CartaCapital
Há um congestionamento de candidaturas à
direita
Com a escolha de Ronaldo Caiado como candidato do PSD, o quadro das candidaturas presidenciais está praticamente definido e o cenário da disputa ganha novos contornos. O quadro revela um Lula olímpico no campo do centro-esquerda, um centro órfão e um enorme congestionamento à direita. O centro poderia ter um representante se Ratinho Júnior ou Eduardo Leite viessem a ser candidatos. Além de Caiado, a direita terá Flávio Bolsonaro, Romeu Zema e Renan Santos. Outros possíveis candidatos se situarão entre as candidaturas nanicas.
O desenrolar da campanha tende a revelar-se
movediço no campo da direita. Antes de tudo é preciso notar que Lula saiu
favorecido com a desistência de Ratinho e com a escolha de Caiado. Dos três
postulantes, primeiro Ratinho e depois Eduardo Leite eram os que mais tinham
possibilidade de atrair eleitores de centro, seja pelos seus perfis, seja pelo
maior traquejo político-discursivo. Caiado terá maior dificuldade de atrair
eleitores de centro que adotam uma visão mais liberal de mundo. Para tentar
passar para o segundo turno, ele deverá buscar eleitores mais à direita, que
hoje declaram voto em Flávio Bolsonaro. Com Caiado candidato, um forasteiro no
partido, setores mais liberais do PSD sentirão menos constrangimento em optar
por Lula no primeiro turno.
Como Caiado tem mais experiência política e
eleitoral, mais segurança emocional, realizações a mostrar e experiência de
governo, poderá atrair eleitores que votariam em Flávio por falta de opção ou
porque o consideram imaturo e inexperiente. Flávio, Caiado, Zema e Renan
Santos, qualquer um dos três preferirá disputar o segundo turno com Lula
porque: 1. O atual presidente deverá estar no segundo turno; 2. Cada um
considerará que será mais fácil vencer Lula no segundo turno do que qualquer
outro candidato.
Esta situação indica que haverá intensa
disputa dos eleitores de centro-direita e direita entre os candidatos desse
campo. Zema parece ter um perfil mais regional, circunscrito a Minas Gerais. É
preciso, no entanto, prestar atenção em Renan Santos. O candidato do partido
Missão poderá tornar-se um fenômeno eleitoral, assemelhado ao que Pablo Marçal
foi nas eleições municipais de São Paulo em 2024.
Duas circunstâncias podem favorecer Renan
Santos. A primeira diz respeito à conjuntura, a segunda, ao seu perfil. A
conjuntura favorece a mudança, o surgimento de algo novo. Ela revela uma
exaustão social com a política e a falta de perspectivas em relação ao futuro.
Uma pesquisa Datafolha revela que 59% dos entrevistados se
sentem tristes, 61% são tomados pelo desânimo e outros 61% sentem medo em
relação ao futuro.
Resta saber se algum adversário de Lula vai
capturar o sentimento de mudança no ar
A pesquisa do IBGE sobre a saúde mental dos adolescentes
revela um quadro preocupante. Dentre os vários indicadores levantados, 42,9%
dos jovens afirmaram que se “sentem irritados, nervosos e mal-humorados por
qualquer coisa” e 18,5% pensam sempre, ou na maioria das vezes, “que a vida não
vale a pena”. Neste indicador, como em todos os outros, o quadro é mais grave
entre as meninas, com 25%, e menor entre os meninos, com 12%. Ainda dentre as
meninas, 43,4% já tiveram vontade de se machucar por conta própria ante 20,5%
dos meninos.
Esse ambiente social degradado, ao qual se
somam o alto número de feminicídios, sensação de insegurança e de violência,
alto custo de vida, endividamento das famílias, gastos com jogos nas bets,
escândalos de corrupção com as emendas parlamentares, INSS e Banco Master, não
só estimula os desejos de mudança, como também prejudica o governo e os
partidos e políticos do sistema vigente.
Renan Santos é jovem, dotado de versatilidade
discursiva, se apresenta como a “verdadeira direita” e com um discurso
antissistema. Afirma que Flávio é do Centrão, que não passaria de um judas que
tem de ser destruído e que não tem nenhuma proposta séria. Diz que a família
Bolsonaro é corrupta e faz parte do sistema. Todo o sistema político-partidário
seria corrupto. Afirma que é preciso combater a corrupção sem pragmatismo
institucional, sem negociação com o Centrão e sem concessões.
Diferente de Marçal, que tinha uma postura
mais performática, o discurso de Santos é mais analítico, conceitual e
reflexivo. Afirma que a esquerda perdeu o horizonte e a perspectiva de futuro,
enquanto a direita que está aí seria oportunista, corrupta e desqualificada. A
política, de modo geral, estaria num patamar rebaixado e medíocre. Aponta a
necessidade de várias reformas, mas principalmente a política e a
administrativa.
Na pesquisa Datafolha de março, aparece com
3% de intenções de voto, Lula com 39% e Flávio com 34%. Na pesquisa
Atlasintel/Bloomberg de 23 de março, Lula tem 45,9%, Flávio soma 40,1%, Renan,
4,6%, à frente de Caiado, com 3,7%. Na faixa etária de 16 a 24 anos, o
candidato do Missão tem 24,7%.
O uso de estratégias digitais é a aposta para
se projetar no eleitorado, visando atenuar a indisponibilidade de outros meios
como rádio e tevê e fundos partidários e eleitorais. Análises de rede indicam
que a média mensal de posts relacionados a Renan Santos nas principais
plataformas é de 180 mil, e que, nas menções de pré-candidatos nas redes, ele
aparece em terceiro lugar, com 11,9% do índice, perdendo apenas para Lula, que
tem 19,9%, e Flávio, com 20,09%.
A tendência é de um campo movediço entre as
candidaturas de direita e de um segundo turno muito acirrado entre Lula e um
desses postulantes. O potencial de Renan Santos e o desempenho dos demais candidatos
não são automáticos. Tudo dependerá das estratégias e do jogo jogado. O
primeiro turno se desenha como um cenário de imprevisibilidades.
Publicado na edição n° 1407 de CartaCapital,
em 08 de abril de 2026.

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