terça-feira, 26 de maio de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Encíclica de Leão XIV sobre IA reflete realismo e sensatez

Por O Globo

Papa reconhece valor da nova tecnologia, mas aponta os riscos intrínsecos a seu avanço

Leão XIV não é o primeiro papa a se preocupar com as transformações trazidas pela tecnologia à sociedade. A inspiração explícita de Magnifica Humanitas (Magnífica Humanidade), sua primeira encíclica publicada ontem, é Rerum Novarum (Sobre as coisas novas), em que Leão XIII — inspirador também do nome adotado pelo americano Robert Francis Prevost — discorria sobre o impacto das “coisas novas” oriundas da Revolução Industrial e, ao mesmo tempo que reconhecia o valor do avanço científico, rogava pela proteção daqueles cujo trabalho ou vida fossem afetados pelas transformações. É também esse o tom de Leão XIV na encíclica que dedicou à maior revolução tecnológica em curso: o advento da inteligência artificial (IA).

Matemático de formação, Prevost é um papa cujo preparo científico o qualifica a entender com profundidade o universo digital. Logo no início do papado, anunciou que daria atenção aos riscos das novas tecnologias e já fez várias declarações sobre IA. Escolheu divulgar sua encíclica ao lado de Christopher Olah, um dos fundadores da Anthropic, cujo modelo Claude tem sido treinado com base na preocupação com a “moralidade” das decisões tomadas pelos algoritmos — a Anthropic enfrentou o Pentágono ao negar o uso de seus sistemas em armas autônomas.

Os princípios defendidos em Magnifica Humanitas refletem realismo e sensatez. De um lado, Leão XIV reconhece que a tecnologia não pode, em si, ser considerada uma “força antagônica” ao ser humano e enxerga múltiplos benefícios em seu uso. De outro, chama a atenção para os riscos que lhe são intrínsecos. “Não significa renunciar à tecnologia, mas impedir que ela domine o ser humano”, escreve. “Significa retirá-la dos monopólios, torná-la discutível, contestável e, portanto, habitável, devolvendo-a à pluralidade das culturas humanas e das formas de vida.”

Ele defende a regulação das gigantes digitais que desenvolvem a IA e o treinamento da força de trabalho cujos empregos forem ameaçados. “É desejável que a tecnologia alivie o homem de trabalhos particularmente pesados, repetitivos ou perigosos e ofereça um apoio inteligente à atividade humana; porém o princípio geral deve continuar a ser a proteção dos postos de trabalho e do papel insubstituível da pessoa”, diz em seu texto. “A ordem econômica deve manter-se subordinada à sua dignidade e ao bem comum.”

O papa também recomenda a proteção de crianças e adolescentes e afirma que a educação é primordial para usar as inovações. “Educar para o uso da IA implica educar para decidir quando e em que situações não a utilizar”, afirma. Ele exige que máquinas não tenham como tomar decisões autônomas no “âmbito bélico”: “A decisão de recorrer à força letal não pode ser delegada em processos pouco transparentes ou automatizados, mas deve permanecer sob um controle humano efetivo, consciente e responsável”.

Por fim, Leão XIV faz uma exortação enfática por salvaguardas éticas. “A inovação tecnológica pode ser, em certo sentido, uma forma humana de participar no ato divino da criação”, diz. “Programadores assumem um particular peso ético e espiritual (...). Tal como o autor de uma obra artística ou literária é responsável por ponderar os valores que ela expressa, também eles são chamados a tratar com a devida seriedade os valores que infundem.” O recado papal deveria ser ouvido não só por católicos, mas por todos.

Situação financeira crítica da Cedae expõe desmandos crônicos das estatais

Por O Globo

Auditoria revelou R$ 1 bilhão gastos sem licitação e R$ 200 milhões investidos em papéis do Banco Master

A Companhia Estadual de Água e Esgotos (Cedae) atendia 64 municípios do Rio de Janeiro antes da privatização de sua extensa área de saneamento. Depois da bem-sucedida venda, que tem atraído investimentos necessários ao setor em todo o estado, ela continuou responsável pela captação e fornecimento de água tratada às concessionárias privadas. Persistiram, contudo, os problemas financeiros, como revela a auditoria encomendada pelo novo presidente da empresa, o procurador do estado Rafael Rolim, nomeado pelo governador em exercício, Ricardo Couto.

De acordo com reportagem do GLOBO, estão sob inspeção os contratos assinados nos 12 meses anteriores à posse, em 16 de abril. Desses contratos, os 230 com valor acima de R$ 1 milhão foram enviados à Controladoria Geral do Estado (CGE). Outros 150, envolvendo somas menores, estão sob inspeção na própria Cedae. A auditoria já descobriu gastos de R$ 1 bilhão acertados sem licitação, com pregões e atas de registro de preços para compras feitos fora da empresa. Ao redor de R$ 2,2 bilhões foram aplicados no mercado financeiro, entre eles R$ 200 milhões no insolvente Banco Master. A Cedae flexibilizou as regras de investimentos antes de comprar títulos do Master em 2023.

A situação é ainda mais crítica porque, em razão de falhas flagrantes cometidas no edital de venda da área de saneamento — diversas informações sobre a cobertura dos serviços nos municípios fluminenses estavam incorretas —, a Cedae se viu forçada a reduzir em 24% o preço da água cobrado da concessionária privada Águas do Rio, por meio de um termo de conciliação. Com isso, a estimativa de prejuízo para 2027 está em R$ 387 milhões. A nova gestão determinou corte de 25% no orçamento de obras e serviços, além de redução de R$ 5 milhões anuais em gastos com funcionários comissionados e terceirizados.

Em reunião com os funcionários, Rolim garantiu que as diretorias foram despolitizadas e que doravante a gestão será técnica. “Não quero perseguir ninguém. Quem fez, fez, daqui para a frente não faz mais. Se envolvam na companhia”, disse à equipe. A nova diretoria tem razão em examinar de perto os contratos da Cedae fechados nas administrações anteriores. Mas, se a auditoria revelar irregularidades ou infrações, não pode ser leniente com os envolvidos.

A Cedae foi durante muito tempo um trunfo político a serviço do governador. As perdas na rede de abastecimento oscilavam entre 38% e 40%, ante taxas abaixo de 10% nos países avançados. Se houvesse administrações comprometidas com a busca por eficiência, isso não teria ocorrido. Os desmandos na Cedae reforçam o acerto do Marco Legal do Saneamento, criado para garantir a universalização dos serviços de água e esgoto por meio de investimentos privados e regulação robusta do Estado. A situação crítica da empresa revela um tipo de gestão que só acontece em estatais, vulneráveis a interesses políticos.

Redução da fila joga luz sobre alta do gasto do INSS

Por Folha de S. Paulo

Despesas previdenciárias levam governo Lula a cortar R$ 22,1 bi em custeio da máquina e investimento

Gastos do instituto com aposentadorias e pensões devem saltar de 8,1% para 9,1% do PIB até 2030; tal cenário demanda reformas e ajustes

Adepto da expansão contínua de gastos públicos, o governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) se viu forçado a anunciar, na semana passada, um bloqueio de R$ 22,1 bilhões no Orçamento deste ano eleitoral.

De todo modo, o motivo está relacionado à disputa presidencial: uma súbita, mas não inesperada, revisão para cima nas projeções de despesas obrigatórias com benefícios previdenciários, de R$ 11,5 bilhões, e com o Benefício de Prestação Continuada (BPC), de R$ 14,1 bilhões.

É o preço de acelerar a concessão de benefícios para reduzir a fila de pendências no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), promessa eleitoral de Lula. O que deveria ser rotina de gestão se tornou, mais uma vez, peça de campanha.

Para compensar o gasto adicional não orçado e cumprir os limites fiscais, o bloqueio anunciado recairá sobre as chamadas despesas discricionárias —custeio da máquina, investimentos e parte das emendas parlamentares.

Segundo as novas projeções oficiais para o ano, o governo terá déficit primário (sem contar pagamentos de juros) de R$ 60,3 bilhões. Com as múltiplas exceções criadas pela administração petista na apuração do saldo, o resultado será um superávit de R$ 4,1 bilhões, ainda muito abaixo da meta de R$ 34,3 bilhões.

A redução da fila do INSS foi negligenciada nos três primeiros anos de mandato. Depois de um recorde de 3,1 milhões de requerimentos em fevereiro, o número caiu para 2,3 milhões em maio. Houve uma redução de 8% em apenas 15 dias, segundo o Ministério da Previdência.

A ineficiência do INSS é crônica. Em outubro de 2025, quase metade dos 18,8 mil servidores (46%) ainda trabalhava em regime remoto integral ou parcial. Agências operavam com 70% dos postos fechados ao público.

A infraestrutura física também está sucateada por falta de verbas, o que talvez impeça, de acordo com o próprio instituto, o necessário retorno de maior contingente ao trabalho presencial. Casos urgentes não são priorizados por falta de tecnologia e gestão, gerando sofrimento e judicialização desnecessária.

É inevitável constatar que, em quatro anos de mandato, o governo Lula não investiu seriamente em modernização e cruzamento de dados para distinguir fraudes de demandas reais. Os improvisos eleitoreiros revelam agora a extensão do descaso.

Expõem com mais clareza, ainda, a trajetória alarmante de expansão de gastos com aposentadorias e BPC que, impulsionados pela demografia, vão retirando espaço orçamentário de serviços e investimentos públicos.

Nos cálculos da Instituição Fiscal Independente (IFI, ligada ao Senado), só os gastos previdenciários do INSS devem saltar do equivalente a 8,1% do Produto Interno Bruto (PIB), no ano passado, para 9,1% até 2030. Tal cenário demanda reformas e ajustes cujo debate está sendo adiado, como de costume, para depois das eleições.

A expansão preocupante das escolas cívico-militares

Por Folha de S. Paulo

Em julgamento no STF, relator decide pela constitucionalidade do modelo, mas impõe regras necessárias

Avanço desde 2019 reflete gestão ideológica, em vez de técnica, da educação; não há evidência de que a mera rigidez da caserna eleve notas

É preocupante que avance no Brasil um modelo educacional de viés ideológico que não contribui para a melhoria geral da aprendizagem.

Segundo pesquisa realizada pela USP, o número de escolas cívico-militares aumentou 495% entre 2019 e 2026, passando de 265 a 1.578. Embora representem apenas 1,5% das mais de 102 mil escolas do país, as unidades de ensino militarizadas estão presentes em praticamente todos os estados —a única exceção é Sergipe.

Bandeira bolsonarista, o modelo se espraia tanto à direita —com 375 unidades no Paraná, pioneiro na implantação do programa, e 111 em São Paulo— quanto à esquerda —com 138 escolas no Maranhão e 131 na Bahia.

Hoje, 6,2% dos alunos de ensino fundamental e 4,1% do ensino médio estão sob esse modelo.
No Paraná, a lista de espera para vagas em unidades cívico-militares neste ano já conta com mais de 20 mil alunos. A demanda revela a preocupação legítima dos pais com segurança e disciplina.

Mas, no âmbito da aprendizagem, pesquisas indicam que escolas que seguem o modelo tendem a apresentar melhores indicadores porque selecionam o alunado e recebem mais verbas. Não há evidências de que a mera rigidez da caserna eleve notas.

O debate está judicializado. Em 2024, o PSOL ajuizou no Supremo Tribunal Federal (STF) uma ação contra a lei paulista, sancionada por Tarcísio de Freitas (Republicanos) no mesmo ano, que instituiu o programa no estado.

O julgamento pela corte teve início na sexta (22). O relator do caso, ministro Gilmar Mendes, decidiu pela constitucionalidade do modelo escolar, mas impôs regras, como proibir a exaltação de símbolos e hinos militares e das forças de segurança.

Ademais, também definiu que normas escolares sobre vestimenta e outros elementos estéticos dos estudantes devem respeitar a diversidade religiosa e cultural brasileira —em fevereiro deste ano, a Justiça paulista já havia exigido que o governo Tarcísio suspendesse regras referentes a aparência, corte de cabelo e uniformes; no Paraná, também houve decisão nesse sentido.

Tal disputa jurídica não ocorreria se os governos buscassem melhorar a educação não com ideologia retrógrada capaz de minar direitos do alunado, mas com uma gestão técnica que direcione recursos de forma racional para capacitar professores e fortalecer modelos que de fato dão resultados —como o de tempo integral aliado ao ensino técnico.

Em regimes republicanos e democráticos, escola não é lugar para as Forças Armadas.

A inteligência artificial e a humanidade

Por O Estado de S. Paulo

Encíclica de Leão XIV aborda IA não como ameaça apocalíptica, mas teste moral. O maior risco não é de máquinas que pensem como humanos, mas que humanos pensem como máquinas

A humanidade voltou a construir torres para conquistar o paraíso. Não de pedra, mas de dados, chips, modelos matemáticos e plataformas capazes de escrever textos, reconhecer rostos, prever comportamentos, moldar a atenção e influenciar decisões em escala planetária. Em sua primeira encíclica, Magnifica humanitas, Leão XIV adverte que a questão crucial da era da inteligência artificial (IA) não está na potência dessas ferramentas, mas no tipo de civilização que se organiza ao redor delas. Estamos diante da alternativa entre “construir uma nova Torre de Babel” ou erguer uma comunidade em que técnica e dignidade permaneçam reconciliadas.

Não há tecnofobia nem entusiasmo ingênuo. Tecnologias não devem ser nem demonizadas nem idolatradas. O papa reconhece que a IA pode ampliar capacidades humanas, reduzir sofrimento, acelerar descobertas científicas, melhorar vidas. Mas adverte que a tecnologia não é neutra: “Toda escolha de design reflete uma visão de humanidade”. Sistemas automatizados embutem prioridades, incentivos, critérios de eficiência e concepções implícitas sobre o que merece atenção, recompensa ou exclusão.

Esse ponto instala a discussão num terreno mais fecundo do que as fantasias sobre robôs conscientes ou máquinas rebeldes. A questão é antropológica. Uma civilização orientada pela lógica algorítmica tende a reinterpretar a experiência humana segundo categorias de cálculo, previsão e otimização. “Para um algoritmo, um erro é uma falha a ser corrigida; para uma pessoa, porém, o erro pode ser catalisador de uma transformação profunda.”

Algoritmos corrigem desvios para maximizar resultados. Pessoas amadurecem por meio de limites, arrependimento, experiência e responsabilidade. A inteligência artificial pode simular linguagem, raciocínio e criatividade. Não possui consciência moral, vulnerabilidade ou capacidade de sacrifício. Não há amor artificial. “Nenhum sistema computacional pode criar um coração capaz de se entregar.” A observação pode soar teológica, mas toca um nervo crucial numa cultura fascinada por transformar seres humanos em projetos permanentemente aperfeiçoáveis.

Dados, infraestrutura computacional, plataformas digitais e modelos de IA estão sob controle de um número reduzido de governos e corporações. Quem controla esses sistemas influencia consumo, reputação, trabalho e imaginação coletiva. A encíclica descreve esse ecossistema como uma infraestrutura invisível, aparentemente neutra, mas carregada de escolhas morais e políticas.

A Rerum novarum (1891), de Leão XIII, surgiu quando a máquina ameaçava reduzir trabalhadores a engrenagens descartáveis. A Revolução Industrial reorganizou o trabalho. A revolução digital reorganiza percepção, julgamento, linguagem e relações sociais. O risco não se limita à exploração econômica, mas alcança a própria ideia de ser humano.

Plataformas digitais moldam a percepção coletiva da realidade. “A verdade é um bem comum”, insiste o papa, num momento em que sistemas generativos diluem a fronteira entre autêntico e sintético. No mercado de trabalho, ganhos extraordinários de produtividade convivem com formas silenciosas de precarização e fragmentação social. Na guerra, a automação promete decisões mais rápidas e precisas enquanto aliena a responsabilidade moral e reduz seres humanos a padrões estatísticos.

Nada disso leva o pontífice a defender freios obscurantistas ao desenvolvimento tecnológico. A encíclica aponta noutra direção: prudência institucional, transparência, responsabilidade e controle democrático sobre sistemas capazes de alterar radicalmente a vida social.

Babel, afinal, nunca simbolizou excesso de conhecimento, mas excesso de soberba. O risco maior da inteligência artificial está menos em máquinas que se pareçam conosco, e mais numa sociedade que enxergue a si mesma segundo a lógica das máquinas. Leão lembra que “um rosto humano que pede para ser contemplado permanece no centro da nossa história”. A advertência cristológica, lida em registro antropológico, é uma síntese provocadora para um tempo fascinado por sistemas capazes de processar volumes infinitos de informação e cada vez mais esquecido de contemplar aquilo que continua irredutivelmente humano.

Havana no fio da navalha

Por O Estado de S. Paulo

O cerco ostensivo mostra que Washington busca mais do que concessões pontuais, mas ainda não está claro se quer negociar uma transição ou estrangular um regime decrépito

O indiciamento de Raúl Castro por um tribunal federal americano, três décadas após o abate de aviões civis americanos, dificilmente alterará o seu destino judicial. Aos 94 anos, protegido por um regime fechado e cercado pelo aparato de segurança que ajudou a construir, é improvável que o antigo ditador cubano acabe numa corte em Miami. Ainda assim, a decisão não pode ser reduzida a um gesto simbólico ou uma reparação tardia. Ela sugere que Washington passou a enxergar Cuba menos como um impasse histórico a ser administrado e mais como um regime vulnerável, pressionável e talvez transformável.

Essa mudança coincide com a crise mais aguda vivida pela ilha desde o colapso soviético. Hospitais operam sob escassez permanente. O transporte é errático. A dependência do petróleo venezuelano, durante anos um dos pilares silenciosos da sobrevivência cubana, tornou-se um passivo insustentável após a queda de Nicolás Maduro e o bloqueio promovido pela Casa Branca. O país importa cerca de 80% de seus alimentos e enfrenta dificuldade até para manter seu sistema elétrico – apagões de 20 horas são rotina.

A fábula da revolução igualitária foi há muito soterrada sob um sistema opaco, concentrado e predatório. O centro de gravidade da economia já não está no Partido Comunista propriamente dito, mas na Gaesa, conglomerado controlado pelas Forças Armadas que domina hotéis, portos, remessas, varejo, construção civil e parte expressiva das divisas da ilha. Enquanto a população convive com racionamentos e deterioração acelerada dos serviços públicos, uma oligarquia político-militar preserva acesso a dólares, importações e zonas protegidas da economia. Socialismo para o povo, capitalismo de compadrio para a nomenklatura.

A estratégia americana parece desenhada para atingir esse núcleo. As sanções recentes miram empresas ligadas à Gaesa. O bloqueio energético busca aprofundar o desgaste interno. A ajuda humanitária oferecida por Washington vem condicionada à distribuição pela Igreja Católica ou organizações independentes, contornando o Estado. Ao mesmo tempo, o secretário de Estado americano, Marco Rubio, filho de cubanos, dirige mensagens à população, descrevendo o Politburo como uma oligarquia que sequestrou os recursos nacionais. O tom é agressivo, mas coerente. Há uma tentativa de separar regime e sociedade.

A tática integra uma doutrina geopolítica. O governo Trump voltou a tratar o Caribe como área de interesse estratégico. A presença chinesa e russa aparece com frequência crescente nos discursos de Washington, assim como a preocupação com fluxos migratórios e instabilidade regional. O indiciamento de Castro se encaixa nesse ambiente de pressão hemisférica.

A comparação entre a Cuba castrista e a Venezuela chavista é incontornável, mas encontra limites importantes. O regime de Maduro convivia com facções rivais e estruturas paralelas de poder. Cuba preserva uma cadeia de comando mais compacta, um sistema de vigilância social muito mais antigo e uma dissidência esmigalhada por décadas de exílio, repressão e exaustão social. Não há resquícios de instituições democráticas, nem sequer um sucessor evidente, como Delcy Rodríguez em Caracas, capaz de conduzir uma abertura negociada.

Pressionar regimes autoritários costuma ser mais simples do que administrar sua ruína. A economia cubana se mostra cada vez menos sustentável. A legitimidade revolucionária se desintegrou há muito tempo. Mesmo assim, colapsos políticos raramente obedecem ao roteiro imaginado por quem os acelera. Eles podem produzir endurecimento repressivo, convulsões intestinas ou ondas migratórias difíceis de conter.

Durante décadas, Cuba permaneceu suspensa numa espécie de congelamento histórico: pobre, isolada, autoritária e surpreendentemente estável. Essa estabilidade foi devorada por dentro. A “Revolução” é só uma fachada em ruínas para um extrativismo voraz e autodestrutivo. Washington percebeu a fragilidade e decidiu testá-la. A longa disputa com o regime comunista parece se encaminhar para uma rodada final. Se Trump joga por uma transição negociada ou uma ruptura violenta, ninguém sabe – talvez nem ele mesmo.

Prêmio aos golpistas

Por O Estado de S. Paulo

Intocável pela Receita, Trump anuncia fundo que pode beneficiar vândalos do Capitólio

O governo dos EUA anunciou a criação de um fundo de US$ 1,776 bilhão para compensar supostas vítimas de “perseguição judicial” durante a gestão anterior, do democrata Joe Biden. Como tudo na administração de Donald Trump, o valor do fundo tem função simbólica: trata-se de uma alusão ao ano da Independência dos EUA, que completa 250 anos agora em julho.

Abastecido com recursos do Tesouro, o fundo pode resultar na transferência de recursos do contribuinte americano para aliados e apoiadores de Trump. Vândalos que depredaram o Capitólio no fatídico 6 de Janeiro estão entre os potenciais beneficiados pelo chamado Anti-Weaponization Fund.

Paralelamente, o Departamento de Justiça anunciou, de forma discreta (ou envergonhada), um acordo segundo o qual a Receita Federal dos EUA (IRS, na sigla em inglês) fica impedida “para sempre” de prosseguir com ações fiscais contra o presidente, sua família ou suas empresas. Trump pleiteava uma indenização de US$ 10 bilhões do IRS por suposto vazamento de informações.

É bastante provável que as duas medidas prejudiquem ainda mais a popularidade do republicano, que já se encontra no nível mais baixo de seus dois mandatos – apenas 37% dos americanos aprovam a gestão do republicano, segundo pesquisa do The New York Times/Siena.

A popularidade baixa limita as chances dos republicanos de manterem o controle da Câmara e do Senado nas eleições de meio de mandato, agendadas para novembro.

Não que Trump pareça se importar com isso. Ele acaba de dinamitar mais uma candidatura de um republicano que ousou discordar dele. Contrário às ações militares dos EUA na Venezuela e no Irã, o deputado pelo Kentucky Thomas Massie perdeu para o colega de partido Ed Gallrein a primária republicana para disputar a eleição de novembro. Gallrein recebeu endosso e apoio publicitário milionário de Trump, enquanto Massie, que também desagradou ao presidente por pressionar pela divulgação de arquivos relacionados a Jeffrey Epstein, foi taxado de “desleal”, “canalha” e “idiota”.

Não é de hoje que Trump humilha o próprio partido. Para o presidente, só é republicano digno do nome quem o apoia incondicionalmente. Trump esmaga qualquer um que ouse questioná-lo, mesmo que totalmente embasado na Constituição ou na racionalidade.

Quem se alinha incondicionalmente ao presidente também alinha-se a uma gestão que desagrada ao eleitor americano por ações como a guerra no Irã, que tem pesado cada vez mais no bolso do cidadão médio. Já quem contesta o presidente perde chance até de concorrer nas eleições parlamentares.

Desmoralizada pelas ações erráticas de Trump, a quem os republicanos definitivamente não conseguem controlar, a direita americana no momento parece contar com um único trunfo: a miséria do lado democrata, que até agora limitou-se a se apresentar como a antítese de Trump, sem propor aos eleitores uma visão que vá além desse embate. O resultado, por ora, é a apatia.

Inadimplência e crédito não-bancário preocupam BC

Por Valor Econômico

O avanço rápido do crédito não-bancário pode vir a representar um risco financeiro

A liquidação do conglomerado Master trouxe pouca preocupação para as instituições financeiras, que voltaram sua atenção para o aumento generalizado da inadimplência. Apesar de o império de Daniel Vorcaro ter custado R$ 40,4 bilhões ao Fundo Garantidor de Créditos (FGC), que ressarce investidores até R$ 250 mil, ele não trouxe risco sistêmico. A inadimplência é a maior ameaça presente ao sistema, sobre a qual os bancos têm se desincumbido bem, sem perda de rentabilidade e com provisões suficientes. Mas, segundo o Relatório de Estabilidade Financeira do Banco Central, “a capacidade de pagamento das empresas e das famílias segue desafiadora”.

O relatório cobre todo o ano de 2025 com uma pesquisa junto a bancos feita em fevereiro, e indica alguns padrões previsíveis de comportamento. O mais importante deles é que as instituições financeiras apertarão as condições de crédito tanto para famílias quanto para empresas, em especial as grandes. A performance dos dois segmentos, porém, é diferente. Já havia uma mudança no uso do crédito ao consumidor, das modalidades mais caras para as de menor custo, em especial os contraídos em cartões de crédito e no crédito não consignado, que tinha crescido velozmente.

É na categoria do não-consignado em que há maior concentração de ativos problemáticos, com pagamentos em atraso, com 13% do total sob observação, acima já dos empréstimos com cartão de crédito (11%). Pelos cálculos do BC, a probabilidade maior de default (calote) recai sobre 10% dos empréstimos da modalidade.

O crédito para empresas diminuiu para todos os portes. Para o BC, “o aperto monetário não afetou de forma relevante a capacidade de pagamento das empresas da maioria dos setores”. Mesmo com condições financeiras mais restritivas, a capacidade de pagamento (dívida/ebitda) e o Índice de Cobertura de Juros (receitas para pagar dívida financeira) foram mantidas em “níveis adequados”, segundo o relatório.

Não se trata, no entanto, de uma situação confortável. O risco de calote do estoque de débitos das microempresas é de 24%, o das empresas pequenas, de 19%, o das médias, de 13%, e o das grandes, de 3,9%. A concessão de crédito a pequenas empresas fugiu ao padrão e cresceu muito porque elas tiveram acesso a programas de incentivos ao crédito, como o Programa Emergencial de Acesso ao Crédito, que passou a servir de canal para financiamento de empresas atingidas então pelo tarifaço de Donald Trump e, agora, também a companhias com exportações afetadas pelo conflito no Irã.

Um elemento de atenção presente no relatório é o crescimento do mercado de capitais na oferta de crédito, que se expandiu muitas vezes mais que o próprio crédito bancário. Aumentou a emissão de debêntures, notas comerciais, cédulas de produto rural e outros, dinheiro que desagua em fundos de investimentos, que por sua vez investem em cotas de outros fundos, em um cipoal de relações cuja transparência nem sempre é grande e que geralmente estão a cargo da Comissão de Valores Mobiliários (CVM).

Sem relacionar o diagnóstico ao que ocorreu ao Banco Master, o relatório expõe claramente as brechas pelas quais dinheiro sujo se infiltrou no sistema financeiro e como é difícil o que parece simples: identificar os donos do dinheiro. “Ativos ambientais, créditos litigiosos, precatórios e recebíveis de crédito com falhas no processo de originação, investimentos no exterior, em empresas de capital fechado e em projetos imobiliários, dentre outros, podem estar presentes na carteira de fundos, especialmente os estruturados”, aponta o BC. “A baixa liquidez e a limitação de informações completas e confiáveis sobre a real qualidade, exposição e recuperabilidade desses ativos adicionam incerteza a sua avaliação. A complexidade intensifica-se quando outros veículos - como fundos de cotas ou multimercados - adquirem cotas desses fundos, criando camadas adicionais de opacidade e dificultando a avaliação agregada de riscos”.

Não é pouco dinheiro a rastrear: R$ 2 trilhões em dezembro de 2025. No caso de fundos que investem em cotas de outros fundos, eles representavam 29% do total e apenas 1% dos ativos do sistema financeiro global, mas 14% do dinheiro aplicado no mundo todo nesse tipo de veículo.

A regulação precisa ser aperfeiçoada e caminhos a futuros casos Vorcaro, barrados. Cotas de fundos offshore, investimentos alavancados e risco de crédito de contrapartes não são identificadas. Mesmo que as regras exijam informações da base de cotistas, diz o relatório, o beneficiário final das cotas associadas a cerca de 10% do patrimônio líquido não é identificado, pois se trata de cotas detidas por investidores não residentes ou por sociedades cujo conhecimento dos proprietários é de caráter sigiloso.

O avanço rápido do crédito não-bancário pode vir a representar um risco financeiro. Mas o que o caso Master mostrou é que há nele brechas legais pelas quais se insinuam contraventores de toda ordem. Esse é mais um motivo para que o BC redobre vigilância e laços com a CVM e que esta seja enfim sustentada com recursos compatíveis com o tamanho gigantesco de suas tarefas.

Atenção aos professores precisa começar na formação

Por Correio Braziliense

Tão importante quanto manter os professores nas salas de aula é fazer com que quem chegue a elas esteja, de fato, preparado para tamanha responsabilidade

Os resultados do Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (Enade) das Licenciaturas, divulgados pelo Ministério da Educação (MEC) no último dia 20, são prova inconteste de que os avanços na educação brasileira exigem uma atenção ao corpo docente que não se limita às condições de trabalho. É consenso que a carreira de professor precisa ser atrativa, mas há de se reforçar mecanismos que melhorem a qualidade da formação de quem se envereda por ela.

O Enade avalia as graduações com base no desempenho dos alunos concluintes. A versão mais recente das licenciaturas considerou 4.948 cursos — responsáveis pela formação de pouco mais de 293 mil profissionais para atuar na linha de frente da educação brasileira. Dessas, 35% foram reprovadas — não conseguiram ter mais de 60% dos estudantes com a proficiência considerada básica.  

Um olhar mais apurado nos números deixa a situação ainda mais preocupante. Considerando apenas as licenciaturas na modalidade de educação a distância (EAD), mais da metade, 52%, é enquadrada na lista de desempenho insuficiente. No caso dos cursos presenciais, o número cai para 29%. E a formação que se dá nos chamados ambientes virtuais de aprendizagem impera entre os avaliados: 194.433  — quase sete em cada 10 — concluíram a graduação nesse formato.

A possibilidade de ampliar o acesso ao ensino superior é apontada como um dos principais benefícios do avanço da EAD no país. Educação que restringe é, de fato, um contrassenso. Mas não se pode cair na armadilha do mais por menos, do diploma de graduação a qualquer custo.

Um dos riscos é de que esses licenciados sequer consigam entrar em sala de aula — balizados, por exemplo, nos processos seletivos. Outro é de que sigam carreira, despertando preocupação quanto à qualidade dos serviços prestados, como se deu recentemente diante do alto índice de reprovados nos cursos de medicina. 

Na ocasião, também foram levantadas questões acerca da defasagem nas graduações, dos riscos do crescimento desenfreado de cursos e do destino dos milhares de alunos com baixo desempenho no exame, considerando o alto investimento na formação médica e a segurança dos pacientes. As inquietações servem também para os futuros professores. 

Cursos com as notas 1 e 2 no Enade podem sofrer ações de regulação por parte do MEC — entre elas, a suspensão de novas vagas ou matrículas. No caso das licenciaturas, existe um processo de reformulação em curso há um ano, incluindo a extinção de todas as formações EAD até maio de 2027 e a migração dos cursos dessa modalidade para a semipresencialidade ou presencialidade. Ainda assim, o boletim da semana passada evidencia um contingente de recém-formados com o diploma para docência e a necessidade de aprimorar o currículo. 

Virar as costas para esses milhares de iniciantes é uma decisão delicada, sobretudo em um momento de baixo interesse pela profissão. A porta de entrada desses professores é a educação básica, onde se dá o desenvolvimento integral de crianças e adolescentes e se pode iniciar a ruptura dos ciclos de desigualdade. Tão importante quanto mantê-los nas salas de aula, é fazer com que quem chegue a elas esteja, de fato, preparado para tamanha responsabilidade

Por mais 24 horas sem homicídios no Ceará

Por O Povo (CE)

Durante as 24 horas que transcorreram ao longo do último dia 22, sexta-feira passada, não houve registro de um só homicídio em todo o Ceará. Situação raríssima e que precisa de uma profunda reflexão de todos nós para entender como tornou-se possível e as condições, se existentes, para essa realidade ideal entrar numa certa rotina. Claro que, à primeira vista e sendo consciente, diante de um cenário ainda muito crítico e preocupante que prevalece, não parece ser o mais normal de se esperar.

O que está demonstrado, porém, é que podemos ter como possível um quadro com predominância de menos violência e de menos mortes. Cabe ao governo da vez, muito justificadamente pressionado pelo tema da segurança pública, absorver o episódio com a força do exemplo que apresenta para mergulhar com profundidade nas análises e buscar entender as circunstâncias que permitiram o resultado extraordinário e, como política de Estado, consolidar as ações que podem ter sido responsáveis por ele.

Espere-se deste governo, e a cobrança deve ser firme nesse sentido, que não se limite a transformar o resultado em produto de marketing e propaganda, útil para uma campanha eleitoral que se avizinha. Sua preocupação principal, é preciso insistir, deve ser com a melhor interpretação dos dados disponíveis e o entendimento do que precisa ser feito, reproduzindo as boas causas que levaram àquele resultado, para que mortes sigam sendo evitadas e vidas continuem sendo protegidas. Tudo com o sentido de conter as estatísticas macabras que o Ceará tem, de maneira insistente, produzido nos últimos anos.

É inevitável que o tema da segurança pública seja explorado na campanha eleitoral que se aproxima, em especial pelas forças de oposição. Interessa à própria população que os erros e problemas da atualidade sejam colocados sob análise e submetidos a uma visão crítica, considerando um grupo que dita a política no Estado desde 1º de janeiro de 2027, pelo menos. Da mesma forma que o ambiente eleitoral permitirá àqueles que nos governam apresentar suas razões para o que fizeram ou deixaram de fazer e que determinam a realidade dramática que temos hoje, nem sempre derivadas apenas de uma ineficiência específica na área.

Há razões, por exemplo, determinadas por aspectos econômicos, em que a pobreza não recua, ou por uma realidade marcada por profundas desigualdades sociais, fatores que geram violência e alimentam as estatísticas. No momento, a despeito dos interesses e estratégias eleitorais, o importante é olharmos para o que aconteceu na última sexta, e que já fora observada em 31 de março neste ano de 2026, demonstrando ser possível reverter um quadro que nos deve preocupar e envergonhar numa mesma dimensão. 

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