quinta-feira, 28 de maio de 2026

Entrevista* | A sociedade Brasileira é extremamente violenta e elitista

O jornal Catetear

*Marly Vianna, historiadora

Luiz Carlos Prestes Filho: Será que negligenciamos a importância do fascismo na formação da sociedade brasileira? Será que o fascismo é um elemento constituinte da nossa sociedade?

Marly Vianna: Creio que não. Vejo a extrema direita como um grande garda-chuva que abarca o nazi-fascismo e outros regimes e governos de extrema direita. Nossa sociedade é extremamente violenta e elitista, desigual e racista e, na minha opinião, essa é uma herança devida aos quatro séculos de escravidão, quatro séculos considerando uma parte da população como coisa, semoventes, junto ao gado, nos inventários. Quatrocentos anos que moldaram a mentalidade social. Nossa sociedade é ainda bastante a da casa grande e senzala.

Prestes Filho: O Brasil foi o país com o maior partido fascista fora da Europa: a Ação Integralista Brasileira contava com centenas de milhares de membros nos anos 1930. Como você analisa este fato?

Marly Vianna: Houve, em especial na década de 1920, vários pequenos partidos de extrema direita, que em 1932 se juntaram à Ação Integralista Brasileira (AIB). Mas os partidos fascistas, compostos principalmente de descendentes de alemães que imigraram para o Sul do Brasil, tiveram pouca influência na política brasileira, até porque não quiseram se misturar com a direita do país. Não aceitaram, por exemplo, participar da AIB. Alguns viviam a esperança da criação de um governo alemão no sul do Brasil e nessa perspectiva mantinham contatos com a Alemanha, mas nenhuma ação relevante aqui, a não ser alguma influência no campo da propaganda ideológica.

Prestes Filho: O Levante Revolucionário Antifascista de 1935, que a historiografia oficial insiste em chamar de Intentona Comunista, foi a primeira ação armada contra o fascismo no mundo. Antes mesmo da Guerra Civil Espanhola. Em perspectiva histórica, este levante teria a importância simbólica no combate ao fascismo no mundo como o envio do Corpo Expedicionário que o Brasil enviou para combater o fascismo na Europa?

Marly Vianna: O levante armado de novembro de 1935, no Rio de Janeiro, levado adiante pela seção militar do Partido Comunista do Brasil - PCB (a direção do partido mostrou-se contra e praticamente não mobilizou ninguém), sob as ordens de Luiz Carlos Prestes, juntamente com militares da Aliança Nacional Libertadora, tinha por objetivo derrubar o governo e instalar um Governo Nacional Popular Revolucionário com Prestes à frente, por pão, terra e liberdade. Dentro dessas suas propostas estava implícita a luta contra o nazi-fascismo e, internamente, a Ação Integralista Brasileira(AIB). Os levantes democráticos desse período não tiveram como consigna exclusiva a luta contra o nazi-fascismo e a guerra, foram mais amplos, como em novembro de 1935 no Brasil, mas todos eles incluíam tal palavra de ordem com destaque. Nesse sentido, houve movimentos semelhantes anteriores a 1935, como o levante nas Astúrias, em outubro de 1934. Dado o crescimento da direita depois de novembro de 1935, com expressivo aumento das fileiras da AIB e da orquestrada campanha virulentamente anticomunista, não creio que novembro de 1935 tenha sido, para a população, um marco da luta antifascista. O Brasil entrou na guerra, depois de muitas idas e vindas do governo, em agosto de 1942, muito em resposta aos torpedeamento de navios brasileiros por submarinos alemães, navios de passageiros, como o Baependi, em julho daquele ano. Por um lado, isso provocou forte mobilização popular, exigindo a entrada do Brasil na guerra contra o Eixo. E também por pressão dos aliados e da barganha de Vargas com os Estados Unidos.

Opinião do dia - Nicolau Maquiavel* (ricos e pobres)

“Tratemos agora do outro aspecto da questão, isto é, vejamos o que ocorre quando um cidadão torna-se príncipe de sua pátria, não por meio de crime ou de outra intolerável violência, mas com a ajuda dos seus compatriotas. O principado assim constituído podemo-lo chamar civil, e para alguém chegar a governá-lo não precisa de ter ou exclusivamente virtude [virtù] ou exclusivamente fortuna, mas, antes, uma astúcia afortunada. Pois bem, a ajuda nesse caso é prestada pelo povo ou pelos próceres locais. É que em qualquer cidade se encontram estas duas forças contrárias, uma das quais provém de não desejar o povo ser dominado nem oprimido pelos grandes, e a outra de quererem os grandes dominar e oprimir o povo. Destas tendências opostas surge nas cidades, ou o principado ou a liberdade ou a anarquia.

O principado origina-se da vontade do povo ou da dos grandes, conforme a oportunidade se apresente a uma ou a outra dessas duas categorias de indivíduos: os grandes, certos de não poderem resistir ao povo, começam a dar força a um de seus pares, fazem-no príncipe, para à sombra dele terem ensejo de dar largas aos seus apetites; o povo, por sua vez, vendo que não pode fazer frente aos grandes, procede pela mesma forma em relação a um deles para que esse o proteja com a sua autoridade”

*Nicolau Maquiavel (1469-1527) filósofo, historiador, poeta, diplomata e músico de origem florentina do Renascimento. É reconhecido como fundador do pensamento e da ciência política. O Principe (1515), Capitulo lX, p. 45. Editora Martins Afonso, 2014

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Medidas contra privilégios ajudam a emendar Judiciário

Por O Globo

Fim da aposentadoria compulsória como punição e contracheque único apontam caminho virtuoso

É um avanço que o próprio Judiciário e o Ministério Público comecem a tomar medidas para corrigir os privilégios descabidos usufruídos por juízes e procuradores. Dois exemplos desta semana mostram que, quando querem, as autoridades sabem impor disciplina a si mesmas. O primeiro é a decisão unânime da Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) proibindo a aposentadoria compulsória como punição a magistrados que cometem infrações graves. O segundo é a criação de um contracheque único para juízes, procuradores e promotores, um primeiro e tímido — ainda que necessário — passo para conter os supersalários.

Poesia | Da profissão de poeta (trecho), de Geir Campos

 

Música | Beth Carvalho - Meu Samba Diz