O Globo
Mesmo com a trégua anunciada por Trump, a
persistência do conflito indica que o desfecho no Oriente Médio continua
incerto
A economia mundial continuará atravessando um tempo de extrema incerteza, apesar da trégua anunciada por Donald Trump e da esperança trazida pelas negociações. As hostilidades continuaram ontem, o dano estrutural à infraestrutura reduz a capacidade de produção e oferta de petróleo, a operação para restabelecer a normalidade no Estreito de Ormuz será lenta. A ofensiva impôs ao Irã a morte da maioria dos seus principais líderes, mas mostrou que o país tem o controle da arma que sempre ameaçou usar contra os seus inimigos: o fechamento do Estreito de Ormuz. O Irã bloqueou a logística do petróleo e agora saiu da teoria para a prática, criando um prejuízo considerável para a economia internacional.
Mesmo que se consiga reabrir de forma
duradoura o Estreito de Ormuz, não será possível resolver todos os problemas
econômicos causados pelo choque de petróleo imposto pelo conflito dos Estados
Unidos e Israel contra o Irã. Primeiro, porque recompor o fluxo será uma
operação complexa, há muito represamento de navios na área e o temor de grandes
companhias de transporte de passar pela região antes que tudo esteja realmente
resolvido. Segundo, porque, mesmo que todos esses obstáculos sejam
ultrapassados, haverá outro entrave a superar: os danos causados pelos
bombardeios de lado a lado sobre a infraestrutura de produção, refino e
escoamento dos produtos do Oriente Médio.
De acordo com o jornal The New York Times
“dezenas de refinarias, sistemas de estocagem, campos de petróleo e gás em ao
menos nove países, do Irã aos Emirados Árabes Unidos, foram alvos de ataques”.
O jornal informa que 10% ou mais do suprimento global de petróleo foram
bloqueados. Restabelecer a normalidade da produção e escoamento pode levar
tempo. E tudo o que se sabe até agora é que a guerra foi apenas suspensa por
duas semanas. Os sinais, porém, são ainda contraditórios como mostraram as
primeiras horas do cessar-fogo, com bombardeios contra o Kuwait e o Irã.
A ofensiva militar foi até agora um desastre
para os Estados Unidos que demonstraram não serem um aliado confiável nem para
os países da Europa — isso Trump já havia dito de forma explícita em outras
ocasiões — nem para os países do Golfo. Todo o poderio americano não foi capaz
de protegê-los contra os ataques iranianos. O Irã surpreendeu por sua reação,
resistência e capacidade de afetar a economia do mundo. Todos os países,
inclusive o Brasil, estão sentindo os efeitos colaterais em suas economias.
Donald Trump internamente está colhendo o resultado de um confronto impopular,
uma quebra da promessa de campanha de que não faria novas guerras, como preço
dos combustíveis subindo na cara do consumidor. Os eleitores devem cobrar isso
nas eleições de meio de mandato.
Fica provado, mais uma vez, que o petróleo,
além de ser o grande emissor de gases de efeito estufa, tem outros problemas
insolúveis como fonte de energia. A dependência em relação ao produto do
Oriente Médio caiu muito nos últimos anos, com o aumento da produção em
inúmeros países como os próprios Estados Unidos. O Brasil virou um grande produtor
também. Mesmo assim, o atual choque do petróleo decorrente da guerra e do
fechamento de Ormuz produziu uma disparada na cotação internacional e escassez
de inúmeras matérias-primas derivadas do petróleo.
O mapa do caminho para o fim do uso dos
combustíveis fósseis, o sonho frustrado da COP30 de Belém, tornou-se ainda mais
necessário e urgente. Nunca haverá um momento em que os produtores de petróleo
do Oriente Médio serão fornecedores confiáveis. Mas o mais relevante é que as
emissões provenientes do petróleo são a principal ameaça à vida humana no
planeta. O mundo precisa ainda mais das fontes alternativas de energia para
garantir a estabilidade econômica do tempo presente e a sustentabilidade da
vida futura.
A guerra expôs também a profunda crise de valores
que o mundo vive. Quando Donald Trump fez a ameaça de extermínio do Irã — “toda
uma civilização vai morrer esta noite e não voltará jamais” — deixou de ser um
terrível conflito regional para ser algo muito mais repulsivo. A ameaça
explícita de extermínio contra um povo, uma nação, é o que nós vimos nos piores
momentos da história da humanidade. É, como disse o papa Leão XIV,
“inaceitável”.

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