quarta-feira, 3 de junho de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Tarifas expõem limite da relação entre Lula e Trump

Por O Globo

Justificativas apresentadas por americanos são frágeis. Brasil ainda tem chance de reverter medida

Menos de uma semana depois de o Departamento de Estado declarar que o governo americano passaria a tratar como terroristas as duas maiores facções criminosas brasileiras, o Itamaraty sofreu outro revés: o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) concluiu a investigação aberta em 2025 com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974 e recomendou a imposição de tarifas de 25% sobre produtos brasileiros importados. A medida é ainda mais dura que o tarifaço do ano passado — depois suspenso pela Suprema Corte —, pois abre caminho a sanções comerciais específicas contra o Brasil. Ela expõe os limites das investidas diplomáticas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em sua aproximação de Donald Trump.

Lula vê brecha para revanche e chama Alcolumbre para dançar, por Fernando Exman

Valor Econômico

Episódio capaz de desencadear decisões ou movimentações há tempos esperadas

É um processo cheio de nuances, negociações, discussões regimentais e que depende, sobretudo, da dinâmica eleitoral. Mas o governo Lula vê espaço para reapresentar ao Senado o nome de Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal (STF). O ponto de virada foi no dia 12 de maio, durante a posse da nova cúpula do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), menos de duas semanas depois de o plenário do Senado rejeitar a primeira indicação de Messias.

Quem levantou a bola foi Beto Simonetti, presidente do Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). Ao cumprimentar as autoridades presentes no início de seu discurso, fez uma menção especial a Messias em nome da classe. O aplauso que se seguiu chamou a atenção tanto pela duração quanto pela intensidade, em uma espécie de “rejeição à rejeição”, mas também por aqueles poucos que não aderiram: considerado o principal algoz do AGU, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), não moveu nenhum músculo.

Lula alveja bolsonarismo e contorna crítica a Trump, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Quem permite que petista ressuscite o apelo à soberania sem fechar as portas à negociação com o presidente americano é o senador e pré-candadidato do PL à Presidência, Flávio Bolsonaro

Pela segunda vez, em menos de uma semana, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva reagiu a uma medida americana discriminatória em relação ao Brasil sem mencionar Donald Trump. Quem permite que Lula ressuscite o apelo à soberania sem fechar as portas à negociação com o presidente americano é o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).

É a polarização da campanha com um bolsonarismo que não se cansa de se valer de Trump como ativo eleitoral que possibilita a Lula faturar politicamente as sucessivas afrontas à soberania sem comprometer a conquista de eleitores de centro e direita avessos à submissão do país aos EUA.

Tiro ao Pix pode ser fatal para Flávio, por Vera Magalhães

O Globo

Tarifaços que vão e vêm e classificação de facções criminosas como terroristas são decisões do governo dos Estados Unidos que podem ou não ter impacto eleitoral no Brasil, a depender da narrativa ou do grau de compreensão do eleitor a respeito de suas consequências. Uma tentativa de Donald Trump de embargar ou limitar o uso do Pix na base da ameaça tem outra magnitude: trata-se de um daqueles assuntos capazes de implodir uma candidatura. No caso, a de Flávio Bolsonaro.

Não foi por outra razão que o filho de Jair, que até a véspera se jactava do acesso à Casa Branca e de ter conseguido, no breve encontro com Trump, arrancar a classificação de PCC e Comando Vermelho como grupos terroristas, correu para mostrar ofício, carta, sinal de fumaça, tudo o que pudesse dissociar a mesma reunião do anúncio de novo tarifaço e de uma eventual ofensiva sobre o meio de pagamento queridinho dos brasileiros.

O império ataca, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Ataque ao Pix mexe com bolso do eleitor e dá bandeira popular a Lula para acusar rival

Tudo aconteceu em menos de 24 horas. Na madrugada, o governo americano ameaçou baixar um novo tarifaço sobre produtos brasileiros. Pouco depois, o secretário Marco Rubio comparou o Brasil a regimes autoritários e hostis aos Estados Unidos. Para arrematar, o presidente Donald Trump divulgou uma foto com Flávio Bolsonaro. Descreveu o senador como um “jovem inteligente que ama muito seu país”.

A mensagem de ontem foi clara: a Casa Branca fará o possível para interferir na corrida ao Planalto e dificultar a reeleição de Lula. A classificação de facções criminosas como terroristas, na semana passada, foi apenas o começo da ofensiva.

O polo naval voltou, por Elio Gaspari

O Globo

O Brasil não tem uma indústria naval competitiva porque varre para baixo do tapete as causas dos fracassos

Outro dia Lula disse que a indústria naval brasileira vai “dar uma surra nos coreanos e nos chineses”. Com R$ 41,7 bilhões de investimentos em 890 obras, está aí o polo naval de Lula 3.0. O Brasil corre atrás de uma frota nacional desde o século XVII, quando saiu do estaleiro da Ilha do Governador um dos maiores barcos do mundo, o galeão Padre Eterno. Infelizmente, a frase de Lula só pode ser atribuída aos delírios de um candidato em ano eleitoral. Até hoje, quem levou surras com a indústria naval foi a Viúva.

A geração de Lula, nascida na primeira metade do século XX, tem uma marca sem similar conhecido: já pagou por três polos navais, pagará pelo quarto, e o Brasil não tem uma indústria naval competitiva.

O primeiro polo naval veio no governo de Juscelino Kubitschek (1956-1961). Desandou, mas a conta foi quase toda para os estaleiros. É o jogo jogado.

Candidatos sem Defesa, por Marcelo Godoy

O Estado de S. Paulo

Enquanto Lula bloqueia gastos da Defesa e Flávio tenta se blindar, os demais silenciam

O Brasil é um país diferente. Em nenhum lugar o ministro da Defesa diz que a Nação está indefesa sem que uma tempestade desate no Parlamento. Pois José Múcio disse isso a um grupo de empresários em evento fechado, promovido pela Seta, e nada aconteceu. É como se Múcio fosse o major Giovanni Drogo à espera de tártaros que nunca aparecem diante da Fortaleza Bastiani. Ou como se o Atlântico de um lado e a Amazônia do outro fossem o deserto onde os militares passam suas vidas à espera do inimigo que não se mostra.

O fôlego dos salários, por Fábio Alves

O Estado de S. Paulo

Com o estímulo ao crédito, fica difícil prever esfriamento do mercado que dê alívio à inflação

Os dados de geração de emprego formal referentes a abril surpreenderam os analistas, vindo abaixo até da projeção mais pessimista, o que levantou a questão sobre se o mercado de trabalho irá finalmente desacelerar a ponto de tirar pressão sobre a dinâmica da inflação e dar mais conforto ao Banco Central para seguir cortando os juros.

Teria Vorcaro lido Marcel Mauss? Por Roberto DaMatta

O Estado de S. Paulo

Oliveira Vianna dizia que ‘temos coragem para tudo, menos para negar o pedido de um amigo’

De modo algum seu estilo de enriquecer, enriquecendo seus parceiros irmãos, seguiu o mapa traçado em 1923-24 por Mauss no seu ignorado Ensaio Sobre a Dádiva. Ou, mais precisamente, na sua genial sociologia do presentear, do dar para receber – o que nós chamamos de “lembrancinhas”, porque foi com afeto que, quando vimos aquele objeto, a lembrança de sua pessoa motivou a compra dele para você.

No presente, a moldura não é dada por utilidade ou necessidade, mas pela relação, pois foi a lembrança que o motivou. Então, diz Mauss, a dádiva vai muito além de si mesma: ela é um fato social total, já que todo presente contém aspectos morais. Um protocolo que transcende o objeto doado, fazendo com que o presentear acione a obrigação de retribuir. Presentes não são trocas; são dádivas que, como oferendas, transcendem a exploração de classe ou a luta hobbesiana de todos contra todos.

Os efeitos do novo tarifaço nas eleições, por Carlos Alexandre de Souza

Correio Braziliense

A ofensiva tarifária pode resultar em dividendos eleitorais para Lula, ao acender a centelha nacionalista. E provoca dúvidas se trará vantagens a Flávio Bolsonaro

O novo desgaste diplomático entre Brasil e Estados Unidos tem o agravante de estar contaminado pela corrida eleitoral. Inevitavelmente, as negociações entre o Palácio do Planalto e a Casa Branca sofrerão interferência do acirramento da disputa entre o presidente Lula e seu adversário Flávio Bolsonaro. O possível aumento de 25% nas tarifas comerciais contra produtos brasileiros significará mais trabalho para a diplomacia brasileira, mas, eventualmente, pode resultar em dividendos para Lula na batalha das urnas, ao acender a centelha nacionalista. Para o senador, recém-chegado de uma visita aos Estados Unidos, há dúvidas se esse novo capítulo representará alguma vantagem. 

A política de horror de Trump, por Rodrigo Craveiro

Correio Braziliense

Longe de querer justificar o erro de imigrantes que tentam entrar de forma ilegal em outros países, vejo que o chamado país das liberdades tem promovido uma caçada de terror aos não documentados

Nas últimas semanas, tive contato com duas histórias que me fizeram repensar como nós, enquanto humanidade, chegamos ao fundo do poço. Ambas deram origem a reels publicados no perfil do Correio Braziliense. A hondurenha Wendy Hernández foi presa quando se dirigia ao trabalho, na Flórida, e deportada para Honduras. O filho, de apenas 2 anos, ficou com o tio materno. Sozinho, sem a mãe, foi exposto a todo tipo de barbárie, incluindo queimaduras e abuso sexual. Ao ser detida, Wendy implorou para que o pequeno Orlin Josué fosse levado com ela. O ICE, a polícia da Imigração americana, não lhe deu ouvidos. O menino acabou morto.

Novo tarifaço de Trump pune Brasil por práticas que EUA também adotam, por Patrícia Campos Mello

Folha de S. Paulo

Em combate a corrupção, desmatamento, discriminação de empresas de internet e pagamentos instantâneos, Washington faz o mesmo

Apesar de alegar conflito de interesse do Banco Central, Fed tenta implementar versão do Pix, mas sistema não decolou

tarifaço americano anunciado nesta terça-feira (2) é um monumento à hipocrisia ao punir o Brasil por medidas que o próprio presidente Donald Trump põe em prática em seu país. Em combate a corrupção, discriminação contra empresas de internet, pagamentos eletrônicos e redução do desmatamento, os EUA de Trump fazem o mesmo que acusam o Brasil de fazer.

Ao justificar a tarifa de 25% contra o país, o relatório do USTR (Escritório de Comércio da Casa Branca) conclui que o Brasil não adota medidas suficientes para combater a corrupção e cita preocupações da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) sobre propinas pagas em outros países.

Ora, uma das primeiras ordens executivas anunciadas por Trump neste seu segundo mandato foi a suspensão da Lei de Práticas Estrangeiras de Corrupção, em 10 de fevereiro de 2025. Alegando que a lei gerava burocracia e custos excessivos para empresas americanas com atuação em outros países, Trump pausou por seis meses a aplicação da legislação e anulou a metade das investigações que estavam em curso.

Mentiras patriotas dos Bolsonaro tomam tiros na Segunda Guerra do Pix, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Flávio tentou ganhar pontos com foto de papagaio de pirata, mas foi pego no contrapé

Disputa político-eleitoral esconde discussão de efeitos econômicos de ameaças dos EUA

Os Bolsonaro acabaram do lado errado da Segunda Guerra do Pix, até por não terem escrúpulos, mentirem sem parar e não se importarem de explodir o que estiver no caminho deles até o poder ou na rota de fuga da polícia. Como jamais se sabe que tipo de informação sairá do filtro lunático, ignaro e odiento das redes sociais, é difícil dar chute informado sobre o efeito desta lambança dos Bolsonaro na eleição. Mas o risco aumentou.

Segunda Guerra: a direita propagandeava em janeiro de 2025 que Luiz Inácio Lula da Silva cobraria imposto sobre o pix, como se sabe. A campanha ajudou a ferir de modo duradouro a popularidade do presidente —inflação, bobagem fiscal e pânico financeiro ajudaram então a fazer o resto do serviço.

O que Flávio Bolsonaro foi buscar na Casa Branca? Por Wilson Gomes

Folha de S. Paulo

Foi buscar bênção política de Trump, mudar a pauta e exibir ao bolsonarismo que ainda tem os ouvidos do imperador

A estratégia funciona para os convertidos, mas pode soar como vassalagem para o eleitorado amplo

O que Flávio Bolsonaro foi fazer na Casa Branca? A resposta simples: foi atrás de uma fotografia. A completa: foi tentar mudar a pauta desfavorável da mídia, receber a bênção de Trump, o grão-sacerdote da nova direita mundial, reanimar a base com o tema da repressão ao crime, dar um verniz internacional a uma pré-candidatura desacreditada e mostrar que não é só Lula quem tem acesso ao governo americano.

A foto com Trump não resolveu seus problemas jurídicos ou as explicações que deve sobre o caso banco Master, mas foi um recurso extremo para estancar a sangria de sua popularidade e manter sua candidatura respirando.

Pretensão cinematográfica tem custado caro à franquia Bolsonaro, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

O que era para ser uma peça de boa propaganda acabou virando uma enorme dor de cabeça

A cada operação policial novos personagens são tragados para dentro do escândalo Master

O filme "Dark Horse" era para ser uma peça de propaganda e acabou virando uma grande dor de cabeça para a franquia Bolsonaro e associados, ao se estabelecerem ligações da produção com as vigarices de Daniel Vorcaro.

A cada fio puxado dessa meada, mais alto fica o custo da empreitada para a direita bolsonarista. A cada nova operação policial, alguém relacionado ao grupo é tragado para dentro do escândalo do banco Master.

Verdades raciais, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Bancas de heteroidentificação criam mais um caso polêmico, agora no Itamaraty

Biologia não oferece critérios objetivos consistentes para classificar humanos em raças

Flávia Goes de Medeiros foi exonerada do cargo de servidora no Itamaraty, no qual ingressara por concurso como cotista, após veto da comissão de heteroidentificação. Para a banca encarregada de verificar a autenticidade da autodeclaração racial dos candidatos, Medeiros não era negra. "Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará". OK, mas o que é a verdade?

A pergunta assombra filósofos há milênios. Uma resposta, que talvez frustre nossa imaginação metafísica, mas que se mostrou produtiva, é a contida nas teorias correspondenciais da verdade, que a definem como adequação da proposição ao objeto. Um corolário disso é que, se o objeto inexiste no mundo, é impossível fazer afirmações fáticas verdadeiras sobre ele.

Crescimento para poucos: a armadilha do capitalismo, por Roberto Amaral*

“O empresário tende inevitavelmente a se transformar em rentista e a dominar cada vez mais aqueles que só possuem sua força de trabalho. Uma vez constituído, o capital se reproduz sozinho, mais rápido do que cresce a produção. O passado devora a produção.” — Thomas Piketty, O capital no século XXI.

Ao contrário do que afirma Paulo Gala em seu excelente “Rumo a 2050” (Carta Capital, 27/05/2026), o crescimento da economia, por si, não altera a estrutura distributiva. Ao contrário, não apenas convive com alta concentração de renda, como a promove. 

Trata-se, simplesmente, de determinismo da lógica de acumulação do capitalismo, e sua consequência irrecorrível é a concentração da riqueza, na contramão da valorização do trabalho como um dos fatores da produção. Mesmo o aumento da produtividade não implica aumento proporcional dos salários. De um lado, os lucros do capital são reinvestidos, ampliando a escala do capital e, como em um círculo vicioso, reforçando sua concentração; doutra parte, o desemprego estrutural — alimento do exército industrial de reserva — pressiona os salários para baixo, quadro tendencial da globalização do capitalismo, a que se somam o desenvolvimento científico e as novas tecnologias, poupadoras de mão de obra e intensivas em capital, e a articulação de grandes e poucas corporações operando em escala global, de forma oligopolista, transitando para o monopólio, com níveis inéditos de concentração de mercado e de poder político, frequentemente avançando sobre as soberanias nacionais.

Poesia | Canção amiga, de Carlos Drummond de Andrade

 

Música | Não quero saber mais dela -Beth Carvalho, Chico Buarque, Caetano Veloso e Fundo de Quintal - 1985