quarta-feira, 8 de abril de 2026

Dilema machista, por Roberto DaMatta

O Estado de S. Paulo

O senhor já quis comer a mulher de um amigo? – perguntou o motorista que me levava ao aeroporto. Surpreendido, tergiversei e tentei dialogar sobre problemas muito mais fáceis de resolver, tipo: se era possível julgar casos nos quais a esposa era advogada do réu; se a última novidade no campo da corrupção era esse banco que rouba dinheiro; sobre a crise climática e a arrogância de Trump.

– Você diz trair uma amizade por machismo?

– Isso mesmo. Comer a mulher do melhor amigo. Ela me contou que o marido entrou numa seita religiosa e não comparecia mais em casa...

– Não vinha para casa? – Não, doutor, ele não trepava! Deixava um baita mulherão sem amor.

– E como você sentiu que dava pé? – perguntei.

– Num almoço, ela passou o tempo todo passando o pé no meu pé. Naquela noite, não dormi e, o pior, é que pensava mais no amigo do que nela. No dia seguinte, voltei e, na varanda, dei um beijo nela, o que só piorou as coisas, porque, com o beijo, eu tinha me obrigado a comer a mulher do meu melhor amigo.

– Você ficou entre a amizade e o amor – resumi.

– Um lado meu queria, mas a amizade me bloqueava.

Na semana dessa confusão do Banco Master e do Supremo, ela disse que ficaria sozinha. O marido ia viajar em penitência. – E aí?

– Bem, doutor – disse o taxista, olhando-me com olhos aflitos, realçados pelo espelho retrovisor –, não era um convite, era uma ordem: se você é homem, venha cá e me coma! Mas, em vez de ficar alegre, fiquei na covardia da dúvida. Como é que eu ia comer a mulher do meu melhor amigo?

– Você foi?

– Fui com muito medo. Consolei-me porque ouvi dizer que o ex-presidente Bolsonaro é imbrochável, mas, ora bolas, eu sou comum!

Parados no estacionamento do aeroporto, perguntei:

– A dúvida passou?

– Que nada. Fui salvo pelo meu anjo da guarda. Bati na porta, ela abriu e foi logo dizendo, meio sem graça, que a peregrinação tinha sido suspensa, e o marido estava em casa. Meu risinho de alívio a deixou com raiva. E, para piorar as coisas, soltei um: “Ótimo, então vamos ver o jogo Brasil x Croácia!”.

– Ótimo, né, seu putinho – ela disse entre dentes –, a merda do jogo é melhor que eu?

Olhei o relógio, paguei e, mais uma vez, vi um brasileiro afligido pelo machismo.

– Será, doutor, que, se eu trair meu amigo, o Lula perde a eleição? – perguntou o patético taxista quando saí do carro.

Aliviado e no avião, pensei em fazer uma crônica sobre o pensamento dos chamados selvagens, uma visão de mundo encantada que liga tudo com tudo. Foi quando me dei conta de que o dilema do meu amigo – adultério ou lealdade, mentira ou honra – era a questão nacional.

O avião levantou voo roncando. Eu, calado, fiquei com essa história. 

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