quarta-feira, 8 de abril de 2026

Nossas raízes democráticas, por Vagner Gomes

Livro resenhado: MAESTRINI, Alexandre Müller Hill. Nossas riquezas pretas: biografias afro-juizforanas. Juiz de Fora (MG). EDITAR. 2025.

Disponível gratuitamente aqui: 

https://institutoautobahn.com.br/index.php/nossas-riquezas-pretas-jf/

Pode-se dizer, então, que desde o seu parecer antiprotecionista, Rebouças começara a aproximar a Alemanha do seu quadro de referência, concedendo-lhe uma densidade ética comparável à da aristocrática Inglaterra e, por via de consequência, ao yankismo que preconizava para o Brasil. Rebouças mudaria também a sua definição de Estado: a qualificação do Estado como “gendarme” das “classes feudais” seria alterada pelo reconhecimento da multiplicidade de interesses abrigados sob o Estado modernizador do século XIX. (…)

Maria Alice Rezende de Carvalho – O Quinto Século: André Rebouças e a Construção do Brasil, p. 207.

As abordagens sobre o racismo na sociedade brasileira lança luz sobre os caminhos em que a democracia foi construída em nosso país após a proclamação da República. O debate da escravidão do pensamento político brasileiro se iniciou há muitos anos atrás a partir dos escritos de Joaquim Nabuco (1849 – 1910) e André Rebouças (1838 – 1898). Segundo Nabuco, a escravidão era um grande mal para a sociedade brasileira que deveria, em seguida, se democratizar com um programa político de descentralização. Por outro lado, Rebouças foi mais ousado, numa perspectiva democrática e social ao defender uma distribuição de terras aos ex-escravos como possibilidade de elevação do liberto a cidadão. Por fim, foi Clovis Moura (1925 – 2003) que em tempos republicanos se preocupou com a inclusão dos negros na história de nosso povo, o que lhe conferiu um pioneirismo pouco reconhecido e compreendido nas novas gerações das lideranças do movimento negro.

Então, as pequenas memórias e autobiografias de pessoas simples, com o auxílio da metodologia da História Oral, são oportunidades para se verificar como o legado da conciliação e reforma, nos dizeres de José Honório Rodrigues, se fizeram presente na construção da consciência de uma negritude no qual as interpretações de György Lukács (1885 – 1971) teriam contribuído. Tamanha é a envergadura dessa nossa hipótese diante a publicação do livro Nossas Riquezas Pretas – Biografias Afro-juizforanas, de autoria de Alexandre Müller Hill Maestrini, que pelos caminhos da “fortuna” se aproxima da tradição autobiográfica de Joaquim Nabuco em Minha Formação (1900) e André Rebouças em seus Diários (1863 – 1889). A memória como uma oportunidade de revelação de uma consciência mais do que individual sobre um grande problema social.

As linhas do acaso de nossa historia política fizeram convergir o centenário da abolição da escravidão com o ano da “Carta Cidadã” de 1988. Esse livro de fácil leitura faz a apresentação de 54 (cinquenta e quatro) entrevistas de moradores de Juiz de Fora, os quais viveram os dilemas do preconceito racial desde os tempos da Ditadura Militar (1964 – 1985) até os tempos da chamada transição democratizadora da sociedade brasileira (1985 – 2002). Esses registros estão livres de teorias mas repletos de emoções de vidas e lembranças. Além disso, eles nos chamam a atenção para uma cidade de grande importância econômica, política e social em Minas Gerais e suas conexões com outras municipalidades mineiras, como se o tema da democratização social pela via da educação e leitura fosse um ponto comum a esses protagonistas de um transformismo na sociedade, onde o grande desafio seria a reinvenção na política do programa reformista de André Rebouças.

O leitor terá a oportunidade de se reconhecer nas biografias uma vez que faz parte de uma qualidade das raízes de nossa luta democrática, que está precisando de novos quadros políticos para fazer valer o reformismo social. Um livro que poderia se reproduzir em tantos outros municípios de Minas Gerais, porque o tema democrático está sob forte pressão nesse estado da federação. As forças do autoritarismo inorgânico e ideologizado são um problema que questiona o legado da mineirice na política nacional. Temos um “livro-semente” para que tenhamos condições de desvendar os silêncios sobre a negritude até de Antônio Francisco Lisboa, que foi biografado pela primeira vez em 1858.

*Vagner Gomes é Doutorando do PPGCP-UNIRIO.

Nenhum comentário: