Para quem tem menos de 50 anos esclareço: lá nas Minas Gerais onde nasci, um “bom partido” era aquele jovem, filho de fazendeiro ou dono de algum comércio na praça central da cidadezinha. Eles eram alvo do olhar de muitos pais que visavam dar ao escolhido a mão de suas filhas em casamento.
Na Política a
coisa é diferente (ou seria…). Sem buscar dicionários, acho que numa democracia
o partido é uma entidade legal que reúne um grupo de pessoas. É uma associação
voluntária, fundamentada em certos princípios ideológicos, anseios e metas, e
que elege pelo voto um cidadão. E este, ou esta, é quem os vai representar nos
diversos níveis da escala de governo. Neste contexto é que cada indivíduo se
expressa: através do político que elege.
Me lembro agora
também da Rita Lee, figura visceralmente democrática. Em uma entrevista ela
disse não gostar muito da palavra partido. Essa palavra trazia para ela um
sentido de corte, de separação, de partir, coisas assim.
Hoje, a leitura
dessa matéria do Meio me leva de volta a uma das minhas idas ao Brasil. Era
1998 e eu já havia vivenciando, por mais de uma década, o sistema
parlamentarista da Austrália, onde vivo. Ao sentir a reeleição de FHC como
certa, o país viu o que acontece hoje de novo: uma dessas revoadas de
deputados. Naqueles dias escrevi uma matéria para O Rionovense (de Rio Novo,
MG), onde perguntava: “Estariam eles [os deputados] pensando na ‘comunidade’ ou
apenas garantindo o seu galho firme onde pousar? Fizeram isso sem dar a mínima
explicação aos eleitores que os colocaram nos seus cargos”, eu questionava.
Fiquei intrigado
naquela época porque nunca vira esse tipo de “revoada” acontecer no
parlamentarismo. Visitando hoje o site do Museum of Australian Democracy vejo
uma lista de 7 políticos que aqui trocaram de partido. Dos mais antigos (em 1916-17)
passamos por 1931 dando um salto para 1996-97, dali para 2014-15 vindo a coisa
terminar em 2018. Ou seja 7 pessoas fizeram a tal troca no decorrer de 105
anos.
Sim, admito que
ao longo da vida tudo pode mudar. É aceitável alguém trocar ou vir a torcer
para outro time de futebol, outra marca de cerveja — ou mesmo trocar de religião.
Mas no sistema parlamentarista se um político da oposição vier a concordar com
um projeto de lei do governo, projeto este que vai beneficiar a todos, existe
uma saída, embora muito rara, devo dizer: Crossing the floor aquele político
vota a favor do projeto do governo — em desacordo com o seu próprio partido — em
vez de fazer oposição só por pirraça, o que cabe aqui dizer.
Evidentemente os partidos revelam aspectos culturais das sociedades que representam. E a mudança de parâmetros culturais pode levar uma quase eternidade. Em anos recentes, meio incrédulo, vi daqui o congresso brasileiro lidar — às claras — com um “orçamento secreto”. Embora aquilo já tenha caído por terra, volto ao meu artigo onde se lia: “aqueles políticos, como mariposas voando de sigla em sigla, roubam do eleitor, no mínimo, o seu direito constitucional de expressão pelo voto”. E assim eu concluía meu texto de 28 anos atrás: “Sob este prisma, as sex workers são até pessoas respeitáveis se comparadas àqueles que, como moçoilas casadoiras, estão sempre prontos a fisgar um “bom partido”.

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