quinta-feira, 17 de julho de 2008

DEU EM O GLOBO


DINHEIRO!
Cora Rónai


Ganhar dinheiro é uma ambição humana universal, legítima e eterna. Dinheiro não traz felicidade, mas manda buscar; resolve problemas de educação, moradia e saúde; compra supérfluos indispensáveis; e, desde que elas se esforcem um pouquinho, torna as pessoas mais bonitas, mais magras e mais bem vestidas. Ainda que não mais elegantes. Mas aí já é outra história.

Na base da felicidade estão, pelo menos em tese, o sossego e a paz de espírito, e é razoável supor que a maioria dos seres humanos corra atrás de dinheiro em busca de mais segurança e sossego.


Os limites individuais disso variam enormemente. Eu seria feliz com o suficiente para viajar sempre que me desse na telha e para não precisar me preocupar com o futuro dos próximos seis meses. Há quem, embora não ligue para viagens, não abra mão, nos seus sonhos, de um carro zerinho. De preferência blindado. Há quem queira uma casa no campo ou na praia; um veleiro. E há os que, pura e simplesmente, querem só ficar de barriga pra cima e não mexer mais uma palha.

Compreendo qualquer espécie de sonho, assim como compreendo que pessoas com diversos degraus na escadaria da ambição dediquem-se com maior ou menor empenho à realização dos seus objetivos. Só não entendo para que passar a vida caçando dinheiro quando já se tem mais do que se pode gastar em várias gerações, e quando, na esteira do excesso de pecúnia, vem uma bagagem medonha de desassossego. De que adianta ter toda a grana do mundo e entrar no escritório às sete sem hora para sair, não confiar na própria sombra, não gostar de comida, sexo ou conversa fiada, trabalhar sem parar e viver com medo da polícia?! Isso lá é vida?!

Daniel Dantas, por exemplo. Foi preso, solto, preso e, sem nenhuma surpresa para ninguém, solto novamente (está na hora de investigar o juiz que o soltou, não o que o prendeu). Pergunto: isso vale a pena (jurídica)?! O inconveniente, o estresse, as manchetes nos jornais, para não falar da noite com o Pitta na mesma cela?! A Polícia Federal que me perdoe, mas esse cara não tem que ser preso, tem que ir para um hospício.

Sei que o que não falta ao dr. Dantas é advogado, mas apresento, a título de contribuição à sua defesa, essa mais que legítima tese de insanidade mental. O meu PF (não é Policia Federal, é Por Fora) a gente discute depois.

- Você, mais uma vez, não entendeu nada - dizem as pessoas que nunca entendem nada. - O que faz a cabeça de um tipo assim não é dinheiro, é poder.


Poder. Perfeito. Ainda assim, para que serve o poder pelo poder, já que não consta que, em nenhum momento, o dr. Dantas tenha tentado mudar o mundo? Serve, sejamos sinceros, para aquela coisa rasteira e menor que motiva os políticos brasileiros, vale dizer, descolar uma vida mansa e interessante às custas do contribuinte. E para juntar mais dinheiro - o que nos leva de volta à casa um. A questão é que, para usufruir disso, é preciso ter algo que se pareça minimamente com uma vida. Chegar ao escritório às sete sem hora para sair, não confiar em ninguém, blá blá blá... Repito: isso lá é vida?!


Nessa história de dinheiro, por sinal, o exemplo de casa é sempre muito importante. Vejam o caso do Eike, esse rapaz simpático que me conquistou quando disse que queria despoluir a Lagoa. Ele teve um ótimo exemplo em casa. O pai era ministro das Minas e Energia, e ele, visionariamente, comprou umas terrinhas lá nos cafundós onde, logo depois, descobriu-se uma mina de ouro. Daquelas bem reluzentes.


Já eu segui os passos dos meus pais, ambos professores. Por isso eu, em vez de comprar umas terrinhas auríferas, como faria qualquer jovem bem orientada, dei de sair comprando livros. Francamente! Aí está o resultado - o Eike comprando minas até hoje, e eu aqui até hoje comprando livros. Moral: um mau exemplo na infância ferra a pessoa para o resto da vida.


Ultimamente, meu consolo de pobre são as "edições limitadas".


Encomendei um produto para cabelo. É uma loção chamada Complexe 5, que existe há pelo menos 20 anos, e que, dessa vez, veio numa embalagem completamente diferente daquela à qual estou habituada. Olhei com mais atenção: na parte de trás está escrito "Édition limitée, 06325/20000".


Notem que não se trata de um perfume com frasco de cristal numerado e valor de coleção, nada disso; trata-se de um prosaico tônico capilar, com a velha fórmula de sempre, que tenta afagar o meu ego classe média com a falsa sensação de usar algo exclusivo.


Depois foi a coleção do "Blade runner", que saiu numa caixa com a (má) edição do diretor e a outra, que foi exibida nos cinemas, e da qual eu tinha tanta saudade. Há muitas outras alegrias na caixa, a começar por ela mesma, que parece uma maletinha: a versão final de Ridley Scott; a que foi exibida nos cinemas americanos; um DVD cheio de extras; uma miniatura do spinner; um unicorniozinho prateado... Enfim, um tesouro, mas um tesouro humilde, que me custou US$63 na Amazon (parte da fortuna da Amazon vem das minhas economias). Pois, no fundo da caixa, o que se lê? "Limited edition, 035913/103000". Não! Vocês acreditam?


Vocês estão lendo uma das 103 mil pessoas que possuem essa exclusivíssima caixa!!!


Eu ainda não tinha me recuperado da emoção deste privilégio quando, lendo a embalagem do iogurte no café da manhã, dei com uma barrinha dourada que nunca vira antes. E adivinhem o que está escrito lá? Ganha um doce quem responder "edição limitada".


E o que é Daniel Dantas tem a ver com as "edições limitadas" ilimitadas? A rigor, nada. Mas um assunto puxou o outro porque me peguei pensando sobre o ser e o ter, hoje tão filosoficamente misturados que mesmo as pessoas mais objetivas têm dificuldade de perceber o que é uma coisa e o que é a outra.


Em tempo: guarde bem este jornal! Ele é um exemplar único da edição limitada desta quinta-feira.

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