Valor Econômico
Entre o maior economista do século XX e Leão XIV há mais do que afinidades ocasionais
“Devemos abandonar os falsos princípios
morais que nos conduziram nos últimos dois séculos. Eles colocaram as
características humanas mais desagradáveis no lugar das mais elevadas virtudes.
Não há nenhum país, nenhum povo que possa vislumbrar a era do tempo livre e da
abundância sem um calafrio [...]. Pois fomos educados para o esforço aquisitivo
e não para fruir [...]. Se avaliarmos o comportamento e as realizações das
classes abastadas de hoje, as perspectivas são deprimentes [...]. Os que
dispõem de rendimentos diferenciados, mas não têm deveres ou laços, falharam,
em sua maioria, de forma desastrosa no encaminhamento dos problemas que lhes
foram apresentados”. Assim escreveu John Maynard Keynes, em 1930, no ensaio
“Possibilidades Econômicas de Nossos Netos”.
A advertência de Keynes não era apenas econômica. Era moral, histórica e civilizatória. O economista de Cambridge percebia que o capitalismo moderno havia convertido a acumulação em finalidade suprema da existência humana. As paixões menos nobres - a cobiça, o medo, a competição desenfreada, o desejo ilimitado de riqueza - deixaram de ser vícios tolerados para se transformarem em virtudes públicas. A sociedade moderna foi educada para o esforço aquisitivo, não para a fruição da vida, para a convivência comunitária ou para a realização espiritual do homem.
O papa Francisco e sua Encíclica Fratelli
Tutti legaram a Leão XIV a linguagem teológica e pastoral para derrubar a
inquietação que assola os espíritos cristãos ameaçados pela Inteligência
Artificial. Meses após sua consagração, Francisco publicou a Exortação
Apostólica Evangelii Gaudium. Assim como as encíclicas Rerum Novarum de Leão
XIII, Mater et Magistra e Pacem in Terris de João XXIII, o documento abordava
as vicissitudes da vida cristã no mundo contemporâneo e denunciava a submissão
da existência humana à tirania do dinheiro e à dominação impessoal dos mercados
financeiros.
Publicada na segunda-feira, 25 de maio, a
encíclica Magnifica Humanitas foi assinada pelo Pontífice no último dia 15 de
maio, no 135º aniversário da promulgação de Rerum Novarum, de Leão XIII, o
primeiro passo da Doutrina Social da Igreja. Leão XIV recebeu a herança de Leão
XIII e escreveu uma encíclica social que aborda um dos principais desafios da
época contemporânea: a inteligência artificial.
Dividida em cinco capítulos, Magnifica
Humanitas argumenta que a tecnologia não é uma “força antagônica em relação à
pessoa” (4), nem “um mal em si mesma” (9). No entanto, ela “não é neutra, pois
assume o rosto daqueles que a concebem, a financiam, a regulam e a utilizam”.
Daí, o apelo do pontífice para “construir o bem” e “permanecer humanos”,
seguindo a lógica da corresponsabilidade corajosa e da comunhão.
Vou cometer a ousadia de invocar Keynes para
homenagear Leão XIV. Entre o maior economista do século XX e Leão XIV há mais
do que afinidades ocasionais. Ambos rejeitam a antropologia do individualismo
possessivo. Ambos compreendem que o homem é produto da história, da tradição,
das instituições e da vida comunitária. Ambos percebem que o mercado não produz
espontaneamente coesão moral nem justiça social. Ambos entendem que a economia,
abandonada às forças cegas da acumulação monetária e, agora, submetida aos
objetivos das Big Techs, dissolve os vínculos humanos e entrega a sociedade ao
domínio impessoal das abstrações financeiras e das concretudes do avanço
tecnológico.
O New York Times, em artigo “Desigualdade e
Bigtechs”, não trepidou: “A riqueza acumulada dos titãs da tecnologia de hoje
faz os Rockefeller e os Vanderbilt parecerem pitorescos. Nos últimos dois anos,
19 famílias adicionaram US$ 1,8 trilhão aos seus cofres, me disse o economista
Gabriel Zucman - o que equivale ao tamanho da economia australiana. Nesse
estado frágil entra a inteligência artificial. Isso ameaça piorar ainda mais a
situação. Se mantida em seu curso atual, a I.A. poderia apresentar um cenário
sombrio: empregos de baixa e média renda automatizados, com os que mais ganham
permanecendo ilesos”.
No célebre ensaio "O fim do
laissez-faire", Keynes atacou frontalmente a crença liberal segundo a qual
a busca do interesse privado conduziria naturalmente ao bem-estar coletivo.
“Não é uma dedução correta dos princípios da teoria econômica afirmar que o
egoísmo esclarecido leva sempre ao interesse público. Nem é verdade que o
autointeresse seja, em geral, esclarecido”. A crítica keynesiana atingia o
núcleo moral do liberalismo econômico: a suposição de que os vícios privados
seriam automaticamente transformados em virtudes públicas pelos mecanismos espontâneos
do mercado.
Keynes e o papa percebem que o mercado não
produz espontaneamente coesão moral nem justiça social
Os olhares do nosso tempo perderam de vista a
ideia de comunidade. Jacques Le Goff observou, com razão, que no cristianismo
primitivo e no judaísmo a eternidade não irrompe no tempo para suprimi-lo; ela
representava, antes, a dilatação do tempo ao infinito.
Após a Encarnação, a escatologia
judaico-cristã sofre uma transformação decisiva: o tempo adquire dimensão
histórica. Cristo trouxe aos homens a possibilidade da salvação, mas cabe à
história coletiva e individual realizar essa promessa.
Vou relembrar os ensinamentos do Sermão da
Montanha:
1. Bem-aventurados os humildes de espírito,
porque deles é o reino dos céus.
2. Bem-aventurados os que choram, porque eles
serão consolados.
3. Bem-aventurados os mansos, porque eles
herdarão a terra.
4. Bem-aventurados os que têm fome e sede de
justiça porque eles serão fartos.
5. Bem-aventurados os misericordiosos, porque
eles alcançarão misericórdia.
6. Bem-aventurados os limpos de coração,
porque eles verão a Deus.
7. Bem-aventurados os pacificadores, porque
eles serão chamados filhos de Deus.
8. Bem-aventurados os que são perseguidos por
causa da justiça, porque deles é o reino dos céus.
9. Bem-aventurados sois vós, quando vos
injuriarem e perseguirem e, mentindo, disserem todo mal contra vós por minha
causa.
10. Alegrai-vos e exultai, porque é grande o
vosso galardão nos céus; porque assim perseguiram aos profetas que foram antes
de vós.
Vós sois o sal da terra; mas se o sal se tornar insípido, com que se há de restaurar-lhe o sabor? Para nada mais presta, senão para ser lançado fora, e ser pisado pelos homens.

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