quinta-feira, 21 de maio de 2026

Em crise, Flávio troca marqueteiro e cria ruido no meio evangélico

Crise de Imagem

Flávio sofre desgaste do agro aos evangélicos e tem primeira baixa com saída de marqueteiro

Por Luísa Marzullo e Letícia Pille - O Globo

A crise instalada na pré-campanha de Flávio Bolsonaro (PL-RJ), desencadeada a partir da revelação de sua proximidade com Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, estremeceu as pontes com segmentos de sustentação do bolsonarismo nas últimas campanhas e derrubou o marqueteiro contratado pelo senador para cuidar de sua imagem. Em meio ao desgaste, o PL já identificou a contrariedade com interlocutores do mercado financeiro, do agronegócio e lideranças evangélicas.

Além disso, a insatisfação de aliados fez a primeira vítima no entorno de Flávio, com a saída do publicitário Marcello Lopes, o Marcellão. Ele estava nos Estados Unidos durante a semana mais crítica para a comunicação do candidato, o que gerou contrariedade entre pessoas próximas ao senador.

Agora, assume a função Eduardo Fischer, que fez a campanha de Alvaro Dias (Podemos) na corrida presidencial em 2018 e conhecido por trabalhos publicitárias fora da política.

Repercussão negativa

Embora ainda predomine um discurso de cautela, aliados admitem que o escândalo interrompeu a aproximação de Flávio com empresários, investidores, produtores rurais e pastores influentes, justamente no momento em que a campanha acreditava estar conseguindo reduzir resistências.

Entre evangélicos, o impacto foi imediato. O áudio em que Flávio cobra dinheiro de Vorcaro provocou irritação em parte das lideranças religiosas, sobretudo pelo fato de que o senador vinha minimizando publicamente a relação com o banqueiro.

No grupo de WhatsApp “Aliança”, que reúne algumas das principais lideranças evangélicas alinhadas ao bolsonarismo — entre elas Silas Malafaia, Robson Rodovalho, Renê Terra Nova e Estevam Hernandes — o caso passou a dominar as conversas nos últimos dias.

Segundo relatos, pastores reconheceram a gravidade política da situação e entraram em modo de espera para medir se haverá novos desdobramentos antes de declarar um rompimento.

O bispo Robson Rodovalho, da Sara Nossa Terra, afirmou que o episódio foi um “balde de água fria” na pré-campanha presidencial do senador.

— Foi muito negativo tanto o fato em si, da aproximação com Vorcaro, como a explicação em prestações. Claro que abalou o segmento, mas estamos todos em modo de espera para ver o que é crime e o que é apenas narrativa. Os próximos dias e semanas vão ser importantes.

Como mostrou o GLOBO ontem, o pastor Silas Malafaia, próximo à família, foi um dos primeiros a se manifestar. Ele vem demonstrando descontentamento.

— A relação de Flávio com evangélicos esfria, sim, se tiver comprovação de que recebeu dinheiro para mais coisa que o filme. Por enquanto, estamos todos com cautela. Se tiver mais coisa, será difícil apoiar; mas, se não tiver, vamos com Flávio — afirmou o pastor da Assembleia de Deus Vitória em Cristo.

Rodovalho disse ainda que a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro voltou a aparecer com mais força nas conversas internas do segmento como eventual alternativa caso a situação de Flávio se agrave:

— Michelle não perderia nada do que já foi conquistado da transferência de votos do Bolsonaro pai. Ela está no partido e é viável, mas vamos esperar o presidente Bolsonaro decidir.

Anteontem, a ex-primeira-dama foi questionada publicamente, pela primeira vez, sobre o envolvimento do senador com Vorcaro. Ela evitou opinar e afirmou que o pré-candidato à Presidência é quem deve se posicionar.

Agenda na Faria Lima

No mercado financeiro, a repercussão do caso dominou conversas na Brazil Week, em Nova York, que ocorreu na semana passada, e ampliou dúvidas entre empresários e investidores que vinham enxergando Flávio como o nome mais competitivo da direita para enfrentar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Anteontem, porém, o desgaste aumentou após a revelação de que o senador também procurou Daniel Vorcaro após a primeira prisão do banqueiro, quando ele cumpria medidas restritivas em São Paulo.

Nas últimas semanas, o entorno do presidenciável do PL vinha intensificando reuniões reservadas com gestores, banqueiros e empresários em uma tentativa de apresentar Flávio como um bolsonarista menos radical e comprometido com responsabilidade fiscal e previsibilidade econômica.

A crise fez auxiliares defenderem uma aceleração dos anúncios de propostas econômicas e da agenda pública do senador para evitar que o desgaste se cristalize no setor.

Foi nesse contexto que Flávio desembarcou novamente em São Paulo ontem para uma agenda desenhada justamente para conter a deterioração do ambiente.

O senador participou de um almoço reservado com executivos ligados à Faria Lima e, à noite, se reuniu com empresários do turismo, hotelaria, aviação e serviços. Hoje, ainda tem compromissos antes de retornar a Brasília.

A campanha acompanhou de perto as oscilações no mercado, inclusive com alta do dólar, a partir da primeira relevação do site Intercept Brasil. A partir daí, empresários e operadores financeiros passaram a mencionar com mais frequência alternativas dentro da direita, especialmente o governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), que já possuía trânsito consolidado no mercado pelo perfil empresarial e discurso liberal. Publicamente, contudo, ainda não há disposição para verbalizar movimentos mais bruscos.

Responsável por organizar um encontro de Flávio com empresários há dois meses, o presidente da Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp), Paulo Skaf, evitou antecipar qualquer mudança de posição:

— Está cedo.

Busca por plano B

Entre empresários e parlamentares ligados ao agronegócio, interlocutores afirmam que o apoio ao bolsonarismo permanece majoritário, mas admitem que cresceu o desejo de parte dos produtores e lideranças rurais por uma alternativa de direita menos sujeita a turbulências políticas.

A resistência ao nome de Flávio já existia antes da crise envolvendo Vorcaro. Desde a desistência do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), da disputa presidencial, parte do setor vinha demonstrando preferência por nomes como Ronaldo Caiado (PSD) e Zema, ambos vistos como políticos com perfil mais executivo e maior capacidade de diálogo com o setor produtivo.

O caso Master aprofundou esse movimento. Zema passou a ser observado com mais atenção por segmentos ligados ao discurso liberal e empresarial, enquanto Caiado mantém força junto ao setor rural e segue com forte interlocução com a Frente Parlamentar Agropecuária.

Apesar disso, integrantes da bancada ruralista minimizam a possibilidade de afastamento em relação a Flávio.

— O Vorcaro é tóxico, mas nosso entendimento é que isso é uma marola que passa — afirmou o deputado Lafayette de Andrada (PL-MG), integrante da Frente Parlamentar Agropecuária

Dirigentes do PL admitem que os próximos dias serão decisivos. Como revelou o GLOBO, o partido deu um prazo de 15 dias para medir o impacto do caso e avaliar se Flávio Bolsonaro terá viabilidade diante da evolução da crise. Ontem, após ser enquadrado por aliados, o presidente do partido, Valdemar Costa Neto, admitiu que havia dado este prazo, mas modulou o discurso e afirmou que Flávio tem sua força política “mais sólida do que nunca”. (Colaborou Sérgio Quintella)

Nenhum comentário: