Folha de S. Paulo
Histórico do ex-governador de Goiás ajuda a
entender a escolha do PSD para eleição presidencial
Eduardo Leite tem dificuldade de articulação
política e questionava as decisões do partido
Este sábado encerrou uma etapa crucial do
calendário eleitoral. Foi o fim do prazo para desincompatibilização de
cargos públicos, filiação partidária e mudança de domicílio eleitoral por
aqueles que pretendem disputar mandato eletivo neste ano.
São 17 ministros do governo Lula e 11 governadores que deixaram seus postos com foco na disputa eleitoral. Entre eles está o ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado, personagem clássico da política brasileira. Participou de todas as eleições desde 1989, já tendo concorrido à Presidência, ao Governo de Goiás, à Câmara dos Deputados e ao Senado. Também figura entre os governadores com maior riqueza pessoal do país.
Esse histórico ajuda a entender a escolha
do PSD por
Caiado, em detrimento de Eduardo Leite,
como pré-candidato do partido à Presidência.
Por um lado, Gilberto
Kassab e as lideranças regionais do PSD não querem comprometer os
recursos do fundo eleitoral e do fundo partidário em uma candidatura sem
chances reais de vitória, priorizando as disputas para o Legislativo nacional e
os Executivos estaduais.
O limite de gastos de campanha para
candidatos à Presidência em 2026 ficará próximo dos R$ 105 milhões, o que
corresponde a cerca de 25% dos R$ 420 milhões do fundo eleitoral a que o PSD
tem direito.
Por outro lado, o nome escolhido precisa
conviver com a diversidade interna do partido e aceitar, sem causar problemas,
que muitos, senão a totalidade, dos candidatos da sigla aos governos estaduais
não o apoiarão. Desde a oficialização da pré-candidatura de Caiado, entre os
governadores do PSD apenas Ratinho Jr.,
do Paraná, declarou apoio a ele. E vale destacar que Ratinho não disputará
nenhum cargo eletivo em 2026 e fala abertamente em palanque duplo no estado.
É nesse ponto que Leite parece concentrar sua
fraqueza. Seu problema é menos eleitoral do que político: a dificuldade de
articulação política e de se apresentar como um quadro partidário confiável
entre seus correligionários. Em um ambiente estruturado por cooperação, não
basta a fama de bom gestor. A reputação de cumprir acordos e aceitar as
decisões do partido não é secundária, é parte da própria viabilidade de uma
candidatura.
Leite reedita em 2026 um roteiro já
conhecido. Em 2022, ainda no PSDB, disputou
prévias internas com João Doria,
perdeu e teve dificuldade em deixar a disputa, chegando a pleitear que Doria
lhe cedesse espaço nas inserções nacionais do partido. Na última semana,
divulgou um vídeo criticando a escolha do PSD por Caiado.
A situação da sucessão estadual dos dois
também merece nota: Daniel Vilela (MDB), vice de Caiado e atual governador,
aparece como favorito ao Governo de Goiás. Gracinha Caiado, esposa de Ronaldo
Caiado, é favorita para ocupar uma das duas vagas ao Senado em disputa. No Rio
Grande do Sul, se o cenário atual se mantiver, Gabriel Souza (MDB), vice de
Leite e candidato por ele apoiado, não chegará ao segundo turno.
Ainda duvido que a candidatura de Caiado
chegue de fato às urnas. Mas, no interior do PSD, sua escolha revela uma
decisão pragmática: preservar recursos para as disputas estaduais e evitar um
candidato cuja capacidade de cooperação não encontra respaldo entre os quadros
do partido.
*Professora na Escola de Economia de São
Paulo (FGV-EESP) e pesquisadora do Cepesp. Doutora em ciência política pelo
IESP-UERJ

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