sexta-feira, 29 de maio de 2026

Opinião do dia – Nicolau Maquiavel*

“É fácil de entender: não é o bem particular, mas o bem comum o que engrandece as cidades. E, sem dúvida, este bem comum não é observado senão nas repúblicas, porque tudo o que é feito, é feito para seu bem, e embora aquilo que se faça cause dano a um ou outro homem privado, são tantos os que se beneficiam que é possível fazer as coisas contra a vontade dos poucos que sejam oprimidos por elas. O contrário acontece quando há um Príncipe e, na maioria das vezes, o que é feito em seu favor ofende a cidade, e o que se faz pela cidade o ofende”.

*Nicolau Maquiavel (1469-1527), Discursos sobre a primeira década de Tito Lívio, 2000. p. 139

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Operação contra PCC aponta caminho no combate às facções

Por O Globo

Cerco às redes financeiras é a melhor forma de asfixiar as organizações criminosas

Deflagrada nesta quinta-feira, a Operação Fluxo Oculto, segunda fase da Carbono Oculto, foi um novo golpe das forças de repressão nas redes financeiras usadas pelo Primeiro Comando da Capital (PCC) para fraudes, sonegação e lavagem de dinheiro. A operação conjunta da Receita Federal com o Ministério Público e a Secretaria da Fazenda de São Paulo descobriu seis novas fintechs atuando como bancos paralelos do crime. Juntas, elas movimentaram mais de R$ 26 bilhões entre 2022 e 2025. Há registros de pelo menos R$ 365 milhões em transações suspeitas com criptoativos. A Fluxo Oculto também identificou operações de adulteração de combustível que podem ter resultado em R$ 200 milhões sonegados em dois anos.

Regime representativo de quê? Por José de Souza Martins*

Valor Econômico

Descobri, eu e grande número de brasileiros preocupados com a representação política, que meu voto não decide em quem estou votando e menos ainda no quê estou votando

Teoricamente, o regime político brasileiro é um regime representativo. Mas exatamente de quê? Ou, de quem? Monitoro os políticos do Legislativo para descobrir, no que falam e no que fazem, a quem e o que estão representando. Descobri, eu e grande número de brasileiros preocupados com a representação política, que meu voto não decide em quem estou votando e menos ainda no que estou votando. Qual é a causa política e social que quero ver representada em meu voto?

A eleição é aqui uma armadilha bem montada por interesses que não são os meus, políticos, econômicos, religiosos. E até mesmo os do crime organizado. Ou seja, na representação política brasileira, quem menos conta é o candidato e menos ainda o eleitor. Entre o voto e o poder estão os misteriosos “eleitores” invisíveis que precisam se ocultar para mandar.

O poder não dança, e quer ganhar no Xenhenhem, por Andrea Jubé

Valor Econômico

Conhecido pela desenvoltura nas redes, onde já apareceu jogando bola, e até sambando, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), escondeu o gingado na festa junina da senadora Daniella Ribeiro (PP-PB), ao recusar o convite da anfitriã para dançarem forró na ampla pista de dança armada em uma casa no Lago Sul, onde ela promoveu um animado “esquenta” do São João de Campina Grande.

Uma das mais tradicionais festas do Nordeste, o evento em Campina Grande (PB), reduto político da família da senadora, é anunciado como o “O Maior São João do Mundo”, tem 33 dias de duração, e, na edição deste ano, terá João Gomes, Roberto Carlos e Marisa Monte.

A ‘mãozinha’ de Trump, por Vera Magalhães

O Globo

Medida do governo dos EUA que classifica facções brasileiras como terroristas tem consequências complexas, mas será usada como trunfo eleitoral pelo bolsonarismo

A decisão do governo dos Estados Unidos de classificar as facções criminosas brasileiras Comando Vermelho e Primeiro Comando da Capital como grupos terroristas especialmente designados é um daqueles assuntos complexos e multifacetados, mas que, quando levados para a arena eleitoral, tendem a produzir reações rasas, precipitadas e turvadas pela narrativa ideológica. Como sempre acontece em momentos assim, o risco de prejuízos duradouros, e em várias dimensões, para o país são enormes.

Trump: boia ou âncora, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Ao classificar facções criminosas como terroristas, Casa Branca cria riscos para economia e soberania brasileiras; candidato do PL já pediu bombas na Guanabara

Com o barco ameaçando fazer água, Flávio Bolsonaro remou até Washington para pedir socorro a Donald Trump. A direita festejou a foto do senador na Casa Branca. A questão é saber se ela servirá como boia ou como âncora para suas ambições presidenciais.

A viagem rendeu um alívio momentâneo ao Zero Um. A imagem com Trump cumpriu a tarefa de desviar as atenções do escândalo do Master. Pela primeira vez em duas semanas, Flávio apareceu nas manchetes sem a companhia do “irmão” Daniel Vorcaro.

O problema, para o senador, é que a foto no Salão Oval logo deixará de ser novidade. E a associação que ele tanto buscou pode vir a atrapalhá-lo na campanha.

Intervenção americana como resgate da soberania, por Pablo Ortellado

O Globo

Ao pressionar Trump por intervenção contra facções, contra ministros do STF e contra a regulação das big techs, os bolsonaristas sustentam que a soberania brasileira precisa ser gestada a partir de Washington

A visita de Flávio Bolsonaro à Casa Branca foi interpretada como simples manobra para desviar a atenção do escândalo de suas relações com Daniel Vorcaro. Embora esse objetivo deva ser considerado, não se podia desprezar o motivo alegado: o pedido para que Trump classificasse organizações criminosas brasileiras como terroristas — como depois o Departamento de Estado anunciou.

Críticos têm apontado — com razão — que a classificação de organizações criminosas brasileiras como terroristas ameaça a soberania brasileira. Com o Primeiro Comando da Capital e o Comando Vermelho incluídos na lista de organizações terroristas, os Estados Unidos passarão a poder aplicar sanções severas contra o sistema financeiro brasileiro caso instituições nacionais facilitem, ainda que involuntariamente, a circulação de capital ilícito. Os efeitos de uma medida desse tipo podem gerar isolamento econômico e abalo na confiança de investidores internacionais na rede bancária brasileira.

Decisão dos EUA afetará cooperação internacional contra PCC e CV, por Marcelo Godoy

O Estado de S. Paulo

Gakiya, maior autoridade no País no combate ao PCC, e Sarrubbo, que foi chefe do MP-SP, afirmaram que decisão transfere da DEA e do FBI para a CIA o combate às duas facções o que pode impedir a acessos a informações e prejudicar combate ao crime

O promotor de Justiça Lincoln Gakiya e o procurador de Justiça e ex-secretário Nacional de Segurança Pública Mário Luiz Sarrubbo afirmaram ao Estadão que a decisão dos Estados Unidos de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas deve afetar a cooperação internacional para o combate ao narcotráfico, favorecendo criminosos em vez de endurecer o combate ao crime.

Isso porque, ao aumentar o nível de risco apresentado pelas duas facções, o governo americano deixa de tratá-las como um caso de polícia e passa a considerá-la um problema militar. A consequência disso é que a Drug Enforcement Agency (DEA), a agência antidrogas americana, e o FBI, a polícia federal americana, deixam de investigar as facções, que passam a ser um problema da CIA, a agência de inteligência americana e das Forças Armadas dos EUA.

E vai rolar a festa! Por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Governos e bancos movem mundos e fundos para salvar o BRB; e os bilhões de Vorcaro e ‘amigos’?

Daniel Vorcaro comprou tudo e todos, construiu e destruiu um banco em tempo recorde, e agora? Agora, o governo federal, o governo do DF, o Supremo, os bancos públicos e privados movem mundos e (principalmente) fundos e a raia miúda e os contribuintes pagam parte da conta do Master com o “ajuste fiscal” incluído no acordo de salvação do banco, de R$ 6,5 bilhões.

Nesse caso, “ajuste” significa fim de concursos e de vagas e piora de serviços e de manutenção da capital, ou seja, mais arrocho para o funcionalismo público e mais descuido e irritação para a população que depende de professores, médicos, transportes, burocracia azeitada...

Enquanto isso, o Dr. Vorcaro volta a negociar um acordo de delação premiada com a PF, contando o que ainda não se sabe, e tem a audácia de pretender retomar o seu banco liquidado, pagar algumas dívidas e ainda ficar com um troco. Pode isso, minha gente?

Da Operação Catarata à Compliance Zero, por Raquel Landim

O Estado de S. Paulo

Ex-governador do Rio, Cláudio Castro é suspeito de roubar de mendigo, aposentado e pagador de impostos

O ex-governador do Rio de Janeiro Cláudio Castro é suspeito de participar de esquemas fraudulentos que surrupiaram dinheiro de mendigos, aposentados e pagadores de impostos em geral.

As suspeitas sobre sua conduta começaram na Operação Catarata, do Ministério Público do Rio de Janeiro e da Polícia Civil, em 2019, e na Operação Sétimo Mandamento, deflagrada pela Polícia Federal, em 20 de dezembro de 2023.

Governo Trump põe o terrorismo na eleição brasileira, por Carlos Alexandre de Souza

Correio Braziliense

Flávio não representa o governo. Mas a afinidade ideológica tornou-se um fator relevante a influenciar decisões na maior potência militar mundial

Na coluna de ontem, comentei que os encontros do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) com a cúpula da Casa Branca colocaram o problema da segurança pública de volta ao centro de debate eleitoral no Brasil. No início da noite de ontem, o governo norte-americano deu uma resposta aos apelos feitos pelo parlamentar brasileiro. Em mensagem postada pelo secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, a administração Trump anunciou que o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) passam a ser denominadas organizações terroristas.

Voto contra o fim da 6x1 vai custar caro em outubro? Por Roberto Fonseca

Correio Braziliense

Com eleições à vista, deputados que se opuseram à nova jornada enfrentam dilemas. Como explicar o voto contra uma pauta com tanto apelo popular?

A aprovação da proposta de emenda à Constituição (PEC) que acaba com a escala 6x1 na Câmara produziu uma cena rara na política brasileira atual: um consenso praticamente unânime. Em tempos de polarização permanente, um texto reunir mais de 90% dos votos favoráveis dos deputados em dois turnos é algo que merece atenção. E reflexão.

A redução da jornada semanal de 44 para 40 horas, sem redução salarial, acompanhada da garantia de duas folgas semanais, é uma medida de forte apelo popular. Não apenas porque mexe diretamente na qualidade de vida do trabalhador, mas porque dialoga com uma sensação crescente de exaustão vivida por milhões de brasileiros. O debate vai muito além da economia. É também social, humano e geracional.

Bruno e a jornada 6x1, por José Sarney*

Correio Braziliense

A verdade é que eu também sou a favor, como o meu bisneto, do fim da jornada 6 x 1 não só por motivos de justiça, mas por outros de natureza social

Meu bisneto, Bruno, de 12 anos, me surpreende sempre com perguntas de gente grande, já que ele tem acesso, pela leitura de jornais e revistas, à pauta política. Foi assim que, de supetão, ele me perguntou:

— Meu bisavô, o senhor é a favor ou contra a jornada de trabalho de cinco dias?

Eu me surpreendi, mas pensei que, com a internet e as redes sociais, os problemas maiores e menores invadem a sociedade, alcançando todas as camadas sociais e faixas etárias, chegando mesmo à quase meninice. Na verdade, a era digital apressou o desenvolvimento cognitivo das crianças, que passaram a amadurecer seus questionamentos de maneira mais célere.

Um empresário olha o efeito da 5x2 e vê problemas em muitos outros lugares, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Engenheiro vê questões setoriais e perda inicial de produtividade, mas não sabe do saldo econômico

Juros, falta de mão de obra qualificada, automação e IA, energia cara e impostos preocupam mais

O Brasil não vai quebrar porque já não funciona, ri um empresário grande ao comentar disputas furiosas sobre o efeito econômico da escala 5x2 e da jornada de trabalho reduzida, aprovada por mais de 95% dos deputados federais votantes, que vai ao Senado.

Quem passeou pelas ruas violentas das mídias sociais nos últimos dias terá ouvido gritos de "o país vai quebrar" ou que nada vai acontecer de ruim, apenas melhoras na vida de quem trabalha mais de 40 horas ou cinco dias, para choro de "defensores da escravidão" (parece haver mesmo alguns deles por aí).

O empresário não quer se identificar. "Dar entrevista, rede social, é perda de tempo e a gente sai queimado."

Chanchada de Flávio com Trump pode acabar em duplo naufrágio, por Marcos Augusto Gonçalves

Folha de S. Paulo

Visita diversionista do senador aos EUA coincide com queda inédita da popularidade do republicano

Pesquisa da revista The Economist indica que há 90% de chance de americano perder a Câmara em novembro

A chanchada diversionista encenada pelo pré-candidato Flávio Bolsonaro nos EUA, onde conseguiu aparecer numa foto com Donald Trump tem, como se sabe, o intuito de desviar a atenção dos rolos do senador com o banqueiro Daniel Vorcaro, peça central do escândalo do Banco Master.

Flávio já havia demonstrado sua sabujice antipatriótica ao prometer, caso eleito, contemplar as ambições americanas de controlar reservas estratégicas de terras raras –as do Brasil.

Agora, escoltado por Eduardo, seu brother desertor, resolveu também reforçar a proposta de a potência estrangeira classificar as facções criminosas e mafiosas brasileiras (PCC e Comando Vermelho) como organizações terroristas. Foi o que fez em encontro com Marco Rubio, o secretário de Estado ora empenhado em invadir Cuba, de onde veio sua família.

Foto com três radicais é o inverso da moderação pretendida por Flávio Bolsonaro, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Trump, Eduardo e Figueiredo não são companhias que transmitam a imagem de sensatez

Uma fotografia na parede não resolve as pontas soltas da campanha abalada pelos rolos do Master

A construção da imagem de moderado de Flávio Bolsonaro (PL) acaba de levar um desmentido. A foto ao lado do presidente Donald Trump, do irmão Eduardo e do neto do último ditador do regime militar apaga o verniz de sensatez no figurino que o senador andou querendo vestir para se apresentar ao eleitorado.

Trump é um radical orgulhoso do próprio extremismo. O deputado cassado e filho 03 do clã já defendeu punições ao Brasil e, lá atrás, em devaneio autoritário, considerou suficiente a força de um cabo e um soldado para fechar o Supremo Tribunal Federal. O herdeiro de João Figueiredo foi dos incitadores mais ativos ao golpe militar em 2022, detrator dos generais legalistas.

Qual era a cor de Helena de Troia? por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Escalação de atriz negra para representar a personagem deflagra guerra cultural

Arte não precisa seguir nenhum script e deve ser limitada apenas pela imaginação

guerra cultural da hora diz respeito a Helena de Troia, a mulher cuja beleza estonteante teria deflagrado o conflito que resultou na destruição de Ílion e inaugurou a literatura ocidental. Christopher Nolan decidiu filmar "A Odisseia" e escalou para o papel de Helena a atriz Lupita Nyong’o, que é negra. A militância anti-woke não gostou e se pôs a cancelar o filme antes de seu lançamento.

Uma negra pode personificar Helena? A crer em Homero, não. Autores da Antiguidade raramente forneciam descrições físicas de seus personagens. No caso específico, porém, um dos epítetos utilizados pelo aedo para referir-se a Helena acaba realizando essa função. O termo grego é "leukólenos" que significa "de braços brancos".

Entrevista | Ivan Alves Filho* : O Fascismo vai Além do Autoritarismo

O jornal Catetear Notícias 

*Ivan Alves Filho é historiador, membro do Cidadania

Luiz Carlos Prestes Filho: Será que negligenciamos a importância do fascismo na formação da sociedade brasileira? Será que o fascismo é um elemento constituinte da nossa sociedade?

Ivan Alves Filho: Creio que a presença fascista seja uma questão real na vida republicana brasileira. De um lado, ela toma por base toda uma tradição autoritária desenvolvida no país desde os tempos da escravidão. Tivemos um governo imperial que se prolongou por quase cinquenta anos. E, depois, apresentamos uma prática republicana nem tão republicana assim. E isso desde os seus primórdios. Basta citar a repressão aos revoltosos de Canudos, na última década do século XIX, e também aos comunistas, logo que estes se organizaram em partido político.

Essas práticas despontam entre nós toda vez que nos deparamos com crises de corte institucional. Daí estarem presentes hoje na vida brasileira. As ambiguidades do governo Vargas, em seu início, contribuíram para o surgimento do Integralismo, por exemplo. Evidentemente, havia o quadro internacional, com a ascensão de Mussolini e seu agrupamento fascista ao poder na Itália, no começo da década de 20. Logo em seguida, viria a tomada do poder pelos hitleristas na Alemanha, em 1933. Porém, esse contexto internacional não explica tudo. Eu escrevi certa vez que o nazismo me intrigava muito, tendo levado cerca de 20 anos para entender a sua natureza. Morei na Alemanha nos anos 70 e procurava ver, na Cinemateca da cidade de Colônia, os documentários e reportagens da época nazista. Difícil de compreender como o povo alemão caiu naquela esparrela. Afinal, a Alemanha era um país industrializado e dotado de uma grande tradição cultural; a terra de Wolfgang von Goethe, Karl Marx e Hermann Hesse. Com o tempo, fui percebendo que a Inglaterra também era um país desenvolvido economicamente – a pátria da Revolução Industrial –, possuindo ainda uma invejável tradição cultural, e cito aqui nomes como William Shakespeare, Jane Austen e Charles Darwin. Como explicar, então, que a Inglaterra não tenha sucumbido à praga nazista? Só encontro uma resposta: as instituições liberais-democráticas se mantiveram de pé, contrariamente ao que ocorrera na Alemanha, durante a República de Weimar. Ou a Inglaterra não viu surgir em seu solo o Liberalismo? As ideias de John Locke, por exemplo, datam do século XVII, quando não havia sequer burguesia industrial, mas a país sofria com o Absolutismo.

Poesia | Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, de Luís de Camões

 

Música | Quero Morrer na Portela - Zé Ketti