O Estado de S. Paulo
Quantos bilhões e quem o ex-banqueiro está disposto a entregar para obter a sua liberdade?
Era 17 de junho, 4h30. Em Via del Corso, em
Roma, carabineiros prendiam o jornalista Enzo Tortora, apresentador de um dos
programas de maior audiência da Itália: Portobello. Começava o calvário daquele
que é considerado o maior erro judicial da história recente da Itália.
Quem quiser conhecer melhor essa história basta ir à HBO Max para assistir à série dirigida por Marco Bellocchio. Tortora era um Fausto Silva em seu país. Foi denunciado por dois integrantes da Nova Camorra Organizada como traficante de droga. Os bandidos precisavam entregar um nome excelente aos procuradores a fim de que lhes fossem concedidos os benefícios da delação premiada. Tortora foi a cereja no bolo dos malandros, que “confessaram” como arrependidos. Após três anos, o jornalista, que renunciou à imunidade do mandato no Parlamento Europeu para responder como simples cidadão ao processo, provou sua inocência.
Quarenta anos depois do caso Tortora, é este o desafio para a Procuradoria-Geral da República por trás da colaboração premiada do banqueiro Daniel Vorcaro. Afinal, o que o acusado planeja? Advogados que conhecem o banqueiro afirmam que o montante de dinheiro que Vorcaro vai entregar será a melhor medida para saber a idoneidade de sua colaboração. Quantos bilhões o homem está disposto a devolver às vítimas de sua arruaça financeira? O segundo ponto levantado é sobre quem Vorcaro pretende entregar.
Afinal, seu desejo é se vingar de quem
liquidou seu banco e o mandou para a cadeia? Para preservar seu dinheiro, ele
pretende produzir que tipo de acusações? E contra quem? Vai tentar esconder os
políticos que, de forma notória, tentaram protegêlo, questionando até mesmo a
liquidação do Master? Vai contar o que o moveu a se relacionar com ministros do
STF ou vai delatar só aquilo que a PF já sabe? Vai contar o papel de Benjamin
Botelho na história do Master? Vai dizer onde está seu dinheiro? Enfim...
Ao depor na Corte de Apelação, Tortora disse:
“A continuar assim, os homens serão divididos em duas categorias: os criminosos
irredutíveis e os arrependidos ( delatores), com uma terrível terceira
possibilidade: a dos irredutivelmente inocentes”. Tortora mostrou as armadilhas
da delação. A ansiedade do público para saber os nomes dos acusados e a
instrumentalização política de casos como o de Vorcaro recomendam cautela. Nos
comitês políticos, poucos se interessam sobre como e quais benefícios Vorcaro
vai obter com o acordo. Se preservar seu dinheiro, será visto apenas como um
novo Joesley Batista. Quanto aos nomes que fizer, os cínicos sempre poderão
dizer que não há inocentes neste mundo.

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