República do Supremo que pode tudo
Por Folha de S. Paulo
Regime em que ministros atingem qualquer tema
sem provocação nem distanciamento precisa de correção
Contrapeso do colegiado esbarrou no
corporativismo quando dois de seus membros passaram a ter condutas questionadas
no caso Master
Para um ministro do Supremo Tribunal Federal,
tudo. Para os demais cidadãos, a lei —tal como amplamente interpretada por um
ministro do Supremo. Cristaliza-se no Brasil um regime
anômalo de prevalência de dez indivíduos sobre o restante da sociedade.
Como se vê pelas decisões de Alexandre de Moraes, a latitude de um juiz da corte quando os seus próprios interesses estão em jogo é máxima. Fulmina-se a regra que exige do magistrado afastamento de casos em que ele conste como vítima potencial.
Sob sigilo decretam-se prisões, censuras e
intimações sem a devida provocação da Procuradoria. Quem critica o arbítrio
corre o risco de cair nas garras do Grande Inquisidor. Advogados não têm acesso
aos autos.
Burocracias do Estado são obrigadas a
ajoelhar-se diante da toga agigantada. A atividade policial sujeita-se a
intervenções esdrúxulas, como a que por um período escudou de investigação
material apreendido sobre a máfia que atuava no Banco Master.
A intimidação da Receita
Federal levará servidores a adotarem a regra tácita de não
abrirem procedimentos administrativos quando detectarem inconsistências fiscais
relacionadas aos supremos magistrados. Afinal, o resultado mais brando poderá
ser o afastamento sumário da função, com um rastreador no tornozelo.
Ameaça parecida paira sobre o Conselho de Controle
de Atividades Financeiras (Coaf), o instrumento mais eficaz do país para
detectar transações atípicas, de que as atividades ilícitas amiúde se valem.
Num golpe solitário de caneta, Moraes
esvaziou o órgão.
Não há o que controle um ministro do Supremo
que se ponha a subverter a institucionalidade para se proteger e atingir
supostos adversários. Ele não depende da petição de partes para agir sobre
virtualmente tudo o que deseje.
A submissão das decisões individuais aos
pares, imperativo dos tribunais, passou a ser na prática facultativa. Um
ministro pode atuar como o demiurgo que desfaz e reescreve as leis e manda
soltar, prender, calar, pagar e não pagar. A revisão do plenário, quando
ocorre, não raro se depara com fatos consumados e danos irreparáveis.
Mesmo o contrapeso do colegiado esbarrou no
corporativismo quando dois de seus membros passaram a ter as condutas
questionadas no escândalo do Master. O encastelamento funciona como estímulo
para que ministros reforcem as decisões singulares visando à autoproteção.
Esvai-se a esperança de que comecem dentro do
Supremo os ajustes para desbastá-lo dos superpoderes estranhos à República. Os
ministros mostram-se incapazes de adotar um mero código de comportamentos
óbvios, que já deveriam ser moeda corrente.
É inevitável que caminhe no Congresso uma
reforma para recolocar o STF em seu
lugar constitucional.
3ª opção do PSD, Caiado se lança a 3º nome na
eleição
Por Folha de S. Paulo
Ex-governador terá de disputar votos
conservadores apresentando-se como confiável e experiente
Aos 76 anos, já disputou em 1989, como Lula,
80, que ruma ao 7º pleito; não será surpresa se sigla apostar em bancada
parlamentar
Confirmado
como pré-candidato do PSD à Presidência na segunda (30), Ronaldo
Caiado, agora ex-governador de Goiás, foi a terceira opção do
partido para a disputa deste 2026.
O plano A era o governador de São Paulo, Tarcísio de
Freitas (Republicanos), de cuja administração participava até
outro dia o mandachuva do PSD, Gilberto
Kassab, no cargo de secretário de Governo e Relações Institucionais.
Tarcísio atrairia forças do centro à direita, mas preferiu não contrariar a
família Bolsonaro por ser afilhado político do patriarca e ex-presidente.
Passou-se então ao governador do Paraná,
Ratinho Junior, o mais bem colocado nas pesquisas de intenção de voto —embora
ainda distante dos líderes— entre os correligionários de Kassab. Ratinho, no
entanto, desistiu
prematuramente da empreitada.
Sobrou Caiado, por ora ao menos, como
possível postulante ao Planalto de uma legenda bem estruturada e com
capilaridade nacional além de Luiz Inácio Lula da
Silva (PT), o incumbente, e Flávio
Bolsonaro (PL) —nomes da polarização
que marca a política nacional nos últimos oito anos.
Chamar o governador de Goiás de terceira via
seria inadequado. Do ponto de vista ideológico, ele está obviamente no mesmo
quadrante do bolsonarismo e do antipetismo, como reafirmou na segunda sem
deixar margem a nuances ou ambiguidades.
Declarou que pretende governar para que o PT
não seja mais opção no país. Mais ainda, anunciou que seu primeiro ato como
presidente será uma anistia para Jair
Bolsonaro (PL), condenado com fartura de evidências por
tentativa de golpe de Estado.
Nesse sentido, sua única estratégia eleitoral
viável é disputar votos conservadores com Flávio, o que se afigura tarefa
inglória. No Datafolha, Caiado tem só 4% das preferências no primeiro turno,
ante 33% do oponente.
A julgar pelas manifestações mais recentes,
sua cartada será apresentar-se como direitista de convicções mais sólidas,
politicamente confiável e com experiência administrativa. É bastante duvidoso
que tais qualidades sejam capazes de seduzir o vasto eleitorado bolsonarista
adepto do radicalismo das redes sociais.
Aos 76 anos, o goiano decerto não traz o apelo
da renovação, tendo
participado da eleição de 1989, como Lula, 80 —que caminha para
seu sétimo pleito presidencial, sem contar a tentativa teatral de 2018, quando
estava condenado por corrupção.
Não por acaso, calcula-se que Caiado possa
acabar fazendo, voluntariamente ou não, o papel de linha auxiliar de Flávio na
campanha, quando terá de atacar o adversário petista.
É incerto como isso se encaixaria no
obstinado equilibrismo de Kassab, que tem ministros indicados no governo
federal e dispunha de uma alternativa mais moderada na figura de outro
governador, o gaúcho Eduardo Leite. Não será surpresa se o PSD concentrar
esforços em formar uma grande bancada parlamentar.
Riscos crescentes nos combustíveis
Por Folha de S. Paulo
Pressões sobre preços aumentam com duração da
guerra no Irã; aqui, defasagem ameaça abastecimento
Subsídio é, ou deveria ser, paliativo para um
par de meses; há o perigo da tentação demagógica de controlar preços
Há notícias de escassez pontual de diesel no
centro-sul do país. A queixa mais frequente é de empresas envolvidas na
colheita e no transporte de grãos. O Ministério de Minas e Energia afirmou na
semana passada que não haveria desabastecimento em abril, mas o risco de alta
de preços e de escassez de oferta aumenta com a duração da
guerra no Irã.
Havendo produto no mercado mundial, o
problema principal para o Brasil é preço, pois o país importa cerca de 25% do
diesel que consome. Ou bem os preços são viáveis para o negócio de importação
ou a Petrobras tem
de adquirir combustíveis a custo alto para revendê-los a preços controlados,
com prejuízo. Fora isso, resta a alternativa dos subsídios.
O governo reduziu a zero o PIS e a Cofins
sobre o óleo, criou subvenção para produtores e importadores e, no momento,
procura dar outro subsídio direto, que seria pago, na metade, pelos
estados, ainda em
negociação.
Na melhor das hipóteses, os governos gastariam
o suficiente para evitar alta de R$ 1,84 por litro. As contas sobre a defasagem
do preço do produto ante um padrão internacional variam, mas estão em torno de
R$ 2,40; além do mais, trata-se de média para situações regionais diversas.
Ainda assim, a situação seria apenas
atenuada. Note-se que, em um mercado dos EUA que serve de referência para o
Brasil, de 23 de fevereiro a 30 de março o preço do diesel aumentou 46%; o da
gasolina, 44%. No Brasil, de 28 de fevereiro a 28 de março, 8% e 24%, respectivamente.
O subsídio é, ou deveria ser, paliativo para
um par de meses. A incerteza sobre a política de preços continuaria a pairar
sobre importadores privados. Se a responsabilidade pelo abastecimento recair
sobre a Petrobras, a solidez da companhia será prejudicada.
Além disso, há algum risco fiscal, ainda que
a receita de impostos aumente com a alta do petróleo.
Por fim, a distorção duradoura do mercado será um empecilho a decisões
eficientes de consumo e investimento.
O problema imediato, porém, é o de desastrosa
escassez. Não há informações públicas a respeito de importações contratadas e
reservas de combustível. A seguir, o perigo é a
tentação demagógica de tabelar preços.
A solução principal desta crise, a reabertura do estreito de Hormuz, ainda deve levar semanas, no cálculo otimista. A reorganização da produção e do transporte de combustíveis levará meses. É preciso considerar logo estratégias para adequar o país à nova realidade de preços e planejar a segurança energética.
Alta na dívida das famílias decorre de
políticas do governo
Por O Globo
Enquanto não houver equilíbrio fiscal,
programas de refinanciamento só estimularão o endividamento
Não deveriam surpreender os dados do Banco
Central (BC) mostrando que o comprometimento da renda das famílias com o
pagamento de dívidas voltou a atingir em janeiro o maior patamar da série
histórica, 29,3%, repetindo o nível de outubro passado. Mesmo com desemprego em
baixa, inflação sob controle e aumento da renda, o endividamento não para de
crescer, graças aos estímulos ao consumo e ao crédito dados pelo próprio
governo. Já se previa que medidas populistas, como o programa Desenrola, teriam
efeito limitado. Pois foi exatamente o que aconteceu. Agora, a seis meses das
eleições, o governo se desdobra para dar um jeito de aliviar o orçamento dos
brasileiros. É indisfarçável a preocupação maior com a urna do que com o bolso
da população.
Na semana passada, o presidente Luiz
Inácio Lula da
Silva anunciou que tomaria providências para “facilitar o pagamento daquilo que
as pessoas devem”. O governo tem se mostrado perdido, como demonstram as
declarações de Lula sobre o assunto. Recentemente ele disse em tom de
brincadeira que os brasileiros gastam muito com cachorros e que na China não há
esse problema. Em discursos recentes, tentou convencer o cidadão a gastar
apenas o dinheiro que ganha. E culpou os brasileiros pelas compras por impulso
de produtos baratos pela internet que, ao fim do mês, comprometem o orçamento.
Lula só esquece que o governo não só estimula o consumo, na esperança de
turbinar a economia, como é conhecido pela gastança desenfreada.
Definitivamente, o governo Lula não pode dar lição de austeridade a ninguém.
A preocupação exacerbada com as dívidas tem
justificativa eleitoral, pois o problema cai na conta do governo. A pedido de
Lula, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, se reuniu com representantes do
setor financeiro para elaborar um novo programa de renegociação de dívidas.
Como o Planalto tem pressa, pretende que seja mais ágil que o Desenrola. A
intenção agora é que a negociação seja diretamente com os bancos. Os
estrategistas de Brasília também querem que o programa tenha outro nome para
não passar a ideia de que o governo sempre está disposto a refinanciar dívidas
em atraso. Ora, nome é o que menos importa. Os objetivos, na prática, são os
mesmos. E qualquer tentativa de refinanciamento sempre embute o que os
economistas chamam de “risco moral”, o incentivo a mais endividamento. Ele
sempre existirá em programas que atacam a consequência, não a causa do
problema.
As dívidas surgem por vários caminhos. De
acordo com o BC, 101 milhões de brasileiros usam cartão de crédito (dado de
janeiro), 40 milhões pagam juros de 15% ao mês, e o rotativo registra cerca de
60% de inadimplência. Mas não é difícil entender a principal explicação para o
aumento do endividamento: os juros altíssimos nas operações de crédito
acompanham a taxa Selic, hoje em 14,75% ao ano, e põem em risco os compromissos
assumidos. E por que os juros estão nas alturas? Porque o descontrole fiscal do
governo não deixa margem para baixá-los sem comprometer a inflação. Somente
quando houver equilíbrio nas contas públicas e uma política fiscal responsável,
eles cairão de modo sustentado. Enquanto isso não acontecer, o governo poderá
tirar da cartola programas como Desenrola, ou seja lá que nome der, que o
endividamento persistirá.
Persistência do antissemitismo reflete
desinformação e ignorância
Por O Globo
Embora registros tenham diminuído no Brasil,
patamar continua em nível intolerável
Continua extremamente grave o patamar
alcançado pelo antissemitismo no Brasil, segundo os dados compilados pela
Confederação Israelita do Brasil (Conib). Em 2022, as denúncias não passavam de
397. Depois do ataque terrorista do Hamas em 7 de outubro de 2023, houve um
salto. O pico aconteceu em 2024, quando foram registrados 1.788 casos. No ano
passado, houve queda para 989, mas isso não representa alívio, porque o total
se manteve em nível inaceitavelmente alto, 150% acima de 2022.
O antissemitismo é uma forma de racismo, crime
inafiançável e imprescritível. Infelizmente, a polícia e a Justiça não têm dado
conta de identificar e punir os criminosos. Em contraste com outrora, quando a
chaga se manifestava sobretudo na extrema direita, a nova vertente, sob o
disfarce do “antissionismo”, encontrou abrigo na esquerda, onde conta com a
vista grossa — quando não o beneplácito — do atual governo. Como era de
esperar, o ódio e o preconceito contra judeus circula sem freios pelas redes
sociais. “O crescimento observado entre 2022 e 2024 foi impulsionado
principalmente pelo aumento das denúncias no ambiente digital”, diz o relatório
da Conib. As próprias redes dão de ombros à dimensão e à gravidade da questão.
Os dados exibidos no relatório são
eloquentes. Numa amostra de 1.427 judeus brasileiros ouvidos entre setembro de
2025 e janeiro deste ano, nada menos que 86% dizem que o problema tem se
agravado desde 2023. Três em dez afirmam ter sido alvo direto ou testemunhado
ataque nos 12 meses anteriores. Metade viu ou ouviu comentários antissemitas.
Quase 60% viram manifestações antissemitas contra outros nas redes sociais.
Uma pesquisa feita pela AtlasIntel a pedido
da StandWithUs Brasil em fevereiro mostrou a persistência entre os brasileiros
dos estereótipos antissemitas mais abjetos: 1) para 28%, é legítimo desconfiar
de judeus porque “são mais leais a Israel que ao Brasil”; 2) para 42%, é
aceitável comparar o tratamento de Israel aos palestinos ao dos nazistas aos
judeus; 3) para 29%, o povo judeu foi “responsável pela morte de Jesus”. Embora
70% dos brasileiros afirmem sentir-se à vontade em ter amigos judeus, entre os
de esquerda o percentual cai para 50%. “O antissemitismo contemporâneo no
Brasil se manifesta menos por hostilidade declarada e mais por uma combinação
de desinformação histórica, permissividade diante de estereótipos antigos e
baixo letramento sobre as formas que o ódio assume hoje”, diz o relatório.
O crescimento do antissemitismo é preocupante em todo o mundo. Ataques violentos têm ocorrido em lugares antes seguros para as comunidades judaicas, como Londres, Michigan, Toronto, Roterdã, Amsterdã ou Sydney. Diversas agressões são relatadas pela Conib, em especial em instituições de ensino. É especialmente chocante que, embora 64,4% considerem essencial ensinar o Holocausto nas escolas, 87,3% dos brasileiros jamais tenham participado de uma simples palestra sobre o tema. Tal ignorância é o terreno onde florescem o preconceito e o ódio.
A desmoralização das CPIs
Por O Estado de S. Paulo
Fraudes aos sistemas previdenciário e
financeiro permanecem opacas e impunes, seja porque a politicagem degrada as
CPIs por dentro, seja porque o corporativismo as desmantela por fora
O Supremo Tribunal Federal (STF) negou um
pedido de parlamentares para que a CPI do INSS fosse prorrogada. A comissão
teve de encerrar os trabalhos sem conclusão e não aprovou um relatório final. A
investigação parou no meio do caminho – não por falta de fatos, mas por falta
de disposição para apurá-los.
As fraudes multibilionárias do INSS e do
Banco Master atingem em cheio dois sistemas centrais da República: o
previdenciário e o financeiro. Ainda assim, a CPI do INSS terminou em espuma
politiqueira; a do Master nem saiu do papel. O desfecho da CPI do INSS expõe
dois movimentos simultâneos que completam esse círculo de impunidades. De um
lado, decisões e omissões que travam o avanço das investigações. De outro, uma
CPI que se desvirtuou e perdeu capacidade de produzir resultado.
É regra elementar do Direito que o que vale
para o mais, vale para o menos. Se o STF pode agir para resguardar o direito
das minorias parlamentares a instaurar uma investigação – como já fez várias
vezes –, não só pode como deve resguardar o direito a continuar uma
investigação. O próprio ministro Gilmar Mendes negou um pedido para barrar a
prorrogação da CPMI das Fake News. Agora, diz que uma intervenção seria
inconstitucional. Ele e outros ministros falaram em “autocontenção” e lançaram
mão de jargões vistosos – como “matéria interna
corporis” – para lavar as mãos: a minoria ficou a ver navios, e a
CPI terminou por inércia.
A autocontenção é seletiva. Mendes e Flávio
Dino não tiveram pruridos em bloquear diligências legítimas de CPIs em curso.
Ambos criticaram a extensão de investigações e a falta de delimitação de
objeto, enquanto corroboram os inquéritos infinitos e fluidos conduzidos por
Alexandre de Moraes. Este, por sua vez, restringiu o uso de relatórios do Coaf,
exigindo investigação formal e objeto definido para o compartilhamento de
dados. A decisão em si é tecnicamente sustentável, mas é curioso que ela
contrarie uma decisão de meses antes do mesmo ministro.
Dado esse mosaico de incoerências, não se
pode condenar quem veja nessas decisões motivações que nada têm a ver com
princípios constitucionais, mas com conveniências corporativistas ou pessoais.
As CPIs do INSS e do Crime Organizado
avançavam sobre operações do Banco Master, controlado por Daniel Vorcaro e sua
gangue estelionatária – que mantinha relações suspeitas com pelo menos três
ministros, Dias Toffoli, Moraes e Nunes Marques – quando as restrições
começaram a se acumular. O ministro Cristiano Zanin rejeitou um pedido de
instalação de uma CPI na Câmara específica sobre o Master.
A cúpula do Congresso contribui para o mesmo
resultado. Os presidentes do Senado e da Câmara, Davi Alcolumbre e Hugo Motta,
se valem de manobras como manipulações das pautas, esvaziamentos de sessões e
recusas a ler requerimentos para travar CPIs em curso ou a instalação de novas
comissões.
O procurador-geral da República, Paulo Gonet,
faz cara de paisagem. Medidas relevantes partiram de outros atores. As
investigações seguem sem a direção unificada ou a pressão institucional que
costumam transformar indícios em responsabilização.
A resistência à blindagem corporativa e ao
sufocamento das investigações seria mais fácil se as próprias CPIs não se
desmoralizassem por dentro. No caso do INSS, o escândalo cedeu espaço ao palco,
que só produziu ruído, não conclusão. O governo rejeitou as propostas da
oposição e vice-versa, e a comissão acabou sem um relatório – felizmente, já
que ambos os lados só queriam se servir de pedaços da investigação como munição
para ferir o outro na corrida eleitoral.
O País assiste a tudo isso no escuro, sem
respostas. As perguntas elementares – quem fez o quê e como impedir que façam
de novo – permanecem abertas. CPIs já tiveram papel decisivo na história
nacional. Dos “anões do Orçamento” ao “petrolão”, investigações parlamentares
revelaram esquemas, derrubaram poderosos, levaram réus à Justiça. O instrumento
permanece no texto constitucional. Mas seu funcionamento depende de condições
políticas que estão se deteriorando tanto mais aceleradamente quanto mais as
investigações incomodam os núcleos do poder.
O vício das redes sociais
Por O Estado de S. Paulo
Tribunal da Califórnia decide que Meta e
Alphabet criam produtos intencionalmente viciantes para crianças, numa sentença
que pode redefinir os rumos da segurança nas redes
Após mais de uma semana de deliberação, um
júri no Tribunal Superior da Califórnia decidiu que a Meta (dona do Facebook,
Instagram e WhatsApp) e a Alphabet (controladora do Google) desenvolveram
produtos intencionalmente viciantes para crianças.
As duas empresas foram condenadas a pagar
milhões de dólares por danos morais e outros prejuízos financeiros a uma mulher
que começou a utilizar as redes aos 6 anos de idade. Os jurados concordaram com
a tese da defesa dela, hoje com 20 anos, de que as redes sociais levaram-na a
desenvolver problemas graves como dismorfia corporal e pensamentos suicidas.
A decisão deve abrir caminho para uma
enxurrada de ações judiciais relacionando saúde mental ao uso de produtos
oferecidos pelas chamadas big techs.
Nos EUA, já se compara o atual momento das
empresas de tecnologia com aquele vivido pelas grandes companhias de cigarro em
meados dos anos 1990. À época, ficou comprovado que as fabricantes sabiam,
havia décadas, dos malefícios causados pelo fumo. Apesar disso, o setor seguia
promovendo seus produtos como símbolos de liberdade, bem-estar e status.
Tudo isso começou a mudar em 1998, quando as
quatro maiores companhias de cigarro dos EUA entraram em um acordo de mais de
US$ 200 bilhões para pôr fim a uma série de ações judiciais. Um dos objetivos
do acordo era justamente o de reduzir o vício de fumar entre os jovens. Para
tal, adotaram-se medidas como a proibição de patrocínio de marcas de cigarro em
eventos voltados ao público jovem, tais como shows e disputas esportivas.
As big techs tentam, agora, evitar ter o
mesmo destino que, em um passado recente, acabou por mudar significativamente o
modo de atuação das fabricantes de cigarro – de acordo com a Organização
Mundial de Saúde, o uso global de tabaco caiu de 26,2% em 2010 para 19,5% em
2024.
Para as big techs, potenciais regras de uso
mais rígidas ou limitação de publicidade podem não ser facilmente assimiladas,
uma vez que a receita dessas empresas deve-se quase integralmente à veiculação
de propagandas ou conteúdo pago.
Por isso mesmo, um porta-voz da Meta afirmou
que a empresa “discorda respeitosamente do veredicto” do júri californiano e
que avalia opções legais. Durante o julgamento, as empresas invocaram o
princípio constitucional de liberdade de expressão e pediram o arquivamento da
ação.
Celebrado por pais e educadores, o desfecho
do caso não está imune a controvérsias, já que envolve escolhas pessoais, o
próprio papel da família na atenção aos filhos e limites legais e regulatórios.
“A saúde mental é uma questão profundamente
complexa e não pode ser associada a um único aplicativo”, afirmou a Meta em um
comunicado, valendo-se de um argumento que, com um ou outro ajuste, pode
facilmente ser esposado por empresas de outros setores.
É fato, porém, que, a despeito das
peculiaridades de diagnósticos de distúrbios mentais, o próprio CEO da Meta,
Mark Zuckerberg, já teve de se desculpar publicamente, em uma audiência no
Senado dos EUA, com as famílias de crianças e jovens expostos a conteúdo
impróprio, como de cunho sexual, em plataformas como o Facebook.
Na ocasião, provocado por um senador,
Zuckerberg disse sentir muito por tudo o que os familiares de crianças e jovens
passaram, mas garantiu que investe pesadamente para garantir a segurança dos
usuários dos produtos de sua empresa.
Não parece ser o bastante, e a decisão do
caso na Califórnia é apenas a mais recente a comprovar o desconforto
generalizado com o impacto das redes sociais sobre crianças e adolescentes.
Países como a Austrália já tomaram medidas drásticas, como o banimento das
redes para menores de 16 anos.
Seja como for, está claro que os padrões de
segurança e de proteção de crianças nas redes sociais ainda são insuficientes.
Melhor que sejam aprimorados por vontade das próprias empresas, mas, se tiver
de ser por força de decisões judiciais, que seja.
Tarde demais, cara demais
Por O Estado de S. Paulo
Inaugurada com 12 anos de atraso, Linha
17-Ouro do Monotrilho é uma ode ao desmazelo administrativo
O governador de São Paulo, Tarcísio de
Freitas (Republicanos), cumpriu uma promessa de campanha ao inaugurar, ontem, a
Linha 17-Ouro do Monotrilho, que liga o Morumbi ao Aeroporto de Congonhas. Em
meio a tantas obras públicas que apodrecem a céu aberto como monumentos à
incúria, é de justiça registrar seu mérito. Finalmente, um trem previsto para
ser entregue a tempo da Copa do Mundo de 2014 começou a se mover. Mas é só
isso. A história dessa obra inspira mais lamento do que celebração.
Concebida em 2010, sob o entusiasmo da
escolha do Brasil para sediar a Copa do Mundo seguinte, a Linha 17-Ouro do
Monotrilho deveria ligar Congonhas ao estádio em tempo recorde. A promessa,
como tantas daquela época, não passou disso, de uma promessa, sucumbindo à
incompetência e à roubalheira.
Vieram as mudanças no projeto original,
aditamentos contratuais, a troca do estádio da abertura da Copa do Mundo pela
Fifa, o corte de financiamentos e, em meio a tudo isso, a razia provocada pela
Lava Jato, atingindo em cheio as empreiteiras responsáveis pela obra.
Resultado: paralisações, contratos rescindidos pelo Metrô de São Paulo e um
canteiro de obras que não demorou para se transformar numa pequena Cracolândia,
para desespero de quem circula pela Avenida Roberto Marinho.
O Monotrilho chega com três Copas do Mundo de
atraso, fato que, por si só, já demonstra que a ideia original perdeu o
sentido. O custo, por sua vez, dobrou. O que começou como um orçamento de R$
2,9 bilhões terminou em cerca de R$ 6 bilhões apenas nesta primeira etapa, sem
que se possa dizer, com segurança, que se trata da conta final para os
contribuintes. A bem da verdade, esse não é um problema exclusivo da Linha
17-Ouro. Obras públicas raramente têm esse tipo de acurácia no Brasil.
Portanto, a construção da Linha 17-Ouro do
Monotrilho não foi um raio em céu azul. Foi fiel a uma tradição de desmazelo administrativo,
para dizer o mínimo, que naturaliza o atraso e banaliza o desperdício de
bilhões de reais em recursos públicos como se fossem fatos da vida.
Doze anos depois, Tarcísio tem o direito de
receber os louros políticos pela conquista – afinal, de fato, ele concluiu uma
obra que deveria ter sido entregue à população ainda nos tempos de Dilma
Rousseff (PT). O Monotrilho, aliás, não é a primeira obra que Tarcísio retira
do limbo das promessas não cumpridas por outros governos, algo que merece ser
notado.
Para os turistas e moradores da capital paulista, resta a utilidade de mais uma linha de transporte sobre trilhos, ainda que de alcance limitado, e a esperança de que futuros presidentes da República, governadores e prefeitos guardem essa obra não como um triunfo de engenharia e gestão, mas como uma advertência para projetos dessa magnitude. Se a Linha 17-Ouro do Monotrilho deixar ao menos essa lição, já terá prestado um serviço muito melhor do que aquele para o qual foi concebida.
Governo lança mão de arsenal de medidas em
ano eleitoral
Por Valor Econômico
Mesmo sem recursos sobrando, o governo
prepara planos em todas as áreas, do financiamento do querosene de aviação para
companhias aéreas ao crédito rotativo
O presidente Lula passou a se reunir com mais
frequência com o núcleo político do governo para preparar sua campanha
eleitoral, o que pode significar mais gastos e, portanto, mais riscos para as
contas públicas. Mesmo sem recursos sobrando, ao contrário, com déficit fiscal
estimado em R$ 64 bilhões no ano, o governo prepara planos em todas as áreas,
do financiamento do querosene de aviação para companhias aéreas ao crédito
rotativo, da renegociação de dívidas à possível suspensão da “taxa das
blusinhas”.
Desde o início, o governo vem aumentando
estímulos, seja por meio de gastos ou de renúncias. Uma de suas principais
medidas foi a aprovação no Congresso da isenção do Imposto de Renda para quem
ganha até R$ 5 mil, o que significou a renúncia de R$ 28 bilhões em receitas. O
governo ampliou também de 5 milhões para 14,7 milhões o número de pessoas
habilitadas ao programa Gás do Povo, que doa recarga de botijão do GNL a cada
dois ou três meses, dependendo do tamanho da família, e tem um custo estimado
em R$ 5,1 bilhões. Já o Conselho Curador do FGTS ampliou a faixa máxima de
renda para o programa Minha Casa Minha Vida para R$ 13 mil mensais,
estendendo-a à classe média, que as pesquisas indicam estar ressabiada com o
governo.
Empatado nas pesquisas com seu rival Flávio
Bolsonaro, Lula mostra-se preocupado com o endividamento dos brasileiros, de
novo perto do recorde, atingindo 49,69% da renda acumulada em 12 meses, e com
as famílias comprometendo 29,19% de sua renda mensal. Em 2025, o Desenrola
reescalonou débitos de R$ 50 bilhões para 15 milhões de pessoas, de um total de
71,4 milhões de devedores. Em fevereiro, segundo a Serasa, o número de
endividados foi a 81,7 milhões (O Estado de S. Paulo, ontem).
Na mesma linha, o governo estuda uma forma de
facilitar os empréstimos consignados privados, com desconto em folha. Uma ideia
é usar o saldo do FGTS como espécie de garantia, o que depende de
regulamentação. A outra é diminuir de alguma forma os juros da modalidade. Em
fevereiro, o montante de crédito da linha caiu 22,5% em relação a janeiro,
enquanto a taxa de juros média efetivamente cobrada subiu de 57,4% para 59,4%
ao ano. O dado é um elementar aviso de que é ineficaz estimular a tomada de
crédito enquanto o país convive com a maior taxa básica desde 2006, um juro
real quase 10% — tão alta assim porque o governo se endivida cada vez mais. O
governo também quer resolver a velha questão do crédito rotativo do cartão de
crédito, com juros médios de 436% ao ano.
A crise do petróleo criada pela guerra dos
EUA e Israel contra o Irã abriu um novo horizonte de ameaças à popularidade do
presidente e estimulou outra onda de voluntarismo estatal. O governo foi rápido
em reduzir impostos e criar subvenção ao diesel, a um custo de R$ 16,7 bilhões,
caso as medidas não tenham prazo estendido ou sejam ampliadas, a ser compensado
por um imposto de exportação que, na previsão oficial, arrecadará R$ 15,1
bilhões. Está perto de fechar com os Estados a divisão da isenção do ICMS com a
União, a um custo de R$ 3 bilhões. As medidas amortecem o impacto imediato do
aumento, mas são ineficazes se os preços continuarem subindo, ou, o que é pior,
houver escassez do produto, o que é provável.
As companhias aéreas poderão ser contempladas
com uma linha de crédito a juros menor que os de mercado para custear o
querosene de aviação, que subiu 50% desde a guerra, com recursos do Fundo
Nacional de Aviação Civil. No pacote em estudo estariam incluídos a diminuição
do IR sobre aluguel de aviões e corte do Imposto sobre Operações Financeiras
(IOF) para algumas transações externas (Folha de S. Paulo, ontem).
O Ministério das Minas e Energia anunciou
ontem que tomará medidas para diminuir a volatilidade dos preços do petróleo, e
apontou que um dos mercados mais sensíveis é o de “gás de cozinha”, o gás
natural liquefeito — o Brasil importa 20% do que é consumido. A estratégia
envolverá subvenção a bens essenciais. Para evitar o repasse total do aumento
da energia, o governo pensa em abrir uma linha de crédito de R$ 7 bilhões do
BNDES para as distribuidoras, postergando o reajuste para o ano seguinte às
eleições.
Uma parte do esforço de suavização do repasse
dos preços de petróleo e derivados está nas mãos da Petrobras,
que já aumentou o diesel. Sua fórmula de preços não transmite imediata e
totalmente as cotações internacionais do óleo e derivados, e tem razoável grau
de discricionaridade. Segurar os preços por muito tempo fará mal ao caixa da
companhia, algo que ocorreu durante o governo de Dilma Rousseff, mas que não
necessariamente se repetirá agora.
O Planalto cogita não só tentar resolver problemas
para os quais não tem recursos, mas também desfazer medidas que não foram
populares. Há discussão sobre um possível fim da “taxa das blusinhas”, a
cobrança de impostos sobre importações de até US$ 50, com receita de R$ 2
bilhões para os cofres públicos (O Globo, ontem).
O governo se preparou para atravessar um ano eleitoral. Realizou um bloqueio mínimo de R$ 1,6 bilhão na primeira revisão da execução do orçamento, não fez contingenciamento e buscará de novo o piso da meta fiscal, de zero superávit. Com limites para gastos orçamentários, têm à disposição vários fundos de crédito para usar.
A saúde encarece, e o paciente paga
Por Correio Braziliense
Em um país em que grande parte da população
depende de renda instável, a elevação contínua dos preços de medicamentos
aprofunda barreiras de acesso
Os preços dos medicamentos sofrerão novo
reajuste, a partir de hoje, autorizado pela Câmara de Regulação do Mercado de
Medicamentos (Cmed), com variações que podem ir de 1,13% a 3,81%, a depender do
nível de concorrência de cada produto. Ainda que o percentual estimado seja
considerado um dos menores dos últimos anos, a alta reafirma um problema
estrutural: o custo contínuo da saúde no Brasil recai, de forma desigual, sobre
o bolso dos pacientes.
O modelo brasileiro estabelece tetos de preços,
não aumentos obrigatórios. Na prática, isso significa que os laboratórios têm
autonomia para aplicar, ou não, o reajuste autorizado, dentro de um limite
regulatório. O cálculo leva em conta inflação, produtividade da indústria e
fatores de mercado, numa fórmula que tenta equilibrar sustentabilidade
econômica e acesso. Ainda assim, a realidade cotidiana mostra que, mesmo quando
os índices são considerados "moderados", o impacto acumulado sobre as
famílias é significativo.
Para pacientes crônicos — hipertensos e
diabéticos, por exemplo —, o reajuste não é uma abstração econômica, mas um
custo inevitável e recorrente. Diferentemente de outros bens de consumo,
medicamentos não são passíveis de adiamento. A cada aumento, ainda que pequeno
em termos percentuais, amplia-se o risco de abandono de tratamento, de redução
de doses por conta própria ou de substituições inadequadas. O que para o
mercado representa ajuste técnico, para milhões de brasileiros se traduz em
dilema cotidiano entre saúde e orçamento.
A desigualdade agrava esse cenário. Em um
país em que grande parte da população depende de renda instável, a elevação
contínua dos preços de medicamentos aprofunda barreiras de acesso. Programas de
desconto e a concorrência de genéricos ajudam, mas não resolvem o problema
estrutural, sobretudo em segmentos com baixa competição — justamente
aqueles com menor margem de reajuste autorizado, mas frequentemente com preços
já elevados e pouca alternativa terapêutica.
É nesse ponto que se impõe uma reflexão sobre
o papel das grandes farmacêuticas. Em um contexto de ganhos bilionários, cabe
questionar até que ponto é razoável transferir, ano após ano, o peso integral
dos reajustes para quem depende desses produtos para viver. Não se trata de
inviabilizar a indústria, mas de reconhecer que medicamentos não são
mercadorias comuns — são bens essenciais, cuja precificação envolve,
necessariamente, uma dimensão ética.
Ao governo, por sua vez, cabe mais do que a
definição anual de índices. A regulação de preços, embora importante, mostra-se
insuficiente diante da complexidade do problema. É preciso fortalecer políticas
públicas de acesso, ampliar a oferta de medicamentos pelo Sistema Único de
Saúde e garantir que a lógica de mercado não se sobreponha ao direito à saúde.
A própria estrutura da Cmed, baseada em tetos e fórmulas técnicas, poderia ser
revista para incorporar de forma mais direta os impactos sociais dos reajustes.
O aumento autorizado para 2026 pode ser, em números, um dos mais baixos da década. Mas a questão central permanece intocada. Em um país marcado por desigualdades profundas, até mesmo pequenos reajustes podem ter efeitos desproporcionais. E, enquanto o acesso a medicamentos seguir condicionado à capacidade de pagamento, o direito à saúde continuará sendo, para muitos, mais uma promessa do que uma realidade.
O esforço bem-vindo pelo voto do jovem
Por O Povo (CE)
Discute-se no Brasil, vez em quando, a tese
de que acompanhando o que acontece em muitos países o voto não deveria ser
obrigatório, como é aqui para quem se situa na faixa de idade entre 18 e 70
anos
É muito interessante a iniciativa que tem
adotado a justiça no Ceará ao incentivar a participação de jovens no processo
eleitoral de 2026. Uma campanha do Tribunal Regional Eleitoral (TRE), que
precisa ser mais abraçada pela sociedade, lança estímulos para que o cearense
apto a votar numa faixa etária em que a obrigação vira somente uma
possibilidade, entre 16 e 17 anos completos, se sinta motivado a
fazer cadastro, virar eleitor e ter condições de exercer um direito que
pertence ao cidadão no próximo dia 4 de outubro.
Discute-se no Brasil, vez em quando, a tese
de que acompanhando o que acontece em muitos países o voto não deveria ser
obrigatório, como é aqui para quem se situa na faixa de idade entre
18 e 70 anos. Devemos mesmo caminhar para o recomendado de se permitir a cada
um que faça suas escolhas, inclusive em relação à conveniência de exercer um
direito que hoje lhe é garantido, mas convém que isso um dia deixe ser imposto.
No entanto, há um caminho por percorrer até
chegarmos ao estágio que seria recomendado, conforme sugerido acima. Até lá,
tudo que puder ser feito para garantir o máximo de participação do eleitor,
inclusive em segmentos onde a obrigatoriedade não existe, deve ser respaldado
como forma de aumentar a legitimidade dos que forem escolhidos para ocupação de cargos
públicos eletivos, assim lhes garantindo a força necessária para levarem
adiante os compromissos assumidos durante a campanha. Com a ideologia que
tenham e se inseridas dentro de um contexto no qual o interesse público seja o
norte principal.
É importante que outras instâncias públicas
colaborem para que se alcance as metas definidas, como se dá em relação ao
exemplo que oferece a Secretaria de Educação do Estado, disponibilizando
inclusive transporte para que os alunos da rede pública possam
deslocar-se até os pontos de atendimento da justiça eleitoral. O mais
importante em tudo é estabelecer a consciência nos jovens, desde cedo, da
importância de participação no processo de escolha de quem nos dirige.
No frigir dos ovos, a ação desenvolvida pelo
TRE funciona, lá na ponta, como fator de fortalecimento da democracia, uma
necessidade dos tempos atuais. É paradoxal que os tempos de liberdade que
vivenciamos enfrentem, ao mesmo tempo, um quadro de descrédito nos políticos e
nas pessoas públicas em geral raras vezes observado em nossa história. Um
problema a ser resolvido com mais participação popular e, no geral, através do
voto quando ele for solicitado.
A reversão desse quadro passa pelo fortalecimento do sentimento de cidadania entre nós e, sem dúvida, incentivar os jovens a exercê-la representa um foco acertado da justiça eleitoral. Espera-se que o fim do prazo para novos registros, no próximo dia 6 de maio, indique, em números, que soubemos captar o aceno.

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