Messias deve ser submetido a arguição rigorosa
Por O Globo
Alcolumbre fez bem em marcar logo sabatina.
Senadores devem manter foco no lado técnico, não no político
O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), não demorou a enviar à Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) a indicação do advogado-geral da União, Jorge Messias, para a vaga aberta no Supremo Tribunal Federal (STF) com a aposentadoria do ex-ministro Luís Roberto Barroso, em outubro do ano passado. A decisão desfez os rumores de que, em meio às rusgas com o Palácio do Planalto, os senadores pudessem empurrar a sabatina para depois das eleições. Seria péssimo para o país, uma vez que o Supremo está com um ministro a menos. A sabatina foi marcada para 29 de abril.
Não faria sentido postergá-la ainda mais. A
escolha de Messias pelo presidente Luiz Inácio Lula da
Silva foi publicada no Diário Oficial em 20 de novembro de 2025. Alcolumbre
chegou a marcar a sabatina para 10 de dezembro, mas o governo considerou o
prazo excessivamente curto para que o advogado-geral da União se apresentasse
aos senadores e tentasse reverter o clima desfavorável. Com articulação
política frágil, Lula atrasou quanto pôde o envio da mensagem ao Senado
oficializando a escolha — a espera nunca demorou tanto —, mas a enviou enfim na
semana passada.
É fundamental que não haja mais delongas. A
demora, já excessiva, traz prejuízos ao Supremo, que desde outubro funciona com
dez ministros. A lacuna faz enorme diferença no fluxo de trabalho da Corte,
devido ao acúmulo colossal de processos. Quanto antes ocorrer a recomposição,
melhor para todos. Também é hora de deixar os dissensos políticos para trás e
concentrar-se na sabatina. O clima conflagrado entre o governo e o Congresso
não deveria pesar na decisão dos senadores. Ela precisa ser estritamente
técnica. Goste-se ou não, a indicação de ministros ao Supremo é prerrogativa do
presidente da República. Cabe aos senadores avaliar, por meio de inquirição
rigorosa, se Messias cumpre as exigências impostas pela Constituição: notório
saber jurídico e reputação ilibada. E se demonstra independência e
imparcialidade para agir no cargo, como convém a um ministro da mais alta Corte
do país.
Messias é advogado, mestre e doutor em
Direito pela Universidade de Brasília. Mas não foram apenas seus conhecimentos
jurídicos que o credenciaram à vaga no Supremo. Depois de se frustrar com
escolhas anteriores, Lula não esconde que, em seu terceiro mandato, passou a
priorizar fidelidade e proximidade. Embora tenha bom trânsito entre diferentes
correntes ideológicas, Messias é inegavelmente próximo a Lula e ao PT.
Nas últimas semanas, ele tem intensificado o corpo a corpo. O senador Weverton Rocha (PDT-MA), relator da indicação, prometeu ajudá-lo na busca de votos. “O ambiente é totalmente favorável”, afirmou Rocha. “Ele dialogou e tem aberto mais portas. Arrisco dizer que está com caminho construído para ser aprovado.” Historicamente, o Senado costuma confirmar as indicações presidenciais — a última rejeição aconteceu no distante governo Floriano Peixoto. Mas isso não significa que a aprovação deva ser automática. A oposição promete arguição dura na CCJ — e é bom que seja assim. Depois Messias precisará do voto de 41 dos 81 senadores no plenário. Não é tarefa simples.
CNJ e CNMP ampliam frustração com decisão do
STF sobre ‘penduricalhos’
Por O Globo
Instâncias administrativas restauram benesse
extinta e criam novas regalias para juízes e procuradores
Não demorou muito para a decisão do Supremo
Tribunal Federal (STF)
a respeito das verbas indenizatórias pagas a juízes e procuradores — os
proverbiais “penduricalhos” — despertar reação corporativa. Por decisões
administrativas, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ)
e o Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP) restabeleceram adicionais
vetados pela decisão do Supremo e reembalaram outros para recriar benesses.
O que aconteceu com o auxílio-moradia,
ressuscitado mediante vinculação à mudança de cidade, ilustra a manobra. “O STF
decidiu que auxílio-moradia era inconstitucional”, diz Jessika Moreira,
diretora do Movimento Pessoas à Frente. “CNJ e CNMP votaram uma resolução, e o
auxílio voltou.” De acordo com ela, esse caso explica como funciona a lógica
dos “penduricalhos”. “Cada vez que uma brecha fecha, outra abre”, afirma.
“Nossa preocupação agora é que isso sirva de precedente para outras carreiras
do funcionalismo exigirem os mesmo benefícios. A decisão do STF foi categórica.
Não podemos deixar que uma regulamentação administrativa a distorça.”
É importante registrar que a decisão do
Supremo foi extremamente generosa com as categorias do Judiciário, estipulando
na prática um teto salarial 70% acima do determinado na Constituição e
recriando o estapafúrdio quinquênio, promoção automática por tempo de serviço
extinta por Emenda Constitucional em 2003. Mas tal generosidade não foi suficiente
para conter o ímpeto das corporações por mais regalias. A decisão do CNJ e do
CNMP aproveitou para instituir uma nova gratificação: um novo auxílio-creche
para magistrados, promotores e procuradores que tenham filhos com menos de 6
anos.
Em quase nada se avançou na moralização do
uso do dinheiro público e no combate a privilégios. Diante da omissão do
Congresso, a intervenção do STF era necessária, mas foi frustrante. Na prática,
o Supremo referendou retrocessos administrativos. Além do quinquênio, vetou
licenças justificadas pelo aumento da carga de trabalho, mas manteve
indenização por plantões ou acúmulo de funções. Continuará, portanto, a haver
horas convertidas em remuneração adicional, mas com outro nome.
O resultado prático da intervenção do STF trouxe alguma transparência aos “penduricalhos”, mas deixou a desejar por duas razões básicas. Primeiro, é imperioso que instâncias administrativas como CNJ e CNMP parem de criar novos “penduricalhos”. Segundo, é necessário que revejam tais pagamentos com o objetivo de reduzi-los, não de ampliá-los. Outras áreas do funcionalismo já reivindicam benesses equivalentes ao quinquênio restabelecido para juízes, procuradores e promotores. Por isso o Congresso não pode mais adiar o debate sobre os “penduricalhos”, em busca de uma solução que dê fim a privilégios na máquina pública, em respeito aos demais servidores, à população e aos cofres públicos.
Troca-troca expõe fragilidade dos partidos
Por Folha de S. Paulo
Elevada migração entre as legendas indica
oportunismo de candidatos e falta de consistência programática
Fenômeno reflete desrespeito com o eleitor e
falta de compromisso com uma agenda substantiva; é preciso reduzir o número de
siglas
Faz quase 20 anos que o Tribunal Superior
Eleitoral (TSE)
adotou medidas rigorosas para impedir que deputados e vereadores mudassem de
sigla política como quem troca de roupa. A iniciativa funcionou por um tempo,
mas os legisladores encontraram maneiras criativas de driblar o obstáculo e bater
recordes de migração partidária.
Os números falam por si. Logo após a
determinação do TSE, 11% dos parlamentares buscaram abrigo em uma nova
agremiação durante a legislatura, o que representou uma mínima histórica. Aos
poucos, porém, o percentual escalou para cifras recordes, com 34% dos deputados
federais pulando de um partido para outro no ciclo que terminou em 2022.
Ao que tudo indica, a atual composição
do Congresso
Nacional não ficará distante desse patamar. Registros
preliminares indicam um índice de troca-troca que monta quase 30% dos
legisladores.
Em artigo
publicado na Folha, os cientistas políticos Adrián Albala e
Vinícius Tejadas mostram que, nas últimas décadas, a imensa maioria (78%) das
mudanças ocorreu entre parlamentares alocados em partidos classificados à
direita, de grande presença no Congresso. Jair
Bolsonaro (PL), que botou os pés em
nove agremiações diferentes, deu forte contribuição nesse sentido.
A esquerda, com quase 16% das migrações,
chama a atenção por outro motivo: 75% de suas mudanças terminaram com deputados
se hospedando em agremiações da direita. Ou seja, mais que uma dança das
cadeiras partidárias, houve salto para o outro lado do espectro ideológico.
O quadro é sintoma de duas enfermidades
graves da política brasileira: o oportunismo de candidatos e legisladores, de
um lado, e a falta de consistência programática das legendas, de outro.
No primeiro caso, os parlamentares tratam as
siglas como se fossem hotéis, nos quais entram para passar uns dias sem nenhum
compromisso de longo prazo. Quanto aos partidos, dado que suas ideias são
gelatinosas, eles não se pejam de dar as boas-vindas a quem quer que seja.
Ambas as situações refletem o desrespeito ao
eleitor e a falta de compromisso com uma agenda substantiva. Não há programa
partidário digno de nome nem projeto de país em torno do qual a sociedade possa
se alinhar.
Não é fácil resolver tais anomalias. A
decisão do TSE, tomada em 2007, surgiu como remédio, mas os legisladores
desenvolveram anticorpos para ele.
Há, entretanto, duas soluções indiretas
encaminhadas: a cláusula de desempenho e o fim das coligações em eleições proporcionais
(deputados e vereadores). Ao punir agremiações com poucos votos, têm o
propósito de, no médio prazo, reduzir a exorbitante proliferação de siglas no
Brasil.
A diminuição
do número de legendas, além de dificultar a vida dos adeptos do
troca-troca partidário, tende a oferecer um cenário mais racional para o
eleitor e a facilitar a composição de alianças coerentes no governo.
Nada justifica a volta do quinquênio
Por Folha de S. Paulo
Decisão do Supremo que ressuscita benesse
disfuncional contraria racionalidade na administração pública
Se Moraes não se constrange em cobrar
julgamento das regras das delações premiadas, não serão os supersalários que
vão embaraçar a corte
O Supremo Tribunal Federal ensaiou responder
a críticas da sociedade quando decidiu impor limites aos chamados penduricalhos
extrassalariais que proliferam no Judiciário e no Ministério
Público.
Mas o STF não
apenas acabou por criar um novo teto para os vencimentos das categorias
como ressuscitou
uma benesse que estava extinta por mais de duas décadas —o
quinquênio, por meio do qual magistrados e procuradores recebem aumentos
remuneratórios a cada cinco anos.
Recém-referendada pelo Conselho Nacional de
Justiça (CNJ)
e pelo Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP), a decisão contraria
princípios fundamentais de uma reforma administrativa, tão necessária ao país,
dado que não representa esforço sério de modernização e enxugamento da máquina
pública.
Procuradores e juízes federais receberão um
adicional cumulativo de 5% a cada cinco anos, respeitado o máximo de 35% do
salário. Considerando o atual teto remuneratório do funcionalismo, de R$
46.366,19, a parcela adicional pode chegar a R$ 16.228,16.
Relatório de 2024 da Instituição Fiscal
Independente (IFI, vinculada ao Senado)
estimou em R$ 5,2 bilhões anuais o impacto fiscal de uma proposta de emenda
constitucional apresentada em 2023 que pretendia restabelecer o quinquênio.
O quinquênio é a negação da ideia de mérito.
Ele premia o tempo de serviço, em vez de desempenho e produtividade. Não à toa,
é o tipo de mecanismo disfuncional que reformas administrativas buscam
eliminar.
O argumento questionável de que o custo
fiscal direto seria baixo ignora a questão central: o péssimo incentivo que se
cria, além da abertura de precedente para as demais carreiras.
A medida oferece munição para pressões em
todo o funcionalismo, inclusive nos níveis estadual e municipal. Se o adicional
é aceitável no topo da pirâmide, por que não seria abaixo dela?
Ademais, elevam-se despesas obrigatórias, na
contramão do que o governo precisa fazer para ajustar seu Orçamento após o
expansionismo fiscal irresponsável de Luiz Inácio Lula da
Silva (PT).
No Supremo, porém, nada parece mais
importante que as preocupações
corporativistas —e isso vale tanto para os privilégios
salariais da magistratura como para a autoproteção dos pares.
Se o ministro Alexandre de Moraes não se constrange em cobrar um julgamento das regras das delações premiadas justamente quando se vê sob suspeita no caso Master, não serão os supersalários que vão embaraçar a corte.
A guerra do PT contra Galípolo
Por O Estado de S. Paulo
Ao se negar a vilanizar seu antecessor para
ajudar Lula na campanha, presidente do BC atrai a ira dos petistas. Galípolo
merece aplauso e apoio de quem preza os valores republicanos
O presidente do Banco Central (BC), Gabriel
Galípolo, apresentou-se ao debate sobre o caso do Banco Master com uma virtude
cada vez mais rara em Brasília: a disposição de se limitar aos fatos. Amparado
em auditorias e sindicâncias internas, afirmou à CPI do Crime Organizado que
não há evidências de responsabilidade de seu antecessor, Roberto Campos Neto,
no escândalo do Master. Não houve conjecturas, ilações, tampouco concessões ao
ambiente político já contaminado por interesses e narrativas. Houve,
simplesmente, a exposição do que as investigações permitem concluir.
Mas o depoimento de Galípolo mal havia
terminado e o presidente do BC, que está no cargo por nomeação do presidente
Luiz Inácio Lula da Silva, já estava na mira de petistas e assessores no
Palácio do Planalto. O vice-líder do governo na Câmara, deputado Lindbergh
Farias (PT-RJ), não deixou por menos: “Gabriel Galípolo escolheu o caminho de
tentar blindar Roberto Campos Neto”. Para o comissariado petista, pouco
importou a menção à apuração interna. O crime de lesa-pátria era outro: o
presidente do BC não se comportara como agente político de Lula e de seu
projeto de reeleição, cujo roteiro inclui converter Roberto Campos Neto em
inimigo do Brasil. Segundo a narrativa dos capas-pretas do partido, o
ex-presidente do BC, indicado ao cargo por Jair Bolsonaro, seria o responsável
pelas facilidades que teriam permitido ao Master praticar suas fraudes
escandalosas.
Em vez de reconhecerem a solidez da
manifestação de Galípolo, os sabujos de Lula passaram a questioná-lo, como se
dele se esperasse algo diverso de um diagnóstico baseado em evidências. O ponto
central, contudo, permanece inalterado: não há materialidade, até aqui, que
sustente a responsabilização de Campos Neto. Insistir em outra direção, sem
base factual, é apenas servir aos propósitos eleitorais de Lula.
O caso demonstra mais uma vez o absoluto
desprezo do PT pelas instituições republicanas quando estas não atuam a serviço
de seu projeto de poder. Desde sempre, os petistas esperavam que um indicado de
Lula ao Banco Central, chamado pelo presidente de “menino de ouro”, convertesse
a autarquia em puxadinho do comitê eleitoral da campanha do presidente à
reeleição – seja sendo camarada com a taxa de juros, seja atuando para
vilanizar seu antecessor no cargo e, por extensão, Jair Bolsonaro. O PT detesta
órgãos da administração pública que não se curvam a seus interesses,
particularmente quando um desses órgãos é presidido por alguém que Lula só
colocou lá para isso.
O padrão se repete em outras áreas. Na
Petrobras, decisões vêm sendo contaminadas pela política, como se observa na
gestão dos efeitos da guerra no Oriente Médio sobre os preços dos combustíveis.
Ali também, a partir de cálculos eleitorais, ataca-se a lógica empresarial e a
governança de uma empresa de capital misto, comprometendo previsibilidade,
confiança e eficiência. Para Lula e o PT, pouco importa: instituições de Estado
e servidores públicos devem servir a estratégias de curto prazo do partido e de
seu presidente.
Por esse motivo, é digno de aplauso o
comportamento de Gabriel Galípolo, que merece todo o apoio dos brasileiros que
prezam os valores republicanos. Não costuma ser fácil a vida de quem, sob a
administração do PT, decide trabalhar pelos interesses do Estado, e não os do
partido. Isso é particularmente importante no Banco Central, cuja autonomia foi
concebida, entre outras coisas, para impedir que a agenda eleitoral do
governante contamine decisões sensíveis.
Um BC visto como subserviente ao governo gera
imprevisibilidade e insegurança no mercado, o que costuma afugentar
investimentos. Um BC que, além disso, se permita parecer engajado em uma
campanha eleitoral perde toda sua autoridade. Assim, faz muito bem o sr.
Galípolo ao deixar claro que não permitirá que a instituição sob sua direção
seja capturada pelo PT. Que ele tenha força para continuar assim.
Isso é justiçamento
Por O Estado de S. Paulo
No STF, condenação de empresário a 14 anos de
prisão por ‘tentativa de golpe’ graças a um Pix de R$ 500 mostra a fragilização
das garantias pelo tribunal que deveria preservá-las
O Supremo Tribunal Federal (STF) condenou um
empresário de 71 anos a 14 anos de prisão. Seu crime: ele fez um Pix de R$ 500,
a pedido de um amigo, que teria ajudado a fretar um ônibus que levou
manifestantes a Brasília para os atos que culminaram no infame 8 de Janeiro – a
depredação das sedes dos Três Poderes, tratada nos processos que correram no
Supremo Tribunal Federal como parte de uma tentativa de golpe de Estado.
O empresário, Alcides Hahn, não esteve em
Brasília, não participou dos atos do 8 de Janeiro, não manteve contato com os
manifestantes e nem sequer há provas de que soubesse o destino do dinheiro. Mas
a sentença confabula outra história.
Entre os 41 passageiros do tal ônibus, só um
foi identificado nos atos. Foi o suficiente para enquadrar o Pix de Alcides
Hahn em cinco crimes: “tentativa de golpe de Estado”, “abolição violenta do
Estado Democrático de Direito”, “associação criminosa armada”, “dano
qualificado” e “deterioração de patrimônio tombado”. Entre o gesto inicial e a
condenação final, há só uma cascata de inferências que se sustentam umas nas
outras.
Não é preciso sofisticação jurídica para
perceber o descompasso. Hahn não organizou nada, não liderou ninguém, não
esteve presente. Ainda assim, foi tratado como arquiteto de uma engrenagem
golpista. O caso – como o de outros dois empresários condenados nas mesmas
condições – revela um padrão. Um gesto remoto e isolado basta. Não se exige
demonstração de intenção, conhecimento ou vínculo direto com qualquer ato
ilícito. O enquadramento vem antes; os fatos são acomodados depois. Conforme a
doutrina do relator do caso, Alexandre de Moraes, resumida no bordão “a Justiça
é cega, mas não é tola”, a ausência de evidência se torna evidência de
conspiração.
A lógica elástica e ilativa é consumada na
sentença, mas nasce na denúncia. A Procuradoria-Geral da República (PGR)
oferece acusações genéricas, alarga enquadramentos, justapõe tipos penais, equipara
situações distintas.
Outros casos seguiram esse protocolo. Uma
cabeleireira citou um ministro com batom numa estátua e recebeu, pelo mesmo
pacote de cinco crimes, a mesma pena de 14 anos, expondo a desconexão entre
conduta e sanção. Idosas com doenças graves voltaram ao cárcere por descumprir
regras formais de deslocamento para atendimento médico, expondo a desconexão
entre direito e humanidade.
Uma vez fixado o enquadramento, o restante se
ajusta. O fato individual perde substancialidade e é absorvido por uma grande
narrativa. A “trama golpista” se tornou uma entidade metafísica. O indivíduo,
que deveria responder pelo que fez, responde pelo “contexto” em que foi
inserido, ainda que de forma absolutamente acidental.
Centenas de manifestantes que acamparam em
frente aos quartéis receberam ordens de prisão em massa, com denúncias
industrializadas, sem individuação. A multidão vira um único réu. Um morador de
rua passou mais de um ano na cadeia apenas por observar os protestos. A
presença basta como evidência de dolo, a responsabilidade se amplia por
associação, o “risco de fuga” atribuído a alguns justifica prisões preventivas
a todos.
Para piorar, essas pessoas não têm foro
especial e nem sequer deveriam ser julgadas pelo Supremo. Os princípios do juiz
natural e do duplo grau de jurisdição foram destroçados, deixando o erro sem
caminho claro de revisão.
Nesse modelo, a prova perde centralidade e
cede espaço a presunções. Crimes graves passam a alcançar condutas periféricas.
Os processos e ritos prosseguem mecanicamente, mas com garantias trituradas. Ao
mesmo tempo, o tribunal acumula funções, investiga, julga, amplia competências,
enfraquece freios internos, afasta a prestação de contas – uma concentração de
poder sem paralelo no mundo democrático.
Em qualquer padrão mínimo de razoabilidade,
isso não se sustenta. Julgar não é colar rótulos penais. É distinguir condutas,
apurar intenções, hierarquizar responsabilidades. Um sistema que pune por
associação, presume intenções sem prova, iguala condutas distintas e
instrumentaliza penas para dar castigos “exemplares” ou “pedagógicos” não está
fazendo justiça, só justiçamento.
A responsabilidade da Aneel
Por O Estado de S. Paulo
Agência deve julgar a Enel SP com critérios
claros e técnicos, pelo bem da segurança jurídica
A Agência Nacional de Energia Elétrica
(Aneel) aprovou recentemente a abertura do processo que pode levar ao
rompimento do contrato de concessão da distribuidora de energia Enel na Grande
São Paulo. Não se trata de uma medida trivial: os cinco diretores do órgão
regulador terão de dizer se votam pela caducidade ou pela continuidade do
fornecimento de luz pela companhia italiana na maior cidade do País. E qualquer
que seja a decisão que venha a ser tomada, toda a avaliação do caso deve ser
feita com distanciamento, imparcialidade e rigor técnico.
Dito isso, não há a mínima dúvida de que a
qualidade do serviço prestado pela Enel é ruim. Desde 2023, o consumidor
paulistano come o pão que o diabo amassou: a distribuidora deixou grande parte
da metrópole no escuro, por vários dias, ao menos três vezes. E, em dezembro do
ano passado, 4,4 milhões de unidades – mais da metade dos clientes na região
metropolitana – ficaram sem luz após a passagem de uma ventania.
Está difícil defender a Enel, segundo a área
técnica da Aneel. De acordo com o relatório que foi seguido pelo relator,
diretor Gentil Nogueira de Sá, as “reiteradas falhas na prestação do serviço
emergencial” e o “desempenho inadequado” no apagão mais recente levaram ao
“esgotamento da eficácia” das exigências impostas pela agência. Dos 11 planos
de resultados enviados pela Enel desde 2019, 7 foram considerados
insatisfatórios. As multas aplicadas já somam mais de R$ 320 milhões.
A Enel não é digna de pena, mas fazer dela um
bode expiatório não parece sensato. E foi isso o que fizeram as autoridades ao
defenderem o rompimento do contrato antes mesmo de uma análise que pudesse
fundamentar medida tão gravosa. Não surpreende que políticos façam bravatas,
mas preocupa quando é o diretor-geral da Aneel, Sandoval Feitosa, quem politiza
a crise. A jornalistas, ele sugeriu que a Enel vendesse sua operação a outra
distribuidora. Recomenda-se a Feitosa que fale menos e, sobretudo, que fale nos
autos.
A troca de controle não é solução mágica. Em
2022, a Enel entregou sua concessão em Goiás após anos de serviços mal
prestados. A Equatorial assumiu o fornecimento de luz desde então e ainda hoje
ocupa o 30.º lugar do ranking de qualidade da Aneel, entre 31 empresas. A Enel
de São Paulo, por sua vez, está na 21.ª posição. Ou seja, a Equatorial Goiás
herdou uma herança maldita, e resolver anos de falta de investimento ou má
gestão – o que provavelmente também ocorreu em São Paulo – levará tempo.
Nenhuma decisão da Aneel sobre o destino da Enel em São Paulo pode estar contaminada pela política. À Enel devem ser garantidos o devido processo, o contraditório e a ampla defesa. E toda a deliberação da agência reguladora deve se basear em critérios técnicos claros e previstos em contrato, o que garante a segurança jurídica. Estão em jogo a confiança dos investidores no Brasil e a credibilidade do País para atraí-los. A caducidade de um contrato é possível, mas não é algo banal: exige responsabilidade da Aneel e do Ministério de Minas e Energia, que dará a última palavra sobre o caso.
Sabatina de Messias tem dimensão
ética-institucional
Por Correio Braziliense
Não se trata apenas de preencher uma cadeira,
mas de redefinir o perfil de uma Corte que precisa recuperar sua autoridade
moral e sua legitimidade perante a sociedade
O presidente do Senado, Davi Alcolumbre,
marcou para 29 de abril a sabatina de Jorge Messias, o indicado pelo presidente
Luiz Inácio Lula da Silva, e destravou um processo para preencher uma vaga no
Supremo Tribunal Federal (STF) que merece profunda reflexão institucional. Em
tese, a sabatina existe para que o Senado exerça sua função de controle.
Trata-se de examinar não apenas o currículo do indicado, mas sua capacidade de
exercer os princípios constitucionais da magistratura: independência,
imparcialidade e compromisso com o Estado de Direito.
Na prática, porém, a experiência recente
recomenda cautela quanto ao peso relativo da sabatina em função de articulações
políticas em que a aprovação de nome é objeto de barganhas políticas de
bastidor. A indicação de Jorge Messias não destoa do padrão observado nas
últimas nomeações para o Supremo. Sua formação jurídica é compatível com a da
maioria dos atuais ministros, que também reuniam credenciais jurídicas na
magistratura, no Ministério Público ou na advocacia pública e privada. Não é a
dimensão estritamente técnica que abriga a questão central da sabatina.
A questão mais relevante é de natureza
política e institucional: a crescente politização do Supremo, em relação
dialética com a intensificação da judicialização da política. Nos últimos anos,
o STF deixou de ser apenas um árbitro constitucional para se tornar
protagonista de conflitos que, em circunstâncias normais, deveriam ser
resolvidos no âmbito do Executivo e do Legislativo. Esse deslocamento ampliou o
poder da Corte, mas também expôs seus ministros a pressões e desgastes típicos
da arena de disputa pelo poder.
Nesse contexto, cada nova indicação
presidencial passa a ser interpretada como movimento estratégico de composição
de forças dentro do tribunal. Entretanto, a percepção, cada vez mais difundida
na opinião pública, de que determinados ministros são "vinculados" a
governos ou projetos políticos específicos corrói a credibilidade da
instituição. Ainda que, na prática, muitos magistrados demonstrem independência
após a posse, como numa tacada de golfe, o desgaste simbólico está dado no
momento da indicação.
A sabatina de Messias deveria ir além do
protocolo. Cabe aos senadores questionar, de forma objetiva, como o indicado
pretende lidar com esse ambiente de hiperjudicialização. Mais do que avaliar
seu conhecimento jurídico, é essencial compreender sua visão sobre os limites
da atuação do Supremo e seu compromisso com a autocontenção e a aprovação de um
Código de Ética para seus ministros, elemento-chave para a preservação do
equilíbrio entre os Poderes e o resgate da imagem da Corte.
A seis meses das eleições, o país vive um
cenário de forte polarização, no qual instituições são constantemente
tensionadas. Não há sinais consistentes de que o respeito aos princípios
republicanos, como o devido processo legal, as competências institucionais e a
separação de Poderes, volte a pautar o comportamento dos atores políticos no
curto prazo. A tendência é de intensificação dos conflitos, com aumento das
pressões por intervenções judiciais.
Não se trata apenas de preencher uma cadeira, mas de redefinir o perfil de uma Corte que precisa recuperar sua autoridade moral e sua legitimidade perante a sociedade. Essa reconstrução passa menos por decisões espetaculares e mais pela sobriedade, pela previsibilidade e pelo respeito estrito aos limites constitucionais. A indicação de Jorge Messias oferece, assim, uma oportunidade dupla: ao Senado, de exercer plenamente sua função de controle; e ao Supremo, de iniciar um processo de recomposição de sua imagem.
Como reduzir o endividamento dos brasileiros?
Por O Povo (CE)
O problema do endividamento é estrutural,
vinculado aos baixos salários e da desigualdade que marca a sociedade
brasileira
O debate sobre o endividamento das famílias
brasileiras voltou à tona depois que dados da Confederação Nacional do Comércio
de Bens, Serviços e Turismo (CNC) mostraram que o índice bateu recorde.
A proporção de famílias com dívidas subiu
para 80,2% em março deste ano. No mesmo período de 2025, o percentual era de
77,1%, segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor.
O fato é que o endividamento é uma
preocupação constante dos brasileiros. Mesmo quando as dívidas se reduzem, o
problema permanece, pois raramente estacionam em patamares razoáveis. Há uma
espécie de gangorra, que nunca permite tranquilidade a milhões de pessoas, que
continuam recebendo mais boletos do que conseguem pagar.
Ressalve-se que dívida não é sinônimo de
inadimplência. Mas o endividamento alto em relação à renda obriga as famílias a
fazerem cortes em suas despesas essenciais. Mas a uma situação que não se
sustenta, levando-as a contrair empréstimos.
O presidente do sistema CNC-Sesc-Senac, José
Roberto Tadros, divulgou nota destacando que a elevação da taxa Selic é, há
meses, “um desafio para quem empreende e para quem consome”.
Para ele, a redução gradativa dos juros
começou, mas alertou para o aumento de famílias endividadas, afirmando que
levará “meses” até que o alívio do aperto monetário "faça efeito”. A
questão é que, mesmo com a redução, a taxa Selic continua em patamares
elevados.
Pelo menos desde 2018, o tema permeou as
campanhas eleitorais, com as mais diversas propostas para minorar o problema.
Em 2023, o governo do presidente Lula da
Silva lançou o programa Desenrola, com o objetivo de oferecer a possibilidade
de renegociação de dívidas e “limpar o nome” para que o beneficiado pudesse
retomar o acesso ao crédito. Foi um alívio de curto prazo. Dois anos após o fim
do programa, o Brasil soma nove milhões de novos inadimplentes, um contingente
de 81,7 milhões de pessoas com contas atrasadas, o maior número desde 2022.
Agora, Lula (pré-candidato à reeleição),
volta a acenar com um novo programa para facilitar o pagamento das dívidas. Por
sua vez, o pré-candidato a presidente Flávio Bolsonaro estuda o assunto para
apresentar propostas. Portanto, o tema estará na campanha eleitoral.
Mas é preciso considerar que o problema do
endividamento é estrutural, vinculado aos baixos salários da maior parte dos
trabalhadores e da desigualdade que marca a sociedade brasileira.
Dados do IBGE (2022) mostram que 68% dos
brasileiros recebem até dois salários mínimos por mês. Com rendimentos nesse
valor é praticamente impossível que a pessoa consiga viver sem acumular
dívidas, inclusive nos cartões de crédito, com seus juros exorbitantes.
Com salário nesse nível e taxa de juros nas alturas, não será apenas um programa, por mais bem pensado que seja, que vai resolver o problema do endividamento e da inadimplência.

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