O Estado de S. Paulo
O dólar continua um instrumento de força, mas não garante a imposição dos interesses dos EUA
Como na saga hollywoodiana, o império ainda tem força para contra-atacar. Mas isso já não decide o rumo da história. A cada escalada do conflito no Irã, o petróleo sobe, os mercados se reposicionam e o poder americano se move com intensidade – sem garantir o desfecho. Os instrumentos centrais desse poder – militar e financeiro – continuam fortes, mas estão ficando menos decisivos. Como argumenta em artigo o Financial Times, a guerra expôs a fragilidade do dólar.
Antes, o controle do sistema financeiro
trazia um poder quase automático. O dólar segue sendo um instrumento de força,
mas já não garante a imposição dos interesses americanos. A guerra da Ucrânia
mostra a mudança. A eficácia das restrições financeiras impostas à Rússia foi
bastante limitada. Os países estão precificando os riscos e não mais em posição
apenas reativa. Assim o poder do dólar está sendo contornado antecipadamente.
A moeda perde eficácia como instrumento de coerção. O paradoxo é evidente. O dólar continua sendo, de longe, a principal moeda do sistema global – nas reservas, no comércio e nas transações financeiras. A mudança em curso não é de substituição, mas de comportamento. Tanto que os bancos centrais vêm ajustando suas estratégias. Aumento de reservas em ouro e acordos bilaterais em moedas locais sinalizam uma tentativa de reduzir exposição ao dólar.
A busca por alternativas não vem sem custo.
Um sistema mais fragmentado tende a ser menos eficiente, com maior volatilidade
cambial e custos de transação mais elevados. Essa perda de eficácia não se
limita ao campo financeiro.
O ponto central já não é o tamanho do poder
dos EUA – é a forma como ele é exercido. No campo militar, a guerra avança,
ampliando custos humanos e políticos que corroem sua legitimidade. Sequer há
clareza de seus objetivos. Se a mudança de regime era um desses objetivos – não
há sinal algum disso acontecer. O resultado é uma contradição crescente: quanto
mais o poder é mobilizado, mais expõe seus limites. A erosão de autoridade é
clara.
A leitura política de toda essa situação
segue a mesma lógica. Não se trata apenas de erros ou recuos táticos de Donald
Trump, mas de um ambiente em que mesmo
decisões agressivas produzem efeitos mais incertos e, muitas vezes, contraproducentes.
O vai e volta do discurso – ora escalando, ora sinalizando saída – não é apenas
estilo. É sintoma de um poder que já não controla plenamente as consequências
das próprias ações.
No entanto, há um ponto central que por vezes
é tratado como acessório. Ao ampliar perdas humanas e sociais, a ação dos EUA
não é apenas ineficiente – passa a ser moralmente insustentável. Não é o fim da
força – é o esvaziamento do seu sentido.

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