O Estado de S. Paulo
O senhor já quis comer a mulher de um amigo? – perguntou o motorista que me levava ao aeroporto. Surpreendido, tergiversei e tentei dialogar sobre problemas muito mais fáceis de resolver, tipo: se era possível julgar casos nos quais a esposa era advogada do réu; se a última novidade no campo da corrupção era esse banco que rouba dinheiro; sobre a crise climática e a arrogância de Trump.
– Você diz trair uma amizade por machismo?
– Isso mesmo. Comer a mulher do melhor amigo. Ela me contou que o marido entrou numa seita religiosa e não comparecia mais em casa...
– Não vinha para casa? – Não, doutor, ele não
trepava! Deixava um baita mulherão sem amor.
– E como você sentiu que dava pé? –
perguntei.
– Num almoço, ela passou o tempo todo
passando o pé no meu pé. Naquela noite, não dormi e, o pior, é que pensava mais
no amigo do que nela. No dia seguinte, voltei e, na varanda, dei um beijo nela,
o que só piorou as coisas, porque, com o beijo, eu tinha me obrigado a comer a
mulher do meu melhor amigo.
– Você ficou entre a amizade e o amor –
resumi.
– Um lado meu queria, mas a amizade me
bloqueava.
Na semana dessa confusão do Banco Master e do
Supremo, ela disse que ficaria sozinha. O marido ia viajar em penitência. – E
aí?
– Bem, doutor – disse o taxista, olhando-me
com olhos aflitos, realçados pelo espelho retrovisor –, não era um convite, era
uma ordem: se você é homem, venha cá e me coma! Mas, em vez de ficar alegre,
fiquei na covardia da dúvida. Como é que eu ia comer a mulher do meu melhor
amigo?
– Você foi?
– Fui com muito medo. Consolei-me porque ouvi
dizer que o ex-presidente Bolsonaro é imbrochável, mas, ora bolas, eu sou comum!
Parados no estacionamento do aeroporto,
perguntei:
– A dúvida passou?
– Que nada. Fui salvo pelo meu anjo da
guarda. Bati na porta, ela abriu e foi logo dizendo, meio sem graça, que a
peregrinação tinha sido suspensa, e o marido estava em casa. Meu risinho de
alívio a deixou com raiva. E, para piorar as coisas, soltei um: “Ótimo, então
vamos ver o jogo Brasil x Croácia!”.
– Ótimo, né, seu putinho – ela disse entre
dentes –, a merda do jogo é melhor que eu?
Olhei o relógio, paguei e, mais uma vez, vi
um brasileiro afligido pelo machismo.
– Será, doutor, que, se eu trair meu amigo, o
Lula perde a eleição? – perguntou o patético taxista quando saí do carro.
Aliviado e no avião, pensei em fazer uma
crônica sobre o pensamento dos chamados selvagens, uma visão de mundo encantada
que liga tudo com tudo. Foi quando me dei conta de que o dilema do meu amigo –
adultério ou lealdade, mentira ou honra – era a questão nacional.
O avião levantou voo roncando. Eu, calado, fiquei com essa história.

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