Gilberto Freyre, Médicos, doentes e contextos sociais: uma abordagem sociológica. p. 61.
No ano de 1987 o Brasil estava nos debates
constituintes, que nos proporcionaram a Carta Democrática de 1988. Foi nesse
ano que houve o acidente radioativo com o Césio 137, que a NETFLIX acertou em
investir no tema como uma série brasileira em cinco capítulos, alguns anos após
a emergência sanitária por conta da COVID-19 e em tempos de manifestações
negacionistas sobre as Vacinas. Assim, “Emergência Radioativa” ganha uma força
reflexiva para além de uma memória, mas nos permite observar como a gestão
pública pode lidar com situações de emergência.
Relembremos dos gestores da cidade turística
onde ocorre o filme Tubarão, que temiam o “pânico” desnecessário na população,
que afastaria os lucros com essa atividade. A ideia de que a “economia não pode
parar” é um valor do fundamentalismo neoliberal que não compactua com os
princípios democráticos. Aqueles que um dia se deixaram levar por esse “atalho”
devem se posicionar com suas manifestações pretensamente moderadas diante do
que se passou recentemente em nossa história política brasileira.
A qualidade da série parte da importância do
quanto uma “governança protetora” se forma em condições de uma emergência que
poderia atingir proporções inimagináveis. Intelectuais e vida pública são
observados na correria de Doutores em Física Nuclear para salvar vidas. As
medidas restritivas são feitas no intuito de contenção de ricos que colocariam
a saúde pública sobre um alto nível de pressão nos atendimentos hospitalares.
Além disso, o debate sobre a ética da convicção e a ética da responsabilidade
se faz presente na cena da Assembleia dos Profissionais de Saúde em Greve; no
momento que profissionais da saúde da Marinha se apresentam como voluntários
para o Diretor do Hospital Naval Marcílio Dias, com intuito de salvar mais
vidas, ou na cirurgia, ou na entrada do “camarada médico” soviético na
cirurgia, no limite do tempo para garantia de seu sucesso.
O elenco das principais vítimas foi um grande
acerto na seleção não apenas na interpretação, quanto na percepção de serem
negros e pardos, ou seriam “quase brancos e quase pretos” naquele terremoto de
outro tipo. Destaque para Bukassa Kabengele que, em alguns momentos, me fez
lembrar as interpretações marcantes do saudoso Milton Gonçalves (1933 – 2022
que foi garoto-propaganda da Frente Republicana Presidencialista no plebiscito
de 1993. Além disso, o público perceberá outro Paulo Gorgulho, ou seja, muito mais
amadurecido que aquele que esteve nas telas na minissérie Decadência de Dias
Gomes em 1995. Por fim, somos brindados pela atuação de Tuca Andrada como o
Governador Roberto Correa (nome fictício para o Governador Henrique Santillo,
que nos faz pensar sobre “história comparada” quanto à relevância do fator
político e democrático na gestão pública de saúde).
Lembremos que Vigilância Sanitária é hoje
muito mencionada. Logo, a atitude de personagem-ficção Antônia Quadrado, que
leva para a mesma a fonte de contaminação – mesmo após o classificar como
“força do mal” – demonstra um pouco das características femininas com o cuidado
com a saúde. Um indicador de que o tema da saúde pública não pode estar
distante dessa “fala feminina” que muito bem coloca a relevância da ciência
nesses tempos de negacionismo. Nós observamos muito melhor o lado feminino
daquela Goiás de 1987, onde as mulheres ainda ganhavam espaço nas suas
conquistas sociais.
Além disso, estamos em tempos em que o SUS
não existia, o que faria um telespectador desavisado não perceber o grau de
dificuldades sobre o tema da saúde pública diante de um “contrato quebrado”
entre dois entes privados que implica em impactos no tratamento com uso de
radioterapia. A coleta dos dados tanto dos que foram impactados pela emergência
radioativa quanto sobre a emergência da COVID-19 nos permitiria quais teorias
fundamentadas? Por hora, um presidenciável formado em medicina sai de Goiás
após aumentar os valores da pensão vitalícia das vítimas (grupo de 603 pessoas
que estavam sem reajuste há sete anos). Ou seja, as vidas e os números das
finanças públicas podem mudar ao sabor da conjuntura política.
*Vagner Gomes é Doutorando do PPGCP-UNIRIO.

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