O Globo
Bilionário plurinacional, cofundador de
PayPal, Palantir Technologies e Founders Fund, trocou de ares em abril e veio
parar na Buenos Aires de Javier Milei
Tem vizinho novo no pedaço. Segundo revelou o
New York Times, o bilionário plurinacional Peter Thiel, cofundador de PayPal,
Palantir Technologies e Founders Fund, trocou de ares em abril último e veio
parar, quem diria, na Buenos Aires de Javier Milei.
Instalado com o marido e dois filhos numa mansão de 1.600 metros quadrados e
US$ 12 milhões no classudo Barrio Parque, Thiel tem demonstrado gosto pela
aculturação. Já disputou um torneio local de xadrez, assistiu a um clássico
entre Boca Juniors e River Plate, deu uma esticada a Bariloche e até virou meme
comendo uma parrilla.
Imigrado ilustre, teve recepção calorosa do governante argentino. “Foi um anarcocapitalista que conhece outro anarcocapitalista”, resumiu Milei ao relatar o encontro na Casa Rosada. “Todos os bilionários do mundo que queiram fugir de países cada vez mais regulados, com impostos mais altos e governos que perseguem seus cidadãos, são bem-vindos na República Argentina, a nova terra da liberdade”, justificou o chefe de gabinete do presidente perante o Congresso.
Não que Thiel tivesse fugido dos Estados
Unidos, onde fica sua residência principal, nem de Donald Trump,
com quem mantém relação simbiótica e a quem impôs o nome do pupilo J.D. Vance
na Vice-Presidência. Gostaria, sim, de escapar de uma iniciativa do estado da
Califórnia que visa a aplicar um imposto de 5% sobre os ativos dos bilionários
daquele estado. Nascido na Alemanha, criado nos Estados Unidos e detentor,
também, de cidadanias de Nova Zelândia e Malta, o magnata da tecnologia tem 99%
de sua fortuna de US$ 28 bilhões ancorada em ativos e empresas sediadas nos
Estados Unidos.
Houve outros motivos. Ainda segundo a
apuração do New York Times, Thiel também adquiriu um terreno perto de Punta del
Este, no Uruguai, para ali construir um bunker em caso de apocalipse nuclear.
Como é sabido, o advento de um apocalipse — seja na forma de uma Terceira
Guerra Mundial, seja gerado por uma IA descontrolada — é uma das obsessões do
personagem, que já emitiu visões sombrias sobre a chegada de um Anticristo.
Até aí, pode-se dizer que tudo isso são
trivialidades a respeito de um personagem excêntrico, amedrontado pelo mundo
que criou. Pois é justamente o tentáculo global criado por Thiel que importa
aqui. A Palantir Technologies talvez seja a primeira empresa privada da
História a somar funções que governantes de todos os quadrantes costumam
preferir manter em separado.
Para começar, ela espiona legalmente a
pantagruélica máquina estatal americana. Cada declaração de Imposto de Renda,
ficha de imigrante, placa de automóvel captada por câmera, registro médico
suspeito de fraude, lista de suspeitos é coletada e fornecida ao governo por
plataformas da Palantir. Coube a Dean Blundell, combativo radialista
conservador canadense, simplificar a capacidade da empresa: enquanto a antiga
Alemanha Oriental precisou de 91 mil agentes da Stasi, a agência de informações
comunista, e mais 189 mil informantes para vigiar uma população de 17 milhões
de pessoas, a Palantir faz o mesmo usando apenas um servidor e uma senha para
bisbilhotar 330 milhões de americanos.
Há também o uso militar sem freios da cria de
Thiel. Muito além do contrato de US$ 10 bilhões com o Pentágono e da elaboração
do desumano sistema de deportação de imigrantes usado pela ICE, também as
Forças de Defesa de Israel se servem da Palantir para atingir alvos de precisão
na terra já arrasada de Gaza.
Para completar, temos a visão ideológica da
empresa, delineada em 2009 pelo próprio cofundador em ensaio para o Instituto
Cato: liberdade e democracia deixaram de ser compatíveis nos tempos atuais. A
Constituição dos Estados Unidos, diz ele, impede toda pessoa com alguma ambição
de reconstruir a República ultrapassada.
A Palantir fundada por Thiel (presidente do
Conselho e maior acionista), Alex Karp (CEO) e outros três é mais que uma
empresa de tecnologia — é um sistema nervoso implantado no governo dos Estados
Unidos com ramificações globais. Dias atrás, a companhia divulgou um “manifesto
de 22 pontos” intimando o governo americano a reintroduzir o serviço militar
obrigatório. O texto também convoca o mundo a acabar com a “castração militar”
da Alemanha e do Japão no Pós-Guerra e prenuncia um futuro dominado por
armamentos autônomos. Sobretudo, faz um chamamento para o Ocidente voltar a ter
lugar dominante na ordem da geopolítica mundial. “Algumas culturas produziram
avanços essenciais, outras permaneceram disfuncionais e regressivas”, diz o
manifesto. Ou seja, são perfeitamente dispensáveis.
Melhor não perguntar ao novo vizinho em qual
categoria ele coloca o Brasil.

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