com diferentes posicionamentos: colaboradora, simpatizante, neutra ou tendente a apoiar as forças legalistas, o establishment. Tanto as forças legalistas quanto as insurgentes devem se esforçar por angariar o máximo de apoio e, principalmente não empurrá-la para os braços dos adversários. Essas pessoas tendem a aceitar como natural a morte de insurgentes em um combate limpo, especialmente se foi deles a iniciativa, mas reprovam as que parecerem injustificadas e, principalmente, as de inocentes.

João Domingos - Em estado de autoflagelo

- O Estado de S.Paulo

Se o País tivesse paz na política, poderia estar numa situação muito melhor

Na tarde de ontem, o presidente Jair Bolsonaro usou a conta pessoal que tem no Twitter para fazer uma comparação entre o primeiro ano de seu governo e o primeiro ano do segundo governo de Dilma Rousseff (2015). Eis a tabela: inflação no governo Dilma, 10,67%, no de Bolsonaro, 3%; juros com Dilma, 14%, com Bolsonaro, 5%; índice da Bolsa no governo Dilma, 38 mil, no governo de Bolsonaro, 108 mil pontos; risco-país sob Dilma, 533 pontos, sob Bolsonaro, 117; PIB de Dilma, -3,8%, de Bolsonaro, 0,8%. Goleada para Bolsonaro.

Certamente seus partidários mais fiéis vão dizer que é um placar semelhante ao 7 a 1 aplicado pela seleção de futebol da Alemanha na seleção do Brasil na Copa da Fifa de 2014, competição que Dilma chamou de “Copa das Copas”, e que para o Brasil foi o vexame dos vexames.

Bolsonaro não disse, mas isso ninguém costuma mesmo dizer, é que os índices econômicos tão diferentes para melhor foram conseguidos por vários motivos, com destaque para dois. O primeiro, é que ele recebeu do presidente Michel Temer uma economia já em recuperação, lenta, mas não mais em depressão. O segundo é que sua equipe econômica trabalha duro e sem interferências mais sérias. Na economia, nem o presidente nem seus filhos criam crises como criam na política. Além do mais, o Congresso decidiu parar de fazer marolas, de votar pautas-bomba. Abraçou as reformas econômicas, passou confiança para o mercado, permitiu que investidores pensem no Brasil como um bom lugar para pôr o dinheiro que têm.

Adriana Fernandes - Desitradação da nova reforma

- O Estado de S.Paulo

O presidente Jair Bolsonaro tem manifestado preocupação com o alcance da proposta que vai criar um novo modelo de contratação dos servidores públicos

A proposta do governo de reforma administrativa que chegará ao Congresso, na próxima semana, corre o risco de se transformar numa versão bem mais minguada do que foi inicialmente pensado pela equipe do ministro da Economia, Paulo Guedes.

O presidente Jair Bolsonaro tem seguidamente manifestado preocupação com o alcance da proposta que vai criar um novo modelo de contratação dos servidores públicos da administração federal, reduzir o número de carreiras, salários iniciais e alterar as regras de progressão para cargos mais elevados.

A cada detalhe mais polêmico da proposta, antecipado pela imprensa, novo freio de arrumação no texto é cobrado diante das pressões contrárias que chegam aos ouvidos do presidente.

Enquanto estava em viagem pela Ásia e Oriente Médio, Bolsonaro conversou com Guedes e os dois acertaram que a reforma não atingiria a estabilidade dos atuais servidores.

A decisão deixou o presidente mais confortável em seguir com as mudanças mais duras para os novos servidores, incluindo a demissão por baixa produtividade, mas não foi capaz de tirar o bode da sala. Como sempre o problema está nos detalhes.

Miguel Reale Júnior* - Por que não falei de flores

-O Estado de S.Paulo

Pelas manifestações do presidente, vê-se estar no ar a tentação autoritária

O Chile foi convulsionado por protestos detonados pelo aumento da passagem de metrô. A população repeliu a elevação de 800 para 830 pesos, correspondentes a R$ 4,73. O salário mínimo é de 301 mil pesos, cerca de R$ 1.715,70, mas a maior parte da população recebe por volta de 400 mil pesos, ou seja, R$ 2.280, bem mais que o percebido por imensa parcela dos brasileiros.

Comentaristas políticos ponderam ser o preço da passagem apenas a ponta do iceberg, pois é a desigualdade social o pano de fundo da insatisfação popular, em face do custo da eletricidade, da água e da crise nos setores de saúde e educação. Acrescem as injustiças do sistema privatizado de previdência, que onera o trabalhador e proporciona proventos irrisórios.
O pelo presidente Piñera decretou o estado de emergência, com interferência das Forças Armadas, o que resultou em confrontos com a morte de 19 pessoas, uma criança entre elas, além de milhares de detenções.

Diante da revolta surgida de modo espontâneo, o presidente do Chile veio a público, com humildade, reconhecer ter faltado visão para entender a dimensão dos problemas, pedindo perdão por ter demorado a agir para corrigir a situação. Anunciou a adoção de agenda social para promover reformas do sistema previdenciário e de saúde, elevar o salário mínimo e reduzir as tarifas de energia. Mesmo assim, na sexta-feira, dia 25, mais de 1 milhão de pessoas foram às ruas em pacífica marcha de protesto.

As dificuldades cotidianamente sofridas pela população, fruto de um modelo neoliberal insensível às penúrias e ao malogro no acesso ao bem-estar, foram reconhecidas pelo presidente chileno.

Raul Jungmann e Flávio Basílio* - Por uma diplomacia ativa de defesa e inovação

- O Estado de S.Paulo

É essencial que os empreendedores contem com apoio para iniciarem seus projetos

No Brasil, a agenda de desenvolvimento industrial é normalmente associada a questões relacionadas a preços relativos, sejam eles derivados de câmbio ou de juros, ou mesmo vinculados a algum mecanismo de proteção ou de reserva de mercado. Mas ao tomarmos como exemplo a economia americana, sempre associamos o desenvolvimento industrial a questões relacionadas à inovação, ao capital humano e ao ambiente de negócios.

Contudo um importante canal de transmissão do desenvolvimento passa despercebido por parte dos analistas e estudiosos: o papel das inversões e das compras militares. Como o processo de inovação é extremamente arriscado e dependente de vultosos investimentos, inclusive no campo da pesquisa básica, é essencial que os empreendedores contem com algum apoio para iniciar seus projetos. Fundada em 1958, a Defense Advanced Research Projects Agency (Darpa) tem esse objetivo e conta com um orçamento para 2019 de US$ 3,44 bilhões.

O modelo Darpa é focado em inversões disruptivas, com foco em pesquisa aplicada no desenvolvimento da alta tecnologia e na resolução de problemas. Outra característica fundamental do modelo é a gestão de projetos ou programas, que são contratados após seleção ou pit por um período limitado, geralmente de três a cinco anos. Com isso se estabelece um fluxo contínuo de novos programas e novas ideias, de modo a transformar questões abstratas em realidade no menor espaço de tempo.

O que a mídia pensa – Editoriais

- Leia os editorias de hoje dos principais jornais brasileiros:

Vivandeiras – Editorial | O Estado de S. Paulo

Ao invocar a possibilidade de edição de um “novo AI-5”, Eduardo Bolsonaro externou o que pensa o grupo que ora está no poder, a começar pelo seu pai, o presidente Jair Bolsonaro

O arroubo do deputado Eduardo Bolsonaro, que invocou a possibilidade de edição de um “novo AI-5” para enfrentar opositores, não foi um exagero retórico. Ele externou o que pensa o grupo que ora está no poder, a começar pelo pai, o presidente Jair Bolsonaro, que passou toda a sua vida como político a lamentar o fim da ditadura.

O objetivo é claro: dar vida ao que deveria estar morto e enterrado. O bolsonarismo desde sempre pretende acostumar os ouvidos da sociedade a ideias autoritárias como solução para os problemas nacionais. O método é escorar-se na liberdade de expressão e na imunidade parlamentar, dois dos pilares da democracia liberal, para acalentar a possibilidade de instalação de um regime de exceção, em que essas mesmas liberdades, entre outras tantas, são sumariamente cassadas.

De certa forma, a eleição de Jair Bolsonaro à Presidência da República, mesmo depois de décadas defendendo reiterada e inequivocamente o regime militar, a tortura, o banimento (e até o fuzilamento) de opositores e o silenciamento da imprensa, é um preocupante indicativo de que parte da sociedade já se deixou seduzir pelo discurso antidemocrático.

Poesia | Carlos Drummond de Andrade - Sentimento do mundo

Tenho apenas duas mãos
e o sentimento do mundo,
mas estou cheio de escravos,
minhas lembranças escorrem
e o corpo transige
na confluência do amor.
Quando me levantar, o céu
estará morto e saqueado,
eu mesmo estarei morto,
morto meu desejo, morto
o pântano sem acordes.
Os camaradas não disseram
que havia uma guerra
e era necessário
trazer fogo e alimento.
Sinto-me disperso,
anterior a fronteiras,
humildemente vos peço
que me perdoeis.
Quando os corpos passarem,
eu ficarei sozinho
desfiando a recordação
do sineiro, da viúva e do microscopista
que habitavam a barraca
e não foram encontrados
ao amanhecer
esse amanhecer
mais noite que a noite.

Música | Rosa Passos - Um vestido de bolero

sexta-feira, 1 de novembro de 2019

Marco Aurélio Nogueira* -Fala joga lenha numa fogueira que horroriza e assusta

- O Estado de S. Paulo

Dado o histórico dos expoentes do bolsonarismo, não chegam a surpreender as declarações do deputado Eduardo Bolsonaro.

Mas elas são espantosas e estão causando profundo mal-estar e ruído na política nacional. “Estarrecedoras”, “irresponsáveis” e “repugnantes” foram os adjetivos mais suaves empregados pelas inúmeras pessoas (militares, parlamentares, juristas, sociedade civil) que repudiaram as declarações do deputado. O pai presidente disse que o filho estava “sonhando” e lamentou que tenha falado o que falou. Pouquíssimos o defenderam. Muitos pediram sua cassação.

Eduardo nem sequer se preocupou com a Constituição e a verdade dos fatos. Para ele, havendo manifestações de rua como as que estão a sacudir o Chile, o tratamento terá de ser policial, duro, violento. “Se a esquerda radicalizar a esse ponto, vamos precisar dar uma resposta. E essa resposta pode ser via um novo AI-5, pode ser via uma legislação aprovada via plebiscito, como ocorreu na Itália”, afirmou.

O deputado talvez não saiba, mas a “resposta italiana” a que se refere ocorreu durante o fascismo, em 1929, quando as eleições foram substituídas por plebiscitos, nos quais o povo dizia sim ou não a uma lista de candidatos escolhida pelo Grande Conselho Fascista.

De uma só tacada, Eduardo falou de “esquerda”, “radicalização”, “inimigos internos” e “guerra assimétrica” sem se preocupar em definir do que está precisamente falando e jogou lenha numa fogueira que horroriza e assusta.

*Marco Aurélio Nogueira, professor de teoria política da Unesp

Eliane Cantanhêde - Leões, hienas e abutres

- O Estado de S.Paulo

As feras estão à solta, mas quem é mais perigoso: hienas ou leões pró-ditaduras?

Assim como o vídeo das hienas, os movimentos do presidente Jair Bolsonaro e dos seus filhos têm um objetivo: mobilizar os “leões conservadores e patriotas”, ou seja, os bolsonaristas. Não exatamente para defender a Pátria, mas para guerrear contra os inimigos, reais ou imaginários.

Bolsonaro e seu filho Carlos brincaram de empurra-empurra no caso do vídeo, retirado das redes depois de poucas horas e muitas reações. Na peça, Bolsonaro é um leão atacado por “hienas”, bichos de péssima reputação: Supremo, partidos, mídia, OAB, ONGs e até a ONU. No final, o “leão conservador e patriota”, representando os bolsonaristas de toda ordem, vem unir-se a ele contra as feras.

Há dúvidas, porém, sobre quem são as feras, principalmente depois que o líder do PSL na Câmara Eduardo Bolsonaro, ex-quase embaixador em Washington, dispensou metáforas e filmetes ridículos e ameaçou o País com a volta do AI-5, o mais demoníaco instrumento formal da ditadura militar, que permitiu fechar o Congresso, perseguir ministros do STF, censurar a imprensa, suprimir as garantias individuais.

Os dois depoimentos nebulosos do tal porteiro do condomínio de Bolsonaro no Rio serviram de carne aos leões e de munição para a guerra contra as instituições. A longa reação do presidente, de madrugada, num país longínquo, saiu da seara da legítima defesa para a do ataque à “hiena” mídia e ao governador Wilson Witzel. Mais uma vez, soou como chamamento irado aos “leões conservadores e patrióticos”.

Fernando Gabeira - Uma certa dimensão do desastre

- O Estado de S.Paulo

A mancha de óleo no Nordeste vem de um oceano castigado, em rápida degradação

O desastre no Nordeste não é apenas desconcertante pelo mistério de sua origem, a imprevisibilidade da aparição do óleo. Ele encerra, espero, um ano de grandes turbulências ambientais no Brasil.

Tivemos incêndios na Amazônia, no Pantanal, no Cerrado, em importantes parques nacionais, como o da Serra do Cipó, chamado de Jardim do Brasil pelo paisagista Burle Marx. Fora do Brasil as coisas também não foram tranquilas, sobretudo com os grandes incêndios na Califórnia.

Incêndios na Amazônia, no Pantanal ou mesmo na Califórnia acontecem quase todos os anos, mas têm sido mais intensos. E em alguns lugares cai a disponibilidade de água.

Tudo indica que entramos numa era irreversível de eventos extremos. Isso num momento em que temos um governo despreparado para encarar essa dramática dimensão. E dificilmente, a julgar pela reação às manchas de óleo no Nordeste, conseguirá acompanhar o seu tempo. Bolsonaro, por exemplo, não foi ao Nordeste, não entendeu a gravidade do problema, não esboçou um gesto pessoal de solidariedade. Isso é o bê-á-bá da conduta de um presidente.

Existem vários fatores que obliteram sua visão. Um deles é entender o desastre ambiental como uma luta política. Achar um culpado à esquerda, desafiar ONGs, enfim, em vez de se preocupar com o oceano, prefere alvejar seus adversários.

Ricardo Noblat - Família que marcha unida permanece unida

- Blog do Noblat | Veja

É tudo combinado!
Quantas vezes você já não viu, escutou ou leu que o presidente Jair Bolsonaro desautorizara a fala ou o gesto do filho tal, do filho tal e do filho tal? O menos desautorizado deles é Flávio, eleito senador, parceiro de Queiroz em rachadinhas mil. É o que fala pouco.

O mais desautorizado é Carlos, o vereador, responsável pelo perfil do pai nas redes sociais e dono das senhas dele. No ritmo que vai, qualquer hora dessas Carlos será ultrapassado por Eduardo, o deputado federal, como o mais desautorizado dos filhos.

Qualquer filho se sentiria mal com tantas repreensões – os garotos Bolsonaro, não. Porque eles jogam de comum acordo com o pai, dizem o que ele quer que digam, falam o que o pai não pode ou não deve falar, aguentam o tranco, e assim o baile vai em frente.

Se levam um pito, entendem que podem ter avançado algum sinal e logo recuam. Mas até nos pitos o pai os defende e indiretamente acaba lhes dando razão. A quadrilha (no sentido de que são três filhos e um pai) toca de ouvido e persegue os mesmos objetivos.

A saber: mais poder; pau forte nos adversários e nos aspirantes a adversários; enfraquecer a democracia, herança da esquerda e de uma direita que sentia vergonha de se dizer direita; e vencer as eleições de 2022 para continuar mandando.

Há método na loucura, não duvide, embora em muitas ocasiões haja só loucura.

Ninguém liga para o general

Luiz Carlos Azedo - Mentes reacionárias

- Nas entrelinhas | Correio Braziliense

“O AI-5, nas palavras do falecido senador Ernâni do Amaral Peixoto, um político conservador, foi “a morte da política”. Nem por isso, a nostalgia de Eduardo Bolsonaro deixa de ser perigosa”

Em A Mente Naufragada, o cientista político norte-americano Mark Lilla explica que o espírito reacionário difere muito do conservador. Trata-se de invocar o passado para nele viver sem transformações, o que é muito diferente da atitude do conservador, que tem o passado e suas tradições como referência para agir no presente e construir o futuro. Partindo da análise das ideias de três pensadores do século XX — Franz Rosenzweig, Eric Voegelin e Leo Strauss —, Lilla investiga a mente reacionária e conclui que naufragou, porque olha para os destroços de um passado que lhe parece ameaçado, e luta para salvá-lo, porque não sabe conviver com as mudanças. Ironicamente, porém, isso faz do reacionarismo um fenômeno “moderno” no mundo da globalização e do multiculturalismo.

Lilla nos ajuda a entender a diferença entre o pensamento conservador, mesmo de viés autoritário, e o pensamento reacionário. E é um autor muito oportuno, porque explica o caráter ideológico do movimento que o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), filho do presidente Jair Bolsonaro, se propõe a organizar no Brasil no rastro da eleição de seu pai. O clã Bolsonaro flerta com a ideias propagadas pelo escritor Olavo de Carvalho, radicado nos Estados Unidos, guru da extrema direita brasileira. Há uma diferença, sutil mas relevante, entre a declaração de Eduardo Bolsonaro a favor da reedição do AI-5 em caso de mobilizações de protestos semelhantes às do Chile e a do general Augusto Heleno, chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), de que seria preciso estudar a forma de fazer isso. Um defendeu a volta da ditadura pura e simples; o outro, embora igualmente autoritário, sabe que os tempos mudaram e a história só se repete como tragédia ou farsa. Diante da reação negativa, o parlamentar se retratou.

José de Souza Martins* – Política dos moinhos de vento

- Eu & Fim de Semana / Valor Econômico

O economicismo do governo brasileiro, sem consideração por limites sociais, é o alicerce de uma política de injustiças. Existe uma geopolítica social da insurgência popular. Boa parte do continente começa a tremer

O presidente, desde a posse, opina belicosamente sobre a situação política de países vizinhos. Tem saudade de Pinochet e de seu fascismo no Chile: as atuais manifestações de rua estariam ocorrendo porque a ditadura militar de lá acabou. Não sabe que acabou faz tempo.

Deu palpites agressivos nos rumos da campanha eleitoral argentina, censurou o candidato de oposição. Manteve pé atrás em relação a governos de outros países. Não sabe que a Segunda Guerra Mundial terminou, que o muro de Berlim caiu, que ideologia não é só a dos outros, mas também a sua. Trava combates como Dom Quixote combatia moinhos de vento. Falta-lhe um Sancho Pança no governo.

Já que se meteu em seara alheia, onde aliás não foi chamado, o presidente vem sendo derrotado politicamente, nestes dias, em todas essas suas “frentes internacionais”. Acaba de perder a eleição na Argentina. Da diplomacia do coturno, diz que sequer vai cumprimentar Alberto Fernández, o vitorioso.

Foi derrotado pela multidão nas ruas do Chile, que protestam contra a política econômica e os retrocessos sociais de Sebastián Piñera, basicamente a mesma política que está adotando aqui, guiado pelo cérebro de quem foi servidor do regime de Pinochet.

Um reajuste no preço das passagens do metrô de Santiago do Chile colocou nas ruas 1 milhão de pessoas em manifestações contra o governo conservador do país. O protesto foi detonado pelos centavos, mas gestado aos poucos pelas medidas e inovações dos gênios da economia neoliberal. Depois de mortos, feridos e prisioneiros, o presidente chileno tentou recuar. Falou de seu apreço pelo teor do protesto popular e pediu a seus ministros que renunciem. Quer recuar para ficar.

Fernando Abrucio* - Defesa da democracia nunca foi tão importante como agora

- Eu & Fim de Semana / Valor Econômico

Temos que seguir o legado intelectual de Wanderley Guilherme: a reflexão sobre a democracia e sua defesa. Isso nunca foi tão importante como agora

Minha geração teve a sorte de ver o retorno do Brasil à democracia. Foram algumas décadas de eleições e avanços no campo dos direitos, tornando-se o período mais longo de manutenção de instituições democráticas em toda a história brasileira. Mas, desde de 2013, o sistema político entrou em crise. O pior vem agora, com a eleição do presidente Bolsonaro e a volta de discursos em prol do autoritarismo. Sombras terríveis do passado, inesperadamente, parecem rondar a nação.

Fazer esse diagnóstico é ainda mais dolorido por causa da morte do mestre Wanderley Guilherme dos Santos, o cientista político brasileiro que mais se preocupou, em profundidade e número de textos, com a questão democrática. Ele começou sua carreira escrevendo um texto premonitório. Era o ano de 1962 e a obra intitulava-se “Quem Dará o Golpe no Brasil”. Wanderley acertou em cheio: os militares tomariam o poder, mas ele também realçou, para desgosto de parte da esquerda da época, que todas as forças políticas não eram então, digamos, muito democráticas.

Wanderley Guilherme iniciava uma geração de cientistas sociais brasileiros defensores da tese de que a democracia importa em si e sem qualificativos. Antes dele, com raras exceções, os pensadores políticos tinham outras preocupações maiores, como a formação da nação ou o desenvolvimento, e para atingir tais objetivos o regime democrático não era necessariamente o caminho desejado. Talvez pudéssemos lembrar de Sérgio Buarque de Holanda e, sobretudo, de Vitor Nunes Leal como precursores da visão democrática professada por Wanderley, mas ambos ainda não tinham investigado tão a fundo de que maneira pode se construir um regime democrático.

O diferencial de Wanderley Guilherme foi, então, não só defender a democracia como um fim em si mesma, mas também procurar compreender as bases políticas que constituem o regime democrático.

Essas bases políticas não prescindem de condicionantes sociais estruturais, mas não se esgotam neles. Eis aqui mais uma novidade que Wanderley trazia ao debate brasileiro, algo que certamente se consolidou em seu doutorado nos Estados Unidos, feito em Stanford e defendido em 1969.

Humberto Saccomandi - Crescer ou dividir? A falsa dicotomia da AL

- Valor Econômico

Desigualdade é um denominador da convulsão na região

A América Latina está em convulsão. Em alguns casos literalmente, como agora no Chile e na Bolívia, ou recentemente no Equador e na Venezuela, com protestos violentos. Em outros casos, o protesto é eleitoral, político, menos violento, mas não menos evidente. A desigualdade certamente é uma das causas principais, mas a falta de crescimento é outro fator importante. Governos da região parecem se concentrar num ou noutro problema. Essa é uma falsa dicotomia.

O caso mais clamoroso é o do Chile, considerado por décadas o país mais estável da região e que há duas semanas é palco dos maiores protestos desde o fim da ditadura de Augusto Pinochet. As manifestações começaram contra um aumento pequeno na tarifa do metrô de Santiago, mas logo cresceram. Não era só pelos 30 pesos.

Nesta semana, o governo do presidente Sebastián Piñera acabou cancelando dois megaeventos que deveriam ocorrer no país neste fim de ano: a cúpula da Apec (associação de países do Pacífico) e a CoP-25 (a conferência do clima da ONU), numa admissão implícita de que os protestos devem continuar.

Sim, há o efeito de o Chile ser vítima do próprio sucesso, isto é, as demandas da população chilena cresceram à medida que o país enriqueceu mais do que os vizinhos. Mas as recentes manifestações expõem uma insatisfação crescente com um modelo econômico que limita o acesso a serviços públicos essenciais, como educação e saúde. O Chile vai bem, mas muito chilenos acham que não estão se beneficiando disso.

Claudia Safatle - Infortúnio de Macri inspira reformas

- Valor Econômico

Após pacote de reformas será a vez do Imposto de Renda negativo

A área econômica do governo resolveu “radicalizar” na proposição de reformas para não cair na mesma vala do presidente Mauricio Macri, da Argentina, que não conseguiu ser reeleito e devolveu o poder aos peronistas. O governo também não quer ficar exposto a um eventual enfrentamento de manifestações de protesto que, no Chile, paralisaram o governo de Sebastián Piñera.

O argumento dos assessores oficiais, porém, é de que o Brasil já passou por movimentos de protesto em 2013 e que a eleição de Jair Bolsonaro foi uma resposta da sociedade às questões então colocadas pelos manifestantes.

Avalia-se, na equipe econômica, que Macri foi lento demais e titubeante na proposição das reformas necessárias para tirar a Argentina da crise. Hoje a situação no país vizinho é dramática: déficit público da ordem de 6% do PIB, recessão (queda de -3,1% do PIB), inflação galopante (de 55% ao ano) e cerca de 35% da população urbana está na linha da pobreza.

O acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI), que daria ao país vizinho acesso a cerca de US$ 57 bilhões, foi considerado pelo presidente eleito, o peronista Alberto Fernández, como “impossível” de cumprir”.

Aqui o governo preparou um pacote de grande porte, com quatro emendas à Constituição (PECs), que derrubam tabus e revolucionam a política fiscal.

O próximo passo, segundo fontes oficiais, será de mudanças radicais também na área social. Pretende-se criar um programa de renda mínima mediante o Imposto de Renda negativo que daria uma nova cara ao Bolsa Família.

Dora Kramer - Circuito de insultos

- Revista Veja

Educação e comedimento estão em baixa na escala de valor social

Transformadas em instrumentos de chantagem e mera pressão, as comissões parlamentares de inquérito perderam a relevância de outrora. Isso, muito em virtude do papel ativo da Justiça, do Ministério Público e da Polícia Federal na investigação de malfeitorias pú¬blico-¬privadas. Baixou-lhes o facho também a falta de moral dos congressistas para atirar a primeira pedra na direção de quem quer que seja.

Uma CPI recente, no entanto, ensaia retomar lugar de destaque no noticiário. Por razões tortas, diga-se. Mista, composta de senadores e deputados, a comissão parlamentar criada com o alegado intuito de destrinchar o universo das notícias falsas divulgadas para difamar e desmoralizar poderia prestar bom serviço ao tema se contribuísse para reduzir o elogio à ignorância vigente no Brasil. Segundo pesquisa do Instituto Ipsos, somos o país onde há o maior número (62%) de pessoas que acreditam nas tais fake news. Só aqui para uma turma de difamadores contar com assento no palácio de governo, o chamado gabinete do ódio.

Nada sugere, contudo, que haverá contribuição positiva para reduzir o tamanho e o alcance da chaga, ao contrário: a julgar pelo elenco de convocados e pelos pronunciamentos já antecipados por seus autores, essa CPMI promete ser uma grande lavanderia de roupa suja, bem ao gosto destes tempos em que a educação e o comedimento andam em baixa na escala de valores da sociedade.

O moderado virou vilão. É chamado de “isentão” em tom de ofensa pessoal

Bernardo Mello Franco - Um jogo combinado

- O Globo

A cada provocação, a família Bolsonaro testa a resistência da democracia brasileira. O jogo entre pai e filhos pode parecer confuso, mas é combinado

A família Bolsonaro tem método. Enquanto o pai insufla seguidores contra as instituições, os filhos fazem ameaças explícitas à democracia.

Ontem o deputado Eduardo Bolsonaro sugeriu a edição de um “novo AI-5”. Apontado como o futuro chefe do clã, ele já havia ameaçado enviar “um soldado e um cabo” para fechar o Supremo.

O AI-5 original foi editado pela ditadura militar em 1968. Suspendeu direitos individuais, instituiu a censura prévia e autorizou o presidente a fechar o Congresso. O ato deu sinal verde para a tortura e a morte de opositores. Significou o endurecimento do regime, cultuado até hoje pelo inquilino do Planalto.

Na época, os militares alegavam que era preciso combater “processos subversivos” e “fatores perturbadores da ordem”. A Guerra Fria acabou, mas Bolsonaro busca o mesmo pretexto ao estimular teorias conspiratórias e insinuar que “inimigos internos” não o deixam governar.

Na entrevista a Leda Nagle, que já apresentou um programa chamado “Sem Censura”, Eduardo alegou o risco de uma radicalização de esquerda. Mas quem radicaliza no país é a extrema direita, que chegou ao poder pelas urnas sob a liderança do capitão.

Rogério Furquim Werneck - Tensões em jogo

- O Globo | O Estado de S. Paulo

É preciso resistir à tentação de afrouxar o teto de gastos para aliviar o incômodo do aperto fiscal progressivo

Nos próximos meses, a condução da política econômica estará submetida a crescente pressão política, de dentro e de fora do governo. Há dois pontos de tensão em que o risco de fadiga deve ser monitorado com atenção: a impaciência com a demora de uma recuperação mais vigorosa da economia e o desgaste decorrente do aperto fiscal progressivo, que vem estreitando de forma muito rápida o espaço para despesas discricionárias no Orçamento.

Para não ter de submeter as convicções do presidente a um teste de esforço mais exigente do que a prudência recomendaria, o Ministério da Economia terá de se desdobrar para tentar aliviar, na medida do possível, as tensões provenientes desses dois pontos. O que estará em jogo é a sustentabilidade política do programa econômico em curso.

Dos dois pontos de tensão, o de alívio menos problemático parece ser o que decorre da impaciência com a demora de uma recuperação mais vigorosa da economia. Mesmo com toda a desestabilização política que tem emanado no Planalto, alguma aceleração do crescimento da economia parece estar a caminho.

Bem mais difícil será aliviar o desgaste imposto pelo aperto fiscal progressivo que, em decorrência do teto de gastos e da expansão ainda descontrolada de despesas obrigatórias, vem exigindo contração cada vez mais drástica de gastos discricionários. O desafio, claro, é conseguir viabilizar tal alívio sem comprometer o esforço de ajuste fiscal que hoje se faz necessário.

Míriam Leitão - Resistir na ciência e na universidade

- O Globo

Governo ataca as universidades sem conhecê-las e persegue cientistas quando não gosta do resultado das pesquisas

Noventa e cinco por cento das pesquisas são feitas nas universidades e mesmo assim 18 mil bolsas da Capes e do CNPQ foram perdidas e as universidades são atacadas pelo governo, lembra o reitor da Unicamp, Marcelo Knobel. A cientista Mônica Lopes-Ferreira, punida por ter divulgado uma pesquisa mostrando que não há dose segura de agrotóxico, disse que a ciência pede respeito. Entrevistei os dois sobre esse tenso momento do país, em que as universidades públicas e a pesquisa científica são alvos de ataque constante.

Mas a sociedade resiste. A Unicamp fez um movimento que mobilizou oito mil pessoas no campus, para a leitura de uma moção de defesa da ciência e da universidade, que uniu alunos de graduação, pós-graduação, professores, funcionários e a reitoria:

— Foi algo inédito em 53 anos. A primeira vez que isso ocorreu, mas a ideia era mostrar para a sociedade a importância da educação pública, da ciência e da tecnologia.

Uma prova da produtividade da universidade é que o faturamento anual das “empresas filhas da Unicamp” chega a R$ 7,9 bilhões, segundo divulgação recente na Agência de Inovação da Unicamp. São empresas fundadas por ex-alunos. A universidade transformou a região num polo de startups em diversas áreas. São 815 empresas que juntas criaram 35 mil empregos diretos.

Hélio Schwartsman - Vale 'secar' a economia?

- Folha de S. Paulo

Em condições normais, todo brasileiro deveria torcer pelo crescimento da economia

O futuro é contingente, mas o fator que, isoladamente, mais contribui para determinar o resultado de uma eleição é o desempenho econômico. Isso significa que um crescimento robusto ampliaria a chance de Jair Bolsonaro ser reeleito em 2022, enquanto uma trajetória mais vacilante multiplicaria a probabilidade de ele cair fora. A pergunta que proponho ao leitor que zela pelo avanço civilizacional é se devemos torcer por uma recuperação forte ou por algo mais titubeante.

Em condições normais, todo brasileiro que não seja um sádico deveria torcer para que a economia do país cresça sempre o máximo possível, independentemente de qual seja o governo. Ainda que a distribuição da prosperidade não seja equânime, ela acaba em algum grau beneficiando a todos. Há algo no governo Bolsonaro que justifique suspender o axioma de torcer a favor e nos autorize a desejar um desempenho econômico claudicante?

Vinicius Torres Freire: Bolsonaros, a normalização da ditadura

- Folha de S. Paulo

Presidente, filhocracia e militância tentam criar ambiente propício ao autoritarismo

Congresso e Justiça serão capazes de conter as tentações autoritárias de Jair Bolsonaro, como já o fizeram no caso das decretações ilegais do presidente e das injúrias antidemocráticas, a mais recente delas contra o Supremo.

É a opinião otimista dos adeptos da tese de que “as instituições estão funcionando”. Seja lá o que esse juízo signifique, é uma opinião que tem de lidar com o fato de que o país passou a discutir a hipótese de uma ditadura, sugestão do líder do partido do governo na Câmara, Eduardo Bolsonaro (PSL-SP).

Apregoar violência contra direitos civis e, agora, políticos torna-se conversa corrente no Brasil, assunto promovido pelo presidente, seus filhos e seus ideólogos, além de reverberado pela militância. Junta-se à pregação da política plebiscitária (na conversa do AI-5, Eduardo também sugeriu “consultas populares” para mudar a lei). Soma-se à adoração do líder, “mito”, que vai “quebrar o sistema”, “nós contra eles”, nem o “isentão” escapa. É um ideário que deseja descartar partidos, saltar a mediação institucional e manipular órgãos de controle, da polícia ao fisco.

Antes aberração e extravagância marginal, as ideias autoritárias do bolsonarismo começam a fazer parte do ambiente e, pela reincidência, tendem à normalização.

Nos últimos dias, a familiocracia e seus ideólogos chamaram de hienas boa parte da sociedade civil organizada e também o Supremo. Bolsonaro pai se desculpou, mas apenas porque não viu que o vídeo do insulto incluía o STF.

Reinaldo Azevedo - Sem mordomo, prendam o porteiro!

- Folha de S. Paulo

Bolsonaro está ensinando como Dilma deveria ter se comportado no petróleo

Desde a terça (29) à noite, quando o Jornal Nacional levou ao ar a reportagem sobre o surgimento do nome do presidente Jair Bolsonaro na investigação do caso Marielle Franco, ao momento em que escrevo esta coluna, experimento um desconforto que poderia ser estético. Algumas sinapses que se fazem por conta própria na minha cachola disparam o alarme: "Como está, a narrativa não faz sentido".

Mas isso não é romance. Chamo a atenção para fios soltos, peças ausentes e comportamentos heterodoxos. E estou certo de que o Ministério Público do Rio é o detentor desses arcanos.

A Globo tem de se perguntar se não caiu numa armadilha, num "entrapment" jornalístico, que serviu para Bolsonaro posar de vítima e herói. Na lógica política, isso descarta Wilson Witzel como fonte da matéria —embora eu nunca especule a respeito.

Digamos que o porteiro tenha se enganado ou recorrido à má-fé em seus depoimentos. Como explicar, no entanto, o registro em livro da entrada do carro, com a placa e o destino: casa 58, justamente a de Bolsonaro?

Bruno Boghossian – A procura de uma crise

- Folha de S. Paulo

Saídas autoritárias são tratadas com naturalidade para testar limite da democracia

Num pedido meio esfarrapado de desculpas, Eduardo Bolsonaro disse que não existe "qualquer possibilidade" de edição de um novo AI-5, como ele mesmo havia sugerido numa entrevista. "Esse não é o ponto que nós vivemos hoje", afirmou.

É preciso ter boa vontade de sobra para crer que o filho do presidente cometeu um lapso. Eduardo disse com todas as letras que, se o governo for ameaçado pela esquerda, pode repetir a medida da ditadura militar que fechou o Congresso e abriu caminho para prisões e torturas.

Antes de se retratar, ele publicou um vídeo para defender o AI-5 e reforçar a tese conspiratória de que as manifestações do Chile são financiadas por regimes socialistas. Divulgou também uma gravação em que o pai exalta um torturador e acrescentou: "Não tenhais medo!".

Eduardo não está só. Sua bravata é um produto da essência do bolsonarismo, em que medidas de exceção são tratadas como cartas na manga.