domingo, 27 de novembro de 2022

Luiz Carlos Azedo - Menos ambição e mais modéstia

Correio Braziliense

Os trilhos nos quais o novo governo deve e pode avançar são o fortalecimento da democracia, com respeito a suas instituições, e uma agenda ambiental de vanguarda.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi eleito sem um programa de governo. Sua estratégia de campanha foi resgatar as realizações de seus dois mandatos, o que não foi suficiente para garantir sua eleição no primeiro turno, mas o deixou na cara do gol, no segundo. Para vencer, porém, teve que ampliar ainda mais as alianças e contar com a rejeição ao presidente Jair Bolsonaro, que era maior do que a sua, para se eleger por estreita margem de votos. Sendo mais específico, Lula teve 3,5 milhões de votos a mais no segundo turno; Bolsonaro, 7 milhões. Com toda certeza, a candidata do MDB, senadora Simone Tebet, os partidos que o apoiaram no segundo turno tiveram um papel decisivo nessa transferência de votos. A chamada "terceira via" foi esmagada pela polarização no primeiro turno, mas não a ponto de não fazer alguma diferença no segundo.

O drama de Lula ao assumir seu mandato é cumprir as promessas de campanha, principalmente o Auxílio Brasil/Bolsa Família de R$ 600 mil, que também serviu de plataforma para Bolsonaro junto às parcelas mais pobres da população, embora esse valor não tenha sido previsto no Orçamento da União de 2023. Lula gerou grande expectativa para os eleitores de baixa renda, principalmente as donas de casa, de que garantiria a comida na mesa, com direito a cerveja e picanha no fim de semana. Essa é a lembrança afetiva do seu governo no imaginário popular, como fora o frango a R$ 1 do Plano Real, na eleição de Fernando Henrique Cardoso, em 1994.

Merval Pereira - Hora da definição

O Globo

Propostas de Jereissatti e Alessandro Vieira abrem caminho para uma solução para a PEC de transição que corresponde à necessidade, com controle fiscal

O desagrado dos agentes do mercado financeiro com a fala do provável futuro ministro da Fazenda Fernando Haddad reflete bem a relação conflituosa entre o presidente eleito Lula e o mundo financeiro que sempre existiu, uma tradução política da tendência anacrônica esquerdista do PT que, depois da China, deveria ter sido adaptada.

Apesar de o pessimismo do mesmo mercado ter sido desmentido na prática no primeiro governo Lula, que deu continuidade à política econômica de Fernando Henrique, ficou um gosto amargo devido ao final do segundo mandato e, principalmente, aos dois mandatos desastrosos de Dilma Rousseff, quando o PT implantou suas ideias econômicas próprias e levou o país a uma grave crise financeira.

Míriam Leitão - A verdade muito além do fiscal

O Globo

O que gera mais incerteza? O golpismo de Bolsonaro ou a falta de definição sobre a âncora fiscal do novo governo?

O ex-ministro Fernando Haddad foi falar com os banqueiros, em nome do presidente Lula, na sexta-feira e defendeu ideias civilizatórias, democracia, normalidade na relação entre poderes e respeito ao pacto federativo. A bolsa caiu e o dólar subiu. A explicação é que acharam que ele foi “vago”. Haddad não podia dar detalhes de coisa alguma, nem ministro é. Mas cabe pensar neste tipo de reação. Bolsonaro abriu guerra com o Judiciário, brigou com estados e municípios, não reconheceu a derrota nas urnas e até hoje conspira contra a democracia. O que gera mais incerteza? O golpismo de Bolsonaro ou a falta de definição sobre a âncora fiscal do novo governo?

Maldita é palavra feia e forte, mas a única possível para definir a herança deixada por Bolsonaro. Há uma devastação no país. Quem seleciona números para dizer que o país melhorou comete erros. Números nada dizem sem o contexto. O orçamento é inexequível. E é também uma arapuca que está tirando capital político e drenando as forças do governo eleito.

Na economia, a arrecadação subiu? Sim, mas em grande parte pela alta da inflação, o que é uma forma espúria de melhorar os dados fiscais. Algumas despesas cresceram em ritmo menor? Sim, mas porque não houve aumento real de salário mínimo em quatro anos e os salários dos servidores civis foram congelados, enquanto os dos militares subiam. A visão seletiva de alguns indicadores não permite uma análise do que está ocorrendo no país.

Elio Gaspari - Arthur Lira arrastou as fichas

O Globo

Presidente da Câmara colocou uma boa parte do Centrão no colo de Lula, antes mesmo de o governo ter começado

Goste-se ou não do deputado Arthur Lira, nas últimas semanas ele foi um mestre. Durante a campanha, Lula condenava sua posição de senhor das verbas do orçamento secreto. No dia da eleição, ele foi um dos primeiros a reconhecer o resultado. Nos dias seguintes, jogou parado enquanto o comissariado petista se enrolava com a PEC da Transição.

Passaram os dias, e no PT já se admite que ele seja reeleito para a presidência da Câmara. Só um sonhador poderia acreditar que um governo obrigado a enfrentar uma oposição feroz seria capaz de aprovar uma emenda constitucional, com os votos de três quintos da Casa, hostilizando seu presidente. O senador Renan Calheiros avisou que a PEC era uma barbeiragem, mas não foi ouvido.

Em poucas palavras, Lira colocou uma boa parte do Centrão no colo de Lula, antes mesmo de o governo ter começado. Na contrapartida, colocou uma parte dos planos de Lula no colo do Centrão.

O que parece ser um amargo limão poderá ser uma limonada. Lula precisa da paz política e, desde o século passado, o Centrão a oferece.

O problema está na relação do Planalto com os congressistas. Em seu primeiro mandato, Lula deixou que as coisas deslizassem para o mensalão e deu no que deu. Quando os maus costumes voltaram a explodir, já no governo de Dilma Rousseff, a encrenca estava na Petrobras e nas empreiteiras.

Bernardo Mello Franco – A polícia de Bolsonaro

O Globo

Criada para patrulhar rodovias, corporação virou braço armado do projeto de Bolsonaro

As instituições começaram a funcionar para Silvinei Vasques. O diretor-geral da Polícia Rodoviária Federal virou réu por improbidade administrativa. É acusado de usar a estrutura e a imagem do órgão para favorecer a candidatura derrotada de Jair Bolsonaro. Vasques chegou ao cargo graças à proximidade com o primeiro-filho Flávio Bolsonaro. Nos últimos anos, encarnou como ninguém o aparelhamento do Estado a serviço do clã presidencial.

Na ação, o Ministério Público Federal enumerou oito momentos em que o policial fez campanha pelo capitão — sempre de farda e ostentando o distintivo da PRF. Em entrevista a uma rádio governista, chamou o presidente de “mito”. Em solenidade, entregou ao ministro da Justiça uma camisa com o número do candidato à reeleição. A série culminou com um pedido explícito de voto. Na véspera do segundo turno, Silvinei publicou a foto de uma bandeira do Brasil. A legenda parecia uma ordem aos subordinados: “Vote 22 — Bolsonaro presidente”.

Felipe Nunes e Thomas Traumann* - Eleição que calcificou o país

O Globo

Decisão do voto deixou de ser só a expressão de uma preferência política e passou a ser manifestação de uma identidade

Ao final da eleição de 2018, achávamos que o Brasil havia experimentado uma ruptura, em que as campanhas de TV e rádio, o uso da máquina pública e o financiamento eleitoral deixaram de ser ferramentas decisivas. Quatro anos depois, os fatos mostraram que a vitória de Jair Bolsonaro não foi uma ruptura — um evento capaz de interromper definitivamente uma tendência observada na História —, mas um acontecimento fora da curva. A derrota de Bolsonaro em 2022 mostrou que, mais que os instrumentos de campanha, são as profundas divisões na sociedade brasileira que determinam o resultado.

A campanha de 2022 mostrou que a decisão do voto deixou de ser apenas a expressão de uma preferência política e passou a ser manifestação de uma identidade. O interessante é que não se trata de mera compatibilidade partidária, mas de uma identidade consolidada em torno do sentimento do que é ser petista ou antipetista. Tomando emprestado um termo usado pelos cientistas políticos John Sides, Chris Tausanovitch e Lynn Vareck para descrever a polarização nos EUA pós-Donald Trump, a eleição de 2022 no Brasil calcificou o mecanismo de escolha, em que os interesses perderam força para as paixões.

Dorrit Harazim - Verde-amarelo

O Globo

Coube ao capixaba Richarlison pegar este Brasil ainda inseguro e presenteá-lo com felicidade cristalina, leve, livre e solta

F. Scott Fitzgerald dizia não acreditar muito na felicidade. Nem na miséria humana, por sinal. “São coisas que você vê no palco, nas telas de cinema ou em livro. Mas elas nunca acontecem de fato na sua vida”, escreveu em 1933. Talvez o celebrado autor de “O grande Gatsby” não tenha sido posto à prova. Fosse ele brasileiro votante em 2022 e tivesse conseguido barrar nas urnas a reeleição do presidente Jair Bolsonaro, Fitzgerald talvez concordasse que a vida real comporta, sim, momentos de real felicidade. E, se tivesse podido assistir ao gol voador de Richarlison na Copa do Mundo do Catar, na tarde de quinta-feira, dificilmente resistiria ao arrastão de alegria, felicidade e júbilo que contaminou a nação. Houve os que resistiram, aglomerados em frente a quartéis e abduzidos pela miragem de uma reviravolta golpista. Jamais saberão o que perderam: o instante certo para estar do lado certo da História.

Hélio Schwartsman - O valor dos símbolos

Folha de S. Paulo

Equipe de transição parece mais coluna social que grupo de trabalho

Com mais de 400 integrantes e aumentando, a equipe de transição de governo de Luiz Inácio Lula da Silva parece mais um recorte de coluna social do que um grupo de trabalho. Desde que não tenham se esquecido de incluir algumas pessoas que vão efetivamente reunir informações para depois repassá-las aos futuros ministros, facilitando os primeiros passos da futura administração, não penso que seja um mal.

Eu diria até que, depois de quatro anos de trevas sob Bolsonaro, o país precisava de algo assim, um espaço simbólico no qual indivíduos com as mais diferentes orientações políticas e ideológicas possam se reunir civilizadamente para traçar diagnósticos e debater políticas públicas.

O presidente eleito também está usando as nomeações para sinalizar que, de sua parte, não haverá disposições revanchistas. Prova-o o convite a Alexandre Frota para que se incorporasse à equipe. Frota, que acabou desistindo de assumir o posto, é um ex-bolsonarista que se elegera deputado como um dos mais estridentes críticos do PT e de Lula.

Bruno Boghossian - Lula, o superministro

Folha de S. Paulo

Autoridade concentrada no presidente eleito trava articulações e sinais sobre economia

No mesmo dia, dois petistas que frequentam o círculo de conselheiros de Lula admitiram que a equipe de transição está com problemas. O senador Jaques Wagner disse que a falta de um ministro da Fazenda atrapalha a proposta para alargar o Orçamento de 2023. A presidente da sigla, Gleisi Hoffmann, não gostou do comentário e afirmou que a principal falha é a articulação política.

No fundo, os dois auxiliares do presidente eleito têm razão. A mais de um mês da posse, Lula não tem nenhuma obrigação de revelar seus ministros. A ausência de nomes para comandar as principais áreas do governo, no entanto, passou a travar alguns pontos do trabalho da equipe de transição.

Muniz Sodré* - O barato do absurdo

Folha de S. Paulo

Mark Twain tem algo a dizer aos perplexos com o embotamento das faculdades mentais de extremistas

"É mais fácil enganar as pessoas do que convencê-las de que foram enganadas". Assim, "nunca discuta com pessoas estúpidas, porque vão lhe arrastar para o nível delas e acabar vencendo por experiência". Estas duas boutades ferinas de Mark Twain podem servir de guia para os perplexos com o embotamento das faculdades mentais de extremistas.

De fato, é tarefa inglória argumentar sobre o grau de realidade de um fato, quando o interlocutor foi emocionalmente capturado por outra certeza, absurda. O fato: TSE, STF, militares, observadores internacionais, governantes à esquerda e à direita no mundo reconhecem a lisura das eleições brasileiras. Mas um empresário retruca: "Creio que é fraude. Mandei caminhões para protestar".

Janio de Freitas - Estes dias árduos

Folha de S. Paulo

Notas desnudam persistência antidemocrática do bolsonarismo militar

O encadeamento é eloquente. Surpreendente, não. O golpismo, como associação de primarismo e perversão, não se extingue pela luminosidade de um resultado eleitoral honesto. Como a outra criminalidade, menos pretensiosa e mais disseminada.

A obstrução simultânea de estradas por todo o país indica, nos apoios como alimentação gratuita, banheiros e faixas e símbolos idênticos, uma coordenação nacional do protesto. Danos se acumulam, mas a pressão persistente do tal mercado é só contra a falta de indicação imediata do novo ministro da Fazenda/Economia. Às estradas, segue-se a ocupação pedestre das frentes de quartéis.

Instalado esse ambiente, os comandantes da Marinha, do Exército e da Aeronáutica emitem nota que se pretende dúbia, mas sua aceitação dos atos golpistas é clara. Até estimulante. O ministro da Defesa, general Paulo Sérgio Nogueira, volta ao assunto das urnas, com tergiversações para o reconhecimento de que os repentinos experts do Exército não detectaram sequer indício de uma falha, uma que fosse, para desqualificar as urnas e a apuração.

Vinicius Torres Freire - Lula 3 ainda sem rumo econômico

Folha de S. Paulo

Fala do petista foi tida como sinal de que não há plano para a dívida

Nenhuma pessoa sensata esperava que Fernando Haddad fosse ao almoço anual dos banqueiros para fazer um discurso de ministro da Fazenda ou que anunciasse diretrizes concretas da política para gastos e dívida do governo Lula 3.

Foi o que disseram os próprios executivos financeiros que foram ao almoço da Febraban, na sexta-feira. O que chamou a atenção de várias dessas pessoas foi:

1. Haddad não deu sinal de que Luiz Inácio Lula da Silva tenha algo a dizer de diferente do que vem afirmando desde que deu sapatadas na ideia de controle do endividamento público;

2. Haddad falou de reforma tributária, inadimplência e estabilidade a fim de ocupar o tempo, de modo a não tratar de nenhum assunto espinhoso;

3. Haddad não teve autonomia para nada, "falou menos que a equipe da transição na economia"; foi para representar Lula do modo mais "neutro" possível, o que é "compreensível", mas insuficiente;

4. Haddad disse que a "qualidade" do gasto público precisa melhorar, o que ninguém discute. Mas, como foi "omisso" sobre a "quantidade", deu um "sinal desconfortável".

Gente mais irritada disse que "Haddad e o PT estão fora da realidade". Que o governo do PT ainda está "perdido ou vai seguir o que o Lula disse depois da eleição".

Gente mais analítica, por assim dizer, afirmou que o tempo do governo para publicar as diretrizes de um programa econômico e nomear uma equipe está acabando. Ainda assim, essas pessoas mais neutras dizem que, sem equipe, "não adianta especular" e que "ainda é possível corrigir tudo, basta querer".

Eliane Cantanhêde – Lula entra em campo

O Estado de S. Paulo

Instalado em Brasília, Lula deve anunciar os primeiros nomes do governo

Treino é treino, jogo é jogo e a transição começa para valer nesta semana, com a chegada do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva a Brasília, já recuperado da inesperada cirurgia das cordas vocais e, atenção, pronto para anunciar os primeiros e mais significativos nomes do ministério.

Essa é uma das questões centrais, pela ansiedade e pelas pressões que provoca, não só do mercado, mas do setor produtivo, dos candidatos a ministérios e de todas as áreas. E o foco recai, evidentemente, sobre o novo ministro da Economia: nome, passado, ideias, personalidade. Ou seja: o que ele projeta.

Lula já causou estresse desnecessário ao dar de ombros, duas vezes, à estabilidade fiscal. Agora, joga Fernando Haddad no fogo, também duas vezes, ao deixar vazar seu nome na Fazenda, com Persio Arida no Planejamento, e despachá-lo para um almoço na Febraban de uma hora para outra, exatamente no meio do falatório sobre a equipe econômica.

Rolf Kuntz - A piada pronta e a ameaça golpista

O Estado de S. Paulo

Antes de deixar a Presidência, Bolsonaro planta aliados na Comissão de Ética e, por ora, nada permite prever a moderação de seus seguidores antidemocráticos e violentos

A semana começou com uma piada pronta, Jair Bolsonaro recorrendo a uma comissão de ética, mas a graça logo sumiu, quando golpistas alinhados ao presidente derrotado intensificaram bloqueios de estradas e violências contra pessoas. As manobras chegaram também à Justiça. A tentativa do presidente do PL, Valdemar Costa Neto, de contestar de novo a eleição foi parte de mais um conjunto de ações antidemocráticas lideradas ou apoiadas pelo chefe de governo. A jogada foi repelida e punida pelo presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Alexandre de Moraes, com multa de R$ 22,9 milhões e bloqueio do fundo partidário. Dirigentes do PP e do Republicanos, partidos da coligação bolsonarista, negaram envolvimento na ação e deixaram o PL sozinho na aventura. Faltam, no entanto, autoridades policiais empenhadas em reprimir o banditismo bestial voltado até contra crianças.

Cristovam Buarque* - Doutrina Lula

Blog do Noblat / Metrópoles

Manter relações diplomáticas com diversos polos nacionais e multinacionais, mas com política externa orientada para o conjunto do mundo

No começo do século XX, o Ministro Barão do Rio Branco percebeu que o polo das decisões mundiais migrava da Europa para os Estados Unidos. Abriu a embaixada em Washington-DC e nomeou para embaixador Joaquim Nabuco, um dos mais respeitados políticos da época. Um século depois, o Ministro Celso Amorim e o Presidente Lula perceberam que a política internacional saia do polo norte-americano e ingressava em um mundo multipolar. A política externa brasileira adquiriu presença internacional e foi capaz de se relacionar com o mundo inteiro.

José Goldemberg* - Ciência, tecnologia e reindustrialização

O Estado de S. Paulo

Em vez de ‘fechar’ o País, Brasil deveria ter adotado o ‘pulo do gato’ que um dia a Coreia do Sul deu. Novo governo pode reverter este processo

A reindustrialização do Brasil é uma das prioridades que o presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva elencou na sua primeira declaração pública. Esta é uma declaração da maior importância, porque a reindustrialização vai afetar de maneira positiva todas as atividades de pesquisa e ensino superior do País e da educação em geral, duramente atingidas pelas políticas de indiferença e descaso que o atual governo adotou nos últimos quatro anos.

O sucesso do setor agropecuário no Brasil – que nos levou a ser um grande produtor e exportador de grãos – deve muito à atividade de pesquisa e difusão da Embrapa e de algumas excelentes escolas de agricultura, como a Luiz de Queiroz, da Universidade de São Paulo (USP), a de Viçosa e outras. Não só tecnologias para enriquecimento dos solos foram desenvolvidas, como também pesquisas científicas de ponta permitiram a seleção de melhores cepas e o consequente aumento da produtividade.

Em contraste, parte da indústria se manteve operando com tecnologias obsoletas, sem incentivos para procurar as universidades e institutos de pesquisa para ajudá-la a resolver seus problemas e aumentar sua produtividade.

As causas para este atraso são antigas e, na análise de Edmar Bacha, se devem à adoção de um modelo de desenvolvimento baseado na proibição de importações para estimular a produção de similares nacionais.

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

Lei para combater desinformação precisa melhorar

O Globo

Sem legislação que atribua deveres a plataformas digitais, ônus de proteger a democracia recairá sobre Judiciário

Os quatro anos de governo Jair Bolsonaro são sem dúvida o mais duro teste enfrentado pela Constituição de 1988, promulgada para restabelecer direitos civis esmagados durante 21 anos de ditadura militar. Apesar de todas as ameaças contra a democracia, que partiram do próprio Palácio do Planalto, as instituições resistiram, as eleições foram realizadas e vencidas pelo candidato de oposição, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

A vitória de Lula impede que Bolsonaro permaneça no Planalto por mais um mandato, mas ao mesmo tempo acirra o sentimento que mobiliza manifestações golpistas em torno da narrativa conspiratória que ataca a urna eletrônica e vê a tábua de salvação na intervenção militar. Na atual circunstância, tal movimento não tem condição de prosperar. Ainda assim, precisa ser combatido pelas instituições.

Tal combate, cujo protagonismo foi assumido pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), deixou claro que o arcabouço jurídico brasileiro se mostra incapaz de enfrentar a contento as ameaças à democracia, especialmente as que usam o meio digital. Para combater a enxurrada de desinformação e deter essas ameaças, o TSE lançou mão de expedientes inéditos, por vezes questionáveis, como o bloqueio de contas em redes sociais, o veto a expressões ou conteúdos, mesmo quando publicados em veículos de imprensa, e, na semana passada, uma multa de R$ 23 milhões aplicada ao partido do candidato derrotado.

Poesia | Ausência - Vinicius de Moraes - Sonoridade Literária

 

Música | Milton Nascimento - Coração de Estudante - part. Wagner Tiso

 

sábado, 26 de novembro de 2022

Marco Aurélio Nogueira* - As transições que nos desafiam

O Estado de S. Paulo

O governo Lula não poderá ser do PT. Sua melhor chance de sucesso é ser um governo de coalizão, plural e aberto a diversos partidos

Não se fala de outra coisa. Todos querem saber como passaremos do governo Bolsonaro para o governo Lula. É compreensível. Motores potentes turbinam o evento: o espetáculo em si, a disputa por espaços políticos, a composição ministerial, a ansiedade.

O novo governo está recebendo dados e ideias. O desenho é para que tudo dê certo. Mas até as pedras sabem que nada será fácil ou tranquilo.

Antes de tudo, porque já não se vive mais nos anos dos primeiros governos petistas. Nem na economia, nem na política e na cultura. A época problematiza a democracia no mundo. Partidos não funcionam mais como antes. Políticos estão sendo substituídos por “engenheiros do caos”. Uma guerra cultural permanente fomenta uma versão não liberal e autoritária de governo, impulsionada por agitadores, mídias de opinião, redes de desinformação. Busca-se criar instabilidade e deslegitimar governos, explorando o que há de declínio da confiança social na política e na democracia. O trumpismo se liga ao bolsonarismo, que se liga ao putinismo, ao orbanismo, a formas variadas de negacionismo, de antiglobalismo, de ataques ao progressismo.

Ascânio Seleme - Haddad na Fazenda aponta para 2026

O Globo

A indicação de um nome para o Ministério da Fazenda ajuda nas negociações da PEC da Transição, mas a possível nomeação de Fernando Haddad para o cargo tem um sentido maior e ulterior. Ela mira desde já a eleição de 2026. O mais testado e reconhecido quadro petista, Haddad está se preparando e sendo preparado para a era pós-Lula. Ainda há no PT muitos que acreditam que o presidente eleito vai concorrer à reeleição, mas mesmo estes admitem que é fundamental ter um Plano B. Para outros, e não poucos, Haddad é o Plano A.

Para estar em condições de concorrer e vencer uma eleição presidencial, Haddad terá que estar nos próximos quatro anos sob intensa luz. A visibilidade é uma das mais importantes premissas de uma candidatura majoritária. Ensinam os especialistas em pesquisas que a luminosidade dá ao candidato a possibilidade de uma largada competitiva. Se voltar para a Educação, o petista pode até fazer um bom trabalho, mas jamais terá os holofotes que a Fazenda lhe garantiria. Claro que o exemplo de José Serra mostra que é possível emergir de uma pasta importante mas lateral, fora do foco político, para o centro. Entretanto, as circunstâncias que encaminharam a eleição de 2002 não estão presentes agora.

Eduardo Affonso - As massas e os messias

O Globo

São pessoas que se desconectaram de si mesmas e embarcaram num delírio coletivo. Não necessariamente por desinformação

Nos anos 80, ocupavam a Cinelândia, no Centro do Rio. Resistiram algumas décadas — hoje não há mais vestígios do que um dia foi a aguerrida Brizolândia. Em 2018, começaram uma vigília em frente à Superintendência da Polícia Federal, em Curitiba. Por 580 manhãs, renovavam sua fé gritando: “Bom dia, presidente Lula!”. Desde o segundo turno das eleições de 2022, estão acampados diante de quartéis ou bloqueando estradas.

Muda a cor das roupas e bandeiras — sai o vermelho, entram o verde e o amarelo. Mudam as palavras de ordem: “Lula livre!”, “Intervenção militar!” e... (o que é mesmo que queriam os brizolistas, além de lutar contra as “perdas internacionais”?). Em comum, a inabalável fé num messias. E a negação — do resultado de eleições, da condenação ou do ocaso do seu líder, do seu capitão, do seu salvador. Nunca chegam a formar multidões — talvez daí o empenho em fazer tanto barulho.

Winston Fritsch* - Um presidente verde

O Globo

É na área do clima, da transição energética e do meio ambiente que Lula tem tudo para entrar para a História

O Brasil é o que podemos chamar de uma jabuticaba climática. Temos matriz energética extremamente limpa, representando apenas 20% das nossas emissões brutas de gases de efeito estufa, ante 80% no mundo. Entretanto nada menos que 46% das emissões do Brasil em 2022 vieram de “mudanças no uso da terra e florestas”, eufemismo usado para o gás carbônico proveniente, principalmente, de um vergonhoso desmatamento de florestas, que nos torna o quinto maior emissor do planeta.

Menos conhecida é a evolução da extensão desse desmatamento. A destruição do Cerrado e de sua área de transição amazônica foi avassaladora durante a rápida expansão da fronteira agropecuária pelo Centro-Oeste nas últimas décadas do século XX. O crescimento do desmatamento foi revertido em 2004 pela implantação de sistema eficiente de monitoramento e controle na Amazônia, mas voltou com força em anos recentes — em 2022, subiu assustadores 23,6%, segundo dados do Observatório do Clima (www.seeg.com.br) —, destruindo a alta credibilidade conquistada pelo Brasil nas negociações multilaterais do clima.

Ricardo Henriques - Refundar a trilha do conhecimento

O Globo

Nos últimos anos, abusamos da ignorância. É hora de voltarmos a planejar o futuro, com investimento público ampliado

Da creche à pós-graduação, todos os níveis educacionais no Brasil sofreram nos últimos anos os efeitos devastadores da pandemia e do descaso do governo Bolsonaro. Entre tantas urgências – e todas precisarão ser enfrentadas –, uma é a recomposição do ecossistema de ensino superior, científico e tecnológico.

Um estudo divulgado neste mês pela Frente Parlamentar Mista da Educação e pelo Observatório do Conhecimento estimou que o chamado orçamento do conhecimento – composto pelo investimento em ensino superior público e pesquisa – poderá ter no ano que vem um valor 58% abaixo do registrado em 2014.

Esse sangramento desestrutura o desenvolvimento científico, econômico, social e ambiental. E é sentido de várias maneiras, como na falta de recursos em instituições federais de ensino técnico e superior para a execução de despesas mais básicas e para bolsas de apoio a estudantes e de iniciação científica.

Cristina Serra - Nardes e o insulto à democracia

Folha de S. Paulo

Áudio vazado elimina qualquer vestígio de impessoalidade do ministro

ministro do TCU Augusto Nardes tomou chá de sumiço, valendo-se de conveniente licença médica depois do vazamento de sua conversa de teor golpista com interlocutor do "time do agro".

É esse "time" que tem financiado os bloqueios em rodovias que contestam a vitória de Lula. O site "De Olho nos Ruralistas" levantou a ficha de Nardes e de parentes dele, conectados em intrincada rede de empresas. A esposa do ministro, Adriana Beatriz Freder, é sócia da NPC Mineradora e Incorporadora Ltda. A empresa conseguiu quatro autorizações para pesquisar diamantes no Piauí, duas delas no governo Bolsonaro. No mesmo endereço da NPC, em Brasília, funciona a Progresso Participações, que tem como sócio o próprio Nardes.

Alvaro Costa e Silva - Golpista demais se atrapalha

Folha de S. Paulo

Brasil adota o cambalacho como nova identidade nacional

Aviso aos internautas: há um novo golpe, de simples funcionamento, envolvendo nudes. Homens recebem fotos e depois passam a sofrer chantagem e extorsão, para que não sejam denunciados por pedofilia. Uma única quadrilha movimentou mais de R$ 5 milhões, fazendo vítimas em todo o país. É outra das bem-sucedidas vigarices virtuais que substituíram os contos do vigário aplicados nas ruas.

O Brasil não tem a exclusividade do cambalacho, mas ocupa atualmente um lugar de vanguarda e experimentação. É como se tivéssemos abandonado antigos comportamentos de nossa identidade caseira — o jeitinho, a carteirada, a cervejinha do guarda — para passar à condição de golpistas de fama internacional. A prova foi a prisão nos Estados Unidos de uma mulher que se dizia guru espiritual e namorada de Leonardo DiCaprio; na verdade, ela comandava uma rede de prostituição.

Demétrio Magnoli - O código de Infantino

Folha de S. Paulo

Discurso do presidente da Fifa justifica violações de direitos

Gianni Infantino, o suíço-italiano que preside a Fifa, é um cara esperto, antenado com os discursos da moda. Antes da abertura do evento, numa conferência de imprensa, ele pronunciou um monólogo de quase uma hora destinado à defesa do Qatar como sede da Copa. Nele, partiu com a bola dominada para o ataque, acusando o Ocidente de hipocrisia terminal.

Não é o Qatar que deve se emendar, tratando os operários migrantes segundo regras trabalhistas civilizadas e os LGBT como cidadãos plenos, clamou em tom apaixonado. É o Ocidente que, vergado sob o peso de culpas históricas irremissíveis, precisa oferecer desculpas ao emirado do Golfo Pérsico.

Infantino tinha diversos esquemas viáveis para montar uma retranca. A ditadura totalitária chinesa promoveu duas Olimpíadas separadas por apenas 12 anos, passando quase incólume. A Rússia, sede da Copa de 2018, não restringe com menos fervor os direitos dos LGBT. Por que singularizar o Qatar?

João Gabriel de Lima* - Um romance que é como o Brasil

O Estado de S. Paulo

O Brasil independente tem 200 anos, e está na hora de encarar os fantasmas de nosso passado

A escritora Maria Firmina dos Reis nasceu em 1822, mesmo ano em que d. Pedro I deu o grito do Ipiranga. No ano em que se comemora o bicentenário da Independência de nosso país, vale ler o romance Úrsula, publicado pela primeira vez em 1859. Maria Firmina dos Reis é a autora homenageada na Festa Literária de Paraty, a Flip, que ocorre nesta semana na cidade histórica fluminense.

O romance Úrsula é um pouco como o Brasil. Aparentemente, trata-se de um folhetim sobre o amor impossível entre a personagem-título, que sofre nas mãos de um vilão cruel, e seu interesse romântico, o bacharel Tancredo. À medida que a história se desenrola, instalase um núcleo secundário, como nas tramas da televisão. O jovem Túlio, o atormentado Antero e a experiente Mãe Suzana aos poucos roubam a cena. Os três são negros escravizados. Irrompem em meio à fantasia romântica para mostrar a face real do Brasil do século 19.

Adriana Fernandes - Haddad e a escolha da reforma ‘do Appy’

O Estado de S. Paulo

Para aprovar a tributária, o governo precisa querer de fato apoio no Congresso

O mercado financeiro reagiu mal às declarações do petista Fernando Haddad no almoço anual da Federação Brasileira de Bancos (Febraban). Cotado para a cobiçada cadeira de ministro da Fazenda, Haddad, na avaliação dos operadores, não teria correspondido à expectativa em torno da PEC da Transição e um compromisso maior de responsabilidade fiscal.

É bem verdade que ele poderia ter falado as frases de efeito em torno do compromisso fiscal que tanto o mercado gosta para fazer e realizar suas apostas. Essas palavras poderiam ter sido ditas à exaustão que em nada mudariam a desconfiança do mercado com os compromissos de sustentabilidade da dívida pública num governo Lula.

Marcus Pestana - Sistema partidário: passado e futuro

Eu adoro a frase do ex-ministro da fazenda Pedro Malan que revela, com crueza e humor, a nossa vocação crônica para a instabilidade: “No Brasil, até o passado é imprevisível”.

E eu, aqui, em plena Copa do Mundo, falando de legado e aprendizado das eleições de 2022, quando uma parte minoritária de lideranças e da sociedade insisti em questionar os resultados do pleito e nosso sistema de votação e apuração, em guerra aberta contra o TSE, propondo um retrocesso inaceitável, quando as mesmas urnas eletrônicas é que determinaram a vitória de Bolsonaro em 2018, o crescimento da representação da direita no Congresso Nacional no primeiro turno e as eleições de governadores como Tarcísio, Cláudio Castro, Jorginho Mello e Zema.

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

É preciso ficar de olho nas nomeações finais de Bolsonaro

O Globo

No fim de governo, presidente usa caneta para distribuir agrados a aliados e tentar se proteger

O presidente Jair Bolsonaro ficou muito tempo isolado no Palácio da Alvorada depois de perder a eleição, mas isso não o impediu de tomar medidas para ajudar aliados que colocarão o novo governo diante de desagradáveis fatos consumados. Sem dar expediente no Planalto durante 20 dias, Bolsonaro usou a caneta para fazer nomeações cujo único sentido para quem está próximo a deixar o cargo é tentar se proteger de futuros problemas judiciais.

Entre elas, estão as do ministro da Secretaria de Governo, Célio Faria Junior, e do chefe de sua assessoria especial, João Henrique Nascimento de Freitas, para a integrar Comissão de Ética Pública, que trata de conflitos de interesse no primeiro escalão de governo. A comissão tem ainda outros cinco nomeados por Bolsonaro, todos com mandato de três anos. Não são submetidos à apreciação do Congresso e só podem ser substituídos por renúncia.

Poesia | Um Anjo - Machado de Assis com narração de Mundo dos Poemas

 

Música | Pablo Milanés - A Salvador Allende

 

sexta-feira, 25 de novembro de 2022

Fernando Gabeira - O estreito caminho da normalidade

O Estado de S. Paulo

O desespero e a vontade de perturbar estão presentes e devem ser contados como um fator duradouro nos próximos quatro anos

O momento pós-eleitoral de agora é o mais agitado do período de redemocratização. Estradas bloqueadas, multidões diante dos quartéis, cenas de regozijo com a falsa notícia da prisão de Alexandre de Moraes, preces aos militares e até aos alienígenas, com quem tentam se comunicar com a lanterna dos celulares. Neste contexto coloca-se a difícil tarefa do novo governo: pagar suas dívidas de campanha com os mais pobres e reconciliar o País.

Para atender aos mais pobres, o primeiro problema é dinheiro. No Orçamento que o governo Bolsonaro apresentou não estava previsto o Auxílio Brasil de R$ 600, mas só de R$ 405. Além disso, faltam recursos para o Farmácia Popular, a merenda escolar, o aumento do salário mínimo. A saída é estourar o teto de gastos, já muitas vezes furado pela gestão Bolsonaro.

Uma forma suave de conseguir esses objetivos seria não apenas criticar o teto de gastos, mas transitar gradualmente para uma nova âncora fiscal.

De modo geral, a simples e justa crítica ao teto de gastos aparece como se não se admitisse nenhum tipo de âncora fiscal, como se fosse possível viver num mundo de gastos ilimitados.

Vera Magalhães - Saúde mostra estrago de Bolsonaro

O Globo

Presidente transformou a pasta mais importante de um governo num parque de diversões negacionista

O relatório do Tribunal de Contas da União entregue ao governo de transição com o estrago provocado pelos quatro anos de Jair Bolsonaro na Saúde é uma mostra do que deverá ser radiografado em quase todas as áreas da administração: ideologia demais, gestão de menos.

Bolsonaro transformou a pasta mais importante de um governo num parque de diversões negacionista. Trocou um ministro que entendia do assunto, Luiz Mandetta, no início de uma pandemia, porque ele lhe fazia sombra ao dar entrevistas diárias e porque não endossava seu boicote ao distanciamento social e às demais medidas protetivas.

Loteou a pasta entre militares e olavistas, com os resultados conhecidos. Tanto vilipendiou as vacinas, sem nenhum ganho político evidente, só por seguir uma cartilha da extrema direita internacional de destruição da ciência, que o Plano Nacional de Imunizações, um orgulho nacional, está em petição de miséria.

Não foi à toa o chilique do presidente quando questionado no primeiro debate do pool de veículos de imprensa, no primeiro turno, a respeito da baixíssima cobertura vacinal para todas as doenças, inclusive algumas já erradicadas, e da relação que isso guarda com os ataques sem fundamento às vacinas contra a Covid-19. Bolsonaro sabia a bagunça que deixava enquanto só se preocupava com a reeleição a qualquer preço (e bota preço nisso; alô, defensores do teto de gastos feito letra morta em nome de votos!).

Eliane Cantanhêde – Meia-volta, volver!

O Estado de S. Paulo

Por que Bolsonaro nomearia os novos comandantes militares? Para ser bonzinho com Lula?

Por que os novos comandantes militares, escolhidos pelo presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva, seriam nomeados e assumiriam os cargos ainda em dezembro, antes da posse dele e do seu ministro da Defesa? E por que o ainda presidente Jair Bolsonaro assinaria os atos de nomeação? Para ser bonzinho com Lula? A ideia não cheira bem.

Segundo o repórter Marcelo Godoy, já foi definida até a data da transmissão de cargo do comandante da Aeronáutica, dia 23 de dezembro, uma semana antes da posse de Lula. Assim, ele e os demais seriam nomeados oficialmente por Bolsonaro, capitão insubordinado do Exército.

Qual a intenção? Manter a Aeronáutica, em particular, e as Forças Armadas (FA), em geral, sob algum controle de Bolsonaro? Confrontar o presidente legal, constitucional e legitimamente eleito, futuro comandante em chefe? Tumultuar o País, com as hordas bolsonaristas em torno dos quartéis?

Bernardo Mello Franco – O buraco da comunicação

O Globo

Novo governo precisa desmilitarizar Secom e livrar TV Brasil de programação chapa-branca

Responda se for capaz: quem é o secretário de Comunicação do governo Bolsonaro? O cargo, que já teve status de ministério, hoje é ocupado por um certo André de Sousa Costa. O ilustre desconhecido nunca pisou numa redação. É coronel da Polícia Militar de Brasília.

O enredo se repete na Secretaria de Imprensa do Planalto. O órgão chegou a ser chefiado por Carlos Castello Branco, o patrono do colunismo político brasileiro. Hoje está entregue a uma major da PM.

Os policiais não foram nomeados à toa. Estão lá para vigiar servidores, esconder informações e dificultar o trabalho dos repórteres.