Valor Econômico
O que significa uma igreja manter um banco no
seu interior e no mesmo endereço? Igreja como mero ramo de negócio lucrativo
A frequência de notícias de pastores e
missionários de igrejas evangélicas em casos de anomalias envolvendo formas não
convencionais de ganhar dinheiro, apuradas pela polícia e pela Justiça, indica
que o problema passou dos limites da “normalidade”. Entre as mais recentes
estão casos ligados a algumas igrejas evangélicas neopentecostais.
O que significa uma igreja manter um banco no seu interior e no mesmo endereço? Igreja como mero ramo de negócio lucrativo. Em vez de sacrário, um gasofilácio sem fundo. Por que o dinheiro nas mãos dessa gente torna-se isento de suspeita? Supostamente porque esses religiosos falam e agem em nome de Deus. Mas fomentar essa crença transforma esse negócio de falar em nome de Deus em negócio suspeito.
É que, dinheiro sujo, ao passar pelas mãos de
quem se diz de Deus, fica limpo. Mesmo que não fique. Para certas religiões não
importa o que as coisas são, mas o que parecem ser.
Seguindo a lógica bíblica da separação de que
se dê a César o que é de César e a Deus o que é de Deus, não seria melhor que
Deus tivesse CPF? De modo que, se ele invadir a seara de César, pague a César
os tributos que lhe cabem.
No Brasil, antes mesmo do primeiro vagido,
cada criança já recebe, sem solicitar, compulsoriamente, o seu número de CPF.
Já se torna devedor potencial do imposto de renda por algum dinheiro que algum
dia venha a receber. Se o homem é criado à semelhança de Deus, e se a sociedade
é relacional, baseada na reciprocidade dos seres que a compõem, não há por que negar
a Deus, naqueles que em nome dele falam, a semelhança que, em troca, lhe toca.
É necessário concluir no Brasil o processo de extinção dos estamentos e das
imunidades e privilégios que reivindicam. Igualdade já, antes que seja tarde!
Certas religiões e seitas surgiram nas
últimas décadas como álibi preventivo para o uso irregular de dinheiro em mãos
erradas obtido de modo errado. Lembro-me de quando, a partir de meados dos anos
1950, de repente, botequins se transformavam em templos, em questão de horas.
Modestos, é bem verdade.
Aos berros, pastores passaram a contar aos
novos crentes seus enormes pecados por serem membros do gênero humano, pecados
que as pessoas nem sabiam que haviam cometido sem cometer. Para livrar-se desse
fardo, bastava aceitar Cristo como salvador que cada qual seria salvo pela fé.
De repente, os salvos, aliviados, começavam a fazer pingar o dízimo no
gasofilácio. Não só o da gratidão, mas também o da prevenção.
A grande diferença entre católicos e
evangélicos é justamente a de que os católicos nascem culpados do pecado
original, não cometido por eles. Nascem com o crédito do perdão divino na
renovação voluntária dessa pecaminosidade, reiterada, se reconhecida na
confissão dos pecados acumulados.
Os católicos têm ainda, na morte, o benefício
do purgatório, no caminho do céu, em vez do inferno, momento transitório de
finalização de um rito de purificação pelo fogo. Viver é muito perigoso, como
lembrou Guimarães Rosa.
A Reforma protestante aplainou o caminho para
o céu e estabeleceu que o céu já é antecipado pela fé. Os crentes já estão
remidos antes de pecar. A religião, de quem opta por ela, já é um estado de
antecipação do mundo celestial. Tudo que se faz nela e por meio dela já está
purificado Mesmo mãos sujas são insujáveis.
Só que, ao que parece, esqueceram de combinar
isso com Deus. Pelo menos, esqueceram de combinar com a polícia e a Justiça
que, em nome de César, têm ido atrás dos que acham que, por serem crentes e
membros de igrejas “assim” com Deus, estariam livres das grades.
Talvez tenha chegado a hora de reconhecer que
Deus mesmo não conseguiu manter limpas as mãos dos que pecam em nome da fé. E
convencer César a estabelecer rigorosas regras humanas para abertura e
funcionamento de igrejas e seitas. Como as há para botequins.
O direito à liberdade de crença e de fé
precisa ser reinventado em nome das razões de Estado e da igualdade jurídica,
em defesa da própria fé. De modo que seja suprimido o pressuposto que aqui no
Brasil vai se tornando iníquo, o de que a salvação pela fé abre as portas da
impunidade e da delinquência fiscal e política.
Uma boa e necessária medida seria a de
definir critérios legais regulamentadores da separação entre Estado e religião.
Nada de celebrações, ritos, cultos, orações, cânticos, louvores em recintos do
Estado, palácios governamentais, mesmo de residência de governantes, do
Legislativo, do Judiciário e do Executivo.
Não se trata de proibir religião, mas de
assegurar-lhe, qualquer que seja ela, que o melhor e mais apropriado lugar para
exercê-la é o templo. Os lugares sagrados das respectivas concepções do
sagrado, e não os lugares profanos, que lhes são impróprios. Profanação pode
ser crime.
*José de Souza Martins é sociólogo. Professor
Emérito da Faculdade de Filosofia da USP. Professor da Cátedra Simón Bolivar,
da Universidade de Cambridge e fellow de Trinity Hall (1993-94). Pesquisador
Emérito do CNPq. Membro da Junta de Curadores do Fundo Voluntário da ONU contra
as Formas Contemporâneas de Escravidão, em Genebra (1996-2007. Entre outros
livros, é autor de “Desavessos” (Editora Com Arte).

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