sexta-feira, 10 de abril de 2026

Em defesa do desalinhamento, por Pablo Ortellado

O Globo

No Brasil polarizado de hoje, precisamos nos perguntar se o aumento do alinhamento nos trouxe mesmo mais democracia

A literatura política frequentemente associa o alinhamento ideológico — a organização das preferências políticas de modo coerente com os valores de um campo — ao aprimoramento da democracia. Mas, no Brasil polarizado de hoje, precisamos nos perguntar se o aumento do alinhamento nos trouxe mesmo mais democracia — ou se o país não precisa, ao contrário, reaprender o valor do desalinhamento.

O alinhamento programático e ideológico tem sido tradicionalmente valorizado pela literatura da ciência política. Em primeiro lugar, ele organiza e simplifica debates amplos, cujos componentes variados e complexos passam a ser compreendidos à luz de princípios coerentes e estáveis, facilitando sua inteligibilidade. Numa democracia de massas, isso é especialmente importante porque partidos políticos e ideologias funcionam como atalhos cognitivos para os eleitores. O alinhamento também favorece a organização política da sociedade, articulando diferentes conflitos e divisões, viabilizando alianças coerentes e a oferta de soluções coordenadas.

O alinhamento permite ao cidadão intuir que o feminismo e a defesa dos direitos dos trabalhadores fazem parte do mesmo pacote, de esquerda, que defende igualdade e direitos sociais, assim como permite intuir que lei e ordem e defesa da família fazem parte do pacote conservador. A coerência programática organiza o espectro ideológico, traz ordem ao sistema partidário e torna previsível a construção de alianças.

Durante anos, a sociedade brasileira careceu de alinhamento. Era uma sociedade essencialmente amorfa e despolitizada. Depois dos protestos de junho de 2013 — e especialmente após as eleições de 2018 —, o Brasil passou da carência ao excesso. Vivemos hoje numa sociedade hiperpolitizada, com identidades hipertrofiadas e divisões ideológicas crescentes.

O custo desse ganho de coerência tem sido a intolerância política e o risco cada vez maior de não conseguirmos conviver em respeito democrático. A saída para isso pode ser o desalinhamento, o exercício crítico da moderação e da independência política.

O desalinhamento não precisa ser a retomada da despolitização informe, da incoerência e da confusão conceitual que tivemos no passado. Os blocos ideológicos não são necessariamente unidos pela coerência de valores e princípios, como sugere a teoria. O alinhamento entre liberalismo econômico e conservadorismo moral não é fruto de lógica interna, mas de uma aliança tática que tem sido costurada politicamente. Da mesma maneira, em alguns países o nacionalismo caminha junto à proteção social; noutros, se alinha com a austeridade.

Às vezes, cada lado do espectro político revela um pedaço do nosso problema social. O progressismo tem ressaltado as profundas iniquidades que recaem sobre as mulheres. O conservadorismo, a centralidade da família para a vida social. Não deveria ser preciso escolher entre uma ênfase e outra.

O alinhamento nos torna reféns das respostas políticas dominantes no campo a que nos filiamos. Não é porque reconhecemos a gravidade do racismo que precisamos necessariamente aceitar as cotas raciais como melhor solução de política pública.

O desalinhamento permite o convívio e a escuta — e o convívio modera. Ao conviver com gente dos dois campos políticos, passamos a entender suas perspectivas e moderamos as posições. As feministas mostram que o aborto muitas vezes responde a uma necessidade imperiosa: a sobrevivência psíquica da mãe. Os conservadores mostram que o aborto traz um problema ético inescapável. É possível entender as duas coisas, e essa compreensão simultânea modera a posição.

Pensar com independência, reconhecer razões em lados opostos e recusar a ortodoxia dos campos políticos não é debilidade. Não precisamos escolher entre a apatia e a polarização. Deve haver um ponto ótimo em que nos engajamos e nos responsabilizamos pela vida pública, mas sem comprar pacotes prontos que geram fechamento cognitivo, intolerância política e incapacidade de compromisso democrático. O desalinhamento estratégico pode ser o caminho para esse engajamento crítico.

 

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