Folha de S. Paulo
Na cidade grande, emenda parlamentar se dilui
no orçamento, na paisagem e na disputa por crédito
Força eleitoral não deve ser superestimada
porque as pequenas cidades concentram parcela limitada do eleitorado
Até aqui, o debate sobre as eleições gerais
de outubro tem se concentrado na disputa presidencial. O tema da semana é se a
candidatura de Flávio Bolsonaro vai ser afetada por seu envolvimento com Daniel
Vorcaro e o caso do Banco Master.
Fala-se pouco das proporcionais, embora a renovação da Câmara seja decisiva
para a correlação de forças do próximo governo.
Para muitos analistas, a eleição para deputado federal em 2026 será também um teste da força eleitoral das emendas parlamentares. Fala-se que as emendas serão centrais na estratégia de conexão dos parlamentares com suas bases.
Dados do Siop, site orçamentário do governo
federal, organizados por Joyce Luz e George Avelino Filho, do FGV Cepesp,
mostram que as emendas parlamentares individuais têm destino claramente
municipal. Entre 2015 e 2026, 86% do valor total empenhado em emendas a cada
ano foram destinados a municípios. Estados ficaram com apenas 13% dos recursos.
Deputados priorizam atender diretamente
localidades onde o efeito político pode ser percebido, reivindicado e convertido
em apoio eleitoral. À primeira vista, poderia parecer que as capitais e grandes
cidades, que concentram a maior parte dos eleitores no país, também
concentrariam os recursos provenientes das emendas. Não é o que ocorre.
As dez cidades mais beneficiadas com emendas
entre 2015 e 2026, juntas, receberam apenas 4,8% do total destinado aos
municípios. Quase metade dos valores municipais, 49%, foi alocada fora do grupo
dos 500 maiores recebedores.
O dado contrasta com a distribuição do
eleitorado. Os 103 municípios com mais de 200 mil eleitores somam cerca de 60,5
milhões de votantes, 38,8% do eleitorado nacional. Mesmo assim, é fora desses
grandes colégios que as emendas parecem render mais.
Pesquisa recente de Isabella Montini e Alison
Post mostra que municípios menores recebem mais projetos e recursos per capita
por meio de emendas individuais. As análises das autoras indicam que o retorno
eleitoral desses recursos é maior justamente nesses lugares. Em cidades com
menos de 50 mil habitantes, os deputados obtêm ganhos marginais positivos e
significativos de votos. Em municípios médios e grandes, o efeito é muito menos
favorável e pode até ser negativo.
Em cidades grandes, o eleitor está exposto a
mais obras, mais atores políticos, mais fontes de informação e mais problemas
urbanos. Uma emenda parlamentar se dilui no orçamento, na paisagem e na disputa
por crédito. O custo de produzir reconhecimento político é maior.
Deputados que chegarem às urnas em outubro
com redes municipais bem estruturadas podem ter vantagem. Não basta ter acesso
a recursos. É preciso saber onde aplicá-los e como convertê-los em
reconhecimento político.
Ainda assim, a força eleitoral das emendas
não deve ser superestimada. Pequenas cidades podem produzir retornos
importantes, mas concentram parcela limitada do eleitorado. Além disso, se a
polarização passou a organizar o voto para cargos majoritários, resta saber até
que ponto ela também afetará a escolha para deputado federal.
Emendas ajudam a preservar bases locais. Mas
não eliminam a incerteza eleitoral nem substituem alinhamento político,
identidade partidária e capacidade de mobilização. Em 2026, serão um ativo
importante. Não garantia de reeleição.
*Professora na Escola de Economia de São Paulo (FGV-EESP) e pesquisadora do Cepesp. Doutora em ciência política pelo IESP-UERJ

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