Correio Braziliense
A adoção de um discurso mais combativo indica
que o presidente compreendeu a necessidade de recompor sua base eleitoral e
melhorar a avaliação do governo
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e seu vice, Geraldo Alckmin (PSB), reagiram nesta quinta-feira a um relatório produzido pelo governo dos Estados Unidos que aponta o sistema de pagamentos Pix como uma das barreiras impostas pelo Brasil ao comércio exterior. A posição da Casa Branca não é nova, mas a divulgação do relatório deu oportunidade para que Lula tente politizar ao máximo a questão e transformar a defesa do Pix numa bandeira eleitoral com popularidade. É a busca de uma narrativa convincente sobre o bom desempenho de seu governo para tentar aumentar sua aprovação.
“O Pix é do Brasil e ninguém vai fazer a
gente mudá-lo pelo serviço que ele está prestando à sociedade brasileira. O que
nós podemos fazer é aprimorar o Pix, para que cada vez mais ele possa atender a
necessidade de mulheres e homens deste país”, defendeu, durante visita às obras
do VLT, em Salvador. Na prática, o relatório deu de bandeja para Lula a defesa
do Pix, que emerge como um elemento central da “economia do afeto”.
A Casa Branca ajudou Lula a converter o Pix
em símbolo político de seu governo, embora esse meio de pagamento tenha sido
criado pelo Banco Central na gestão de Roberto Campos Neto, em meados de 2020,
ou seja, durante o governo Bolsonaro. A forma subalterna como Bolsonaro e seus
filhos se relacionam com Trump facilita a vida de Lula. Ao reagir às críticas
da Casa Branca e afirmar que “o Pix é do Brasil”, Lula desloca a questão do
terreno econômico, onde enfrenta dificuldades, para o campo da soberania
nacional e do orgulho tecnológico. Ou seja, define uma agenda positiva em meio
à adversidade.
A busca do presidente Luiz Inácio Lula da
Silva por uma narrativa eleitoral convincente ocorre sob pressão: de um lado, a
ofensiva crescente da oposição liderada por Flávio Bolsonaro; de outro, uma
conjuntura internacional adversa, marcada pela guerra no Irã e seus efeitos
inflacionários sobre combustíveis e custo de vida. Esse contexto redefine o
eixo da disputa e impõe ao governo um desafio clássico de campanhas eleitorais
governistas: traduzir a vulnerabilidade econômica numa agenda positiva do
discurso eleitoral de forma eficaz.
Houve uma mudança significativa de cenário.
Lula aparecia com vantagem confortável em fevereiro (43% a 38%), porém, passou
a um empate técnico em março (41% a 41%), ou seja, houve estagnação de sua base
e crescimento do adversário. Esse movimento não é apenas estatístico; ele
reflete uma alteração qualitativa no humor dos eleitores, especialmente diante
da percepção de piora no custo de vida, ainda que indicadores macroeconômicos
não confirmem integralmente essa sensação. Nas eleições, percepção vale mais do
que o fato em si. É nesse terreno que a oposição nada de braçada.
A guerra no Irã está tendo um efeito
catalisador dessa percepção negativa. A alta do petróleo pressiona
combustíveis, transporte e alimentos, afeta diretamente o cotidiano da
população. Embora o Brasil seja exportador de petróleo, isso não elimina o
problema interno: o governo foi obrigado a adotar subsídios e medidas
compensatórias, o que expõe fragilidades fiscais e limita a margem de ação
política. Fora do controle do Planalto, a guerra do Irã é uma espécie de
“inimigo invisível” que ameaça a reeleição de Lula.
Percepção popular
Diante das dificuldades, uma mudança na
postura “olímpica” de Lula. A adoção de um discurso mais combativo indica que o
presidente compreendeu a necessidade de confrontar Flávio Bolsonaro, seu
princiopal adversário, para recompor sua base. A resolução do PT, que associa o
bolsonarismo a um projeto antidemocrático e a decisão de intensificar ataques
nas inserções de rádio e TV revelam essa mudança da posição defensiva para a de
ataque. O objetivo é se apresentar como defensor das políticas públicas com
amplo apoio da população, que hoje são encaradas como mera obrigação do
governo.
Essa estratégia permite ao governo falar
diretamente com o cotidiano do eleitor, como no caso do Pix. E cria um
contraponto narrativo à oposição, que centra seus ataques em corrupção, custo
de vida e insegurança. Ao mesmo tempo, traz para o debate eleitoral uma
dimensão geopolítica do Brasil, ao mostrarque interesses externos ameaçam o
país. Trata-se de uma tentativa de mobilização nacionalista.
Entretanto, nada disso resolve o problema
central da campanha: a desconexão entre os indicadores econômicos e a percepção
popular. O eleitor que sente o impacto da inflação no supermercado ou no posto
de gasolina dificilmente será convencido apenas por uma narrativa de soberania
digital. Há dissonância entre discurso e realidade, o que facilita a vida da
oposição. Na verdade, a polarização é ambivalente. Ao atacar Flávio Bolsonaro e
reforçar a dicotomia entre dois projetos de país, Lula busca consolidar seu
eleitorado tradicional. Contudo, isso pode dificultar a conquista do eleitor de
centro, que se mostra cada vez mais decisivo em um cenário de empate técnico.
A movimentação de candidaturas como a de Ronaldo Caiado e as articulações no PSD indicam que Lula pode estar sendo alvo de um movimento em pinça, para atrair o centro num cerco eleitoral. O tripé ataque direto à oposição, valorização das políticas públicas e defesa da soberania nacional, a estratégia adotada pelo PT, tem coerência com o governo e a trajetória de Lula, porém, enfrenta um ambiente muito mais hostil do que em eleições anteriores.

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