O Globo
A Sala Cecília Meireles resiste, serena,
blindada por uma couraça que a protege das buzinas e freadas, do funk e do
reggaeton
A Sala Cecília Meireles é um remanso à margem daquela corredeira que vem da Riachuelo, deságua na Rua da Lapa, reflui para a Mem de Sá, passa pela Rua do Passeio e sobe para fazer selfies na Escadaria Selarón. A Sala resiste, serena, blindada por uma couraça que a protege das buzinas e freadas, do funk e do reggaeton das JBLs ligadas em volume máximo nas barraquinhas do entorno dos Arcos. Sem saber, coitada, que um novo cavalo de Troia contrabandeou o inimigo lá para dentro.
Sábado foi dia de homenagem a Radamés
Gnattali e seus 120 anos de brasilidade: a “Fantasia brasileira nº 4”, com
solos de trombone, piano e bateria, para a orquestra cair no samba — o Brasil
ainda não era território do sertanejo e do gospel — e a colorida “Sinfonia
popular nº 1” — em que o amarelo não era canary, e a orquestra mandava brasa no
baião. Completando, a “Jornada fantástica num trem de ferro”, de Alexandre
Schubert — com direito ao compositor na plateia. Aliás, plateia mais que
estrelada, porque também estava lá o maestro Isaac Karabtchevsky.
É bom ver a Cecília Meireles bem cuidada, com
uma programação dessas — e lotação esgotada. E, para melhor usufruir a acústica
da sala, a excelência dos músicos e a qualidade do repertório, nada como uma poltrona
não tão à frente que a gente saia respingado com o suor do regente, não tão no
fundão que o som dos pratos chegue com delay.
A fila Q costuma ser uma boa escolha: dali,
vê-se a sala por inteiro e ainda se pode apreciar o balé das luzes dos celulares
ligados, mantendo seus humanos cativos do mundo virtual. A senhora à esquerda
acompanha atentamente o programa (a tela magenta do site da Petrobras Sinfônica
não deixa dúvida). Em torno, o inadiável carrossel pelas redes sociais (quem é
o allegro moderato de 1941 para competir com o scherzo do Instagram de 2026?).
Como ninguém avisou que era proibido filmar, alguns filmam — exatamente como
fariam se houvesse a proibição.
O casal à frente troca juras e carinhos,
ignorando que há locais mais aconchegantes nos arredores. Um pouco adiante, as
piadas devem ser ótimas, porque as duas moças cochicham e riem o tempo todo. Um
senhor nem tão idoso parece depender do smart
watch para respirar e consulta a cada tantos segundos a enorme
rodela espelhada com luzinhas verdes que traz no pulso. Aqui e ali, alguém abre
a bolsa e saca de uma garrafinha de água (às vezes uma garrafona Stanley) e se
hidrata (pelo menos neste sábado, ninguém levou halteres para malhar bíceps
entre um movimento e outro).
O jeito é fechar os olhos e deixar que a
música se imponha aos estímulos visuais. Daria certo, não fosse a tertúlia nas
filas de trás, onde o papo é animadíssimo, alheio aos shhs e psius de um e
outro sistemático que prefere Gnatalli à tagarelice.
Bloqueadores de celular (daqueles que
deveriam existir nos presídios) seriam uma solução — com o inconveniente de
deixar os mais dependentes zanzando pelos corredores, com os aparelhos erguidos
aos céus, na busca desesperada por um sinal. Outra opção seria um locker,
desses de academia, onde fossem trancados eletrônicos e garrafas de água
(ninguém morre de desidratação em duas horas de espetáculo, morre?). Mas
quantas mensagens, postagens, curtidas e dancinhas de TikTok teriam sido
perdidas? E o desequilíbrio eletrolítico?
Na saída, a Lapa até parece uma plácida
enseada. O concerto foi ótimo. Falta consertar o público.

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