sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

O espírito animal do capitalismo


Luiz Carlos Mendonça de Barros
DEU NA FOLHA DE S. PAULO


Não há como escapar de uma queda do PIB no 4º trimestre deste ano e, provavelmente, no 1º de 2009

KEYNES É muito mal compreendido. Duas de suas fascinantes contribuições não têm o destaque necessário entre os economistas. A primeira é a visão de que o investimento (e não o consumo) é o condicionante principal da demanda, estando especialmente sujeito a mudanças bruscas no "espírito animal" dos agentes. A segunda é a descrição dos mecanismos usados por empresas e investidores, no período de bonança, para multiplicar o crédito no sistema. É um processo que permeia o tecido econômico de variadas formas, mas que fragiliza progressivamente a economia conforme o período de expansão matura.

A interação entre o espírito animal do empresário (e do consumidor) e a capacidade da economia de multiplicar o crédito é o mecanismo a partir do qual se gera a semente da crise. Quando o otimismo domina, o espírito empreendedor leva as pessoas a correrem riscos, com aumento do endividamento, em razão da perspectiva de geração de lucros maiores e do aumento dos salários.

A valorização das ações também atua para aumentar o potencial de endividamento do sistema. Em algum momento, por qualquer razão, muda-se a percepção sobre a capacidade desses fluxos em sustentar o edifício de dívida e ocorre o desmonte. Faço essas observações para contextualizar a mudança de dinâmica ocorrida no Brasil na passagem de setembro para outubro. Essa data coincide com o agravamento da crise financeira nos EUA, após a quebra do banco Lehman Brothers.

Gosto muito da imagem que associa a crise de hoje, e sua propagação, a um processo de metástase no corpo humano. A quebra do Lehman representou o momento em que a interrupção do crédito se espalhou e tomou conta de segmentos da economia que ainda estavam preservados. E o Brasil fazia parte desse grupo.

Isso porque o elemento crucial para o funcionamento da moderna economia capitalista -a confiança- deixou de existir.

Durante os últimos dois anos, vivemos um período de grande confiança, com o consumo crescendo muito acima da capacidade de produção das empresas brasileiras. Não por outra razão as importações cresceram de forma vigorosa, ocupando um espaço nunca visto em nossos mercados. O espírito animal dos empresários brasileiros os levou a aumentar a capacidade de produção de suas empresas e o investimento privado cresceu a taxas quase inacreditáveis para o padrão dos últimos 20 anos. A aceleração de nosso crescimento nos últimos trimestres foi motivada claramente por esse movimento.

Mas, com a metástase da crise do "subprime", o quadro mudou. Se a produção industrial em outubro surpreendeu mesmo o analista mais pessimista, a de novembro deve provocar um ruído ainda maior. Basta olhar para os números já divulgados pela Anfavea em relação à produção de veículos. Não há como escapar de uma queda do PIB no quarto trimestre deste ano e, provavelmente, no primeiro de 2009. As previsões já estão sendo revistas para baixo, deixando a estimativa do governo de um crescimento de 4% no campo da chacota.

Nestes momentos de insegurança em relação ao futuro, o governo deve liderar, com autoridade e responsabilidade, a sociedade. Tentar enfrentar tempos mais bicudos escondendo da opinião pública a realidade dos fatos sempre acaba muito mal. O presidente Lula e seus ministros estão fazendo uma aposta de alto risco ao vender uma economia que não existe mais.

LUIZ CARLOS MENDONÇA DE BARROS, 66, engenheiro e economista, é economista-chefe da Quest Investimentos. Foi presidente do BNDES e ministro das Comunicações (governo Fernando Henrique Cardoso).

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