O Globo
Ele não entende a colaboração premiada como
fim de carreira. Faz planos. Para começar, não entregará todo o dinheiro que
amealhou
Não sou dessas pessoas que o tempo inteiro dizem: "Vai acabar em pizza, vai acabar em pizza." Mas confesso que estou um pouco cético sobre a delação de Daniel Vorcaro, o homem que iluminaria toda a escuridão da República. Vorcaro não entende a delação como fim de carreira. Faz planos. Para começar, não entregará todo o dinheiro que amealhou. Precisa de recursos para recomeçar adiante. Há muita coisa que não poderá esconder, pois o conjunto de mensagens no celular revela seu movimento financeiro. Mas aquilo que não está a descoberto, ele deve considerar um fundo de sobrevivência para a nova etapa, pois certamente não conta com um longo período de prisão.
Outro ponto vulnerável na delação de Vorcaro
são os próprios advogados. Ele é apenas um caso fortuito, e provavelmente muito
lucrativo, para os advogados. Mas nada se compara à relação estratégica e
permanente que precisam manter com o STF. Quando se trata de apontar as armas
para a Corte, faltará pólvora ou, no mínimo, ela estará molhada.
Detesto a expressão “acochambrar”. Para
coisas feias, palavras feias. Na semana passada, um ministro do TSE, aliado de
Alexandre de Moraes, Floriano Marques, encontrou-se com o advogado de Vorcaro
num hotel de Brasília. O encontro se deu um dia depois da apresentação da
proposta de delação. O ministro admite que conversou superficialmente sobre a
delação e comentou:
— Puxa vida, que coisa!
Ninguém pode provar que a conversa não foi
superficial. Marques foi indicado por Lula, por sugestão de Moraes. São colegas
na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo.
Por uma tentativa de conhecer a delação
premiada do tenente-coronel Mauro Cid, o general Braga Netto foi para o espaço.
O advogado de Vorcaro sabe disso. Por coincidência, Braga Netto também é seu
cliente. O ministro e o advogado são amigos. Quem não é amigo, conhecido,
camarada? “Meu caro, que prazer, vamos tomar algo para combater essa secura de
Brasília.”
A Polícia Federal trabalha firme e com
competência. Mas será difícil romper esse cipoal de relações e favores. No caso
do senador Ciro Nogueira, houve indícios, casa, mesada, cartão e um ato de
ofício: a emenda apresentada por Ciro, subindo de R$ 250 mil para R$ 1 milhão a
garantia de ressarcimento aos credores de um banco quebrado. Vorcaro saudou
essa emenda nas conversas com a namorada. Possivelmente, outros amigos de
Vorcaro na política terão dado bandeira e cairão também. Mas o núcleo mais
duro, que envolve ministros do Supremo, talvez não seja tocado.
Quem quer brigar com o Supremo? A qualquer
momento, nosso destino pode estar nas mãos deles. Se julgam e condenam, apelar
para quem? Você fica com a corda no pescoço, com a espada na cabeça e com uma
parte da esquerda jurando que você é de extrema direita.
No entanto será preciso reclamar. O caso
Master não pode dar em pizza. Haja farinha, molho de tomate e orégano para
cobrir 8 milhões de quilômetros quadrados. Mas é preciso não ter grandes
ilusões. O Brasil não é fácil.

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