quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Refazer a América

Dora Kramer
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Vinte minutos e nenhuma mistificação. Barack Hussein Obama foi ao ponto e disse apenas o necessário num discurso de posse sem enfeites.

Realista no traço do perfil da crise, duro com as ameaças à segurança de seu país, generoso na referência aos mais pobres, conciliador na proposta de estender a mão a quem se propuser a “abrir o pulso”, entusiasmado e otimista ante a tarefa de conduzir a nação ao reencontro dos valores que fizeram dos Estados Unidos a maior, mais perene e poderosa democracia do mundo.

Obama não falou de si, não exaltou suas qualidades, não vestiu o figurino de salvador, não vendeu facilidades nem se mostrou intimidado ante a imensidão das dificuldades.

Falou de tolerância, de honestidade, de patriotismo, de coragem, de lealdade, de trabalho. Exibiu-se ao planeta como o homem certo na hora exata.

Se será um excelente ou um medíocre presidente é uma dúvida a ser tirada ao longo dos próximos quatro anos. Agora, Obama cumpre o papel concernente ao momento de poço fundo.

Tem a medida necessária ao tamanho do rombo.

Para um problema imenso, só uma solução radical como a eleição de um presidente negro por fora, multirracial por dentro, algo alternativo nas maneiras, neófito na política para o tamanho das trajetórias habitualmente cumpridas antes da chegada ao topo, jovem e ao mesmo tempo tradicionalista.

Cioso da missão de representar o início de uma era de recuperação da economia, da credibilidade interna e externa, da capacidade de indignação perdida diante de tantos e tão escabrosos desastres ocorridos sob a administração George W. Bush.

Frank Rich, colunista do New York Times, fala a respeito num artigo em que compara a comoção provocada pela divulgação dos papéis do Pentágono sobre a guerra do Vietnã, em 1971, e a apatia dos americanos frente aos descalabros em série do governo Bush: as mentiras sobre as armas de destruição do Iraque, as torturas nas prisões de Guantánamo e Abu Ghraib, os bilhões gastos nas guerras e na reconstrução do Iraque, a crise econômica, a corrupção, o clientelismo, a incompetência.

“Após oito anos sendo surrada pelo governo Bush, a nação ficou semicatatônica”, escreve Rich a propósito da absorção de tais acontecimentos ao cotidiano de um país que já não se espantava com mais nada.

Um país que obrigou um presidente da República recém-reeleito a renunciar porque se descobriu que a campanha dele, com a ciência de Richard Nixon, o presidente em questão, espionara a sede do Partido Democrata.

Na avaliação do analista, Barack Obama terá mais chance de defender uma “política nova e incisiva” quanto mais se empenhar em revelar aos americanos tudo sobre “as malfeitorias de Bush”. Frank Rich, no entanto, na véspera da posse duvidava dessa possibilidade por causa de declarações de Obama defendendo a necessidade de “olharmos para a frente, e não para trás”.

Obama nada disse que faça supor a abertura de investigações, mas tampouco deixou de levar em conta o que se passou e proclamar a mudança genuína, “o fim dos sentimentos mesquinhos e das falsas promessas, das recriminações e dos dogmas desgastados que por tanto tempo estrangularam a nossa política”.

Tipo exportação

Bob Woodward, célebre repórter do caso Watergate, escritor, editor do Washington Post, lista “dez lições para o presidente Barack Obama aprender com o governo Bush”, que merecem ser lidas e absorvidas por governantes em geral.

1. É o presidente que dá o tom. Não seja passivo ou tolere divisões virulentas.

Quer dizer, o papel de árbitro é essencial e indivisível.

2. O presidente precisa fazer com que todos se coloquem, mesmo - ou especialmente - quando há divergências.

As posições e opiniões dos auxiliares precisam ser de conhecimento do chefe.

3. Um presidente precisa fazer o dever de casa para elaborar e respaldar suas políticas.

Não pode, nem deve, atuar “de ouvido”.

4. Presidentes precisam ser francos e se certificar de que más notícias cheguem ao Salão Oval (o gabinete presidencial).

O isolamento é nefasto e contraproducente.

5. Presidentes precisam fomentar a cultura do ceticismo e da dúvida.

Certezas inabaláveis são um atalho para o equívoco.

6. Presidentes recebem dados contraditórios, e precisam classificá-los de forma rigorosa.

Não abrir mão, portanto, do discernimento pessoal.

7. Presidentes devem dizer a mais dura verdade ao povo, mesmo que isso signifique dar notícias muito ruins.

Otimismo tem hora.

8. Motivos nobres não são garantia de uma política eficiente.

Os fins não necessariamente justificam os meios.

9. Presidentes devem insistir num pensamento estratégico.

Visão de longo prazo é indispensável.

10. O presidente deve adotar a transparência. Alguma versão do que aconteceu na Casa Branca (ou no Palácio do Planalto) sempre vai se tornar pública.

Nenhum comentário: