O Estado de S. Paulo
Deve-se propagar: não vote em quem não destina verba ao ensino integral
Desalento é o sentimento que se espalha
diante da certeza de que a crise de nossas instituições não será resolvida por
via das eleições.
Há a sensação do “já visto”, dando até certo cansaço antecipado diante das mesmas superficiais promessas dos candidatos, que serão tonitruantes por todos os meios de comunicação. Os candidatos a presidente ou a governador podem até apresentar programa de governo, mas isso não levará a qualquer adesão revestida de entusiasmo.
Bem destaca Sheila Leirner, nesta página (Governar
um país como um manual de gestão?, 21/3, A6), não se dever tratar o País como
se fosse uma empresa em busca de resultados sem visão política, pois vira
apenas administração do presente. Reclama, portanto, existir um projeto de país
que empolgue e catalise as energias da sociedade, com superação dos
antagonismos irracionais.
Estas sugestões casam-se com as observações
trazidas por Christian Lynch em artigo na Folha de S. Paulo no domingo passado,
no sentido da perda de confiança na democracia que toma cores próprias no
Brasil, pois a desconfiança é uma das características do brasileiro, uma vez
que apenas 7% afirmam serem os outros confiáveis. “O brasileiro é sociável, mas
não social”, diz Lynch.
Com efeito, o brasileiro não se integra em
trabalhos comunitários, pois cada um desconfia do outro, o que dificulta a
promoção da junção dos ânimos em vista de um projeto de nação.
Assim, fica difícil vislumbrar um futuro
comum. No entanto, assim mesmo, a sociedade civil por suas inúmeras entidades
pode se unir em torno de tema urgente que incite ação carregada de emoção, uma
ideia-força que entusiasme e comprometa.
Dados de fevereiro do Instituto Nacional de
Estudos e Pesquisas Anísio Teixeira (Inep) revelam crescimento do número de
matrículas em tempo integral, mas que corresponde tão só a 25%. Engajamento em
favor do futuro, com olhos nas crianças, viria com intensa campanha em favor do
ensino em tempo integral nas regiões mais desfavorecidas, desde a pré-escola até,
inicialmente, o 4.º ano do curso fundamental, sem que tal seja apenas aumentar
as horas de permanência na escola.
O objetivo consiste em proporcionar às
crianças em situação vulnerável melhor rendimento no aprendizado, mas também
acolhimento em razão de suas dificuldades por professores que venham a ser mais
do que transmissores de informação, mas verdadeiros agentes sociais auxiliando
na superação das vicissitudes próprias da vida nas favelas ou na periferia das
grandes cidades.
Dessa maneira, o sucesso do tempo integral
depende muito da especialização de professores que se engajem nessa missão de
preparar a criança pobre a prosperar e se desenvolver mesmo no ambiente hostil
em que vive, sem atrativos culturais, sem praças, sem árvores, sem espírito solidário
a presidir as relações sociais.
O tempo integral compreende também estímulo à
entrada no mundo da cultura, abrindo mentes com incentivo à leitura, a assistir
e fazer teatro, bem como a praticar esporte, fundamental para a saúde, além de
educativo ao ensinar o respeito ao adversário e que esse não seja visto como
inimigo.
O desafio é imenso, exigindo esforço conjunto
de União, Estados e municípios. A União, em seu programa de ensino integral,
efetivou em 2024 o investimento de apenas R$ 4 bilhões, ou seja, apenas 7% do
valor das emendas parlamentares. O compromisso exigirá priorizar o ensino
integral, destinando-lhe mais verbas. A expansão da escola em tempo integral,
contudo, deve ser gradual para se ter qualidade na formação da criança,
requisito sem o qual será uma farsa, pois a ampliação indiscriminada
constituirá apenas um gasto inútil, sem condições de proporcionar o resultado
essencial de ser o caminho para redução das desigualdades.
Repito, portanto, que a sociedade civil, por
suas diversas entidades, deve lançar largo movimento em prol desse programa,
exigindo de candidatos ao Executivo a formulação de cronograma especificando as
etapas detalhadas de sua implementação.
Além do mais, candidatos a deputado federal,
estadual ou senador devem se comprometer a indicar como destinatária de verba
de emenda parlamentar escola municipal situada em regiões pobres das grandes
cidades ou em rincões do interior, com vista a que haja ensino integral.
Deve-se propagar: não vote em quem não destina verba ao ensino integral.
Será uma campanha paralela à eleição, um
grande ensaio para começar a unir os desconfiados do nosso país em torno de uma
ideia compensatória da injustiça social que perdura há séculos, como
consequência maldita da escravidão. Assim, fogese do marasmo eleitoral e podese
dedicar a algo que verdadeiramente importa. De outra parte, esta proposta pode
unir esforços e vencer o clima de desconfiança que reina entre nós.

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