sexta-feira, 10 de abril de 2026

Lambança de Trump no Irã é apoio a plano de Grande Israel, por Marcos Augusto Gonçalves

Folha de S. Paulo

Líder americano achou que o explosivo tabuleiro de xadrez da guerra contra o Irã seria um jogo de damas

Com Netanyahu, alguém ainda acredita nas fantasias de dois Estados e devolução de territórios ocupados?

Estados Unidos e Israel, nas figuras abomináveis de Donald Trump e Binyamin Netanyahu, estão transformando o mundo num lugar ainda mais perigoso para se viver. Sim, isso é possível. Os dois têm muitas coisas em comum, nenhuma delas animadoras: são autoritários, expansionistas, imperialistas, racistas (por que não dizer?) e não medem consequências em busca de seus objetivos.

Enquadram-se perfeitamente na categoria de lideranças fascistas contemporâneas. "Ah, mas isso não é igual ao que aconteceu nos anos 30"... Bem, não estamos nos anos 30 do século passado. Falamos do conceito do século 21. É duro e triste dizer que um político que comanda Israel veste bem esse perfil fascista, mas lamentavelmente é o caso.

Trump entrou no segundo conflito com o Irã atraído pelo colega israelense. Ao que parece partiu para um explosivo tabuleiro de xadrez achando que seria apenas um jogo de damas. Quebrou a cara.

É óbvio que os EUA têm poderio militar –como aventou o próprio autocrata da Casa Branca– para destruir o Irã e a civilização persa. Mas as coisas não são assim. Não bastam ameaças por mais criminosas que possam ser. Americanos já foram derrotados em guerras envolvendo adversários menos poderosos, caso do Vietnã e do Afeganistão. Os iranianos defendem-se com as armas que têm, e entre elas não consta nenhum artefato nuclear. Drones baratos, mísseis, caos regional e fechar Hormuz são o arsenal utilizado.

A guerra é, repita-se, bem mais de interesse de Netanyahu do que dos EUA. Não há nenhuma ameaça do Irã aos americanos. Para Israel, trata-se de uma força regional que atrapalha o projeto, que parece ser o grande plano de seu governo, de expandir fronteiras e incorporar territórios.

O que está em cena, ao que tudo indica, é mais uma escalada de Netanyahu em busca da nação expandida, o Grande Israel. Ou alguém acredita ainda numa agenda de dois Estados, devolução de territórios e outras fantasias já soterradas? É bem mais factível a busca por novas anexações, Líbano, Síria e por aí vai.

Um Irã forte é uma grande barreira a esse intuito, daí a necessidade de enfraquecê-lo, mesmo que lançando mão de mentiras e agressões injustificadas.

Sim, não se deve esquecer o atentado terrorista do Hamas, que tem suporte iraniano, de 7 de outubro de 23. É difícil contudo usar essa data como marco zero, apesar dos esforços de alguns. O conflito, todos sabemos, vem de longuíssima data. E as chances de que possa chegar a bom termo são nulas.

A reação absolutamente desproporcional nesta etapa recente nos oferece uma série repulsiva de crimes de guerra cometidos por Netanyahu e com apoio da extrema direita de seu país, em mal disfarçados delírios teocráticos e genocidas.

Também é possível falar em crimes de guerra de Trump, comandante de forças que, por exemplo, bombardearam uma escola no Irã, resultando em horrível matança de crianças.

A aventura de EUA e Israel no Irã é de uma irresponsabilidade a toda prova. Uma ameaça ao mundo, desde o aspecto econômico ao humanitário, sem mencionar o caos geopolítico e a perda de capacidade de negociação global.

Talvez o que reste da democracia americana imponha um freio a Trump, sob pena de perda eleitoral no meio de mandato e um impeachment. A ver.

 

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