segunda-feira, 18 de maio de 2026

Por que o Brasil não tem um projeto nacional, por Luiz Carlos Bresser-Pereira*

JE – Jornal dos Economistas, nº 440, abril 2026 - Corecon-RJ e Sindecon-RJ.

O Brasil não tem um projeto de nação desde os anos 1980, quando seu desenvolvimento acelerado foi interrompido pela grande crise da dívida externa e a alta inflação inercial que se seguiu. Não tem e não quer tê-lo, porque suas elites econômicas e políticas império-dependentes insistem a se subordinar inteira mente ao Império. 

Entre 1930 e 1980, o Brasil se industrializou e realizou sua Revolução Capita lista adotando uma estratégia nacional--desenvolvimentista, que passou a contar com uma fundamentação teórica a partir de 1949, com o surgimento da teoria estruturalista latino-americana de Raúl Prebisch e Celso Furtado. 

Naquela época, o projeto nacional de desenvolvimento do país era a industrialização. Estava então claro para todos, exceto alguns liberais recalcitrantes, que o liberalismo econômico havia sido der rotado pela Grande Depressão dos anos 1930 nos Estados Unidos e ficara mais uma vez demonstrado que a ideologia da burguesia por excelência – o libera lismo econômico – era incapaz de pro mover o desenvolvimento sustentado de qualquer país e principalmente daqueles que estavam iniciando seu processo de industrialização, cuja necessidade para o desenvolvimento o liberalismo econômico rejeitava. 

Esse quadro histórico mudou quando, nos anos 1970, nos países centrais, e nos anos 1980, nos países periféricos, irrompeu uma grande crise econômica, no primeiro caso desencadeada pelo esgota mento do modelo social-democrático e, portanto, pelo fim da Era de Ouro do capitalismo e, no segundo caso, por uma cri se da dívida externa que resultou da política de crescimento com endividamento externo, naturalmente incentivada pelos países centrais, ou seja, o Império. 

A chamada “política de crescimento com poupança externa” não leva ao aumento da poupança total e do investimento do país, mas à apreciação da moeda nacional e ao desincentivo aos investimentos industriais. Ao invés de a poupança externa se somar à poupança interna, ela substituía essa poupança enquanto a população lo cal aumentava seu consumo, incentivada pelo dólar barato. 

Com a crise da dívida externa, à qual se somou o brutal aumento da alta inflação inercial, bem como a Virada Neoliberal ocorrida no Norte Global e a pressão que os Estados Unidos passaram a exercer para que as economias subdesenvolvidas se abrissem comercial e financeiramente, em 1990 o Brasil abriu sua economia e passou a experimentar quase-estagnação, deixando de realizar o catching-up.

A crise de 1980 deixara o Brasil, temporariamente, incapaz de conduzir um projeto nacional de desenvolvimento; a partir de 1990, abandonou definitiva mente o projeto e o país ficou sem qual quer projeto a não ser o de liberalizar e privatizar tudo o que fosse possível. Ao mesmo tempo, a economia entra va em crise fiscal – a poupança pública, que era positiva, tornou-se negativa. Some-se a isto o fato que as empresas estatais não paravam de ser privatiza das e compreenderemos por que o investimento público caiu verticalmente.

Se, porém, as empresas e os empresários aumentassem seus investimentos como as privatizações realizadas nos levariam a esperar, o problema seria resolvido. Mas não foi isso que aconteceu e a economia brasileira permanece quase-estagnada até hoje. Hoje posso afirmar que não é o curto prazismo, não é o sistema eleitoral, nem são os entraves culturais que impedem o Brasil de ter um projeto nacional de desenvolvimento. As elites brasileiras e o Império são contrárias a qualquer projeto nacional. Não querem uma política nacional-desenvolvimentista na qual o Estado e o mercado se completem na promoção da reindustrialização. 

O Império está muito satisfeito em ter paralisado o projeto de industrialização do Brasil e, mais amplamente, da América Latina. Dessa maneira, impedem que a região, exceto o México, volte a se industrializar de maneira que se tornem futuros concorrentes na área de bens e serviços sofisticados tecnologicamente. 

Além disso, mantém a troca desigual entre bens com alto valor e bens e serviços com baixo valor adicionado per capita. E mantém os países abertos às entradas e saídas de capitais – algo de fundamental interesse para o Império, que é, antes de mais nada, um exportador de capitais – capitais excedentes que não interessam aos países em desenvolvimento. 

O Império fracassou em conseguir o mesmo dos países do Sul, Sudeste e Les te da Ásia, que, submetidos à mesma pressão dos países centrais, resistiram e mantiveram por mais tempo seus projetos de desenvolvimento até se torna rem eles próprios países ricos.

Consolou--se com a América Latina, que os Estados Unidos reafirmaram recentemente ser área de sua exclusiva autoridade. Tudo isso é o imperialismo – não aquele definido por John A. Hobson e Vladimir Lenin no início do século XX, mas o imperialismo moderno, do nosso tempo. 

Os países periféricos dependentes ou suas elites império-dependentes na América Latina, por outro lado, querem continuar subordinados aos Estados Unidos e, para isso, acham necessário se submeter inteiramente ao Império. Querem que sua política econômica se ja pautada pelo liberalismo econômico, querem libera lizar e privatizar tudo o que for possível para ganhar a boa vontade do Norte Global.

Não percebem que é possível não confrontar o Império. Pelo contrário, que é possível estar aberto a ele, fazer-lhe juras de amor, apoiar o libera lismo econômico e, em parte, sua política internacional, e ao mesmo tempo, adotar uma política econômica interna pautada pelos interesses nacionais. É isso, por exemplo, o que faz a Arábia Saudita, com grande êxito. 

Sei bem que isto não é fácil. Que vai contra as convicções nacionalistas e desenvolvimentistas de uma parte importante dos intelectuais e dos trabalhadores organiza dos do país. Mas é possível.

O governo Lula, no Brasil, talvez seja um melhor exemplo do que o da Ará bia Saudita. O Brasil é uma democracia, aquele país é uma ditadura, na qual todo o poder está nas mãos do príncipe-ditador. 

O Brasil também rejeita a confrontação com o Império, mas ao invés de se acomodar, negocia. Negocia permanentemente, em um jogo de idas e vindas que é próprio da política, da qual o Presidente Lula é um mestre. 

Mas ele também precisa negociar internamente. Negociar e convencer as elites império-dependentes que é possível não confrontar com o Império sem abandonar uma política nacional de desenvolvimento via reindustrialização. Mas hoje a submissão de nossas elites é profunda.

Elas estão convencidas que a aliança-subordinação completa aos Estados Unidos é a melhor forma de se proteger contra as dificuldades que possam ter no futuro. Trata-se de uma mediocridade profunda para a qual não há solução à vista.

*É professor emérito da Fundação Getúlio Vargas.

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