segunda-feira, 6 de junho de 2016

Opinião do dia – Fernando Henrique Cardoso

Há outros temas para os quais os primeiros passos podem ser dados. Refiro-me aos entraves políticos em sentido profundo: não foram só um governo e o partido que o sustentava que desmoronaram. Há a implosão de todo um sistema político-eleitoral que aparta o Congresso, os partidos e mesmo o Executivo do sentimento popular. A legislação partidária e eleitoral criada a partir da Constituição de 1988 não corresponde mais aos anseios do povo nem cria as condições de governabilidade que a sociedade requer. Espera-se que o novo governo dê os passos iniciais da reforma política. Estruturas políticas (como as econômicas e as sociais) não mudam de repente nem o fazem em sua totalidade, salvo em momentos historicamente revolucionários, o que claramente não é o nosso caso. Sendo assim, no que consiste a falada reforma política?

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Fernando Henrique Cardoso é sociólogo, foi presidente da República. ‘Luz no fim do túnel?’ O Estado de S. Paulo, 5/6/2016

Cerveró relatou propinas de mais de meio bilhão de reais

• Delator apontou 11 políticos como beneficiários de desvios

Em delação premiada, ex-diretor da área internacional da Petrobras disse que maior suborno foi pago no governo FH

Nestor Cerveró, ex-diretor da Petrobras apadrinhado por PT e PMDB, revelou na delação premiada ter facilitado repasses de pelo menos R$ 564,1 milhões em propinas nos negócios da estatal. Ele apontou 11 políticos dos dois partidos como beneficiários dos subornos,
informam André de Souza e Carolina Brígido. Mas o maior valor individual, segundo Cerveró, ocorreu numa negociação da Petrobras na Argentina, em 2002, quando teriam sido pagos US$ 100 milhões para integrantes do governo FH, cujos nomes não revelou.

Propinas desde 2002

• Ex-diretor da Petrobras, Cerveró delata 11 políticos como beneficiários de esquema de corrupção

André de Souza e Carolina Brígido - O Globo

-BRASÍLIA- O ex-diretor internacional da Petrobras Nestor Cerveró apontou o pagamento de pelo menos R$ 564,1 milhões em propina envolvendo negócios da estatal e de uma de suas subsidiárias, a BR Distribuidora. Onze políticos são nominalmente citados como beneficiários dos desvios. Os detalhes estão na delação premiada de Cerveró, que está colaborando com a Justiça em troca de redução da pena. A cifra deve ser maior, uma vez que os valores não estão atualizados e não há informação de quanto foi pago em propina em parte dos negócios com irregularidades.

Petrobras terá multa bilionária nos EUA

• Estimativa de indenização em ação de investidores chega a mais de US$ 7 bi

Daniel Biasetto - O Globo

A ação coletiva que investidores brasileiros e estrangeiros estão movendo na Corte de Nova York contra a Petrobras pode levar a uma indenização superior à do escândalo da Enron — maior falência da História econômica dos Estados Unidos e que resultou numa reparação de US$ 7,2 bilhões. Única brasileira entre os peritos que acompanham a ação coletiva (class action), a advogada Érica Gorga afirma que foi a partir de informações reveladas pela Lava-Jato que acionistas que compraram papéis da estatal fora do Brasil, entre 2010 e 2014, uniram-se para tentar reaver as perdas com a depreciação das ações na Bolsa de Nova York.

Proposta na Corte de NY em 8 de dezembro de 2014, a class action se baseia na lei que regula o mercado de títulos imobiliários americano.

Ironia do juiz
Segundo Érica, que acompanhou a audiência na justiça americana, na qual o juiz responsável pelo caso, Jed Rakoff, considerou que o processo deveria prosseguir, o caso está na fase de estimativas de indenização, cobrada sobretudo pela perda do valor das ações na Bolsa de Valores de Nova York .

Inquéritos contra Renan, Jucá e Sarney

O procurador-geral, Rodrigo Janot, pediu ao STF abertura de inquérito contra os três políticos do PMDB, acusados por Sérgio Machado de receber propinas no escândalo da Petrobras.

Janot pede inquérito contra Renan e Jucá ao Supremo

• Sarney e outros políticos do PMDB também são mencionados

- O Globo

-BRASÍLIA- O procurador-geral da República, Rodrigo Janot, pediu abertura de inquérito contra o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), os senadores Romero Jucá (PMDB-RR), o ex-presidente José Sarney e outros políticos do PMDB. Todos eles estão no pedido enviado por Janot ao ministro Teori Zavascki, relator dos processos da Operação Lava-Jato no Supremo Tribunal Federal (STF), por terem sido acusados pelo ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado de receberem propinas. A informação foi divulgada ontem pelo “Fantástico”, da Rede Globo.

No sábado, O GLOBO revelou que, em depoimentos da delação premiada, Sérgio Machado disse que distribuiu mais de R$ 70 milhões em propina de contratos da estatal para Renan Calheiros, Romero Jucá e José Sarney, entre outros líderes do PMDB. Segundo Machado, o valor mais expressivo, de R$ 30 milhões, foi destinado a Renan, o principal responsável pela indicação dele para a presidência da Transpetro, subsidiária da Petrobras e maior empresa de transporte de combustível do país.

Machado disse ainda que repassou cerca de R$ 20 milhões para Sarney durante o período que esteve à frente da estatal. Romero Jucá — que ficou uma semana como ministro do Planejamento do governo Michel Temer — também recebeu aproximadamente R$ 20 milhões.

Vitórias no Congresso não garantem estabilidade no primeiro mês de Temer

Por Raymundo Costa – Valor Econômico

BRASÍLIA - O governo provisório de Michel Temer completa 30 dias no domingo, dia 12, parecendo três anos, nas palavras do próprio presidente interino. Nesse curto espaço de tempo, Temer foi levado a demitir dois ministros importantes e foi e voltou atrás em relação à extinção do Ministério da Cultura, o que lhe valeu a pecha de hesitante. Mas também aprovou duas medidas importantes que o Congresso negava à sua antecessora, a mudança da meta fiscal e o aumento da desvinculação das receitas da União. Tudo somado, o presidente interino avançou no Legislativo, um território hostil ao PT, mas ruma para fechar seu primeiro mês de governo ainda sob a desconfiança de que será capaz de vencer a instabilidade política que levou ao afastamento da presidente Dilma Rousseff.

Até o fantasma da "volta de Dilma" ronda os palácios de Brasília. Dilma tem recebido senadores que se dizem arrependidos de terem votado a favor de seu afastamento, e acredita neles. Em uma recente reunião da cúpula do PT, em São Paulo, o sentimento da maioria era o mesmo. O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse a interlocutores acreditar numa reversão do quadro no Senado. Não é mero discurso do PT, portanto. Mas na cúpula dos partidos ontem aliados de Dilma e hoje perfilados com o Temer, há muito ceticismo. A mudança de voto é desmoralizante, mas o que pesa mesmo é a convicção generalizada de que uma eventual volta de Dilma vai piorar, e muito, a crise. O caos. Os senadores "indecisos", segundo dirigentes dos partidos, aproveitam o momento para surfar na onda do impeachment. Só.

Pauta-bomba testa aliança Temer-PSDB

Por Maria Cristina Fernandes - Valor Econômico

SÃO PAULO - Na condição de partido investido da liderança do governo no Senado o PSDB será testado por uma pauta-bomba, que confronta teses do partido em relação ao ajuste fiscal e fragiliza as finanças de Estados governados pela legenda.

Chega esta semana ao Senado o projeto que reajusta servidores, cria cargos e terá um impacto de R$ 7 bilhões este ano e de R$ 52,9 bilhões até 2018. O projeto foi aprovado na Câmara sob o protesto de deputados tucanos como Nelson Marchezan Jr (RS). No Senado, a bancada tucana vê com preocupação para a imagem do partido a associação a projetos que aumentam gastos com funcionalismo num momento em que o país enfrenta uma das maiores taxas de desemprego da história.

O projeto passou no Senado na mesma noite em que o presidente interino Michel Temer recebia, no Jaburu, os dez senadores tucanos - Antonio Anastasia (MG) não foi por ser relator do processo de impeachment - para sagrar a ascensão de Aloysio Nunes Ferreira à liderança do governo. O senador Romero Jucá (PMDB-RR), ex-ministro do Planejamento, passou pelo Jaburu, mas o jantar, além dos tucanos, só contou com o ministro da Casa Civil, Eliseu Padilha, e o advogado José Yunes, amigo do presidente em exercício que não tem cargo formal no governo mais é um consultor permanente de Temer.

PMDB ganha cargos para votar pelo impeachment

Por Vandson Lima e Thiago Resende - Valor Econômico

BRASÍLIA - O presidente interino Michel Temer monitora de perto as articulações para obter os 54 votos necessários para comandar o Palácio do Planalto em definitivo e aprovar, no Senado, a cassação do mandato da presidente afastada Dilma Rousseff. Para integrantes do PT e aliados, fica cada vez mais claro que, para convencer pela rejeição a Temer e mudar o placar no julgamento final, é necessário articular outra saída: antecipar eleições presidenciais - estratégia que tem funcionado com alguns senadores mas cuja legalidade é questionada.

Em jantar com a bancada do PSDB do Senado e reuniões particulares com tucanos, na semana passada, Temer impressionou convidados e mostrou conhecer no detalhe cada caso de senador que potencialmente poderia mudar o voto. E está certo de ter angariado pelo menos mais três do PMDB em seu favor, em relação aos 55 que votaram pela admissibilidade do processo, que proporcionou o afastamento da presidente em 12 de maio: Jader Barbalho (PA), cujo filho permaneceu ministro - era de Portos com Dilma e passou para Integração Nacional; Eduardo Braga (AM), contemplado com a relatoria-geral do Orçamento de 2017; e João Alberto Souza (MA), presidente do Conselho de Ética do Senado, ligado a José Sarney e ao presidente do Congresso Nacional, Renan Calheiros (PMDB-AL). Jader e Braga não votaram na fase anterior do impeachment, alegando questões médicas; Souza votou contra a aceitação da denúncia.

Reajustes provocam 1º atrito no governo Temer

• Contas públicas. Pacote com aumentos para o funcionalismo, aprovado na quinta-feira, opõe equipes política e econômica, que considera a medida prejudicial ao ajuste fiscal

Alexa Salomão - O Estado de S. Paulo

A decisão do presidente Michel Temer de autorizar, na semana passada, os reajustes salariais para diferentes categorias de servidores públicos abriu a primeira divergência entre a equipe econômica e os articuladores políticos do PMDB. No Ministério Fazenda, o entendimento é que não pode haver elevação de gastos, mesmo que seja para evitar desgastes ou pacificar relações, como defendem caciques políticos do PMDB.

Para a equipe econômica, que têm a missão de imprimir o corte mais duro e socialmente penoso da história nas contas público do Brasil, é “incompreensível” que o governo em exercício faça a opção política de abrir concessões, aumentando os gastos em bilhões de reais, para beneficiar o funcionalismo público, parcela privilegiada de trabalhadores. A sinalização é contraditória. Indica que o sacrifício inerente ao ajuste fiscal não será para todos.

Temer deve avaliar situação de advogado-geral e secretária das Mulheres nesta segunda

• Fábio Medina Osório e Fátima Pelaes causaram desconforto no Planalto; eles serão recebidos nesta segunda por Temer

Tânia Monteiro e Isadora Peron - O Estado de S. Paulo

BRASÍLIA - Com o cargo seriamente ameaçado, o advogado-geral da União, Fábio Medina Osório, será recebido nesta segunda-feira, 6, pelo presidente em exercício Michel Temer. Desgastado após uma série de episódios que causaram desconforto no Planalto, Medina tem sua situação classificada como “crítica” por interlocutores do presidente e poderá ser o terceiro auxiliar importante a deixar o governo, que ainda não completou nem um mês.

Temer também pretende discutir nesta segunda a situação da secretária das Mulheres, Fátima Pelaes. Ela é alvo de investigação na Justiça Federal por supostamente haver participado de um esquema de desvio de R$ 4 milhões em verbas no Ministério do Turismo, objeto da Operação Voucher da Polícia Federal, iniciada em 2011.

Corte nas viagens de Dilma foi resposta aos ataques de petistas

• Parecer da Casa Civil regulamentando direitos da presidente afastada também restringiu uso de cartão corporativo

Tânia Monteiro - O Estado de S. Paulo

BRASÍLIA - Cansado dos ataques da presidente afastada Dilma Rousseff e do cerco que os petistas e seus liderados estão fazendo à sua família e à sua casa, em São Paulo, o presidente em exercício Michel Temer decidiu partir para o enfrentamento.

O primeiro sinal de que Temer mudou seu comportamento foi o parecer da Casa Civil preparado na semana passada regulamentando os direitos da presidente afastada. Além de cortar viagens com aviões da FAB para outros locais que não Porto Alegre, o Planalto decidiu que só Dilma terá direito a utilizar o cartão de crédito corporativo para suas despesas pessoais. Quando estavam na Presidência, alguns dos auxiliares dela também utilizavam o cartão.

Eleições 2016: Incerteza será marca de pleito

• Fim de financiamento empresarial e menor tempo de campanha deixam cenário incerto

Fransciny Alves - O Tempo (MG)

Menos dinheiro, menos tempo para campanhas e muitas interrogações. A menos de quatro meses para as eleições municipais deste ano, especialistas e políticos já consideram a incerteza como marca da disputa, que será a primeira com as novas regras eleitorais valendo.

As alterações na legislação, que entram em prática pela primeira vez neste ano, são provenientes de dois projetos: o da reforma política, aprovado pelo Congresso Nacional no ano passado, e o da minirreforma eleitoral, que foi aceito pelo Legislativo em 2013.

Dessa nova legislação, especialistas ouvidos pela reportagem de O TEMPO consideram como pontos mais significativos a diminuição do tempo de propaganda eleitoral – que passou de 90 para 45 dias, com o início previsto para 16 de agosto – e o fim do financiamento empresarial de campanha (veja outras mudanças na página 7).

FHC: “Temer tem que falar com o país, e não com os políticos”

• Tucano defende que Governo interino, apoiado pelo PSDB, "junte forças" pela reforma política


Javier Martín – El País, 5/6/2016

LISBOA - Fernando Henrique Cardoso (Rio de Janeiro, 1931) foi presidente do Brasil de 1995 a 2002 pelo PSDB, que ele ajudou a fundar. Derrotou em duas ocasiões o líder do PT, Luiz Inácio Lula da Silva. Primeiramente, como ministro da Fazenda, e depois, como presidente, Cardoso reduziu uma inflação galopante e estabilizou a economia do país. Aposentado há anos, é consultor em várias universidades e fundações, como a Champalimaud, de Lisboa, onde conversou com o EL PAÍS sobre a delicada situação política e econômica do Brasil.

Pergunta. A destituição da presidente Dilma Rousseff foi um golpe de estado político?

Resposta. Não foi nenhum golpe de estado. O impeachment seguiu rigorosamente a Constituição. O impeachment brasileiro não se refere à realização de um delito, à responsabilidade penal; está relacionado à responsabilidade política. Está claro na Constituição que autorizar gastos pelo Executivo sem a aprovação da Câmara é ir contra a Constituição. E isso ocorreu reiteradamente.

A verdadeira reforma política - Roberto Freire

- O Tempo (MG), 4/6/2016

A partir do julgamento definitivo de Dilma Rousseff pelo Senado Federal, que deve sacramentar o afastamento da petista pelo instrumento democrático e constitucional do impeachment, os brasileiros terão a chance de discutir de que forma o país poderá, de fato, avançar institucionalmente e levar a cabo uma profunda e verdadeira reforma em seu sistema político.

Resolvida a crise gerada pela irresponsabilidade do lulopetismo, será necessário que as forças políticas e a sociedade se debrucem sobre uma mudança real no atual sistema de governo, com a adoção do parlamentarismo. Esse debate já pode ser iniciado em 2016 e certamente ofereceria ao Brasil uma alternativa mais democrática, constitucional e permanente para resolvermos crises agudas como a atual sem traumas institucionais. No regime parlamentarista, adotado com êxito por algumas das principais democracias do mundo, quanto maior a crise, mais radical é a solução.

Reconstrução do Brasil – Aécio Neves

- Folha de S. Paulo

O governo do presidente Fernando Henrique Cardoso deixou para o governo Lula, em 2003, um superávit primário de 3,25% do PIB, equivalente a quase R$ 200 bilhões pelo PIB atual, além de mudanças institucionais importantes, como a Lei de Responsabilidade Fiscal, de 2000. Todo esse esforço foi jogado fora pelos governos do PT, desde 2009.

Intervenção em setores importantes da economia, controle nos preços da gasolina e energia, desequilíbrio financeiro das estatais e recorrentes truques contábeis para esconder da sociedade a gravidade do quadro que estava se formando nos trouxeram à crise econômica atual.

O que resta a Dilma – Ricardo Noblat

- O Globo

“Quando você tem razão, ninguém se lembra disso; quando está errado, ninguém esquece” Muhaammead Ali, o melhor do boxe mundial

Receosos de complicações futuras com a Justiça, políticos de todas as cores apressaram na Câmara a aprovação do impeachment de Dilma. Esperavam assim que o governo Temer pudesse barrar o avanço da Lava-Jato. Não barrou, por impossível. Agora, com medo de ser atingido por novas delações, é o próprio governo Temer que tenta apressar o desfecho do impeachment no Senado. Não conseguirá, por absurdo.

Pedalando com o PMDB - José Roberto de Toledo

- O Estado de S. Paulo

Até agora, a contabilidade das votações no Congresso Nacional durante o governo interino é positiva politicamente e negativa do ponto de vista fiscal. Se Michel Temer atropelou a oposição petista na Câmara nos poucos embates que tiveram, ele gastou seu cacife por enquanto para autorizar o aumento do rombo orçamentário de 2016 e dar reajustes para castas superiores do funcionalismo público federal, como magistrados e procuradores.

Meu delator preferido – Valdo Cruz

- Folha de S. Paulo

Dilma odiava delatores. Sarney, Jucá e Renan foram traídos por um, que passou a ser celebrado pela presidente afastada, mas que pode ser definitivamente impedida pelas revelações do delator-mor.

Quando não passava por sua cabeça ser afastada do cargo, Dilma, atormentada pelas revelações da Lava Jato, tascou em junho de 2015: "Eu não respeito delatores". Até ali, mantinha uma pose de que nada do petrolão chegaria perto dela.

Pois bem, de lá para cá o país foi sacudido por novas e novas delações. É bom dizer, não mostraram a petista enfiando dinheiro no bolso, mas apontaram que sua campanha de 2014 foi irrigada com propina.

Lava Jato: o Brasil passado a limpo - Marcus Pestana

- O Tempo (MG)

Certa vez, Abraham Lincoln cunhou frase certeira: “Se quiser pôr à prova o caráter de um homem, dê-lhe poder”. O poder existe na família, na sociedade e no mercado. E as relações entre as pessoas são sempre assimétricas. Mas aí estamos falando do mundo privado. O poder institucionalizado se materializa no Estado. O organismo governamental nasceu como resposta às necessidades sociais cada vez mais complexas. A ordem pública, a defesa nacional, a garantia do poder da moeda, a vigência das leis, a tributação foram conformando o perfil do Estado no espaço e no tempo. Da democracia grega até sua configuração contemporânea, passando por monarquias absolutas ou constitucionais e autoritarismos de todos os matizes, a organização do poder se metamorfoseou conforme as condições concretas de cada situação histórica específica.

Os dois gumes do impeachment - Marcos Nobre

• A situação de Temer é ainda mais grave que a de Sarney

- Valor Econômico

Legitimidade não se confunde com legalidade, com vitória em eleição ou com decisão de tribunal. É coisa etérea, difusa, que depende de uma quantidade quase incontrolável de fatores. Mais complicado ainda, só é lembrada quando faz falta, quando já não está mais presente. Por ser artigo escasso e precioso, democracias se organizam para que a legalidade garanta um quadro de relativa estabilidade no tempo para que ocupantes do poder tenham condições de construir a legitimidade de que vivem seus governos.

Momentos de crise institucional são aqueles em que a legalidade já não garante mais coisa alguma. São momentos em que a legitimidade passa a ser construída a céu aberto, de maneira bruta e arbitrária. Em 1985, José Sarney assumiu a Presidência sem que o presidente eleito indiretamente, Tancredo Neves, sequer tivesse assumido o posto. Sarney nada tinha que ver com seu partido, o PMDB. Tinha sido apoiador empenhado do regime civil-militar durante vinte anos.

Raiva espera? - Ligia Bahia

• E os hospitais públicos e os postos de atendimento ambulatorial, alguma coisa aconteceu? Acho que só houve umas mudancinhas

- O Globo

Em uma conversa dessas de todo dia, não grampeada, entre gente comum, preocupada consigo e com os outros, o tema foi saúde e afins. Está mesmo faltando vacina? O fornecimento é irregular. Atendi uma senhora com mordida na mão, estava vindo na peregrinação, de unidade em unidade, dava para ver os dentes de um lado e do outro, estava muito edemaciada. Mostra com gestos o ferimento e o inchaço. Os outros comentam: se alguma coisa todo mundo aprende na faculdade é que, se for em membros superiores e face, tem que vacinar, mesmo que o animal possa ser observado. A história é retomada. Mas nesse dia não tinha vacina, eu já sabia.

Examinei a paciente e, mesmo assim, telefonei para a secretaria. A moça que me atendeu foi burocrática, tratou como se fosse uma falha de informação. A lenga-lenga de sempre: vocês deveriam ter sido avisados. Respondi: “Nós aqui sabemos disso, estou ligando para solicitar uma orientação.” Ela sugeriu colocar a senhora numa lista de espera. Como assim? E raiva espera? (A raiva humana é letal, e o período de incubação para que a doença se manifeste é menor em casos de penetração do vírus em locais com mais terminais sensitivos). Mais informações são trocadas. Eu consegui em outra cidade, me disseram que lá tinha três doses. A paciente teve que viajar. Pausa para perplexidade. Quem diria, o programa nacional de imunizações foi a menina dos olhos da saúde no Brasil.

Tanto faz – Vinicius Mota

- Folha de S. Paulo

O Peru do século 21, que elegeu seu quarto presidente desde o colapso da aventura Alberto Fujimori (2000), não tem dado bola para o chefe do Executivo. De 1997 para cá, nenhum deles sustentou aprovação popular majoritária.

A economia não explica o fenômeno. Desde 1997 o país vizinho cresceu 4,7% ao ano em média -o volume da produção mais que dobrou. Em 2000, o poder de compra da renda per capita peruana equivalia a 58% da cifra brasileira comparável. Hoje representa 84% e deverá atingir 90% no início da próxima década.

O desespero petista – Editorial / O Estado de S. Paulo

Uma pesquisa interna do PT, obtida pelo Estado, mostra uma perspectiva desastrosa para o partido nas eleições municipais de outubro. A avaliação indica que os petistas conseguirão se reeleger em apenas 7% das prefeituras que a legenda conquistou no Sul e no Sudeste no pleito de 2012. Já no Nordeste, que se tornou o principal reduto eleitoral do PT graças a seu populismo rasteiro, há chances de vitória em somente 8%. É esse horizonte sombrio que norteia a estratégia petista de jogar todas as suas fichas na histeria do “golpe”, transformando-a em mote de sua campanha eleitoral, pois foi somente isso o que restou ao partido, rejeitado em todo o País pelo imenso dissabor que causou em sua desastrosa passagem pela Presidência. Não há o que defender num legado de roubalheira, irresponsabilidade e mentiras.

Se tivesse um mínimo de apreço pela democracia e pelas instituições, o PT já teria reconhecido seus inúmeros erros e oferecido alguma forma de compromisso com as demais forças políticas para que o País pudesse sair o mais breve possível da barafunda em que a presidente afastada Dilma Rousseff o meteu. Mas o espírito autoritário do partido, que se julga portador da verdade histórica, torna legítimo, aos olhos dos petistas, o falseamento da realidade e o insulto à inteligência na expectativa de criar confusão moral e, assim, tentar salvar a todo custo seu projeto de poder.

Tarde no Recife – Joaquim Cardozo

Tarde no Recife.
Da ponta Maurício o céu e a cidade.
Fachada verde do Café Máxime.
Cais do Abacaxi. Gameleiras.
Da torre do Telégrafo Ótico
A voz colorida das bandeiras anuncia
Que vapores entraram no horizonte.

Tanta gente apressada, tanta mulher bonita.
A tagarelice dos bondes e dos automóveis.
Um carreto gritando — alerta!
Algazarra, Seis horas. Os sinos.

Recife romântico dos crepúsculos das pontes.
Dos longos crepúsculos que assistiram à passagem
[dos fidalgos holandeses.
Que assistem agora ao mar, inerte das ruas tumultuosas,
Que assistirão mais tarde à passagem de aviões para as costas
[do Pacífico.
Recife romântico dos crepúsculos das pontes.
E da beleza católica do rio.

Raphael Rabello & Caetano Veloso - Olinda, cidade eterna (Capiba)

domingo, 5 de junho de 2016

Opinião do dia – Luiz Werneck Vianna

O enigma da atual conjuntura reside no fato incontornável de este lugar, por definição, ser neutro quanto à política, na medida em que somente pode agir por provocação de quem de direito. Por essa razão elementar, o diagnóstico formulado pelos responsáveis pela condução da Operação Lava Jato de que a raiz dos nossos males reside em nossas estruturas políticas, embora inequivocamente correto, somente pode se converter numa intervenção saneadora por obra de um agente externo ao Poder Judiciário, no caso, o poder político e suas instituições, crucialmente o Parlamento. Intervenções tópicas, mesmo que exemplares, como detenções e eventuais condenações, não têm o condão de erradicá-los.

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Luiz Werneck Vianna é sociólogo e professor da PUC-Rio. ‘A crise, os tribunais e o Parlamento’, O Estado de S. Paulo, 5/6/2016

Delação atinge Dilma e base quer acelerar impeachment

Líder do governo defende inclusão de fala de Odebrecht como prova para impeachment de Dilma

• Para o tucano, as declarações do empresário deverão ajudar a convencer senadores indecisos de que a petista não tem condições de voltar a comandar o País

Igor Gadelha - O Estado de S. Paulo

BRASÍLIA - O líder do governo no Senado, Aloysio Nunes (PSDB-SP), defendeu neste sábado a inclusão das revelações feitas pelo empreiteiro Marcelo Odebrecht como prova no processo de impeachment da presidente afastada Dilma Rousseff. Para o tucano, as declarações do empresário deverão ajudar a convencer senadores indecisos de que a petista não tem condições de voltar a comandar o País.

Segundo reportagem da revista IstoÉ, em acordo de confidencialidade com a Operação Lava Jato, Odebrecht teria afirmado que Dilma pediu pessoalmente uma doação de R$ 12 milhões para sua campanha eleitoral em 2014. Conforme a publicação, o empreiteiro diz que o então tesoureiro da campanha, Edinho Silva, pediu o montante, mas Odebrecht se recusou a pagar. O empresário, então, teria procurado Dilma, que teria afirmado: "É para pagar".

"Essas declarações ajudam a formar a convicção de que ela não pode permanecer na presidência. É mais uma elemento para corroer aquela fimbria de autoridade que ela tinha", disse Aloysio Nunes. Para o senador, as falas de Odebrecht devem ser levadas em consideração no julgamento do impeachment. "Isso contribui para desmoronar aquela imagem virginal que ela o PT construíram dela e da gestão dela".

Na avaliação do tucano, o próprio advogado de Dilma, José Eduardo Cardozo, abriu espaço para essa inclusão, ao pedir ontem na comissão do impeachment do Senado a inclusão como prova dos áudios em que o senador Romero Jucá (PMDB-RR) defende estancar as investigações da Lava Jato. "Já que é para falar do conjunto da obra, fica evidente que (a declaração de Odebrecht) deve ser levada em consideração", disse.

Na sessão da comissão do impeachment do Senado desta sexta-feira, o pedido de Cardozo foi negado pelo relator do processo, senador Antonio Anastasia (PSDB-MG). O tucano mineiro sustentou que os áudios de Jucá são estranhos ao processo. "Os áudios não são fatos novos, não alargam o objeto. Não são estranhos ao processo, eles são o processo", rebateu o advogado de Dilma.

Dilma será principal alvo na delação de Marcelo Odebrecht, diz revista

Delações da Odebrecht citarão 13 governadores e 36 senadores, diz Veja

• Ex-presidente da OAS dirá que pagou reformas de sítio a pedido de Lula e que tríplex pertence ao ex-presidente

- O Globo

SÃO PAULO — Reportagem da revista “Veja” deste final de semana afirma que as delações premiadas do empresário Marcelo Odebrecht e de altos funcionários da empreiteira deverão citar pelo menos treze governadores e 36 senadores como beneficiários de propinas nas campanhas eleitorais de 2010 e 2014. De acordo com a publicação, a Odebrecht distribuiu, à margem da lei, cerca de R$ 100 milhões em recursos aos candidatos. Segundo a revista, Marcelo Odebrecht decidiu fazer o acordo de delação depois de todas as tentativas de livrá-lo da prisão.

A revista revela também que o ex-presidente da OAS, José Adelmário Pinheiro, o Léo Pinheiro, também dirá em sua delação premiada que pagou as reformas do sítio em Atibaia a pedido do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que o tríplex no Guarujá realmente pertencia ao ex-presidente e que Aécio recebia 5% de propina das obras da Cidade Administrativa, em Minas Gerais, através de um emissário. Outros beneficiários citados pelo empresário são o atual ministro da Secretaria de Govern, Geddel Vieira; o senador Romero Jucá; o presidente do Senado, Renan Calheiros; e o deputado Eduardo Cunha, todos do PMDB. A revista lembra também que, depois de resistir, Pinheiro decidiu fazer acordo de delação premiada numa tentativa de reduzir sua pena de 16 anos.

Ministros do STF avaliam que delação de Odebrecht pode acenar para fim da Lava Jato

• Detalhes da suposta negociação direta entre Dilma e o empreiteiro seriam o que faltava à possível última linha de investigação nas operações; a Procuradoria-Geral da República não confirmou o teor da delação

Gustavo Aguiar - O Estado de S. Paulo

BRASÍLIA - As informações contidas na delação do empresário Marcelo Odebrecht e que implicam diretamente a presidente afastada Dilma Rousseff em pagamento de propina para financiar a campanha eleitoral de 2014 estão sendo encaradas no Judiciário como uma peça-chave para amarrar as pontas das investigações e acenar para um fim da Operação na Lava Jato.

Segundo interlocutores dos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) ouvidos pelo Estado, os detalhes da suposta negociação direta entre Dilma e Odebrecht para que o empreiteiro pagasse R$ 12 milhões à campanha presidencial eram o que faltava para ensejar a possível última linha de investigação nas operações.

O episódio foi relatado por Odebrecht na delação negociada com o Minsitério Público Federal, segundo reportagem deste sábado publicada na revista Istoé. O caso, no entanto, é encarado com cautela, pela dificuldade que um suposto encontro privado e, portanto, sem provas concretas de que tenha ocorrido nas circunstâncias descritas pelo relator, tenha de fato acontecido.

Líder do PMDB diz que nova delação ajuda a consolidar impeachment

• Peemedebista, no entanto, não quis comentar as novas suspeitas sobre o presidente do Senado, Renan Calheiros; Randolfe defende cassação de chapa

Igor Gadelha - O Estado de S. Paulo

BRASÍLIA - O líder do PMDB no Senado, Eunício Oliveira (CE), afirmou neste sábado que as declarações do empreiteiro Marcelo Odebrecht sobre a presidente afastada Dilma Rousseff ajudam a "consolidar" o impeachment da petista.

Conforme a publicação, o empreiteiro diz que o então tesoureiro da campanha e ex-ministro de Dilma, Edinho Silva, pediu o montante, mas Odebrecht se recusou a pagar. O empresário, então, teria procurado a presidente afastada, que teria afirmado: "É para pagar".

"Isso tudo vai consolidando ainda mais a condição do impeachment", afirmou Eunício Oliveira, evitando, porém, comentar diretamente a fala de Odebrecht. "Não vou comentar delação de ninguém, porque não me cabe".

Lula escalou Dutra para ‘esvaziar’ CPI da Petrobrás, afirma Cerveró

• Delator da Lava Jato declarou que petista, em 2009, deu 'missão' ao ex-s enador e ex-presidente da estatal petrolífera porque ele tinha 'facilidade de diálogo'

Ricardo Brandt, Isadora Peron, Gustavo Aguiar e Mateus Coutinho – O Estado de S. Paulo

Em delação premiada, tornada pública pelo Supremo Tribunal Federal nesta quinta-feira, 2,, o ex-diretor da Petrobrás Nestor Cerveró (Internacional) afirmou que em 2009 o então presidente Lula escalou o ex-senador José Eduardo Dutra (PT/SE) para ‘esvaziar’ a Comissão Parlamentar de Inquérito aberta para investigar desvios na estatal petrolífera.

Dutra havia sido presidente da Petrobrás (2003/2005), no primeiro mandato do petista. Ele havia exercido o mandato de senador pelo partido entre 1995 e 2003. Entre 2010 e 2011 presidiu o PT. Dutra morreu em 2015, aos 58 anos.

“Em 2009, foi instalada no Congresso Nacional uma CPI sobre a Petrobrás”, relatou Cerveró, no dia 7 de dezembro de 2015. “Na época, José Eduardo Dutra era o presidente da BR Distribuidora. Em razão da CPI, o Presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva atribuiu a José Eduardo Dutra a missão de participar do ‘esvaziamento’ da CPI da Petrobrás.”

Delações de Odebrecht e OAS alarmam políticos

• Empreiteiros devem relatar caixa dois para diversos partidos

Em avançadas negociações de colaboração premiada com a Lava-Jato, Marcelo Odebrecht e Léo Pinheiro deverão envolver Dilma, Aécio, 13 governadores e 36 senadores, segundo revista

Delações explosivas

• Para lideranças de PT, PSDB e PMDB, Lava-Jato provocará refundação do sistema político brasileiro

Jailton de Carvalho - - O Globo

O avanço das negociações para a delação dos empreiteiros Marcelo Odebrecht e Léo Pinheiro no âmbito da Lava-Jato alarma políticos de diversos partidos e agravará a crise política. Os donos da Odebrecht e da OAS devem revelar caixa dois para as campanhas presidenciais de Dilma Rousseff (PT) e Aécio Neves (PSDB) em 2014, além de propina para até 13 governadores e 36 senadores, segundo a “Veja”. Reportagem de ontem do GLOBO mostrou que Sérgio Machado, ex-presidente da Transpetro, relatou propina de R$ 70 milhões para o presidente do Senado, Renan Calheiros, o senador Romero Jucá e o ex-presidente José Sarney, todos do PMDB. Os acusados negam.

A revelação do explosivo conteúdo de uma série de delações premiadas já concluídas ou em andamento envolvendo personagens de diversos partidos levará o sistema político brasileiro a refundar suas bases, caso seja confirmado o teor das acusações. A avaliação é feita por lideranças das três legendas (PT, PSDB e PMDB) que se revezaram na Presidência da República nos últimos 21 anos. Políticos estão cada vez mais apreensivos com o teor das delações e temerosos de virarem alvos. Aém disso, a crise política tende a se aprofundar ainda mais nos próximos meses. Ontem, o GLOBO revelou que o ex-diretor da Transpetro Sérgio Machado relatou aos investigadores o pagamento de R$ 70 milhões a caciques do PMDB, entre eles o presidente do Senado, Renan Calheiros (AL), o senador Romero Jucá (RR) e o ex-presidente da República José Sarney (AP).

O último a sair apaga a luz

• Lava-Jato pode provocar cenário de terra arrasada na política brasileira

Paulo Celso Pereira - O Globo

Se tiverem seu conteúdo comprovado, as delações em negociação neste momento com o Ministério Público Federal tendem a decretar o fim do sistema político brasileiro como o conhecemos. Os longos depoimentos de executivos de ambas as empreiteiras (OAS e Odebrechet) e suas consequentes operações deverão tomar os próximos meses, e a primeira pergunta que assombra hoje é: quais políticos conhecidos hoje passarão incólumes por elas? O quadro de 2018 será definido antes de mais nada pela sobrevivência.

Caso os empreiteiros Marcelo Odebrecht e Léo Pinheiro cumpram as promessas ventiladas até agora, os dois principais nomes dos partidos que polarizaram a disputa presidencial desde 94 — PT e PSDB — estarão fora do jogo. Independentemente de os empreiteiros entregarem documentos cabais que comprovem o que dizem, as manchas das acusações formais contra o ex-presidente Lula e Aécio Neves dificilmente permitirão que estes sigam na corrida presidencial.

Odebrecht liga Mantega e Palocci a lista de propinas

Bela Megale, Mario Cesar Carvalho – Folha de S. Paulo

SÃO PAULO - Quando descobriu que a Odebrecht tinha um departamento especializado em pagar propinas, a Polícia Federal encontrou uma mina de provas, materializadas em planilhas com valores, e alguns enigmas, já que os agraciados com suborno eram tratados por codinomes.

Um desses codinomes, "Italiano", foi interpretado pela PF como sendo o ex-ministro Antonio Palocci, mas quem seria um certo "Pós-Itália", citado também em anotações de Marcelo Odebrecht?

Executivos do grupo Odebrecht vão afirmar em acordo de delação que "Pós-Itália" é o ex-ministro da Fazenda Guido Mantega, segundo a Folha apurou junto a profissionais que trabalham no acordo que a empreiteira negocia com a força-tarefa da Operação Lava Jato em Curitiba e a Procuradoria Geral da República em Brasília.

Palocci e Mantega foram ministros da Fazenda nos governos de Lula e Dilma, respectivamente. Com Dilma, Palocci chegou a ocupar o segundo posto do governo, ao chefiar a Casa Civil.

Em um e-mail de um funcionário da empreiteira interceptado pela PF, o codinome "Italiano" aparece associado aos valor de R$ 6 milhões, enquanto o "Pós-Itália" teria recebido R$ 50 milhões para repassar ao PT.

O documento, intitulado "Posição Programa Especial Italiano", seria a indicação de propinas pagas ao partido entre 2008 e 2012, de acordo com interpretação da PF e dos procuradores. Em 31 de junho de 2012, os pagamentos supostamente ilícitos somavam R$ 200 milhões.

A PF não sabia quem era "Pós-Itália", segundo relatório de fevereiro deste ano: "ainda não logramos êxito na identificação do indivíduo designado por tal nome".

O advogado de Palocci e Mantega, José Roberto Batochio, diz que as delações não passam de ilações sem qualquer fundamento.

Repasses ao PT
As planilhas foram elaboradas por Maria Lucia Tavares, secretária da Odebrecht que cuidava do controle do pagamento de propina, inclusive no exterior.

Depois de ser presa em fevereiro, ela firmou acordo de delação premiada com a Justiça passando a fornecer detalhes sobre o setor da empreiteira voltado para pagamento de propina. Os valores seriam repasses para campanhas do PT e também para o marqueteiro João Santana por meio de caixa dois.

A mulher de Santana, Mônica Moura, também negocia acordo de delação com procuradores da Lava Jato e confirmou a suspeita da PF de que "Italiano" é Palocci.

Ela disse, nas discussões para o acordo, que Mantega repassava recursos da Odebrecht para Santana, como noticiou o jornal "O Globo" em abril, mas não identificou-o como "Pós-Itália".

Santana atuou nas campanhas de reeleição de Lula em 2006, nas duas disputas de Dilma Rousseff, em 2010 e 2014, e no pleito do prefeito de São Paulo Fernando Haddad em 2012, recebendo do PT R$ 229 milhões oficialmente.

A PF, porém, aponta que a empresa pagou o marqueteiro em eleições no exterior, como as de El Salvador e Angola. Só na disputa de Angola ele recebeu US$ 50 milhões, valor que é considerado absurdo por outros marqueteiros ouvidos pela Folha, já que a mesma pessoa preside o país há 36 anos.

A PF suspeita que os valores recebidos por Santana em Angola foram, de fato, pagamentos por campanhas que o marqueteiro fez no Brasil –o que a defesa de Santana nega com veemência.

Palocci já era investigado pela Lava Jato desde junho do ano passado, sob suspeita de ter pedido R$ 2 milhões para a campanha de Dilma em 2010, de acordo com a delação do ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa.

Alberto Youssef, citado por Costa como o autor do pedido do pagamento, nega que tenha feito a solicitação.

Mantega já teve seu nome citado na Lava Jato e é investigado por outra operação da PF, a Zelotes, na qual é suspeito de ter indicado um conselheiro para um órgão da Receita que, por sua vez, beneficiou empresa da qual teria recebido propina.

Ambos afirmam que as acusações não têm qualquer fundamento.

Outro lado
O advogado de Antonio Palocci e Guido Mantega, José Roberto Batochio, diz que a citação de seus clientes na delação de executivos da Odebrecht não passa de ilação sem qualquer fundamento.

Sobre Palocci, Batochio afirma que o ex-ministro nunca foi conhecido pelo apelido de "Italiano" que aparece na planilha encontrada pela Polícia Federal no anexo de e-mail de um executivo da empreiteira.

"Contesto com toda a ênfase que o Palocci tenha sido identificado por uma alcunha que nunca foi associada a ele. Havia um lobista italiano que circulava pelas empreiteiras em busca de projetos", disse.

Em relação a Mantega, ele diz que o valor citado ao lado do codinome que seria atribuído a ele dentro da Odebrecht, de R$ 50 milhões, "é completamente inverossímil". "São suposições gratuitas", afirma.

Batochio refuta também que Palocci tenha recebido R$ 2 milhões para a campanha de Dilma Rousseff em 2010, como afirmou o ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa em sua delação.

Costa diz que o valor foi pedido a ele pelo doleiro Alberto Youssef, que negou a versão do ex-diretor da estatal.

Caixa dois
O advogado Fabio Tofic Simantob, que defende o marqueteiro João Santana, diz que as suspeitas de que ele tenha recebido propina da Odebrecht são completamente infundadas.

De acordo com Simantob, a única irregularidade que seu cliente cometeu foi ter recebido recursos de caixa dois no exterior.

A mulher de Santana, a publicitária Mônica Moura, confessou que recebeu US$ 3 milhões da Odebrecht em conta na Suíça. Os procuradores da Operação Lava Jato já têm provas de que Santana recebeu também US$ 4 milhões do lobista Zwi Skornicki, que representava os interesses de um estaleiro de Cingapura.

De acordo com o advogado de Santana, seu cliente recebeu por serviços que prestou, o que não configura os crimes de corrupção ou lavagem de dinheiro.

A única infração que o marqueteiro cometeu, segundo ele, foi não ter declarado os valores à Receita Federal.

O PT nega também que tenha recebido recursos ilícitos da Odebrecht.

Em nota, o partido diz: "O PT nega que tenha recebido os montantes citados na planilha. Todas as doações recebidas pelo partido aconteceram estritamente dentro da legalidade e foram posteriormente declaradas à Justiça Eleitoral".

Luz no fim do túnel? - Fernando Henrique Cardoso

- O Estado de S. Paulo

Passados os dias de ansiedade do processo de impeachment, com forte probabilidade de o Senado reafirmar a decisão da Câmara, o País perceberá que seus problemas continuam à espera de solução. 

São muitos, desde os econômicos (para os quais o novo governo, forçosamente, voltará o olhar), passando pelos morais (a Lava Jato é o melhor sinal de que podem ser encaminhados), até os sociais, que são os que mais atazanam o povo, à frente o desemprego e a carestia, frutos da má condução econômica das últimas fases do petismo no poder. Estes problemas, infelizmente, não poderão ser resolvidos da noite para o dia. Como tampouco poderão ser os da saúde, os da educação, da segurança ou os dos transportes.

O povo sente que é assim. Espera sinais de mudança e isso o governo Temer pode e deve dar.

A crise, os tribunais e o Parlamento - Luiz Werneck Vianna

- O Estado de S. Paulo

Análises de conjunturas políticas, muito especialmente em épocas de crise, têm em mira a localização dos pontos sensíveis a partir dos quais uma dada intervenção dos atores possa alterar a correlação de forças existente em favor da direção que se deseja imprimir aos rumos dos acontecimentos. Tais operações, na nossa experiência republicana, já conheceram como lugares privilegiados a questão militar e a sindical, quando a expertise demandada nessas análises implicava conhecer as inclinações de suas lideranças.

Na circunstância que aí está não há mistério na identificação desse lugar de difícil precisão. Até as pedras das ruas são capazes de reconhecê-lo no interior dos tribunais, no juizado federal de Curitiba e, principalmente, neste papel de pontificado laico de que está investido o Supremo Tribunal Federal. A judicialização da política virou a segunda pele da República, a tal ponto que a sociedade já adotou como língua geral a que lhe vem do Direito, dos seus procedimentos e instituições, esgrimindo, à esquerda e à direita, o texto constitucional em todas as controvérsias políticas.

Metralhadora ponto 100 - Fernando Gabeira

• Agora que se conhece o rombo, não há outro caminho exceto enfrentá-lo

- O Globo

Numa das conversas gravadas com Sérgio Machado, Sarney disse que a delação da Odebrecht seria uma verdadeira metralhadora ponto 100. Parece que o tema já foi negociado na semana passada. Daqui a pouco, ouviremos o tiroteio, junto com explosões menores, como as delações de Léo Pinheiro, da OAS, e do próprio filho de Sérgio Machado, que era operador financeiro em Londres.

Se as rajadas atingirem todos os grandes partidos, como se anuncia, ficaremos com a paisagem depois da batalha, mortos caídos na estrada e feridos se arrastando na poeira. Talvez seja por isso que alguns jornalistas estrangeiros nos perguntam: o sistema político brasileiro vai implodir? É uma pergunta difícil. O sistema político brasileiro precisa implodir. Mas ao mesmo tempo não pode implodir: estamos numa profunda crise econômica, e ele é essencial para a travessia.

Antes autoritário que corrupto – Ferreira Gullar

- Folha de S. Paulo

Tenho dito aqui que o tipo de populismo característico do governo do PT –como o de alguns outros países latino-americanos– nasceu como uma alternativa ao regime comunista que acabou antes que chegassem ao poder pela revolução. Não chegariam, é claro, mas em face das novas circunstâncias, tiveram que mudar de tática.

Esse populismo, que se valeu dos recursos públicos para ganhar a adesão das camadas mais pobres da população, adotou naturalmente uma política econômica que, para mostrar-se anticapitalista, levou o país à bancarrota. Por outro lado, apropriou-se das empresas estatais e saqueou-as em aliança com empresários capitalistas, que diziam combater.

Democracia e Poder Moderador – Merval Pereira

- O Globo

Em recente ciclo de palestras na Academia Brasileira de Letras sobre os papéis dos Poderes da República, um tema surgiu constantemente: o papel do Poder Moderador na História brasileira, desde a Constituição de 1824, passando pelo papel das Forças Armadas, até os dias de hoje, quando alguns consideram que o Supremo exerce esse papel moderador.

O debate sobre sistemas de governo, que a crise política traz de volta, também se repete, com propostas de retomada do parlamentarismo, ou a adoção do semipresidencialismo, a exemplo de França ou Portugal.

Há discordâncias sobre a atualidade de uma figura para exercer um Poder Moderador, como o imperador, ou uma instituição, como Forças Armadas ou STF, e uma concordância, resumida pela posição do historiador e membro da ABL José Murilo de Carvalho: o problema hoje se coloca em termos de combinar representatividade com governabilidade, em situação de ampla participação eleitoral e conflito distributivo.

Sorte para o azar - Dora Kramer

- O Estado de S. Paulo

Ninguém em sensata consciência discorda de que Dilma Rousseff tinha zerado seu estoque de condições de governar quando foi afastada da Presidência por força da abertura do processo de impeachment no Senado, em 12 de maio.

Ninguém de bom senso, portanto, ignora que a volta dela ao cargo seria a assinatura de um contrato do País com o desastre completo. Seja pela retomada dos meios e modos que nos levaram à recessão na área econômica e à depressiva convivência com a corrupção sistêmica, seja pela ameaça de soluções estranhas à Constituição como a ideia de patrocinar eleição presidencial fora do tempo. Em qualquer hipótese, dias piores virão.

Nisso, até o PT concorda, indisposto que está para segurar um rojão pronto a explodir em suas mãos. Justamente em ano de eleição municipal na qual a perspectiva do partido é ruim, mas seria muito pior na posse de uma Presidência em xeque.

Pragmatismo míope - Hélio Schwartsman

- Folha de S. Paulo

Para uma gestão cuja missão histórica é começar a resolver um intricado gargalo fiscal, pega mal o governo Temer ter capitaneado a aprovação de um pacote de reajustes para o funcionalismo público cujo custo é estimado em R$ 58 bilhões em quatro anos.

Nos cálculos do presidente interino, não vale a pena se indispor com os servidores e, por extensão, com parte do Congresso para evitar um aumento cujo impacto mais imediato consta do Orçamento e, portanto, já foi empurrado para o megadéficit de R$ 170 bilhões atribuído à gestão de Dilma Rousseff.

Pode ser. Mas receio que haja uma certa miopia nessa visão. É verdade que um governo tampão como o de Temer deve ser essencialmente pragmático. Também é verdade que o Congresso, apesar de ter pelo menos 30% de seus membros metidos em encrencas judiciais diversas, precisa ser cortejado. Dilma caiu porque perdeu o apoio dessa gente. Infelizmente, ninguém inventou ainda um jeito de fazer democracia sem Parlamento e, goste-se ou não, nossos parlamentares foram legitimamente eleitos pela população.