Folha de S. Paulo
Surgiram coalizões defensivas em torno da
proteção de interesses individuais e da resistência a mecanismos de
accountability interna da corte
Trata-se de uma forma nova de politização
judicial mais ligada à internalização de disputas sobre reputação
O diálogo
ríspido entre o ministro Gilmar Mendes e o presidente do STF, Edson Fachin,
é revelador de tensões profundas no interior do tribunal e aponta a emergência
de "facções judiciais" no âmbito da corte. "Está ficando muito
feio, Fachin. Barroso não gostava de perder, mas era mais elegante do que você
e reconhecia o resultado. Você não: é mau perdedor, interrompe o jogo e leva a
bolinha para casa ao ver que vai ser derrotado", teria afirmado Gilmar.
A discórdia teve origem na decisão de Fachin de estabelecer que petições apresentadas em casos arquivados devem ser previamente validadas pela presidência do STF antes de serem encaminhadas ao ministro relator. Desarquivá-los seria uma teratologia jurídica. Na mensagem enviada ao presidente do Supremo, Gilmar ainda o acusou de atuar como um filibuster —isto é, um agente de obstrução procedimental.
Mas o aspecto mais relevante não está na
agressividade verbal —algo não inédito no STF—, e sim na natureza das razões
subjacentes ao conflito. Tensões e animosidades já envolveram o próprio Gilmar
em embates com Joaquim Barbosa e Barroso. O que é novo são os antagonismos
estruturados menos por divergências jurisprudenciais ou disputas de
protagonismo e mais por interesses ligados ao padrão heterodoxo de atuação
extrajudicial dos ministros.
Trata-se de um conjunto de práticas bastante
peculiar ao caso brasileiro em perspectiva comparada: ministros com atividades
empresariais, participação frequente em eventos patrocinados por atores
privados, presença de advogados de partes interessadas nesses encontros,
manifestações públicas fora dos autos e relações informais densas com elites
políticas e econômicas. A isso se somam suspeitas recentes de irregularidades
graves associadas ao caso Master, que ampliaram vertiginosamente os custos
reputacionais para a instituição.
O que estamos observando é algo distinto do
individualismo que caracteriza o STF —a imagem recorrente das "onze
ilhas". O quadro atual sugere a emergência de coalizões defensivas
intrajudiciais, articuladas em torno da proteção de interesses individuais e da
resistência a mecanismos de accountability interna. Nesse contexto, a disputa
em torno de um eventual código de ética para o tribunal adquire importância
decisiva, porque ameaça justamente zonas cinzentas institucionais que, até
aqui, permaneceram relativamente preservadas de regulação.
O episódio envolvendo a rejeição da indicação
de Messias ao STF foi particularmente revelador dessa nova dinâmica. Aqui, o
aspecto mais importante não foi a rejeição em si, mas a coordenação horizontal
entre setores
da própria corte e lideranças legislativas visando à composição futura
do tribunal.
O aspecto verdadeiramente novo não é a existência de conflitos pessoais no STF, mas a transformação gradual desses conflitos em alinhamentos associados à autopreservação. Trata-se de uma forma nova de politização judicial: menos centrada na relação entre Supremo e sistema político e mais ligada à internalização, no próprio tribunal, de disputas sobre reputação, exposição pública, accountability e limites éticos da atuação judicial.
*Professor da Universidade Federal de Pernambuco e ex-professor visitante do MIT e da Universidade Yale (EUA)

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