domingo, 19 de abril de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Dívidas das famílias espelham gastos de Lula

Por Folha de S. Paulo

Em pesquisa Datafolha, 67% dizem ter passivos financeiros, e 28%, contas de consumo em atraso

Acesso a crédito contribuiu para o fenômeno, mas alta necessárias das taxas de juros do Banco Central para conter inflação foi determinante

Nas últimas semanas, dívidas das famílias tomaram as discussões econômicas e políticas no país.

A degradação da qualidade do crédito era um fenômeno visível desde ao menos o início de 2025 e previsível desde que as taxas de juros passaram a subir, no final de 2024. O governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT), porém, pareceu surpreso ou, ao menos, demonstrou preocupação maior com o tema apenas com a onda de declínio do prestígio do presidente.

A baixa da avaliação presidencial não vem de hoje, mas desde o início do ano passado. Além do mais, as queixas do eleitorado são diversas, como o nível elevado de preços, impostos, insegurança e corrupção, que causam desconfiança geral no sistema político.

O problema do crédito é de fato sério, mas nada inesperado. No fim de Lula 2, em 2010, o total de dinheiro emprestado a pessoas físicas equivalia a 20% do Produto Interno Bruto; no momento, a 35%. Em níveis sempre aberrantes, taxas de juros mais elevadas provocaram aumento de inadimplência e do comprometimento da renda com o pagamento de débitos. O problema pode ir além.

Segundo pesquisa Datafolha, 67% dos entrevistados dizem ter dívidas financeiras, excluídos aqueles que têm empréstimos consignados. Desses endividados, 21% dizem ter atrasado pagamentos. No caso de dívidas de consumo (assinatura de celular, internet, água, luz e outros), 28% dizem ter contas em atraso.

Os dados são compatíveis com os da pesquisa mensal da Confederação Nacional do Comércio, na qual, em março, 80,4% diziam ter dívidas em geral (não apenas financeiras), 29,6% estavam em atraso e 12,3% diziam que não teriam como pagá-las.

A pesquisa Datafolha questiona qual o principal problema na vida pessoal hoje. É financeiro, segundo a resposta mais frequente, de 37%, embora apenas 5% mencionem explicitamente dívidas. Saúde pessoal vem citada em segundo lugar, com 20%.

Entre os entrevistados, 57% usam cartão de crédito; 10% apostam pela internet, mesmo que raramente, e têm mais dificuldades financeiras do que a média.

Problemas com dívidas são atribuídos a facilidades de acesso a crédito. A afirmativa de que "as ofertas de crédito pelo celular ou pela internet facilitam muito o endividamento por impulso" tem a concordância de 84%.

"A facilidade para conseguir novos cartões de crédito hoje leva muitas pessoas como eu a se endividarem", dizem 82%. "Hoje em dia é difícil viver sem usar o cartão de crédito para fechar as contas do mês", segundo 68%.

Não há solução de curto prazo, assim como não se reverte a piora do crédito das famílias com remendos. O motivo mais imediato da degradação foi a alta de juros, resultado da má gestão das contas públicas sob Lula, não da reação necessária do Banco Central contra as pressões inflacionárias. Se o governo quisesse saber da origem do problema, bastaria se olhar no espelho.

A longa polêmica ambiental de Belo Monte

Por Folha de S. Paulo

Com licença vencida, usina não entrega hidrograma pela 2ª vez, impactando a subsistência de ribeirinhos

A Norte Energia alega que não há necessidade de revisão; sob viés desenvolvimentista, Minas e Energia tenta se sobrepor ao Ibama

A usina hidrelétrica de Belo Monte, no Pará, é um dos casos mais representativos da disputa, recorrente nas gestões petistas, entre desenvolvimentismo e ambientalismo. A pressão exercida para autorizar sua instalação foi um dos fatores que levou à saída de Marina Silva, então ministra do Meio Ambiente, do governo em 2008.

O empreendimento começou a ser construído em 2011, sob Dilma Rousseff (PT) e foi inaugurado oficialmente em 2016, mas todas as suas unidas geradoras só começaram a operar em 2019. Até hoje, porém, a disputa continua, desta vez em torno de um imbróglio regulatório que afeta populações indígenas e ribeirinhas.

Em 2021, a licença ambiental de Belo Monte venceu, o que deu início a um processo de revisão pelo Instituto Nacional do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais e Renováveis (Ibama), o órgão federal responsável pela renovação. A principal disputa se dá em torno do hidrograma de vazão —a quantidade de água que a usina desvia do rio Xingu para a geração de energia.

Em 2022, reportagem da Folha constatou os impactos descritos em um relatório do Ibama: a redução da vazão das águas do Xingu desequilibrou o ecossistema do qual comunidades obtêm seu sustento, causando mortandade de ovas de peixes e dificultando a pesca, o que agrava a pobreza e gera insegurança alimentar.

Em 2025, a Justiça Federal do Pará decidiu que a usina deveria ampliar a vazão, e o Ibama determinou que a Norte Energia, consórcio que administra Belo Monte, entregasse um novo plano de hidrograma em janeiro de 2026, o que não foi cumprido.

O instituto concedeu novo prazo, que expirou na segunda (13). Novamente, a empresa se recusou a obedecer. Ela alega que não há necessidade de revisão e que os dados de impacto ambiental estão errados. Pediu ainda à Justiça que o instituto seja impedido de exigir o hidrograma e cobra que haja diálogo com o Ministério de Minas e Energia.

A pasta, desde 2023, tenta aprovar uma resolução que classifica a usina como estratégica para a segurança energética nacional, o que permitiria sua interferência em decisões sobre Belo Monte, inclusive a respeito da proposta do hidrograma, esvaziando a atuação do Ibama.

Não se trata, por óbvio, de desconsiderar a importância energética. Mas é preciso respeitar o trâmite regulatório vigente, que determina que as decisões técnicas sobre impacto ambiental sejam tomadas pelo Ibama, ainda mais quando a subsistência de estratos já fragilizados está em risco.

Missão da imprensa é a busca pela verdade dos fatos

Por O Globo

Jornalismo profissional não teme gritos e seguirá noticiando com destemor e serenidade

Todas as vezes em que as instituições da República vivem suas crises, costumam apontar para o culpado de estimação: o jornalismo profissional. Em anos eleitorais, essa tendência se acirra. Se o Executivo depara com escândalos maiúsculos, os governantes não gostam de olhar para suas entranhas e depurá-las. Preferem sempre hostilizar a imprensa por noticiar o que vem a público. Agora, chegam a dizer que não pedem para falar bem deles, mas apenas para falar a verdade. Omitem apenas que, no entender deles, essa verdade tem sempre de coincidir com seu próprio ponto de vista.

Da mesma forma, quando há desmandos no Congresso, os discursos de governistas e oposicionistas acabam convergindo para atacar o mesmo culpado de sempre: a imprensa. Não pensam em olhar para o Orçamento da União com zelo, em aplicá-lo em áreas prioritárias, em se dedicar a políticas públicas que consertem as mazelas do país ou atendam às demandas da população em áreas críticas como segurança, saúde ou educação. Preferem se dizer injustiçados pelo jornalismo profissional.

Mesmo o Supremo Tribunal Federal (STF), que supervisiona inúmeros inquéritos criminais que lhe cabem — e outros tantos em que claramente extrapola seu papel —, quando se vê no centro de investigações sérias da imprensa, toma-as como ofensas e atitudes de lesa-pátria, como se seus ministros fossem inalcançáveis. Não são. Nossa mais alta Corte deveria, mais que ninguém, conhecer a natureza intrinsecamente humana, portanto falível, de sua própria atividade.

O jornalismo profissional é aquele que segue valores e princípios que, se bem aplicados, produzem um primeiro conhecimento de fatos e pessoas, como definem de modo preciso os Princípios Editoriais do Grupo Globo. É sua tarefa noticiar os fatos com isenção e, em muitos casos, revelá-los, tirando-os da escuridão. Como toda atividade humana, ele também não está imune a erros. Mas, quando estes acontecem, o jornalismo profissional os reconhece e faz correções públicas.

Não se pode confundir o jornalismo profissional com aqueles que se autodeclaram “jornalismo de esquerda” ou “jornalismo de direita”. Na ponta de cada um desses extremos, o que costuma haver de concreto não passa de propaganda, de defesa de um governo, de um partido ou de uma causa. A causa do jornalismo profissional é tão somente buscar a verdade.

No Grupo Globo, é o que vem sendo feito, especialmente no período democrático que o país vive desde a Constituição de 1988. De lá para cá, o jornalismo que praticamos noticiou tudo o que houve de bom e tudo o que houve de mau em todos os governos: Fernando CollorItamar FrancoFernando Henrique Cardoso, Luiz Inácio Lula da Silva, Dilma RousseffMichel TemerJair Bolsonaro e novamente Lula. Basta ir aos arquivos. Embora não aceite gritos ou ameaças, o Grupo Globo age sempre com serenidade, sem desviar um milímetro de seus princípios cardeais. O principal deles: buscar a verdade. Afinal, se aprendeu algo nesses cem anos comemorados em 2025, é que os poderosos passam, e o bom jornalismo fica.

Nova licença-paternidade é avanço, mas impacto na Previdência preocupa

Por O Globo

Lei põe Brasil no caminho de países avançados, mas não estabelece de onde sairão recursos para benefício

Foi um avanço a ampliação da licença-paternidade, aprovada pelo Congresso e sancionada sem vetos pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A mudança, que começa a valer em 1º de janeiro de 2027, aumentará gradativamente o período de afastamento, dos atuais cinco para até 20 dias a partir de 2029. A nova lei cria o salário-paternidade e amplia o número de trabalhadores com acesso ao benefício (além de contratados com carteira assinada, também terão direito autônomos, empregados domésticos e microempreendedores individuais).

Pela nova lei, a licença será de dez dias em 2027, 15 dias em 2028 e 20 dias em 2029. Durante o afastamento, o salário-paternidade será pago pela Previdência Social e equivalerá à remuneração do trabalhador. A lei prevê ainda estabilidade provisória após o período de licença. Embora o direito estivesse previsto na Constituição de 1988, por uma emenda proposta pelo então constituinte Alceni Guerra, não havia sido regulamentado por lei específica. Aplicava-se uma regra provisória fixando o mínimo de cinco dias para afastamento. Precisou o Supremo Tribunal Federal dar um prazo para que a tramitação avançasse no Congresso.

Com a nova licença-paternidade, o Brasil segue o caminho de países avançados, onde esse tipo de benefício tem formatos variados. Na Suécia, cada um dos pais tem direito a 240 dias de afastamento, mas sem remuneração integral. Na França, o período vai até 30,2 semanas, das quais 4,2 com pagamento integral e as demais com remuneração reduzida. Nos Estados Unidos não há licença-paternidade remunerada em nível federal, mas estados como Califórnia e Nova York concedem de seis a 12 semanas, com 60% a 90% do salário.

É inegável que a ampliação da licença-paternidade fortalece os laços familiares, ao permitir que pais de recém-nascidos ou adotados passem mais tempo com os filhos, dividindo cuidados e responsabilidades com as mães. Não há dúvida também de que pode contribuir para reduzir a desigualdade de gênero, uma vez que a licença-maternidade ainda é vista como empecilho para contratação de mulheres em idade fértil. Não surpreende, por tudo isso, que o novo benefício tenha recebido apoio tão entusiasmado.

A despeito dos aspectos positivos, o benefício impõe mais um custo ao já combalido INSS. É verdade que propostas descabidas prevendo licenças de até 60 dias não vingaram. Mesmo assim, o impacto nas contas públicas não será desprezível — quase R$ 4 bilhões por ano. Não se trata de um valor absurdo para o Orçamento previdenciário, mas até agora ninguém previu fonte de compensação para o novo gasto, como exige a Lei de Responsabilidade Fiscal. Executivo e Legislativo têm sido pródigos em criar programas sociais e benefícios bem-intencionados sem estipular de onde sairá o dinheiro para bancá-los. O novo benefício é bem-vindo. Mas agora é preciso arrumar o dinheiro para pagá-lo.

Sem credibilidade não se governa

Por O Estado de S. Paulo

‘O governo tem de ser crível, não incrível’, aconselhou Temer. Isto é, de nada adiantam discursos grandiloquentes se o governante não transmite confiança, base da boa política

O que acontece quando um governo deixa de ser crível? Refletindo sobre como a credibilidade impacta a economia, a relação entre os Poderes e os desafios do modelo político brasileiro, o ex-presidente Michel Temer deparou-se com essa questão numa conversa com o economista Felipe Salto, articulista do Estadão, e saiu-se com a síntese: “O governo tem de ser crível, não incrível”. A tese, simples de enunciar e complexa de executar, é mais do que um trocadilho. Trata-se de um princípio de gestão que desabona o vício nacional pelo populismo, constatado nos anos em que o Brasil mergulhou na areia movediça do lulopetismo e do bolsonarismo.

Do alto de sua experiência como ex-presidente que, em seu tempo de governo, parecia mais preocupado em governar do que com a eleição seguinte, Temer ensina o oposto do que pregam os protagonistas da polarização. O País não precisa de governos empenhados em reinventar a roda, destruir o passado ou fabricar marcas retumbantes de gestão. Precisa de algo mais simples e mais difícil do que propaganda: credibilidade. A História mostra que isso é para poucos.

A experiência brasileira recente demonstra que a perda de credibilidade tem consequências políticas concretas. Fernando Collor viu seu governo ruir não apenas pelas denúncias de corrupção, mas pela rápida erosão de confiança que inviabilizou sua sustentação. Sem credibilidade, perdeu apoio e abriu caminho para o impeachment. Décadas depois, Dilma Rousseff enfrentou destino semelhante. Tão relevantes quanto as “pedaladas fiscais” foram a condução errática da economia e a incapacidade política que isolaram o governo e pavimentaram seu impedimento.

A credibilidade é alicerce da governabilidade. Quando ela se esvai, o sistema reage. Foi o que se viu, em sentido inverso, no governo Fernando Henrique Cardoso. O PT adotou uma oposição que frequentemente testava os limites institucionais e apostava na deslegitimação do governo e na mobilização inclemente contra suas reformas. FHC preservou governabilidade, mas sob abalos constantes, em um ambiente político conflagrado. Em crise, não fez o sucessor.

Nos anos mais recentes, o bolsonarismo levou essa lógica ao paroxismo. Ao governar sob permanente confronto com outros Poderes, questionar sem provas o sistema eleitoral e estimular crises institucionais como método de governo, Jair Bolsonaro operou no limite do caos. Não por acaso, atravessou o mandato sob ameaças recorrentes de ruptura e terminou sem condições de articulação política. A ausência de credibilidade comprometeu a própria autoridade do cargo.

Se o bolsonarismo fez do conflito um método, o lulopetismo incorre em outro vício: a tentativa de ser “incrível” a qualquer custo. Segue a crença de que é possível governar com soluções grandiloquentes – seja flexibilizando regras e ampliando gastos sem a devida responsabilidade, seja tentando oferecer benesses de toda ordem, seja buscando marcas supostamente arrebatadoras, mas que, no fundo, apenas repetem experiências do passado, nem sempre bem-sucedidas. A estratégia pode até produzir ganhos políticos imediatos, mas cobra seu preço na forma de desconfiança crescente.

Em todos esses casos, o denominador comum é a inaptidão para sustentar confiança e oferecer soluções de longo prazo. Sem isso, o Executivo perde a capacidade de coordenar maiorias, o Congresso passa a agir de forma autônoma e fragmentada, e o Judiciário é empurrado para o centro das disputas. O sistema passa a operar sob tensão, incapaz de produzir estabilidade. O efeito mais profundo recai sobre a cultura democrática. Governos que trocam credibilidade por espetáculo alimentam a deslegitimação generalizada. O cidadão se afasta ou adere a soluções simplistas, abrindo espaço para novos ciclos de populismo e, por que não, autoritários.

A advertência de Temer merece atenção. Democracias sólidas avançam de forma incremental, não por rupturas. O Brasil não precisa de governos “incríveis”, mas de governos confiáveis. Afinal, sem credibilidade, governos fracassam – e o País paga a conta.

Uma vaga, muitos interesses

Por O Estado de S. Paulo

Sucessão de Barroso no STF revela como o rito está sitiado por barganhas políticas, ambições pessoais e disputas corporativas que nada têm a ver com a requalificação da Corte

O preenchimento da vaga aberta no Supremo Tribunal Federal (STF) pela aposentadoria de Luís Roberto Barroso deveria ser uma oportunidade para o País refletir, com maturidade e espírito público, sobre os limites de atuação e a qualidade da composição de sua mais alta corte de Justiça. Mas, lamentavelmente, se o debate em torno da indicação de Jorge Messias tem servido para algo, é para escancarar um jogo de interesses no qual o que menos conta é justamente o interesse público.

A indicação do advogado-geral da União pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi mais um passo em direção ao abastardamento de um relevantíssimo rito constitucional. Há tempos, presidentes da República, não apenas Lula, subordinam a escolha dos ministros ao corporativismo do próprio Supremo, às conveniências políticas do governo de turno e ao apetite pantagruélico de parte do Congresso por rentáveis cargos na administração pública federal. Com a indicação de Messias, a despeito de sua notável desqualificação para o cargo, Lula levou esse processo ao paroxismo.

Comecemos, então, pelo descompromisso do presidente com o País. Lula já verbalizou que entende o Supremo como um prolongamento da arena política, sobretudo como um contraponto às dificuldades que o Executivo enfrenta num Congresso majoritariamente oposicionista. Não foi por outra razão que o petista, ao fazer suas três indicações no atual mandato, privilegiou a lealdade pessoal e o traquejo político em detrimento do notável saber jurídico e da reputação ilibada, requisitos expressos na Constituição. Ademais, Lula instrumentalizou o preenchimento das vagas em prol da representação de seus interesses estratégicos no STF. Em suma: suas escolhas são orientadas por um projeto pessoal de poder.

Antes o problema se esgotasse aí. No Senado, instituição incumbida de sabatinar e aprovar o indicado pelo presidente, o processo tampouco é digno da confiança da sociedade. Há poucos dias, o jornal O Globo revelou o preço, digamos assim, da eventual aprovação de Messias pelos senadores: a colonização de um naco da administração pública federal pelo grupo político liderado pelo presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União-AP). No balcão dessa feira antirrepublicana estariam dezenas de cargos em agências reguladoras e órgãos estratégicos do Estado, como a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade). Mais uma vez, o Brasil vem em último lugar. Os interesses nacionais – vale dizer, a regulação eficiente das atividades econômicas, a livre concorrência e a estabilidade do mercado financeiro – tornam-se menores diante da cobiça do sr. Alcolumbre.

Como se nada disso bastasse, é igualmente perturbador o comportamento de ministros do próprio STF. Ao defender pública e enfaticamente a aprovação de Messias numa mídia social, o ministro Gilmar Mendes rompeu todos os limites que separam sua opinião particular sobre o advogado-geral da União e sua responsabilidade como autoridade do Estado brasileiro. É indigno da posição de decano do STF acossar o Senado da República de forma tão desabrida, afirmando que a Casa “saberá analisar” os “múltiplos atributos” de Messias. Que tipo de guardião da Constituição é esse? A ser tolerado esse tipo de comportamento, que então o rito constitucional seja reescrito e o processo de aprovação dos indicados passe a ser o escrutínio de seus currículos pelo gabinete de Sua Excelência o decano.

Como Lula e Davi Alcolumbre, Gilmar Mendes não é um ator desinteressado. Em meio à mais grave crise de credibilidade do STF, provocada por alguns de seus próprios ministros que se deixaram enredar por uma teia de conflitos de interesses, discute-se a adoção de um código de conduta capaz de restaurar parâmetros mínimos de decência na Corte. A resistência liderada pelo sr. Mendes é notória. Nesse sentido, sua defesa da aprovação de Messias soa menos como valorização da excelência jurídica na Corte e mais como estratégia de cooptação de um novo aliado nessa guerra intestina em curso no Supremo.

Como se vê, o centro decisório do País parece estar loteado por conveniências políticas que nem remotamente se alinham com o melhor interesse público. E assim a Constituição segue como mera referência teórica, traída até por seus maiores intérpretes.

Brincando com a CVM

Por O Estado de S. Paulo

Em meio ao caso Master, autoridades tratam a autarquia como joguete de seus interesses

Foram necessários três meses para que o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, formalizasse a indicação de Otto Lobo para a presidência da Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Popularmente conhecida como “xerife” do mercado de capitais, a autarquia é responsável pela regulação e supervisão, entre outros, de fundos de investimento.

Apesar da formalização, o Senado, que é a quem cabe aprovar ou não a indicação feita em janeiro pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ainda não definiu uma data para sabatinar Lobo.

Tanto a demora na apreciação da indicação quanto a opção por Lobo em si mesma são problemáticas, o que sinaliza o desprezo generalizado das autoridades pela CVM. Por sinal, isso não vem de hoje.

Nos últimos anos, o mercado de capitais brasileiro cresceu substancialmente, tornando-se também sensivelmente mais complexo. Basta ver a proliferação de fintechs e de plataformas de investimento, que dão mais opções aos investidores e, por óbvio, são bem-vindas, mas também exigem uma CVM com boa estrutura.

Infelizmente, no entanto, a autarquia sofre há anos com a perda de servidores, seja porque o mercado oferece salários melhores, seja por aposentadoria.

Essa já era a realidade bem antes daquilo que se converteu no maior escândalo bancário da história do Brasil, a derrocada do Banco Master. Contudo, o Master também oferece uma oportunidade, que é a de que entidades como a CVM finalmente sejam fortalecidas.

Não há, porém, nenhuma sinalização nesse sentido. O colegiado da CVM, composto por quatro diretores e pelo presidente, conta atualmente com apenas dois membros. Mesmo que o Senado sabatine e aprove Lobo e Igor Muniz, o indicado por Lula para uma das diretorias vagas, faltará ainda um outro diretor.

Para piorar, Lobo nem sequer é um nome bem-visto pelo mercado. No ano passado, quando ocupou interinamente a presidência da CVM, ele se notabilizou pelo que o Ministério Público junto ao Tribunal de Contas da União (MPTCU) classificou de “decisões polêmicas favoráveis ao Banco Master”.

Consta que a indicação de Lobo deve-se mais ao bom trânsito que ele mantém com o Centrão do que às suas credenciais para o cargo. Ele também teria sido apadrinhado por ninguém menos que Davi Alcolumbre, que, irritado com a má repercussão da indicação, demorou três meses para formalizá-la.

Também é de estranhar que Lula, que adora propagandear que o escândalo do Master não tem nada a ver com seu governo, tenha optado justamente por Lobo para a CVM. A escolha, ao que parece, faz parte de um acordo para que o Senado aprove o advogado-geral da União, Jorge Messias, para o Supremo Tribunal Federal.

Além de indicações pouco republicanas para a CVM, Lula até agora não indicou ninguém para duas diretorias vagas no Banco Central, outro ator fundamental para a saúde do sistema financeiro do País.

Por ora, a única boa notícia é que o Senado já cogita barrar a indicação de Lobo. Isso, contudo, não basta. É preciso urgentemente que o governo encaminhe nomes técnicos para as vagas em aberto tanto no xerife do mercado de capitais quanto no BC.

O Brasil dos povos indígenas

Por O Povo (CE)

Segundo o Censo 2022, 1,7 milhão de brasileiros se reconhecem como indígenas, sendo 56 mil deles no Ceará

Neste domingo, 19 de abril, o Brasil celebra o Dia dos Povos Indígenas. A data foi criada em 1943, durante o Estado Novo, para homenagear os povos originários do País. Apesar de não ser um feriado nacional, o dia serve para lembrar que nosso país não foi "descoberto" em 1500 por Pedro Álvares Cabral; foi invadido, tomado e, depois, reconstruído à imagem dos europeus.

Até 2022 — ano em que a lei foi alterada —, a data era chamada de "Dia do Índio". O termo, hoje visto como antiquado por uma parcela significativa de sociólogos, antropólogos e lideranças indígenas, foi aposentado oficialmente. Ainda assim, o termo "indígena" é uma expressão que simplifica a abrangência e a diversidade da população nativa brasileira.

Estima-se que, quando os portugueses desembarcaram no Brasil, existissem mais de mil diferentes etnias, cada uma com costumes, culturas, línguas e tecnologias diferentes. Hoje, segundo o Censo Demográfico de 2022, são 391 povos, somando uma população total de 1,7 milhão de indivíduos — número semelhante ao de habitantes de Curitiba (PR), por exemplo. Em termos percentuais, a cifra chega a 0,83% dos brasileiros.

No Ceará, são 56.372 pessoas indígenas, representando 0,64% da população total do Estado. São ainda cinco territórios reconhecidos pelo Governo Federal. Três deles — Pitaguary, Lagoa da Encantada e Tremembé de Queimadas — só foram homologados em agosto do ano passado. Dessa forma, essas comunidades celebram o primeiro Dia dos Povos Indígenas após a chancela oficial.

Antes de 1500, a população estimada era de 8 a 10 milhões de pessoas, todas pertencentes a alguma das milhares de etnias indígenas. O número de indivíduos caiu constantemente por séculos, tanto pelos anos de perseguição, escravização e genocídio na origem do país, quanto pelo subsequente processo de aculturação forçada, no qual os povos originários foram obrigados a aceitar a cultura ocidental.

A tendência de queda da população indígena, entretanto, foi revertida no Censo 2022. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2010, apenas 900 mil pessoas se identificavam como indígenas no Brasil. Em 2000, eram 700 mil e, em 1991, eram 300 mil — 0,2% da população.

Quase seis vezes mais pessoas se declaram indígenas no Brasil hoje em comparação com o cenário de 35 anos atrás. É um avanço significativo, que mostra maiores reconhecimento e autoestima de uma população que foi dizimada quase até a extinção.

Dentro da diversidade desses povos, o Brasil ainda abriga populações isoladas, que devem ser respeitadas para viver de acordo com a própria cultura. Existe também uma ampla população rural, em terras reconhecidas ou em disputa contra latifundiários. Mas hoje a população indígena brasileira é majoritariamente urbana, o que não torna nenhum indivíduo menos indígena que os outros.

Os povos originários brasileiros estão inseridos em quase todos os contextos da sociedade. Ainda assim, são frequentemente invisibilizados como se não tivessem construído o Brasil. Que a celebração da data possa ampliar uma janela de respeito que por séculos foi negada à imensa população nacional indígena. 

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